O Ninho dos Dragões
A visão de Porto Real e seu cheiro insuportável fizeram o estômago dela revirar. Nada na capital lhe trazia boas lembranças e tudo o que Arya precisava era de uma chance para sair dali o mais rápido possível, mas Aegon não estava correndo nenhum risco desnecessário.
Durante a viagem ela foi amarrada à sela do cavalo e era seguida de perto pela guarda real. Ele insistia que ela cavalgasse a seu lado pela maior parte do caminho. Quando o acampamento era erguido novamente, ela tinha uma tenta particular, onde podia descansar com certo conforto, mas suas refeições eram feitas sempre na companhia do rei.
Uma coisa podia ser dita a respeito de Aegon Targaryen. Ele era persistente e não era nem de longe tão estúpido quanto ela havia pensado inicialmente. Nada acontecia no acampamento sem que ele tivesse conhecimento e nada acontecia com ela sem que o rei soubesse no minuto seguinte. Aquilo seria um problema.
Ao menos ela tinha permissão para ir até Nymeria sempre que o acampamento estivesse erguido. Uma jaula de metal havia sido forjada para prender a loba e era movida por bois durante a viagem. Nymeria ficou terrivelmente agitada nas primeiras semanas, agora seu olhar era parado e ela estava desanimada.
Arya sabia exatamente como a loba se sentia. Às vezes ela pensava se não seria melhor apenas ceder e aceitar o que Aegon estava disposto a oferecer. Nunca quis ser uma rainha, este era o sonho de Sansa, mas devia ter alguma vantagem ser a mulher mais importante do reino. Seus irmãos poderiam ser persuadidos a concordar com os termos da paz, a aliança os colocaria numa posição invejável e um dia os filhos dela seriam reis.
Seu pai havia dito isso a ela pouco antes de morrer. Na época ela se recusou a acreditar e achou que poderia mudar aquele destino opaco, mas agora...Já não estava tão certa. O discurso de Eddard Stark era repassado à exaustão na cabeça dela e aquelas palavras até se pareciam com uma maldição.
Ela jamais seria uma dama como Sansa e sua mãe, mas poderia ser uma rainha do mesmo jeito. Aegon era bonito e ela nem mesmo poderia dizer que ele era desonesto, cruel, ou louco. Excêntrico, talvez. Seus soldados o respeitavam, os lordes diziam que ele era justo e mesmo tendo todos os motivos do mundo para agredi-la, ou ao menos tratá-la de forma mais severa, Aegon continuava sendo absurdamente gentil e paciente.
Seu pai teria escolhido alguém como o jovem rei para ela, mesmo sabendo que Arya odiaria a ideia de se casar com qualquer um, por mais gentil, rico, bonito, ou honrado que fosse. Talvez aquilo fosse apenas uma resposta dos deuses a ela. Havia um limite pra alguém desafiar seu próprio destino e aquele era o limite dela.
Na Fortaleza Vermelha Nymeria tinha mais espaço em sua jaula. Era uma parte consideravelmente grande do canil, designada apenas para a loba. Mesmo com mais espaço, ela ainda não aprecia feliz. Arya passou a mão entre as barras da grade de ferro e acariciou a loba, que lambeu a ponta dos dedos dela com afeição.
- Eu não sei qual das duas parece mais infeliz. – a voz familiar soou atrás dela. Arya não se deu ao trabalho e virar o rosto para encara o rei – A Fortaleza não a agrada?
- Não posso dizer que tenho memórias felizes aqui. Meu pai ocupou a Torre da Mão e foi decapitado nas escadas do Grande Septo de Baelor. – ela disse amarga – A única coisa que eu gostava naquela época era meu mestre de dança e nossos treinos diários.
- E que dança praticava? – Aegon perguntou se aproximando ainda mais dela.
- Dança da Água. – Arya respondeu e ouviu o riso abafado dele atrás de si.
