Capítulo 7: Uma Ex-Empregada Maluca

Pouco depois, Amílcar e Florência foram sentar-se na sala e Verónica decidiu ajudar Marileia a limpar a cozinha.

"Então, você já tem um novo pretendente?" perguntou Marileia.

Ao ver Verónica corar um pouco, sorriu.

"Vá, me conte tudo."

Verónica contou sobre o novo empregado, Lucas.

"Mas ele nunca vai querer nada comigo." disse Verónica, suspirando. "É mais novo que eu e tudo. O que é que ele ia ver de interessante em mim? Nada."

"Oh, não diga isso, Verónica. Hoje em dia, a diferença de idades pouco importa." disse Marileia. "É preciso ter fé. E se não for ele a pessoa certa, essa pessoa há-de aparecer, mais cedo ou mais tarde."

"Pois, mas espero que não seja para o mais tarde, porque eu já esperei muito."

No dia seguinte, Verónica foi trabalhar como normalmente. Foi verificar se as encomendas tinham chegado todas correctamente e depois entrou na loja. Verificou que Clara estava a ajudar Lucas a atender alguns clientes e sorriu.

Depois, como entraram mais clientes na loja, Clara afastou-se para os atender e Lucas deu o seu melhor para agradar às duas mulheres que estava a atender e queriam ver botas de salto alto. Verónica ficou alguns minutos a olhar para a cena, mais interessada em Lucas do que propriamente na maneira como ele estava a atender as clientes.

Por essa altura, Jonas saiu do seu gabinete e dirigiu-se à loja. Viu Verónica, aproximou-se e depois viu que ela estava a olhar e a sorrir para Lucas, que nem tinha reparado que estava a ser vigiado. Jonas franziu o sobrolho e chamou Verónica, que não o ouviu. Verónica só regressou à realidade quando o patrão lhe abanou o ombro.

"O que foi? Ah, olá chefe." disse ela, subitamente atrapalhada.

"Temos de falar. Vamos para o meu gabinete."

Verónica seguiu o patrão até ao gabinete e sentaram-se os dois.

"O que quer de mim?" perguntou ela.

"Temos de rever umas coisas no inventário, mas podemos tratar disso depois. Para já, o que é que foi aquilo de estar a olhar assim para o novo empregado?"

"Eu... estava só a observar como é que ele atendia as clientes." mentiu Verónica.

Jonas revirou os olhos, sem se mostrar convencido.

"Eu sei bem o que é você estava a ver. Sua pedófila!"

"O quê? Eu não sou pedófila! Que eu saiba o Lucas é maior de idade."

"Aha! Eu bem sabia que queria algo com ele. Aquele olhar e sorriso estúpido não enganavam ninguém. Verónica, é uma tarada! Não pode ver um homem que fica logo de olho nele."

"Chefe!" exclamou Verónica, irritada. "Mas que maneira de falar é essa? Está a ofender-me!"

"Ora, você anda para aí a atirar-se a todos. Não quero poucas vergonhas na minha sapataria!"

"Se eu quiser fazer algumas poucas vergonhas com o Lucas, como diz, não se preocupe que não há-de ser aqui. Eu sou sua empregada, mas o que eu fizer na minha vida pessoal só a mim me diz respeito. E não quero falar mais nisto. Não tem nada a ver com a minha vida."

"Eu... você estava ali parada, a perder tempo a olhar para ele. Estamos aqui para trabalhar!"

"Não volta a acontecer, chefe. Agora, com licença, tenho de ir. Tratamos depois das coisas sobre o inventário."

Verónica saiu rapidamente do gabinete, enquanto Jonas abanava a cabeça.

"É mesmo maluca. Quer dizer, ainda há pouco tempo me beijou e agora já anda atrás de outro? Não é boa da cabeça, com certeza. Hunf, eu sou muito mais interessante que aquele rapazinho que mal tirou as fraldas. O que é que ela vê nele? Ora, devia era continuar a gostar de mim." pensou Jonas. "Ei, espera lá! Mas... parece... parece que estou com ciúmes. Não pode ser. Eu não gosto daquela maluca dessa maneira... ela é-me indiferente... se bem que quando estava ali a olhar para o Lucas, me senti bastante incomodado... se calhar é só o meu orgulho ferido porque ela agora deixou de estar interessada em mim e está interessada noutro... mas será que é mesmo só isso? Estou confuso..."

