WONDERFUL LIFE

Cap. 7 – Reencontro

Uma profunda sensação de derrota se apossa do coração de Kouyou Takashima, enquanto observa o tempo inclemente correndo no relógio tão depressa quanto as águas do rio sob a ponte. Sabe que chegou atrasado e agora está preso àquilo que desejou. Não acredita como pôde ser tão cego e não enxergar que foi capaz de modificar as pessoas e o destino apenas por ser ele mesmo... Alguém que corre atrás de seus sonhos, mas que incentiva os amigos a seguir os deles também. E o Aoi... Uma lágrima silenciosa percorre a face entristecida ao lembrar-se de como foi testemunha da solidão que tomou conta daquele espírito, sempre escondida atrás da aura de sedução, mas que foi contida no momento em que entrou na vida dele.

- Por que você fez isso comigo, Angel? – Tem certeza que o anjinho presenciou seu desespero para chegar a tempo, mas se vingou dele. – Também... Eu não fui muito fácil... Reconheço isso.

Observa as águas revoltas mais um tempo, sem coragem de voltar para a realidade obscura que criou para os seus melhores amigos. Fecha o casaco, pois o frio começa a se tornar ainda mais tenebroso... Um arrepio passando por seu ser e esfriando toda a adrenalina que o moveu até agora.

- Bom... O negócio é arranjar um emprego por aqui e... – Nem sabe se tem a coragem de procurar Aoi novamente. – Já que tenho que ficar...

Deixa o parapeito da ponte caminhando devagar, pisando na neve e reparando em como ela parece menos densa do que na hora em que chegou. É então que seus olhos se erguem e vislumbra algo que o faz paralisar. A moto está caída ao lado do monte de neve semiderretida, o retrovisor quebrado exatamente como na noite fatídica em que fez o pacto com o aprendiz de anjo.

- Espera... – Abre o casaco com certa dificuldade e levanta a camisa, vendo ainda ali o ferimento provocado pela queda, que desaparecera instantaneamente quando deixou de existir. – O que isso...

Leva as mãos aos bolsos e ali estão seu celular e a carteira, como estavam antes... Como se tudo aquilo tivesse sido... Apenas um sonho.

- Será... Mas não pode ser... – Não sabe mais o que pensar. A mente confusa e desorientada, talvez apenas um resultado da queda da moto. – E o Angel não... Preciso voltar pra casa do Aoi!

Sabe que precisa chamar um guincho para tirar sua moto dali, pois o estrago é maior do que aparenta. Infelizmente isso vai demorar demais e precisa ver o seu moreno agora. Pensa nele e apenas consegue recordar das mãos trêmulas e inseguras segurando a guitarra... E como a solidão estava estampada nos tristes olhos negros. Mesmo que tudo tenha sido apenas algo produzido por sua mente... Um sonho, talvez... Aquela imagem está gravada com fogo em seu coração... Yuu precisa dele... Eles se completam.

Caminha até a avenida que passa próxima, cercada de casinhas de subúrbio, já com as luzes apagadas devido ao horário. Não consegue conter um sorriso bobo, pensando em como aquilo tudo que passou podia ser apenas uma ilusão, provavelmente por ter desfalecido ou coisa parecida. Mesmo assim, não consegue conter a necessidade de reparar os seus próprios erros antes que seja tarde.

- Que droga! Há essa hora vai ser quase impossível encontrar um... – Vislumbra um carro virando na esquina, sorrindo ao perceber o pequeno letreiro luminoso, uma ansiedade crescente dominando seu íntimo. – Um táxi!

Faz sinais desesperados para que o carro pare e abre a porta apressado assim que o vê estacionado a sua frente. Acomoda-se no interior quentinho, uma sensação boa de conforto apossando-se de seu corpo.

- Quer que eu acione um guincho pra pegar sua moto? – O motorista diz com uma voz gentil. – Tenho contato direto com um muito bom.

- Agradeço por isso, estou sem cabeça pra pensar nesse detalhe. – Fala, mas algo no homem chama sua atenção. Careca... Cerca de quarenta e cinco anos... – Você não é o Masa?

Então... Não pode ser apenas uma coincidência... Jamais encontrou esse homem antes e... Ele existe de verdade! Isso quer dizer que tudo que passou pode ter mesmo acontecido e Angel... Aquele anjinho pentelho o trouxe de volta!

- O senhor me conhece? – O homem se volta, sem reconhecer o rapaz de aparência delicada, mas meio amarfanhado pela queda. – Não sei... Você não é músico... De uma banda de rock?

- Sou sim. – Sorri, pensando no que viveu nos últimos dias. – Hoje ainda é dia vinte e sete de dezembro?

- Sim... – Olha fixo para o rapaz confuso, já pensando se não seria bom levá-lo a um hospital. – Essa sensação é por ter caído da moto. Hoje não é um dia bom pra sair, a pista está escorregadia. Quer que eu te leve num médico?

Uruha mete as mãos nos bolsos do casaco em busca do bloquinho e caneta que sempre leva consigo caso tenha alguma inspiração inesperada.

- Me leva nesse endereço. – Escreve, pois ainda não consegue organizar o pensamento direito para falar. – Não se preocupe.

Masao segue em silêncio, lançando olhares preocupados para o banco de trás, atento ao estado de seu passageiro. De forma habilidosa pega alguns atalhos e chega rápido ao destino, parando diante do prédio onde mora Aoi.

- Prontinho. – Se volta mais uma vez. – Quer que eu espere?

- Não, obrigado. – Antes de sair do veículo Uruha para e olha mais uma vez para o taxista, colocando algo junto com o dinheiro. – Masa... Esse é um passe livre pra você entrar nos bastidores dos nossos shows. Qualquer coisa você é amigo do Uruha, ok?

Diante disso ambos ficam em silêncio, a sensação de reconhecimento sendo sentida por eles sem qualquer explicação, apenas existe. O loiro observa enquanto o carro se afasta; ainda confuso, mas sentindo-se bem por ter feito de Masao um novo amigo.

ooOoo

Somente uma porta... Esse é o único obstáculo que separa Uruha da possível fúria do seu amado. Não condenaria Aoi se nunca mais quisesse falar com ele. A última vez em que se falaram... Bom, o loiro não deu muita chance de Yuu dizer alguma coisa. E como esse arrependimento o tortura por dentro!

- Certo... Preciso ser corajoso e enfrentar as consequências do que fiz. – Diz para si mesmo, respirando fundo e lutando para se convencer. – Se ele não me quiser mais... Pelo menos me despeço.

Toca a porta apreensivo, lembrando-se quantas vezes ficou diante dela, nervoso como um adolescente, apenas esperando que o seu moreno abrisse e o recebesse com um abraço. Essa recordação o faz sorrir, pois a recepção nesse apartamento sempre foi calorosa... Será que as coisas mudaram?

Bate devagar, sem saber se Aoi está ali ou se acabou saindo após a sua fuga. Repete o movimento mais umas duas vezes, parando ao ouvir que alguém se movimenta na direção da porta. Respira fundo ainda apreensivo, mas decidido a deixar o orgulho bobo de lado e pedir desculpas. Afinal... Reconhece que Yuu tentou se abrir com ele, mas nem sequer o deixou falar.

- Kouyou! – Reita abre a porta, a expressão preocupada se amenizando ao vê-lo a sua frente. – Onde você estava cara? Ficamos preocupados.

- Desculpa Akira. – Vai entrando, um misto de alívio e decepção por não ver o seu namorado. – Precisei sair pra pensar e esfriar a cabeça.

Quando os dois entram na pequena sala do apartamento, Ruki e Kai caminham em sua direção, aflitos demais. Tal visão o comove, pois mesmo depois das palavras duras que trocaram no estúdio, todos estão ali preocupados com o seu sumiço.

- Puxa Uru-chan... – A voz de Ruki sai entrecortada. – Fiquei achando que você fosse fazer uma besteira e... Eu nunca me perdoaria depois de tudo que te falei.

- Taka... Você estava certo. – Sorri para o velho amigo. - Talvez meio truculento no método... Mas tinha razão.

- Quando o Aoi ligou falando que você saiu de moto, nervoso e com as estradas do jeito que estão... – Kai sorri nervosamente. – Viemos pra cá.

- E ele... Onde está? – Os olhos chocolate percorrem a sala a procura de algum sinal de Shiroyama.

- Saiu a sua procura. – Reita fala enquanto se joga sobre o sofá, finalmente conseguindo relaxar. – Não conseguiu ficar parado esperando.

- Eu... Sinto muito. – Abaixa a cabeça, envergonhado do poço de auto-piedade em que se afundou. – Toda aquela perseguição... Ainda mais falando do meu profissionalismo... Fiquei tão perturbado com tudo aquilo que fiquei cego para o meu verdadeiro valor... Como um idiota, entrei no jogo daquele imbecil.

- Não esquenta Uruha. – Yutaka se aproxima ainda mais dele e passa a mão sobre seu ombro. – Só estávamos preocupados com você.

- Somos amigos, cara. – Takanori senta ao lado de Reita, acomodando-se no braço forte do namorado. – Passamos por muita coisa juntos nessa vida. Por acaso você esqueceu as brigas feias que tínhamos no começo da carreira por coisas bestas? Isso é normal num grupo... A diferença é que os amigos se perdoam.