- Um dia gostaria de vê-la praticar. – ele disse tocando a mão dela que estava apoiada contra a grade – Eu não me lembro de quando vivia aqui, antes do exílio. Eu era muito novo, mas não consigo deixar de pensar no que aconteceu.
- Meu pai fez parte da rebelião. Vossa Graça deveria querer o fim da minha família e não a mim como rainha. – ela disse com a voz amarga.
- Eu entendo os motivos que ele tinha. – Aegon respondeu – Meu avô assinou sua própria sentença de morte e eu no lugar de Lorde Stark...Eu acho que teria feito o mesmo.
- Me deixe voltar pra casa. – a voz dela soou baixa.
- Um dia viajaremos ao Norte e poderá rever seus irmãos em Winterfell. – ele disse suave – Esse casamento não precisa ser um fardo, Arya. Eu não tenho intenção de ter uma prisioneira com sangue Stark.
- Nem sabe quem eu sou. – ela disse com voz firme – Está apenas fascinado com uma ideia.
- Você não se preocupa, nem mesmo se importa com o meu título. Fala o que pensa e tem determinação. Gosta de cavalgar e de usar uma espada. Despreza os bons modos femininos e imagino que seja por causa da sua irmã. – ele disse calmo – Lady Aryn era a mais bonita das duas, dizem que é a dama perfeita, o que deve ser extremamente irritante pra você. Acho que era mais próxima dos seus irmãos e ouso dizer que era melhor do que eles com armas. Reza para os deuses antigos. Escolheu o nome Nymeria para a sua loba porque admirava a rainha dos roinares por ser uma mulher forte. Sua espada foi um presente dado por alguém importante pra você, talvez lorde Stark, ou um dos seus irmãos. – um dos braços dele a envolveu pela cintura e ele a puxou para que se recostasse contra o peito dele – Estou certo?
- Em algumas coisas. – ela respondeu a contra gosto – Meus irmãos nunca me viram lutar.
- Mas sabiam que você queria aprender. – ele concluiu e ela confirmou com a cabeça – Quem lhe deu a espada?
- Jon. – ela respondeu – Meu irmão bastardo.
- Seu irmão favorito? – Aegon perguntou por fim.
- Meu melhor amigo. – ela respondeu e foi com surpresa que sentiu seus olhos cheios de lágrimas.
- Sente falta dele? – Aegon a apertou mais forte em seus braços.
- Todos os dias. – e só agora ela conseguia perceber o quanto essa saudade era esmagadora.
- Viu, eu não sou tão desatento quanto pensa. – ele disse beijando o rosto dela em seguida – E mesmo que eu não esteja em sua vida há muito tempo, eu a conheço, Arya.
- Se conhecesse mesmo saberia que nem a Fortaleza Vermelha pode me conter por muito tempo. – ela resmungou e ele riu.
- É por isso que estou tentando convencê-la a ficar por livre e espontânea vontade. – Aegon respondeu – Seu irmão enviou uma resposta. – ela ficou tensa entre os braços dele.
- E o que diz a resposta? – Arya perguntou nervosa. Aegon ficou em silêncio por alguns minutos.
- Que ele não pode concordar com um contrato de casamento antes de vê-la com seus próprios olhos, mas como ele não pode usar as pernas e uma viagem até a capital seria prejudicial a ele, o dito "Rei no Norte" pede para que seja mandada a Winterfell e permaneça lá até que uma resposta seja dada. – Aegon respondeu cuidadoso.
- E obviamente isso não vai acontecer. – Arya disse ácida – Ainda sou uma prisioneira, não é mesmo?
- O Norte deseja independência e não vai desistir tão fácil. – ele disse sério – Mantê-la aqui pode ser interpretado como uma forma de ameaça, ou que a quero como refém.
- E não é exatamente isso o que quer? O Norte, o Vale e o Tridente? – ela desafiou.