Enquanto Jonas continuava pensativo no seu gabinete, Marileia e Amílcar tinham ido sair.

"Agora que já lhe deu flores, pode dar-lhe também chocolates. As mulheres gostam de chocolates, a não ser que estejam de dieta." disse Marileia.

"Achas que chocolates são uma boa ideia?" perguntou Amílcar e Marileia acenou afirmativamente. "Está bem. Se ela não os comer, como-os eu."

Os dois entraram numa loja que se especializava em doçaria e compraram uma caixa de chocolates.

"A dona Florência vai adorar." disse Marileia, sorrindo.

"Espero bem que sim. Ela é difícil de contentar."

Por essa altura, Florência, que tinha saído antes dos dois, para ir à cabeleireira, ia a passar na rua e olhou para a loja, vendo Amílcar a entregar a caixa de chocolates a Marileia, para ela guardar a caixa na sua mala.

Contudo, considerando que Florência não sabia que os dois estavam ali para comprarem os chocolates para si, tirou logo outras conclusões.

"Não acredito!" pensou ela, chocada. "O Amílcar comprou chocolates para a Marileia! Oh... ontem deu-me flores... claro! Porque é que não percebi logo? Deu-me flores porque estava de consciência pesada. Ele anda a trair-me com a Marileia! Que sem vergonha! Ela tem idade para ser filha dele! Ou neta!"

Florência cerrou os punhos, furiosa.

"Mas eu não vou deixar isto ficar assim! Era só o que faltava! Aquela Marileia que nem pense que fica com o meu homem! Hum, com o meu homem? Estou maluca ou quê? Eu não o quero para nada... não posso é deixar que ele me esteja a trair." pensou Florência. "Isto não fica assim!"

Florência hesitou, entre entrar na loja ou não, mas decidiu dar outra abordagem ao assunto e rumou a casa. Marileia e Amílcar saíram da loja pouco depois, sem saberem que Florência os tinha visto.

"Vai ver que a dona Florência vai gostar tanto dos chocolates que vão logo voltar ao tempo em que eram mais românticos." disse Marileia.

Quando Amílcar e Marileia chegaram a casa, algum tempo depois, entraram e viram que Florência estava à espera deles, com duas malas perto de si.

"Ah, já chegaram, seus desavergonhados!" exclamou ela, furiosa.

"Florência, o que é que se passa?" perguntou Amílcar, confuso.

"Não te faças de desentendido, Amílcar. Sabes muito bem o que andas a fazer. Pois eu descobri tudo! Tens aqui a tua mala. Pega nela e põe-te daqui para fora!" exclamou Florência. "Tantos anos de casados e fazes-me isto? Está bem que não somos um casal cheio de miminhos um para o outro, mas trair-me? A mim, que nunca sequer pensei em trair-te?"

Amílcar preparava-se para argumentar, mas Florência não lhe deu tempo e virou rapidamente o seu olhar para Marileia.

"E tu, empregada brasileira dos infernos! Eu acolhi-te cá em casa, convenci a Verónica a contratar-te e a manter-te cá, mesmo quando ela não gostava de ti e tu fazes-me isto? Traíste a minha confiança e envolveste-te com o Amílcar? Como é possível, rapariga?" perguntou Florência, ainda furiosa. "Ele tem idade para ser teu pai ou teu avô, sei lá! Não tinhas melhores partidos? Tinhas de ir agarrar-te ao velhadas que já pertencia a outra?"

"Dona Florência, a senhora percebeu tudo m..."

"Percebi tudo muito bem, sim senhora." disse Florência. "Vi-vos na loja de doces. Quer dizer, a mim não me compras nada, Amílcar e a ela foste-lhe comprar chocolates?"