- É... Você sabe que não sou de muitas palavras e... Nem sei falar bonito como o Kai e o Ruki. – Akira sempre parece tão desconfortável quando precisa falar. – Mas garanto que sem você nenhum de nós estaria aqui, nem existiria o Gazette... Pelo menos eu não estaria. Provavelmente seria mais um marginal desocupado ou... O que é pior... Igual a todo mundo!

A risada é geral, pois na verdade, ser 'normal' seria o fim para todos eles e Reita resumiu isso em poucas palavras. Numa sociedade onde os jovens podem ser 'malucos' até completarem a maioridade, mas depois são obrigados a se enquadrar no padrão aceitável de comportamento para um adulto, eles fogem do 'normal'. Mas exatamente por serem 'diferentes' que eles são quem são. Cabelos, roupas, atitude... Tudo demonstra que são pessoas que resolveram ser livres e arcar com as consequências dessa escolha. Que deu certo, mas... Também poderia não ter dado. Como Uruha pode constatar... E apenas pela falta de um único detalhe.

- O destino é perfeito... Cada um de nós fez as escolhas que nos levaram ao nosso encontro. – Nunca o loiro se sentiu tão filosófico como nesse momento. – Mas nós fizemos tudo acontecer... Com nosso suor, sacrifícios e talento. Então não vai ser um canalha de orgulho ferido que vai me convencer do contrário.

- Esse é o Kouyou Takashima que eu conheço! – Kai diz sorrindo, orgulhoso por tê-lo de volta.

O toque de um celular os interrompe, o de Uruha, que vibra insistente em seu bolso. Abre o flip e lá está o número de quem mais deseja encontrar, mas que ainda não conseguiu.

- Oi amor. – Fala com a voz mais amorosa que consegue.

- Kou-chan... Por Kami! - A aflição é nítida naquela voz. – Onde você está?

- Estou na sua casa com os rapazes... – Nem sabe o que dizer diante daquele desespero. – Me perdoa? Fui um idiota!

- Não preciso perdoar nada, eu entendo. – Aoi soa sincero. – Só estava preocupado demais com você e... Com medo... Muito medo. Não posso te perder.

- Você nunca vai me perder, seu bobo. – Prefere omitir o detalhe que foi ele mesmo quem quase perdeu a coisa mais preciosa que já teve. – Eu te amo demais!

- Jura? – A voz de Yuu soa manhosa e carente, fazendo lembrar aquele que encontrou na outra realidade. – E podemos fazer as pazes?

- Claro! – Adora quando o namorado fica desse jeitinho. – Vem logo pra cá!

- Eu já estou aqui! – As palavras vindas das costas de Kouyou fazem com que ele se volte e veja o seu amado entrando pela porta da frente.

Deixa-se comandar pelos instintos e pula nos braços de Aoi, sentindo o calor gostoso dos braços fortes que o aconchegam, as lágrimas descendo pelo rosto de ambos. Uruha pensa na expressão triste do Yuu solitário, que por alguns instantes se iluminou apenas por tê-lo e se a situação fosse invertida, tem certeza que não estaria muito diferente, talvez um pouco mais embriagado. Percebe agora que nenhum dos dois pode mais viver sem o outro.

- Como eu pude duvidar do amor que você tem por mim? – Fala com a voz engasgada na garganta. – Fui um tolo insensível.

- Foi mesmo. – O moreno se afasta um pouco rindo e chorando, deixando claro que brinca com ele, mas está profundamente aliviado. – Eu devia ter sido mais claro quando conversamos.

- Bom... – Percebe que cada coisa que viveu com os amigos se encaixa perfeitamente no seu próprio comportamento. - Aprendi que é difícil falar quando a outra pessoa não quer ouvir.

Sente então uma fisgada na altura das costelas, a pancada que levou fazendo-o lembrar de que está ali de volta e que seu acidente foi real.

- Ai... Que droga! – Leva a mão ao local a fim de aplacar um pouco a dor incômoda.

- Você está ferido? – Aoi levanta a camisa dele e verifica a marca que já começa a arroxear.

- Foi só uma pancada. – Precisa acalmá-lo depressa, pois não tenciona ter que ir a um hospital. – Minha moto deslizou no gelo e... Não se preocupe, não tem nada quebrado.

- Se você diz... – Não quer insistir, mas pretende ficar de olho nesse ferimento.

Os outros se levantam, percebendo que começam a sobrar nessa cena e que o melhor a fazer é deixar os dois sozinhos.

- Uru... Uhm... Você está bem, então... – Kai fala meio sem jeito. – Vamos pra casa.

- Espera um minuto. – O loiro se afasta com dificuldade de Aoi, mas sabe que precisa falar.

- O que foi Uru-chan? – Ruki sente uma emoção diferente nos olhos do amigo.

Takashima se volta na direção deles, segurando Aoi pelo braço, querendo reter esse momento na memória, quando todos estão claramente emocionados.

- Nunca parei pra pensar no valor da nossa amizade. – Decide ser sincero com eles. – Mas de pé no parapeito de uma ponte...

- Kouyou! – Aoi se assusta por perceber que realmente quase o perdeu.

- É... Eu estava lá, me achando um total inútil, que ninguém sentiria minha falta... – Precisa respirar fundo, pois todas aquelas lembranças o fazem sentir um aperto no peito. – Percebi que somos uma família... Já passamos coisas demais juntos... Que conviver com vocês me tornou melhor... E como amigos de verdade não são aqueles que apenas passam a mão na nossa cabeça, mas sim aqueles que sabem o momento em que precisamos levar um tapa pra acordar e seguir em frente.

Um silêncio emocionado toma conta de todos, pois estas palavras lhes trazem lembranças demais, de momentos difíceis se tornando menos penosos apenas por terem uns aos outros e momentos felizes que se tornaram muito melhores por poderem dividi-los com os amigos.

- Acho melhor a gente ir antes que isso fique muito emotivo e... – Reita fala com um sorrisinho cínico nos lábios, mais pra disfarçar que está com vontade de chorar junto com os outros. – Acabemos num abraço grupal como um bando de velhotas.

- Ah, Rei-chan... – Ruki o puxa pelo braço, aproximando-se do loiro. – Deixa de ser chato e seja uma velhota feliz.

Todos se abraçam, meio sem jeito devido à dificuldade que sua cultura impõe às demonstrações tão efusivas de carinho. Mas exatamente por fugirem do convencional que podem se dar ao luxo de pegar essa 'regra' e jogar no lixo, deixando a emoção comandar suas ações.

As lágrimas descem pelo rosto de Uruha, que percebe não ser o único tomado por essa sensação de reencontro. Por muito pouco essa amizade importante não foi destruída apenas por ele temer pedir ajuda ou enfrentar aquele que o difama de forma tão injusta. Não pode perdê-los, não depois de perceber que cada um deles, com suas particularidades se completam; o destino os levando a se conhecer de uma forma acidental, mas totalmente perfeita.

- Se alguém contar isso pro pessoal da PSC... – Akira limpa o rosto, tentando esconder que se deixou levar como os outros.

- Ah vai... – Takanori o agarra pelo braço e começa a puxá-lo na direção da porta. – Eu achei sexy demais te ver tão emocionado.

- Ok! Foi muito bom te ver bem Uru, mas... – Pega o seu pequeno nos braços e joga sobre o ombro. – Tenho algo mais interessante pra fazer do que ficar aqui servindo de 'vela' na sua reconciliação.

- Ei... – Ruki finge estar indignado, mas esse lado selvagem e meio 'homem das cavernas' de Reita simplesmente o delicia.

- O Reita tem razão. – Kai pega o casaco e começa a sair, abrindo a porta para os dois malucos que o seguem. – Mas amanhã vou levar vocês em um lugar muito legal que conheci na cidade.

- Vai ser ótimo sair com vocês novamente. – Não é apenas uma forma de agradar os amigos, mas realmente sente falta das pessoas que os garotos famintos que formaram o Gazette se tornaram. – Dessa vez eu pago, ok?

É estranho quando a porta finalmente se fecha, deixando Aoi e Uruha sozinhos. Apesar de ambos estarem tão ansiosos para se reencontrar desfazendo toda a tristeza que se apossou de seus corações após a discussão, agora há um silêncio ensurdecedor e tenso entre os dois, difícil de superar, mesmo quando se conhecem tão bem... Talvez isso que torne ainda mais complicado.

- Então te magoei tanto a ponto de você... – A voz do moreno quase não sai, engasgada na garganta, os olhos fixos no chão.

- Não... Por favor... Não quero que pense assim, meu amor. – Kouyou fica diante dele, tocando-lhe o rosto, fazendo seus olhares se encararem. – Eu quem me magoei... Não você.

- Eu quase morri pensando que você ia fazer uma besteira... E... – Se tortura pensando no loiro sobre o parapeito de uma ponte, o vento gelado tocando a pele alva. – Quase te perdi de verdade.

- É complicado demais tentar te explicar o que eu sentia naquele momento. – O pensamento sobre a mente deprimida parecendo confuso e quase intraduzível. – Mas não foi o que você disse...

- Mas você esperava mais apoio da minha parte e eu... – Shiroyama apenas consegue lembrar-se das noites em que ensaiava o que dizer diante do claro sofrimento do seu loiro e acabava se resumindo em dar carinho, nada mais. – Não sabia o que fazer! Era como se minhas mãos estivessem atadas vendo sua autodestruição e não conseguia fazer nada pra impedir.

- Meu amor... – Agora entende os suspiros contidos que precediam as noites em que dormiam desconfortavelmente abraçados.

Takashima puxa o seu amado para si, abraçando-o com força, sentindo as lágrimas quentes correrem pelo seu pescoço, entendendo também a dor de quem convive com alguém depressivo e como isso pode ser extremamente frustrante. Caminha para o sofá, sentando com ele e deixando que Aoi chore por alguns instantes antes de continuar a se abrir, a coisa mais difícil que já fez em sua vida.

- Eu também não sabia como te falar o que eu sentia e... Sei que você esperava minha iniciativa, mas eu simplesmente era incapaz de fazer isso. Era como se eu estivesse trancado dentro de mim e me sentindo um ser miserável e sem valor. – Afasta-se um pouco, pois precisa encarar os orbes negros enquanto abre seu coração, a fim de ter certeza absoluta de estar sendo ouvido. – Aquele homem destruiu com seu veneno a coisa que eu mais prezava, aquilo em que eu sabia ser bom e que me esforço tanto em ser o mais profissional que posso. Arrastou na lama todos os meus valores, a minha luta, os meus ideais... E tudo porque sentiu seu orgulho ferido.

- Aquele desgraçado! – O moreno não sabe como ainda não acabou com o sujeito.

- Mas a culpa não é dele! – Essa constatação é libertadora para o loiro. – Eu quem deixei ele me afetar, eu quem me sentia tão inseguro quanto a tudo que me cercava que me deixei atingir. Desde quando ligo para o que os outros dizem? Se fosse assim eu seria um bancário ou um funcionário público comum e completamente normal.

De alguma forma isso também atinge em cheio um ponto profundo no íntimo de Aoi, que nunca pensou realmente sob esse prisma e como nos deixamos atingir exatamente pelas coisas que dizemos não nos importar.

- E eu posso te dizer que não era apenas auto-piedade, é muito mais cômodo quem está de fora pensar assim. Mas na verdade é uma doença sorrateira que se aproveita das nossas fraquezas e se instala, destruindo tudo de bom que lutamos para construir no nosso íntimo. – Os olhares deles se encontram. – Sim... Agora eu admito para mim mesmo que eu estava doente e só esse passo já me conforta. Posso parar de me sentir apenas culpado, pois eu perdi o controle da minha vida e... Preciso de ajuda.

- Eu... – O que dizer diante de algo tão verdadeiro, que o próprio Yuu conhece tão bem, mas que tenta manter sob controle.

- Não precisa dizer nada, meu amor. – As lágrimas correm pelo rosto de Kouyou. – Naquela ponte eu imaginei como seria a vida de cada um de vocês sem a minha presença... Finalmente entendi como nossas existências estão entrelaçadas, como somos quem somos também por causa das pessoas que cruzam nosso caminho. Eu pude ver a minha importância no mundo, pelo menos no nosso mundo e... Não sou um inútil!

- Você nunca foi um inútil! – Shiroyama o beija de forma delicada, mantendo os olhos presos aos dele. – Minha vida não seria nada sem você. Veja como eu vivia solitário e... Deprimido antes de descobrir o quanto te amava e admitir isso pra mim mesmo.

- Yuu... – Aquelas palavras lhe soam tão tristes, fazendo-o lembrar do ser que encontrou naquele apartamento, isolado e sem razão para viver.

- Kou-chan, não precisa me explicar o que você sentia, pois eu vivi isso a vida inteira. – Pela primeira vez o moreno admite para alguém essa sua verdade. – Desde criança eu me senti assim, preso dentro do meu casulo, uma solidão imensa e interminável me devorando por dentro, mesmo estando cercado por outras pessoas. Mas eu sempre soube disfarçar bem demais, pois criei uma máscara perfeita, mas que infelizmente muitas vezes escorregava...

- Quando você tocava. – Lembra-se das vezes em que observou-lhe o olhar melancólico no início dos shows.

- Eu jamais falei disso pra ninguém, mas... Eu me sentia assim, mesmo sem saber a razão. – Seus olhos ficam marejados, a lembrança daquela solidão devoradora de almas sendo quase insuportável. – Mas um dia eu encontrei a minha cura. Um dia me senti completo, como se eu sempre tivesse levado uma meia vida. E esse meu remédio foi o seu amor.

- Meu... – Não consegue traduzir em palavras aquilo que sente. A sensação maravilhosa de sentir que apenas sendo ele mesmo pode mudar a vida da pessoa que deu sentido a sua existência.

Um beijo amoroso e carente se segue, o calor dos braços do outro trazendo finalmente a paz... Talvez o bem mais precioso para alguém que sente o vazio da depressão. A dor tão incompreendida, mas uma dor real que consome e devora o ser e o controla, roubando cada gota de felicidade. E reencontrar-se é algo maravilhoso, dando sentido a tudo novamente e fazendo-nos enxergar que a vida pode ser bela, mesmo diante dos obstáculos que se colocam a nossa frente, só basta saber enxergar não somente as pedras, mas aquilo que está além delas.

ooOoo

Entrar pela porta da PSC tem um sabor especial para Uruha, que respira fundo ao entrar no hall acompanhado pelo seu guitarrista moreno. Como perdera a perspectiva da realidade que aquilo representa a realização dos seus sonhos e dos amigos, a concretização de tudo aquilo pelo que lutaram tanto? Abre um sorriso largo ao observar a arquitetura antiquada, mas com decoração moderna, numa tentativa da gravadora de fazer o prédio parecer descolado, como as bandas que ela tem no seu elenco de agenciados. Passa pela mesa da recepção e recebe o delicioso 'bom dia' do grande e amável Tanaka, que não foi tão gentil com ele na 'outra realidade', mas que aqui é o recepcionista bem humorado de sempre.

- Você parece mesmo feliz nessa manhã. – Yuu diz passando o braço por sobre seu ombro ao aproximarem-se do elevador.

- É que... – Volta-se para poder ver o rosto bonito do namorado. – Sinto como se eu tivesse esquecido a verdadeira razão de estarmos aqui. E nem é ser famoso ou ter dinheiro...

- Mas o caminho que percorremos. – Sabe muito bem do que ele está falando.

- Nossa! – Escutam uma voz divertida vindo de suas costas, fazendo-os se voltar e encarar Saga, com uma expressão sacana no rosto. – Estamos filosóficos logo cedo!

- Deixa eles, seu chato! – Shou belisca o namorado. – Desculpem, mas ele está 'naqueles' dias.

- Não sabia que ele também menstruava! – Shiroyama não pode deixar essa passar.

- Ei! – O baixista do Alice Nine se mostra indignado, mas logo todos riem sonoramente, preenchendo o saguão já bastante movimentado.

Os quatro seguem juntos até o corredor dos estúdios, separando-se alegremente à medida que chegam aos seus. Takashima agarra-se ao braço do seu moreno, sentindo todo o calor de sua presença e como esta lhe transmite a segurança que há muito não sentia, mas então algo chama sua atenção. Um rapaz ruivo, claramente estrangeiro, muito jovem, anda apressado pelo corredor e...

- Angel? – Sua voz se perde nas lembranças de tudo que passou na realidade alternativa.

- Ahm? – Aoi percebe sua expressão estranha.

- Aquele garoto... Você sabe quem é? – Aponta para o ruivinho apressado entrando no estúdio do Screw.

- É um assistente ou algo assim... Trabalha no staff do Vivid. – Fecha falsamente a expressão. – Está interessado? Vou ficar com ciúme.

- Ah... Seu bobo! – Kouyou dá um leve soco no ombro do moreno. – Só nunca o vi por aqui e... Ele não me é estranho.

Então o garoto sai do estúdio onde entrara há instantes, carregando um pequeno amplificador de guitarra. Provavelmente uma das emergências que muitas vezes faziam os sujeitos do staff correrem como baratas tontas pelos corredores da PSC. E quando o ruivinho se volta em sua direção, mesmo que não o veja, Uruha percebe que aquele é realmente o Angel.

"Mas o que esse anjinho dos infernos está fazendo aqui?" – Fica confuso com a constatação da presença real do rapaz na gravadora. – "Será que foi tudo um sonho mesmo? Talvez eu o tenha visto por aqui antes e imaginei tudo aquilo."

- Yuu... Pode ir entrando no estúdio... Já volto. – Solta o braço do moreno.

- O que está acontecendo? – Apesar da brincadeira anterior Aoi fica enciumado de verdade com o interesse do loiro sobre o garoto. – De onde você o conhece?

- Não sei dizer... Só quero esclarecer uma dúvida. – Dá um selinho nos lábios carnudos, percebendo a expressão levemente contrariada. – Confia em mim, ok?