Florência pegou num bibelot que estava em cima de uma mesa e atirou-o a Amílcar, que se desviou por pouco.

"Florência, controla-te!" gritou Amílcar. "E deixa-me explicar!"

"Ah, já sei que deves vir para aí inventar alguma coisa. Vais dizer-me o quê, que não é o que parece, heim?"

"E não é mesmo. Os chocolates são para ti. Eu e a Marileia fomos comprá-los. Eu contei-lhe a história do nosso namoro e casamento e ela decidiu dar-me ideias para te reconquistar." explicou Amílcar. "Deu-me a ideia das flores e dos chocolates. Por isso saímos juntos para os irmos comprar. E se viste a Marileia com os chocolates, foi porque ela os pôs na mala dela, porque tinha espaço para os transportar lá."

Florência olhou desconfiada para Amílcar e depois para Marileia.

"Dona Florência, é verdade o que o senhor Amílcar diz. Os chocolates são para a senhora. E, me desculpa senhor Amílcar, mas dona Florência, você acha mesmo que eu, sendo nova e bonita, me ia agarrar a um homem como o senhor Amílcar, que está quase caindo de podre?"

Florência pareceu pensativa, enquanto Amílcar lançava um olhar aborrecido a Marileia.

"Vá, dona Florência, acredite na gente. Estamos dizendo a verdade." pediu Marileia.

Florência olhou uma e outra vez para Marileia e Amílcar, ainda desconfiada.

"A Marileia realmente tem razão." pensou Florência. "Quer dizer, se ela quisesse namorar com alguém não era com certeza com um velhadas com o meu marido. Ou se fosse com um velhadas, que fosse um com dinheiro, o que não é o caso."

Florência acabou por abanar a cabeça e pigarrear.

"Pronto, está bem, convenceram-me. Então pronto, enganei-me. Se me tivessem logo contado a verdade, nada disto tinha acontecido."

"Era para ser uma surpresa, Florência." disse Amílcar.

"Pois, mas já que agora já sei, passa para cá os chocolates, Marileia."

Marileia tirou a caixa de chocolates da mala e Florência pegou nela.

"Óptimo. Agora eu vou comer os chocolates enquanto vocês vão arrumar as coisas ali na cozinha." disse Florência, apontando para as malas.

"Mas porque é que haveríamos de arrumar as nossas roupas na cozinha, dona Florência?" perguntou Marileia, confusa. "Deduzo que as malas tenham as nossas roupas."

"Não, as malas não contém as vossas roupas. Pus coisas da cozinha aí dentro, como panos de cozinha e talheres. Era para vos arreliar. Ia expulsar-vos daqui e quando chegassem... bem, aonde quer que fossem parar, ainda iam ver que nem tinham roupas para usar. Era para aprenderem uma lição, mas já que esta questão está resolvida, vão lá arrumar as coisas."

Contrariados, Amílcar e Marileia pegaram nas malas e foram até à cozinha. Tiveram de tirar as coisas lá de dentro e arrumar tudo nos seus lugares. Quando voltaram à sala de estar, Florência estava sentada no sofá, a comer os chocolates e a caixa já estava meio vazia.

"Ah, cá estão vocês outra vez. Os chocolates são muito bons." disse Florência, acenando afirmativamente.

"Ainda bem que gostaste, Florência." disse Amílcar.

"Marileia, vai... fazer qualquer coisa que eu preciso de falar a sós com o meu marido."

Marileia acenou afirmativamente e saiu dali rapidamente. Florência fez sinal a Amílcar para se sentar e ele sentou-se na sua poltrona favorita.

"Que história é essa de me quereres reconquistar?" perguntou Florência.

"Bem, como dá para perceber, o nosso casamento já não é o que era. Estamos distantes e sempre a embirrar um com o outro. Sinto falta do tempo em que éramos felizes." respondeu Amílcar.

"Isso já foi há muito tempo..."