- Eu confio. – Nem precisa disfarçar isso, pois não tem dúvida alguma sobre os sentimentos de Kouyou. – Eu aviso o Kai.

Fica feliz com essa plena confiança que agora ambos dividem, envergonhando-se por ter desconfiado em algum momento da verdade nos sentimentos de Shiroyama. Até um cego veria a profunda dedicação dele. Caminha até onde o garoto está agachado, ainda enrolando o fio do amplificador a fim de facilitar ao carregá-lo.

- Angel... – Uruha fala baixo, temendo que seja tudo um grande engano.

Os olhos cor de avelã se erguem e o encaram, uma expressão indefinível no rosto adolescente, mantendo o loiro na dúvida sobre a identidade do garoto a sua frente. Este se ergue devagar, ficando parado e abrindo um sorriso maroto.

- Oi Kouyou. – A voz dele sai mais alegre do que o guitarrista esperava. – Feliz em me ver?

- Seu... É você mesmo? – A vontade que tem é de estapeá-lo por ter deixado que acreditasse ter perdido a oportunidade de voltar. – Devia matá-lo por ter me feito correr daquele jeito!

- Não havia outro jeito de você perceber a necessidade de voltar. – Aquela expressão sacana novamente nos lábios adolescentes. – E eu não podia tomar essa decisão por você.

- Ok... Mas... – Puxa-o pelo braço, forçando o garoto a aproximar-se mais dele, a fim de poder ouvir o tom de sussurro que imprime a sua voz. – O que diabos você está fazendo aqui?

- Estou trabalhando! – Sua resposta parece óbvia.

- Como assim? – Teme que outro pobre coitado esteja nas mãos desse anjo rebelde. – Já não conseguiu suas asas?

- Não... Ah... Você está achando que eu... – Angel ri mais alto do que desejava. – Fui expulso. Minha atuação no seu caso foi delatada por alguém... Como eu ia saber que eles colocavam espiões pra controlar a gente?

- Ahm? – A surpresa inicial é substituída por gargalhadas tão espontâneas que todos saem no corredor para ver Uruha rir daquela forma. – Deus é justo mesmo!

Preocupado em causar uma impressão ruim no seu local de trabalho Angel puxa o loiro pelo braço até que saem do corredor dos estúdios, parando próximo da cafeteria.

- Você foi maldoso agora. – Angel faz um biquinho que Takashima até entende.

- Desculpa, mas não pude me conter. – Passa o braço pelos ombros do garoto, tentando ser simpático, mas sendo mais forte do que Angel esperava. – Depois de tudo que você me fez passar!

- Mas eu te ajudei a ver como é importante na vida dos outros! – Aquela proximidade começa a doer.

- Só que podia ter sido mais um anjo e menos um adolescente pentelho. – Solta ao perceber que está exagerando na dose, sentindo-se vingado finalmente. – Não me admira que te barraram no paraíso!

- Vou te confessar... – Angel se aproxima de Uruha. – Eu não ia me adaptar por lá. Gostei demais dos prazeres humanos.

- Eu sabia! – O guitarrista loiro o belisca. – Seu anjo safado!

É então que alguém salta sobre as costas do anjinho, grudando nele como um coala, aparecendo apenas o rosto travesso de Ko-ki, o baterista do Vivid, que como de costume parece estar ligado no 220W. Só que mais do que apenas uma brincadeira com o staff novato, há uma expressão estranha no rosto bonito... Takashima juraria que levemente enciumado.

- Oi Uruha! Desculpa interromper a conversa de vocês. – Novamente fica a forte impressão que seu tom não é tão amigável quanto tenta parecer.

- Não esquenta. – Finge não ter percebido nada, o que é fácil, pois geralmente nunca percebe mesmo. – Conheço o Angel desde... Quando ele ainda era criança e... Fiquei surpreso ao vê-lo trabalhando aqui.

"Como estou ficando bom nisso!" – Um sorriso maroto estampa o rosto do guitarrista loiro.

- Que legal! Precisa me contar mais sobre isso. – Ko-ki demonstra interesse, mas claramente está apressado como de costume. - Angel... O Reno está esperando aquele amplificador. Não demora, baby. Senão demoramos pra sair e... Comprei uns brinquedinhos novos, ok? Bye, Takashima-san.

- Já vou... Ahm... É... – Tenta falar o mínimo possível diante da expressão de surpresa do loiro, sorrindo discretamente para o baterista do Vivid que se afasta saltitante. – Que foi? Ah... Kouyou... Eu...

- Então... – Puxa-o para si e o beija na testa. – Se cuida, Angel.

ooOoo

- Tenho certeza que vocês vão gostar desse lugar. – Kai diz, prestando atenção no trânsito, mas ainda assim conversando com os amigos dentro do seu carro. – Puxa o trânsito hoje está complicado! Reita, o Ruki ia esperar na frente do prédio ou vamos subir?

- Olha... Ele disse que ia estar pronto, mas... – Parece que pode até ver o seu pequeno diante do guarda-roupa por horas até decidir o que vai realmente usar. – Com certeza vamos subir e ainda esperar um pouco.

- Claro. – Uruha respira fundo, feliz por sentir-se de volta ao seu mundo. – Pra não perder o costume. Ele demorava mesmo quando tinha apenas três combinações de roupas numa mochila velha!

- Ah... As três combinações perfeitas! – Aoi se lembra dessa fase, mesmo que ele e seus casacos surrados não fossem um exemplo de variedade. – Ele ficava indeciso mesmo sabendo que iria combiná-las da mesma forma... Sempre.

- O senso de estética dele é muito apurado. – Yutaka sempre prefere enxergar o melhor da situação, mesmo porque não estava presente nesse momento do grupo.

- Ele é chato pra roupa, vamos falar a verdade! – Akira fala, mas logo se volta para os amigos. – Mas... Eu mato quem disser que isso saiu da minha boca.

A risada é geral, pois apesar do seu jeito de ser, Reita prefere não arranjar briga com o seu baixinho invocado.

- Da última vez que critiquei o 'gosto' dele... – O baixista se acomoda melhor no banco do passageiro, voltando a olhar para frente. – Fiquei sem sexo por uma semana inteira.

Em meio à caçoada geral o carro de Uke pára diante do prédio e como esperavam Ruki não está por ali, forçando Reita e Uruha a subirem até o apartamento. Apesar do incômodo, ambos já imaginavam que isso aconteceria, então era mera formalidade pedir ao vocalista da banda que os esperasse já arrumado. Portanto, os amigos apenas riem, lembrando-se das coisas engraçadas de quando mal tinham dinheiro pra comer, muito menos para variar o vestuário. Geralmente as cores exóticas de seus cabelos ficavam a cargo de Takanori e suas famosas misturas de tinturas, que nem sempre davam certo.

- Você lembra do meu cabelo cor de laranja podre? – Reita diz aquilo seguido de uma gargalhada, estranho para quem não o conhece direito, mas um sopro de saudade para o seu mais antigo amigo. – Ele errou feio naquela vez e não admitia de jeito...

A porta do apartamento se abre, mas não é Ruki quem os recebe. Uma mulher de cerca de 30 anos, mas que facilmente passaria por 40, os faz entrar sem falar muito. Kouyou a encara de forma indiscreta, o que a moça nota, mas finge estar alheia a isso.

- Seu nome é Keiko, não é? – Pergunta curioso com a 'esposa' de Akira presente diante dele. – Por acaso você é...

- Sou a criada. – Aponta para a sala. – Os senhores podem ficar a vontade.

É nítido que a mulher não está satisfeita com essa função submissa, não diferindo muito da arrogante e ciumenta pessoa que conheceu na outra realidade.

- Ah... Você me traz uma água? – Sente um prazer mórbido em pisar no ego da criatura que segurava seu 'marido' com unhas e dentes apenas para evitar essa vida que leva agora.

- Puxa Uru! – Reita exclama ao sentar-se ao lado dele e vendo a mulher sair exasperada. – Se você estava com sede podia ter bebido na minha casa. A moça não pareceu muito satisfeita.

- É a função dela. – Abre um sorriso sarcástico. – Com peninha?

- Nem a conheço! – Suzuki fica meio sem saber como reagir, visto que não entende a atitude anormal do amigo. – Não sei por que o Taka inventou de ter uma empregada, já que odeia que mexam nas coisas dele!

- Eu não decidi nada! – Ruki entra contrariado, mas impecavelmente vestido com uma calça preta e uma camisa justa azul-turquesa... Perfeito como sempre. – Minha mãe mandou essa mulher, pois me disse que eu ando muito magrinho e preciso de alguém pra cuidar de mim. Eu não gosto de nada imposto e...

Aproxima-se dos dois para falar baixo, ainda lançando um olhar para a porta que leva à cozinha, temendo que a empregada ouça.

- Ela misturou as cores das minhas roupas quando guardou! – Há uma real contrariedade em sua voz.

- Imperdoável! – Reita segura o riso, pois esse lado de Takanori desperta seu sarcasmo, mas sabe que para o pequeno isso é sério demais.

- Pois é... E eu não quero ter que ficar me 'comportando' dentro da minha própria casa. – Já percebeu o modo como ela parece incomodada com o fato dele ter um namorado e ostentar isso em fotos espalhadas pela casa. – Não duvido nada que ela seja uma espiã do meu pai, isso sim.

Quando a moça entra com a água todos disfarçam mal que estavam falando dela, fazendo com que entregue a água para o loiro e saia sem nada mais dizer.

- Bom... Cuido dela amanhã. – Agarra o braço de Akira com força. – Hoje eu só quero me divertir e... Curtir a companhia dos amigos.

Ao saírem Uruha lança um último olhar para a mulher contrariada e ri, talvez mais alto do que esperava.

- O que aconteceu, Kou-chan? – Ruki pergunta curioso da expressão inédita no rosto de seu amigo.

- Nada... Nada... – Surpreende-se com a ironia do destino.

Antes Keiko tentava impedir o Suzuki de aproximar-se de alguém como o Ruki e agora... Tem que engoli-lo.

ooOoo

Os olhos chocolate percorrem o ambiente, aquela atmosfera vampiresca ainda o impressionando, mesmo já conhecendo o Vampire Café da outra realidade. Acompanha os amigos, a mão de Aoi segurando carinhosamente a sua, tornando a experiência muito diferente dessa vez.

- O Kai estava certo... – A voz do seu moreno sai surpresa com a experiência sensorial que o ambiente do Café proporciona. – Isso aqui é...

- Pervertido demais! – Ruki sorri, sentindo-se excitado com tudo aquilo. – Como eu nunca ouvi falar desse lugar e o Kai sim?

- Ah... Uke Yutaka não é o santinho que parece. – Reita fala malicioso, fazendo o baterista se voltar para encará-los.

- Querem parar de falar mal de mim pelas costas, por favor. – Ele ri mesmo que tente disfarçar, pois é divertido ver como ainda surpreende os amigos com seus 'segredinhos'. – Eu nunca falei pra ninguém que era santinho. Mas... Foi um amigo que indicou esse lugar.

- Ok! – Ruki dá uma risadinha mal disfarçada.

- Olha ali o Nao! – Uke resolve mudar o tom da conversa, pois é um sujeito muito discreto sobre sua vida sexual. – Parece que trouxe o pessoal dele também.

- Ah... Vamos ser o 'prato cheio' para os paparazzi! – Ruki sente-se estranhamente eufórico, falando bobagens mais do que o normal. – Posso ver as manchetes... "Gazette e Alice Nine em bar pervertido".

- Vocês nem imaginam o quanto! – Uruha fala espontaneamente, uma risadinha safada ao lembrar-se de tudo que viu, chamando a atenção de todos, inclusive de Shiroyama, que ergue uma sobrancelha intrigado. – Ah... Eu... Já ouvi falar...

Não há como disfarçar o deslize e Takashima fica corado, totalmente sem graça, ainda mais 'pela desconfiança no olhar do seu moreno.

- Taka... Estou vendo que nós dois somos os sonsos dessa banda. – Akira puxa o seu pequeno pela mão, fazendo-o sentar ao seu lado quando se acomodam diante dos garotos do Alice.

A mudança de rumo na conversa provocada pela brincadeira de Suzuki e seu movimento para sentar-se faz Uruha suspirar aliviado, pois não tem vontade nenhuma de pensar numa boa desculpa. Enlaça Aoi pelo pescoço, distribuindo beijos suaves em seu pescoço e induzindo-o a sentar-se também.

Kai se ajeita ao lado de Uruha, de frente para o seu Nao, tocando a mão pequena sobre a mesa e sorri para o outro baterista.

- Vocês chegaram faz muito tempo? – Sua voz sai carregada de carinho, como se pouco se importasse com a presença de outras pessoas, concentrando-se apenas nele. – Demoramos um pouco por causa...

- Pronto... Pode falar que foi minha culpa! – Ruki está ciente que sempre é por sua causa, mas gosta de fazer algum drama.

- Como eu estava dizendo... – Não consegue deixar de rir do jeito melodramático do cantor. – Nos atrasamos, mas ainda é cedo.

- Cedo? Vai acontecer alguma coisa de diferente? – Saga pergunta curioso, pois também não sabe nada sobre esse lugar.

- Fica calmo e relaxa. – É somente isso que Nao responde, querendo mais é curtir a visão dos olhos lindos de Uke.

- Uhm... – Saga resmunga, não conseguindo conter a contrariedade que a resposta lhe causa, pois desconfia que algo muito pervertido acontece nesse lugar, afinal os bateristas só têm cara de inocentes, e odeia ser o último a saber de algo. – Cheios de mistérios esses dois!

- Também não sei e não estou reclamando. – Tora quer mais saber de bulinar Hiroto por debaixo da mesa, provocando risinhos sem graça do pequeno.

Um garçom aproxima-se, a roupa de couro cyberpunk colada ao corpo como uma segunda pele, mas a expressão contrariada de alguém que preferia estar em outro lugar.

- Boa noite. – Fala em um tom monótono que desperta a atenção de Uruha. – O que vão beber?

Os olhos chocolate se erguem e encaram o rosto de Taro, o vocalista sem talento da banda de Ruki na outra realidade e solta uma risadinha. Não desejava que esta saísse tão audível, mas até o rapaz percebe e o observa intrigado. Sob tal olhar Takashima fica sem graça, pois suas reações às pessoas que vêm reencontrando são tão espontâneas... Disfarça e dá um tapinha no braço de Aoi, que está alheio ao que acontece, ainda observando o cardápio.

- Ai Yuu... Não faz assim que eu sinto cócegas! – Diz agarrando o rosto surpreso do moreno e o beijando delicadamente.

- Mas eu... – Shiroyama desiste de tentar entender as reações estranhas de Kouyou desde que voltou. – Vou querer uma cerveja.

- Pode me trazer um suco de... – Uruha para uns minutos para pensar, pois nem sabe de que tipo de fruta pode gostar.

- SUCO? – Ruki diz alto exatamente o que os outros apenas pensam. – Desde quando você toma suco?

- Ah vai... Não posso mudar de vez em quando? – Sabe que merece essa reação deles, mas está decidido a ficar bem sóbrio nessa noite. – Ando precisando me desintoxicar. Agora, ao invés de ficar me enchendo, me ajuda a escolher alguma coisa.

- Sei lá... Não sei o seu gosto... Só por saquê. – Reita o belisca com tanta força que o baixinho solta um gemido. – Ai! Eu estou brincando! Escolhe um de limão... Pode trazer dois, com bastante gelo e açúcar. Hoje vou mudar um pouco e não pedir o coquetel de frutas.

Depois que todos fazem os seus pedidos, voltam os olhares de curiosidade por todo o lugar, para a posição estranha das mesas, todas voltadas para a grande janela falsa.

- O que quer que aconteça aqui deve ser detrás daquela janela. – Shou pode não ser tão óbvio quanto o seu namorado em sua curiosidade, mas como os outros, fica ansioso ao ir a um lugar novo e... Diferente como esse. – Mas Nao... Vocês dois sabem o que é!

- Mesmo que eu soubesse não ia contar pra vocês. – Sorri para Kai, pois o show é dele essa noite e também não sabe o que vai acontecer.

- Boa noite, Yutaka! – A voz de sotaque francês precede a chegada de Jean, o belo proprietário do Café, que se aproxima e é abraçado com carinho pelo baterista. – Boa noite, rapazes. Fico feliz em ter tantas celebridades essa noite!

- Pessoal... Esse é o dono da casa. – Continua com o braço sobre o ombro do loiro, despertando um olhar ciumento de Nao. – Nós nos conhecemos há muitos anos, mas esse francês ficou danadinho e resolveu gastar seu dinheiro nesse lugar.

- Ora... Sempre fui um pervertido... Somos não é? – Aquela risadinha... As mãos do namorado de Kai se crispam no copo a sua frente. – Hoje vocês vão ver a nossa atração especial e... Temos outra celebridade que vai cantar antes do show principal.

- Quem? – Hiroto fala curioso, já um pouco alto.

- Outro velho amigo. – Diz apontando para uma mesa colocada diante da deles no outro extremo do Café, onde vislumbram a figura de um lindo rapaz moreno, de boca tentadora, vestido impecavelmente com camisa e calça pretas.

- Ah não! – Ruki fala com aquela sua voz de enfado. – Um dos meninos da JE!

- Deixa de ser chato. – Akira sabe como o namorado despreza a superexposição que essa agência faz com seus artistas. – Você nem gosta deles, como pode saber?

- Eu sei. – Percebe como o olhar de Uke o encara.

- Não se atreva a ir embora! – Kai precisa contê-lo, pois o amigo sente grande aversão a tudo que aquela agência representa, com o controle sobre seus agenciados o fazendo lembrar muito do seu próprio pai. – Vou ficar chateado.

Takanori não pretende ir embora, mas não pode evitar sua reação, apenas fechando a cara e se aconchegando em Reita. Sabe que entre os agenciados da JE existem artistas talentosos, apesar de não gostar de pop. Mas seu desprezo nem é pelos 'garotos Johnny's', mas pela empresa que os manipula, demonstrando o lado selvagem da indústria fonográfica.