"Sim, eu sei, mas não tens saudades do tempo em que costumávamos ir passear todos os domingos para o parque, quando os nossos filhos eram pequenos? Ou quando íamos todos os Verões passar duas semanas nalgum lugar do país, perto da praia ou no campo?" perguntou Amílcar.

"É verdade que foram bons tempos." disse Florência. "Mas isso já passou."

"Passou, mas eu não queria que tivesse passado. Sabes, quando ainda éramos novos, pensei que quando fosse velho e tivesse tempo livre, que iríamos passar o tempo livre juntos, talvez a passear ou se calhar a cuidar dos nossos netos. E afinal, não aconteceu nada disso."

"Credo, isso também era uma versão muito idealista, homem."

"Mas a Florência do passado teria gostado da ideia." disse Amílcar, abanando a cabeça. "Já não sei o que lhe aconteceu. Mudaste muito."

Florência não soube o que dizer. Amílcar abanou novamente a cabeça e levantou-se.

"Como o meu plano foi descoberto e de qualquer maneira não parece ter tido qualquer efeito... eu desisto."

Amílcar deixou a sala, enquanto Florência permanecia calada, sem saber o que pensar. Marileia, que tinha estado a ouvir a conversa pela porta da cozinha, entrou de seguida na sala.

"A senhora está bem, dona Florência?" perguntou ela.

Florência não respondeu logo. Respirou fundo.

"O Amílcar está magoado. Até me apetecia dizer algo maldoso sobre isso... mas realmente, eu não era assim." disse Florência.

"O senhor Amílcar queria muito que voltassem a ser felizes e românticos. Ele deve estar muito triste." disse Marileia. "Dona Florência, você casou com ele porque o amava, não foi?"

"Sim, claro que sim."

"Então, se estão casados há tanto tempo, porque não se entendem? Se fizerem um esforço, conseguirão ser mais felizes. Mas a senhora tem de mudar a sua atitude, dona Florência."

"Não sei se consigo." disse Florência. "Já estou habituada a ser cínica e resmungona."

"E pode continuar a ser, mas com as pessoas de quem não gostar." disse Marileia. "Dona Florência, faça um esforço para ser feliz e fazer o senhor Amílcar feliz também."

Mais tarde, quando Verónica chegou a casa, já pelas oito da noite, pois tinha ficado a fazer um pequeno inventário, encontrou apenas Marileia na cozinha, à sua espera.

"Onde é que estão os meus pais?" perguntou Verónica.

"Eles foram jantar fora." respondeu Marileia. "Por isso hoje iremos jantar só nós as duas. Se senta. Vamos comer e te conto tudo."

Verónica e Marileia sentaram-se para jantar e Marileia contou o que se tinha passado e que Florência tinha pensado que Amílcar a estava a trair. Verónica soltou uma gargalhada.

"Essa é boa. O meu pai a trair a minha mãe contigo? A minha mãe tem cada uma." disse Verónica, sorrindo. "Se bem que vista de fora, a situação dos chocolates era realmente estranha e levantava dúvidas."

"Mas ficou tudo esclarecido. Depois o senhor Amílcar teve uma conversa importante com a dona Florência. Ele estava infeliz, pobrezinho. Mas depois da conversa, eu acabei conseguindo que a dona Florência fosse falar com ele. Bom... tenho de admitir que escutei atrás da porta as duas conversas que tiveram. Fizeram as pazes e a dona Florência prometeu que ia ser mais amável e que iam fazer mais coisas juntos."

"Ah e então foram jantar fora."

"Exacto. Espero que estejam se divertindo."

"Espero o mesmo."

Quando estavam quase a terminar o jantar, Marileia perguntou a Verónica como estavam as coisas no trabalho.

"Muito bem. Só no amor é que continua tudo igual. Pensei imenso no Lucas hoje, sabes? Mas é melhor deixar essas ideias. Ele é demasiado novo para mim." disse Verónica.

"A idade não é importante."

"Sim, mas acho que ele nem olha para mim dessa maneira, sabes? Parece que nunca mais encontro a pessoa certa. Caramba, há pessoas que se casam e divorciam imensas vezes e comigo nem sequer há um primeiro casamento."