Após estar contornada a pequena crise, Jean aproxima-se e fala alguma coisa no ouvido de Yutaka. O assento do baterista do Alice Nine parece coberto de espinhos, desejando levantar e sair desse lugar.

- Mas conta pra gente de onde vocês se conhecem! – Saga diz pensando em diminuir o desconforto do amigo, mas recebe de Shou um cutucão nas costelas, notando como os olhos de Nao se voltam para ele com um brilho assassino. – Isso... Bem... Se puderem... Claro.

- Acho melhor não. - A sonora risada do francês apenas irrita ainda mais o namorado de Yutaka.

Mas no instante em que ele se levanta com a intenção de sair, sente um toque em sua cintura, o contato de um corpo quente nas suas costas, o perfume embriagante lhe invadindo as narinas.

- Vocês são do Gazette e do Alice Nine, não é? – Yamashita Tomohisa, o rapaz moreno maravilhoso da JE diante deles, tão próximo de Nao que o baterista sente as pernas tremerem. – Adoro a sua música.

Um silêncio ensurdecedor se apossa do ambiente, pois para aqueles sentados à mesa, a surpresa é geral. Estavam tão distraídos em convencer Ruki a ficar, que nem mesmo notaram a aproximação do cantor! Shou é o primeiro a piscar, notando certo rubor nas bochechas salientes de Nao e não é para menos, afinal, aquele homem simplesmente o encoxa na frente de todos.

- Oh, então você gosta da nossa música? - Hiroto pergunta curioso, o rosto inclinado para o lado lhe dando uma feição mais infantil e inocente.

Reita teme que Ruki simplesmente ofenda o pobre rapaz e de modo automático leva sua mão a nuca do namorado, acariciando-o como que para acalmá-lo. Sente-se desconfortável com a situação e a expectativa o consome, mas prefere manter o seu chibi sob controle.

- Er... Obrigado. - Aoi coça a nuca sem jeito, dando uma risadinha. - Você nos pegou de surpresa.

Os olhos de Kai fuzilam o lindo moreno grudado às costas do seu namorado e não lhe passa despercebida a expressão corada de Nao, denotando que aquele contato o perturba.

- Fico feliz que goste da nossa música, mas... - O baterista do Gazette parece calmo, mas um furacão de emoções fortes o perturba. - Poderia desgrudar do meu namorado?

Ao ouvir as palavras de Kai, Nao sente um arrepio percorrer toda a sua espinha, pois tem plena certeza do ciúme dele, mas o que pode fazer? Olha sobre o ombro, ainda levemente ruborizado, fitando o homem mais alto que o segura tão firme, pensando no que pode falar.

- Co-Com licença... - Segura as mãos dele, indicando que deve soltá-lo, apesar de não se mover.

- Não foi minha intenção te deixar constrangido. - Sussurra no ouvido de Nao, mantendo os olhos no ciumento escorpiano. - Você é o Kai, não é?

- Uhm... A coisa vai ficar feia. - Saga diz com um sorrisinho irônico.

- Ah, tudo bem... - Nao responde baixo, dando um pequeno sorriso e então fita Kai, vendo que o namorado está mesmo bravo.

Dá um passo a frente, desvencilhando-se de forma delicada de Yamapi, aproximando-se de Kai, envolvendo seu braço para então se voltar para o outro moreno, entendendo o porquê do ciúme... O cantor é lindo!

Yutaka puxa Nao para si conforme esse se aproxima, demonstrando aquela expressão de posse, enlaçando o namorado a fim de deixar claro a quem ele pertence.

Nao abraça Kai, sorrindo. Sempre é gostoso quando ele fica com ciúme! Dá um frio na barriga, a adrenalina sobe e um prazer indefinido toma conta dele... E por isso o baterista e líder do Alice Nine sorri para o músico da JE, ouvindo a voz de Kai reverberar em seu ouvido.

- Sou eu sim. - Quase pergunta um 'por que', mas percebe pela expressão de Jean que deve se conter.

Jean olha nervoso a cena, temeroso que saia alguma briga... E espera que não, pois o Vampire Café é um lugar de sedução e erotismo, não de pancadaria.

Um sorriso bonito surge na boca bonita de Yamashita Tomohisa, marcado por algo que o rival não consegue definir. O sensual cantor então se aproxima devagar deles.

- Não sou uma ameaça. - Passa o braço sobre o ombro de Jean. - Mas uma sugestão... Não dá muito certo ficar abraçando um ex-namorado na frente do atual. Pode aparecer um oportunista e se aproveitar disso, não é?

- Hehe... Eu sabia! - Saga solta uma gargalhada tão espontânea que não consegue controlar. - Gostei do cara.

Shou e Hiroto olham para Saga, sem entender o que 'ele sabia'. Curiosos, voltam seus olhares para Kai e Nao, vendo como o rosto de ambos fica rubro, mesmo que seja por motivos diferentes. Então os fixam em Yamapi, imaginando se Jean é namorado do moreno ou se apenas é mais um dos 'casos' antigos do dono do Café.

- Bom... Deseja beber com a gente? - Aoi convida apenas por educação, sem se dar conta de que Ruki pode não gostar do convite.

- Nem posso ficar muito, pois logo vou me apresentar. – Sorri, mas seus olhos se fixam em Ruki, como se soubesse exatamente o que o outro cantor pensa dele. – Não pude me conter quando reconheci vocês.

- Mas... O que uma estrela da JE pode ver de interessante em humildes roqueiros como nós? – A ironia escorre dos lábios de Takanori, que nem se importa com o beliscão de Akira. – Afinal, vocês lotam o Tokyo Dome por noites seguidas e nós... Isso está longe de acontecer.

Todos o encaram, pois dito dessa forma demonstra o desprezo que o cantor tem pela famosa agência. Logo em seguida todos observam o rosto amigável de Tomohisa, que não parece se abalar com o tom dessa afirmação.

- Ora... Eu invejo vocês. – Há uma sincera admiração em sua voz, causando grande surpresa no chibi do Gazette. – Todos vocês tem uma história juntos, batalharam por isso que tem hoje, e tem liberdade de expressão. Ruki... Você é um letrista incrível!

- Eu... – Nem sabe o que responder diante disso.

Yamapi se solta do abraço de Jean e senta-se no lugar que antes fora de Nao, que permanece de pé ao lado de Kai. Há um brilho em seus olhos quando respira fundo, desejando falar aquilo que jamais falaria para outras pessoas.

- Eu trabalho para JE desde os onze anos... Minhas bandas sempre foram criadas e se desfaziam conforme a produção desejasse. – Não há um lamento em suas palavras, mas uma constatação sincera. – Nossas músicas são produzidas por outros... Precisamos nos tornar estrelas para conseguir o privilégio de compor e... Muitos de nós somos bons letristas.

- Puxa vida... – Shou fica com lágrimas nos olhos, pensando sinceramente como se sentiria se não tivesse lutado ao lado dos amigos para ter o que têm hoje.

- Mas vocês também precisam batalhar. – Uruha sente que o clima melancólico que se cria não é a intenção do cantor, que apenas demonstra para todos eles como 'ter uma história juntos' é importante. – Que eu saiba vocês começam como dançarinos e só se tornam a atração principal se ganharem destaque nessa função... Ou estou enganado?

- Está certo. – Sente-se agradecido por perceber a intenção no loiro. – Não vim aqui dar uma de coitadinho... Eu amo o que faço. Mas fiquei empolgado e resolvi tietar.

- Empolgado demais! – Kai ainda se sente enciumado, mas entende porque Jean sempre fala tanto em Yamapi. – Da próxima vez não fica agarrando o meu namorado.

- Tudo bem... Posso agarrar o dos outros? – O vozerio repleto de reclamações contrárias o faz rir, já se erguendo para começar a sua apresentação. – Prometo não fazer isso também... Trago o meu de casa, ok?

Observando o lindo moreno e o francês se dirigirem para frente da janela falsa, mais uma vez o silêncio se instala. Não há como definir a situação surrealista que aconteceu, pois era como se o pop e o rock tivessem tentado estabelecer um tratado de paz. E no Japão isso é realmente um assunto sério. Nenhum deles sabe bem o que dizer para quebrar o encanto, até que Hiroto se inclina na direção da mesa para melhor enxergar os demais.

- Eu estava meio distraído, mas... – Finge não perceber a expressar maliciosa que os outros lhe dirigem, exatamente por saberem a razão de sua distração. – Por acaso o 'gostoso' é namorado do francês ou não?

- Não é! – Kai sente o aperto em seu braço e prefere não estender muito o assunto. – O Yamapi é um velho amigo do Jean... Apenas isso.

- Velho amigo... Entendeu Pon? – Tora tem vontade de rir, pois até pareceu com o Saga falando desse jeito.

- A apresentação vai começar. - Yutaka diz já se sentando, colocando Nao sobre seu colo.

O ambiente do Vampire Café vai diminuindo as luzes, ficando ainda mais na penumbra. Um holofote foca sobre o francês loiro, cabelos cacheados e longos caindo sobre os ombros, uma expressão maliciosa e deliciada com o clima de expectativa no ar. Ele simplesmente adora isso em seu negócio.

- Madames e Messieurs... O Vampire Café hoje tem a honra de receber muitos convidados ilustres. E um deles... Um dos meus mais antigos e queridos amigos... Aceitou fazer uma pequena apresentação para entretê-los. – Jean estende a mão para que o moreno se coloque sob o foco das luzes. – Com vocês... Yamashita Tomohisa!

O loiro se afasta, deixando o cantor sozinho diante de todos, um pouco nervoso com o que decidiu fazer.

- Eu gostaria de realmente ser original essa noite, pois todos esperam que eu cante uma de minhas músicas, mas... Aqui no Vampire Café não devemos ser óbvios... Devemos ser ousados. – Ele sorri de uma forma sedutoramente linda e lança um olhar na direção da mesa ocupada pelos membros do Gazette e do Alice Nine. – Escolhi uma música escrita por um dos melhores compositores do rock japonês. Ele escreve com emoção e... Isso é inspirador.

Inconscientemente os olhos dos rapazes todos se voltam para Ruki, que está tão vermelho que poderia explodir. Jamais o chibi esperaria algo assim e a perplexidade o deixa mudo, situação muito rara em sua vida.

- Mas... Confesso que não vim preparado para isso essa noite. – Yamapi continua, meio sem jeito. – A fita e o karaokê estavam prontos para tocar uma das minhas composições e... Decidi que essa noite devia ser especial. Então... Será que alguns músicos se voluntariam a tocar pra mim?

Mais uma vez o silêncio... Como se fossem pegos em 'flagrante delito' os rapazes ficam sem ação diante de tanta ousadia. Uma risada maliciosa cortando o clima e fazendo todos olharem para Saga, que procura algo no bolso da calça.

- Não falei que gostei desse cara? – A expressão de Shou, os olhinhos amendoados ainda mais fechados, como ele faz quando fica enciumado.

- Já ficou todo interessado, não é? – Shou não consegue se controlar, cruzando os braços e emburrando de imediato.

– Apesar de ele ser lindo... – O baixista se volta na direção do namorado e sorri divertido. - Não falei gostar nesse sentido! Desfaz esse biquinho.

- Ele está tentando me provocar... Não é, Rei? – Há uma verdadeira confusão no rosto de Takanori, que não gosta muito de ser surpreendido e não sabe como agir... Tudo deve estar sempre sob controle e no momento está longe disso.

- Ahm? – Akira não imagina o que responder, pois sabe que a resposta errada carrega muitas consequências desagradáveis.

- Não está! – Uruha sorri para o amigo, simpatizando ainda mais com o cantor pop que continua ali esperando a resposta deles. – Ele está sendo sincero e realmente gosta do que você compõe. Credo! Parece que se apavorou porque alguém te elogiou!

A tosse nervosa de Reita é incontrolável, pois aquelas palavras quase derrubam o seu chibi da cadeira. Sua vontade é rir da situação e da expressão dele, mas sabe que daí sim ficaria sem sexo por um ano.

- Não é verdade! – Taka se levanta indignado, mas relaxa um pouco por ver o sorriso divertido do loiro, deixando claro que não o está criticando. – É que...

- Bom... Enquanto vocês discutem... – Saga se ergue de um pulo. – Vou sair em uma missão se salvamento. Não podemos deixar um moreno maravilhoso daqueles em apuros, parado ali, sozinho.

O baixista sai do Café apressado, fazendo com que os demais pensem na posição até constrangedora em que Yamapi se colocou.

- Eu também vou até lá. – Takashima se ergue, sem esperar que ninguém o siga, apenas sabe que esse é o certo. – Vamos ver se o 'caso' do Kai arranja uns instrumentos.

- Ei! – Yutaka olha do loiro para Nao, que ameaça se levantar, mas é contido por seus braços fortes em torno de sua cintura. – Ele é apenas um amigo, ok?

- Certo... Mas levanta pra eu poder sair. – Uruha sente a mão de Aoi segurando a sua e volta-se para ele, enquanto os outros se levantam.

- Mas você vai lá tocar... Sem arranjo, sem nada? – Há uma real preocupação com isso no perfeccionista Yuu, temeroso que o loiro se arrisque e acabe se sentindo triste novamente por causa do resultado.

- Amor... Mesmo sendo profissionais... Qual a coisa que mais gostamos na música? – Encara os profundos olhos negros e segura o queixo bem formado com a mão. – A diversão é o melhor de tudo e... Vai ser divertido demais improvisar rock com um cantor pop.

Seus lábios tocam de leve os dele, deliciando-se como suas palavras e esse carinho doce o fazem fechar os olhos. Sabe como Shiroyama lutou para se tornar o profissional dedicado de agora, como venceu tremendos obstáculos para se tornar um grande guitarrista e um arranjador meticuloso, portanto entende seu pensamento. Além do mais, há naquela expressão uma preocupação real com seu estado emocional e apenas isso já faz valer a pena tudo que tem passado.

O loiro desce devagar até onde o cantor ainda continua esperando. Nem mesmo Yamashita sabe como os músicos irão tocar, mas não pode resistir ao apelo emocional dessa 'trégua'. Jean volta com um violão e uma partitura de 'Pledge', a única coisa que conseguiu arranjar em seu apartamento, ainda esbaforido com o trabalho que seu amigo lhe deu.

- Vou cobrar isso com juros, seu safado. – O sotaque do francês sai arrastado, mas de forma alguma nervoso. – Vai ter que cantar aqui toda semana.

- Da próxima vez faço uma pole dance, que acha? – Diz rindo-se da expressão boquiaberta do dono da boate.

- Não promete que eu cobro. – Sabe que nem precisa disso, pois Tomohisa faria isso sem problema, timidez não é um dos seus defeitos.

Takashima segura o violão, sentindo o peso, verificando a afinação, mas então Saga volta com um baixo e uma guitarra que sempre carrega em seu carro. Entrega-as para Uruha e vendo o violão decide que precisam de mais 'voluntários'. Corre apressado até a mesa onde estavam e para ainda cansado do esforço.

- Tora... Levanta aí! – Sinaliza de forma imperativa para o amigo.

- Você não está muito empolgado? – Shinji sorri diante do entusiasmo do baixista, como era no início da banda.

- Ah... Deixa um pouco de ficar apalpando o Pon e vamos tocar! – Pega na mão dele e o puxa insistente.

- Ok, ok. – Fala se erguendo. – Mas vai com calma.

Os quatro então se reúnem brevemente diante do público ansioso, decidindo qual a música e como vão improvisar o arranjo para apenas três instrumentos, sem bateria ou qualquer outra forma de marcação do ritmo. Voltam-se concentrados, Yamapi segurando firme o microfone, enquanto os outros se posicionam, com Tora assumindo a guitarra.

- Sei que o resultado pode não ser satisfatório para o compositor, que sei ser perfeccionista, mas... Encare como uma homenagem ao seu talento. – Ele sorri, mas em seu rosto nota-se o profissionalismo que empresta a cada apresentação. – Vamos tocar 'Pledge'.

- Por Kami! – Ruki prende a respiração sem nem perceber, segurando forte na coxa de Reita. – Acho que hoje eu morro.

- Não morre agora não. – Kai não consegue tirar os olhos do belo moreno de olhos fechados sob a luz agora tênue e azulada, pronto para começar. – Senão você perde isso.

A introdução se inicia originalmente com um piano, mas aqui apenas o violão tocado por Uruha, sentido e emocional, buscando na essência da música a inspiração para esse arranjo tão diferente. O rosto do loiro passa a emoção que o assola, como se aquela canção representasse tudo o que passou para conseguir reencontrar-se e voltar para casa ciente do seu próprio valor.

"O que percebi apenas depois de te machucar

Eu estava procurando pelo número

De defeitos em você

Quando deveríamos estar olhando um para o outro."

A voz de Yamapi soa pelo ambiente, totalmente diferente de Ruki, mas tão carregada de emoção que faz o vocalista do Gazette engolir em seco. Os olhos fechados, os lábios acompanhando as palavras com tristeza, uma das mãos sobre o peito como se a respiração fosse difícil devido à dor da perda. O timbre mais suave, mais doce, levemente rouco, empresta uma individualidade à interpretação dele à canção, uma forma inusitada de dizer o mesmo que um dia Takanori traduziu de sentimentos em uma composição.

"Nossos dias foram enterrados em pequenas mentiras,

Para podermos lutar contra as dúvidas

Nossos corações sabem o significado

De perder um ao outro

Esse segundo inverno continua parado."

O som vindo do baixo e da guitarra empresta musicalidade à melodiosa voz que aumenta de tom, os sentimentos se intensificando no rosto de traços fortes e harmoniosos. O violão acompanha incidentalmente, demonstrando como aquela composição agora tem um significado especial para Takashima, quando quase se perdeu e àquele a quem tanto ama.

"Você está perdida porque não pode ver o amanhã,

aumentando sua voz, você estava chorando.

Sem ser capaz de encontrar nenhuma palavra,

eu apenas sequei suas lágrimas."