"Eu acho que é melhor não haver nenhum do que haver um casamento com um divórcio subsequente." disse Marileia. "Quando você menos esperar, vai ver que encontra a pessoa certa."

As horas passaram-se, Marileia e Verónica foram deitar-se e já era tarde quando ouviram Florência e Amílcar chegar a casa. Os seus risos eram tão altos que acordaram as duas mulheres.

"Ena, mas eles estão a rir mesmo alto." pensou Verónica. "Já há muito tempo que isso não acontecia. Ainda bem."

"Parece que tudo deu certo." pensou Marileia. "Agora eles devem estar felizes."

Na manhã do dia seguinte, Florência mostrou-se entusiasmada ao contar novidades sobre o seu jantar com Amílcar. Amílcar estava nesse momento a fazer a barba e as três mulheres estavam reunidas na cozinha.

"Foi muito divertido. Consegui resmungar e criticar toda a gente, menos o teu pai, Verónica. Por isso ele nem se pôde queixar. E tivemos de nos rir com um casal que estava sentado numa mesa ao pé de nós. Fiz imensos comentários maldosos sobre eles e o teu pai achou imensa piada." disse Florência. "Parece que é mais divertido para ele quando não o estou a criticar a ele."

"Pois, porque será?" perguntou Verónica, sorrindo.

Marileia e Verónica estavam contentes por Florência e Amílcar se estarem a entender. No final de contas, Florência estava quase na mesma, mas agora não criticava o marido, pelo que isso fazia com que a união deles estivesse mais forte.

"Bem, tenho de ir trabalhar. Vemo-nos logo." disse Verónica, levantando-se.

Verónica foi-se embora e pouco depois estava na sapataria. Quando chegou Clara já estava a abrir a loja e Lucas chegou logo de seguida. Verónica começou a combinar com Clara como iriam expor os sapatos da nova colecção. Entretanto chegou Jonas e decidiu dar opinião sobre o assunto também.

Enquanto os três estavam a planear como expor os sapatos e Lucas estava a atender uma cliente, Teresa entrou na loja, com um passo apressado. Remexeu na mala e tirou de lá uma arma. Apontou-a na direcção de Jonas, Clara e Verónica. A cliente que Lucas estava a atender viu a arma e soltou um grito, que alertou os outros.

"Teresa, o que pensas que estás a fazer?" perguntou Jonas.

"Eu fui despedida e humilhada aqui! Ainda por cima o meu pai pôs-me fora de casa, a minha mãe fugiu com um amante ucraniano, a minha amiga Leonor anda a dizer mal de mim, o meu psicólogo diz que eu sou maluca e o meu namorado agora trocou-me por outra! Dei-lhe um tiro e agora vocês são a seguir! Vão todos pagar pelo que me fizeram!" gritou Teresa. "Vão todos morrer!"

Teresa apontou a arma directamente a Clara e disparou. Clara saltou para o lado e a bala foi cravar-se numa das paredes da loja. A cliente que Lucas estava a atender soltou um grito e desmaiou. Lucas estava tão confuso com a situação que nem a agarrou e a cliente estatelou-se no chão.

"Sua louca!" gritou Verónica, encarando Teresa. "Vais estragar a tua vida para nos matar?"

"Já não tenho nada a perder. Ok, já que a Clara se esquivou, vais ser tu a morrer. Afinal, é o que está certo. A minha vida ficou pior desde que tu te meteste." disse ela, apontando a arma a Verónica. "Agora, morre!"

Um segundo tiro foi disparado e Verónica conseguiu dar um passo para o lado. A bala passou-lhe de raspão pelo ombro. Antes que Verónica pudesse fazer mais alguma coisa, Teresa disparou novamente. A bala foi em direcção a Verónica e agora não havia escapatória. Clara gritou e no momento seguinte, Jonas pôs-se à frente de Verónica, sendo atingido no peito. Caiu no chão, com o sangue a espalhar-se pela sua camisa branca.

"Não!" gritou Verónica, ajoelhando-se sobre o patrão.