Intensidade... O tom mais forte, os braços estendidos em súplica, como se Yamapi temesse a partida do ser amado, porém sentindo-se incapaz de retê-lo mais um momento. A dor... Uma sensação intensa de ruptura expressa em olhos cheios de lágrimas sentidas, que escorrem por seu rosto de forma suave, uma das mãos se fechando e apertando o peito, tentando diminuir a pressão no coração e a parada brusca, como se as últimas palavras marcassem a constatação da impossibilidade de evitar o sofrimento de quem se ama.

Mais uma vez o violão se sobressai, o baixo dando o tom profundo da melancólica melodia, a face do loiro do Gazette transformada, imersa que está em tudo que viveu nas lembranças do seu moreno destruído pela falta de esperança.

"Envolvidos em solidão,

Os dias encharcaram a nós dois.

Nós estávamos continuamente em busca de entendimento,

eu posso sentir isso profundamente mais uma vez."

A voz bonita, de timbre doce contrasta com a do vocalista do Gazette, tão possante e ao mesmo tempo tão emocional, entregando à letra dolorosa uma individualidade diferente, uma aceitação da derrota mais suave, demonstrando como a decepção tem significados diversos, mas no fundo sempre é decepção.

"Não era mentira quando eu disse que senti a eternidade.

Eu certamente estarei ao seu lado."

O tom sobe lentamente, chegando às palavras clássicas de uma separação, o corpo esguio se movendo devagar, mas mantendo o 'crescendo' da música e se colocando logo atrás de Uruha. Ele sente a dor no som do violão, percebe como cada nota denota o significado que aquilo tudo tem para ele. Cola-se às costas do loiro, que não tenta se afastar, acomodando-se ao homem de presença marcante e que coloca seu rosto junto ao seu.

No mesmo instante Shiroyama se ergue, algo dentro dele se remoendo com aquela visão de outro alguém roçando daquela forma no SEU loiro. Seus olhos se espremem, contendo o ciúme que sente dele, mas que disfarça muito bem por considerá-lo uma fraqueza. Precisa ser forte para Kouyou, apesar de isso às vezes o colocar em situações complicadas.

- O Tora está lindo tocando! – Hiroto não consegue controlar sua impulsividade.

- Calma Pon! – Kai tenta evitar que os comentários possam irritar Aoi, já nitidamente nervoso. – Guarda sua empolgação para a atração principal.

- Ah é! – Os olhinhos do guitarrista brilham de curiosidade.

- Algumas pessoas gostam de viver perigosamente... – Yuu sussurra, pensando em como o cantor da JE já conseguiu arranjar encrenca com dois namorados ciumentos numa mesma noite.

"Eu não preciso mais de 'eu te amo'

Se ao menos você ficasse para sempre ao meu lado.

Eu quero ser quebrado por você,

que exauriu sua voz de tanto chorar."

Emoção pura e simples escorrendo da boca de lábios carnudos, que os roça no pescoço alvo, arrepiando o guitarrista que então percebe a força expressiva das ações de Yamashita. Os olhos chocolate se voltam para a mesa onde está o seu moreno e, apesar das luzes que estão sobre eles impedi-lo de ver, sabe exatamente que este deve estar se corroendo com aquela intimidade. Resolve esquecer e se deixar levar pelo momento, tocando seu violão com ainda mais emoção no ponto em que não há letra, todo o sentimento expresso pelos instrumentos que improvisam, mesmo que os outros sejam um pouco incertos por não conhecerem por completo a música.

"Todas as palavras do começo ao fim foram ditas por você

para que você não deixasse esses braços.

O mesmo sonho que ficou ao nosso lado,

arrastou nós dois para longe."

A mão na cintura do loiro acentua o tom sensual dos movimentos do cantor, as palavras saindo espontaneamente, a voz ganhando força conforme se envolve com a canção intensa e avassaladora, de falta de esperança e de 'fim', com toda a dor que isso carrega. A cabeça loira se inclina de leve para trás, aconchegando-se mais no corpo quente, a música saindo ainda mais forte dos dedos que percorrem as cordas com tanto sentimento.

A voz de Uruha então deixa sua boca, de início baixa e tímida, mas logo em seguida se torna uma segunda voz, acompanhando o ritmo e a letra, imprimindo toda a emoção que aquela letra revela de seus próprios sentimentos e como quase perdeu tudo de bom que lutou para conquistar.

- Kouyou... – Aoi sente a intensidade do que aquilo representa, segurando as lágrimas que surgem diante da perda que esteve tão próxima de ambos.

E conforme a guitarra de Tora toca o solo, intenso e profundo como a própria música, Yamapi lentamente se afasta de Takashima, colocando-se no centro novamente, sentindo o ritmo com o corpo, acompanhando a emoção com a expressão do rosto.

"As pequenas mentiras mudaram suas formas e

Dissolveram-se numa pequena brisa branca.

Para não esquecermos o significado de perdermos um ao outro,

Não importa quantas vezes meu coração for esfaqueado."

O som da perda, presente na voz carregada de cores dolorosas, fazendo-o se mover mais uma vez e se colocar ao lado de Saga, colado a ele, sentindo a surpresa no baixista, que se move para ficar mais próximo. O perfume do moreno lhe envolvendo os sentidos, seus dedos tocando as cordas com ainda mais força, deixando-se levar pela parada estratégica da letra, como se faz para respirar após ter segurado por tanto tempo.

"Eu deixo esse 'adeus' bem aqui e sigo adiante

Não te perderei mais uma vez."

Cada parte da composição é dita de encontro à pele de Takahashi, percebendo como as reações dele são diferentes, como o baixista roça em seu corpo, provocativo, tanto quanto o próprio Yamapi costuma ser. Um leve sorriso surge diante disso, mas se desfaz conforme retoma o ritmo mais intenso da melodia.

- Aquele cachorro vira-lata me paga! – A voz de Shou é um misto de choramingo e ameaça, o ciúme doendo demais dentro do peito, pois uma coisa era ouvir falar dos casos que Saga teve antes de namorarem, outra coisa é vê-lo aproveitando uma situação daquelas.

"Para que pudéssemos nos assegurar de nosso amor,

Ambos tivemos que ver tristeza.

Mesmo se nós acabarmos desaparecendo amanhã,

Tudo bem não chorar mais."

As lágrimas descem profusas pelo rosto bonito, molhando a camisa de Saga, sentindo a sinceridade daquela emoção vívida e pungente dentro do peito do cantor. Sente como sua voz se altera, cadenciada pela música, mas acompanhando cada sentimento expresso em palavras. Daí ele se afasta mais uma vez, colocando-se no centro, uma das mãos sobre o peito e a outra estendida como se suplicasse para que não houvesse a separação.

"Algum dia iremos mudar para duas pessoas que passam como as estações.

Mesmo se houverem noites em que você congele de tristeza.

Não se esqueça

Nada jamais acabará

Dentro de um sonho profundo..."

E aos poucos a canção vai diminuindo de intensidade, até que as derradeiras palavras são quase sussurradas, ditas de forma definitiva. Mesmo que tudo tenha acabado sempre restam as lembranças dos sonhos que foram divididos e criados a partir de um amor que se presumia que seria para sempre.

Os últimos acordes vão soando, encerrando a música intensamente triste, Yamapi respirando fundo enquanto ainda se refaz da apresentação inédita em sua carreira. Abaixa a cabeça, pensando no resultado final, se foi capaz de passar tudo que desejava e expressar como aquela música mexe com ele, em todos os sentidos.

Ainda na mesa Ruki permanece parado, seus olhos sobre a figura melancólica parada sob a luz do holofote, que vai esmaecendo até que apenas pode-se vislumbrar o vulto de cabeça baixa. Todas aquelas lágrimas tão espontâneas... Sem pensar em criticar ou mesmo ficar analisando se a interpretação de Yamashita foi melhor ou não, a única coisa que o cantor nota é a emoção, pois aquilo é quase impossível forçar ou disfarçar.

- Garoto JE... Você entende... – Sente a sensação de que há mais do que interpretação naquele rosto de traços fortes e bonitos. – Quem você perdeu?

Continua...

ooOoo

Em primeiro lugar quero agradecer àqueles leitores que não desistiram de ler mais esse capítulo, mesmo diante da longa espera. Desculpo-me por fazê-los esperar tanto, mas escrever se tornou impossível diante da 'vida real'. Volto agora decidida a retomar aquilo que tanto amo fazer e satisfazer a curiosidade dos corajosos que tiveram a paciência de aguardar.

Agradeço de coração a todos os reviews recebidos ao longo desse tempo e que infelizmente não consegui responder como sempre fui acostumada a fazer. Vocês não imaginam como até as mais singelas palavras me encorajaram a continuar lutando e não desistir daquilo que amo.

Mas uma coisa eu afirmo para meus queridos leitores: EU NÃO VOU ABANDONAR NENHUMA DAS MINHAS HISTÓRIAS! Desculpe o grito, mas é mais para mim mesma, desabafando aquela gana de terminar todos os meus textos e não deixar os personagens abandonados à própria sorte. HEHE

Beijos a todas as amigas que me incentivam sempre a continuar, amo todas vocês e a Lady Anúbis já não existiria se não fosse o seu apoio incondicional.

Espero que gostem e, se der, COMENTEM!

10 de Julho de 2011

01:00 PM

Lady Anúbis