"Que patético, pôr-se à tua frente para te proteger. Não importa. Ia matá-lo na mesma, por isso agora está feito. Mas tu ainda estás viva. Morre!"

Antes que Teresa pudesse disparar de novo, um sapato, lançado por Lucas, acertou-lhe em cheio na mão que tinha a pistola e a pistola foi atirada para longe. Teresa soltou uma exclamação de espanto e olhou à sua volta, para ver onde a arma tinha caído. Antes que se pudesse mexer, já Lucas corria para ela. Saltou-lhe para cima. Teresa debateu-se.

"Larga-me!" gritou ela.

Clara aproximou-se a correr e agarrou Teresa também. Logo de seguida, algumas pessoas que iam a passar na rua, alertadas pelo barulho, entraram na loja, ficando chocadas com aquela cena.

"Chamem uma ambulância!" gritou Verónica. "E a policia!"

Duas das pessoas que tinham acabado de entrar na loja pegaram rapidamente nos seus telemóveis, para fazerem a chamada. Teresa foi dominada por Lucas e Clara e não tendo hipótese de se escapar, deixou de se debater.

"Estava quase lá." murmurou ela, entre dentes. "Foi por pouco... bolas..."

Poucos minutos depois, chegaram a ambulância e a policia. Jonas estava vivo, mas estava a perder muito sangue e a bala estava bastante perto do coração. Foi levado na ambulância e Verónica foi com ele. Teresa foi levada pela polícia e conseguiram reanimar a cliente que Lucas estava a atender, sem necessidade de a levarem para o hospital.

Quando, mais tarde, Florência e Amílcar regressaram a casa, depois de um passeio matinal no parque, depararam-se com Marileia, um pouco aflita, que lhes contou o que se tinha passado na sapataria. Clara soubera o número de casa de Verónica e tinha telefonado para lá.

"O quê? Mas a Verónica está bem?" perguntou Amílcar.

"Parece que sim. Acho que só o chefe dela é que foi baleado, porque se pôs à frente dela para a proteger. Levou com uma bala que era para ela." explicou Marileia.

"Ai Meu Deus! Coitado do patrão! E eu que até o ameacei e tudo, há uns tempos. E agora ele salvou a nossa menina, Amílcar." disse Florência, abanando a cabeça. "Temos de ir já para o hospital. Sabes qual é o hospital, Marileia?"

"Sim. A senhora que telefonou disse-me."

"Óptimo. Vamos já para lá. Ai se eu apanho aquela Teresa, nem sei o que lhe faço!" exclamou Florência, furiosa. "A tentar matar a nossa filha, Amílcar? Já viste isto?"

"Olha que eu não sou adepto da violência, Florência, mas estou contigo nisto. Se a apanho, nem sabe o que lhe acontece!"

Os três dirigiram-se rapidamente ao hospital e encontraram Verónica num dos corredores de espera. Tinha a sua blusa manchada de sangue, porque se tinha agarrado a Jonas para o ajudar, mas de resto estava bem.

"Meu Deus, podia ter sido uma tragédia." disse Florência. "A Marileia contou-nos que o teu chefe se pôs à tua frente. Como é que ele está?"

"Está a ser operado. Estão a tentar retirar-lhe a bala." respondeu Verónica. "Mas dizem que é muito arriscado. Está muito perto do coração. Ele pode morrer."

"Há-de correr tudo bem, filha." disse Amílcar. "Temos de ter fé."

"Se ele morre, por minha causa, por me ter tentado proteger, eu nunca me vou perdoar." disse Verónica, com os olhos a encherem-se de lágrimas. "Nunca me vou perdoar."

Marileia, Amílcar e Florência não sabiam o que dizer. Todos esperaram, até que a operação terminou. Junto a eles tinham-se juntado também Clara, Lucas, alguns outros empregados da sapataria e os pais de Jonas. Quando o cirurgião se aproximou deles, todos se levantaram.

"Senhor doutor, como é que está o meu filho?" perguntou a mãe de Jonas. "A operação correu bem? Ele está salvo?"