- Sim, mas não são a única, nem a principal razão para isso. – ele respondeu – Eu a queria quando você insistia em dizer que era Ninguém e estava tentando me matar. Descobrir que você é uma Stark apenas viabilizou meu desejo e este pequeno fator que acaba de mencionar foi um acréscimo muito bem vindo às vantagens dessa união. Acredite, isso tem mais importância para o Pequeno Conselho do que pra mim. Se eu a mandar para o Norte, não tenho qualquer garantia de que seu irmão considerará minha proposta. Ele poderia casá-la com outro homem no momento em que pisasse em Winterfell e isso seria muito desagradável.
- E como meu irmão pode ter certeza de que Vossa Graça não está tentando enganá-lo? – ela perguntou.
- Enviados servem pra isso. – Aegon respondeu.
- Parece muito preocupado com a resposta do meu irmão para alguém que tinha tanta certeza de que ele me entregaria nua numa bandeja. – Arya disse séria.
- Eu ainda estou confiante, mas isso não quer dizer que eu vou correr riscos desnecessários. Eu a quero aqui, onde posso observá-la de perto e onde posso tomar medidas mais drásticas, caso seu irmão seja mais difícil do que parece. – Aegon plantou um beijo na base do pescoço dela – Há alguém que quero que conheça.
- Quem? – a voz dela era trêmula agora.
- Minha estimada tia. Ela está curiosa para conhecê-la. – ele disse se afastando dela por fim – Jantará conosco esta noite e então sairemos para um pequeno passeio. Acho que vai gostar.
Aegon a deixou sozinha com Nymeria mais uma vez. Ela acariciou outra vez a loba. Só um milagre poderia salvar as duas agora. O rei dizia que preferia esperar pela benção do Rei do Norte para o casamento, mas agora ela já não tinha nem mesmo certeza se aquela decisão seria honrada. Se precisasse, Aegon a arrastaria para cama a qualquer minuto e mandaria os lençóis sujos para Bran na manhã seguinte.
Se por um lado ela queria sair dali o quanto antes e voltar para o Norte, Arya não tinha certeza do que Bran faria quando Aegon negasse devolvê-la. Duvidava que Bran declararia guerra por causa dela, mas o problema poderia se estender por tempo indefinido. Meses, anos, poderiam se passar antes que chegassem a uma conclusão, mas ela não conseguia imaginar o rei esperando todo este tempo para conseguir o que queria dela.
Aegon estava no trono há três anos e sem um herdeiro próprio. Uma dama jovem de alto nascimento, tão próxima, poderia ser a resposta para todos os problemas da dinastia Targaryen e Arya podia ver seu tempo se esgotando rapidamente enquanto permanecia trancada na Fortaleza Vermelha.
Naquela noite ela foi conduzida por dois membros da guarda real até o solar particular da família real, aonde Aegon a esperava, ao lado de uma mulher pequena e jovem, que tinha os mesmo cabelos platinados e os olhos violetas do rei. Daenerys Targaryen não era nem de longe tão intimidante quanto seus dragões faziam crer. A verdade é que ela se parecia com uma boneca de tão pequena e delicada. Tinha um rosto que parecia ser gentil.
Arya fez uma breve reverência a contragosto e Aegon pareceu conter o sorriso debochado diante da demonstração de civilidade dela. Daenerys retribuiu a gentileza e fez sinal para que Arya se juntasse a eles na mesa.
- Eu devo dizer que é um prazer conhecê-la pessoalmente, Lady Stark. – Daenerys disse de forma amistosa – Meu real sobrinho falou tanto da senhora em suas cartas que eu só conseguia pensar no quanto uma presença feminina seria bem vinda na Fortaleza Vermelha.
- Eu não acredito que Vossa Graça tenha me descrito corretamente. Até um cavalo teria uma presença mais feminina do que eu. – Arya respondeu enquanto se servia e Daenerys lançou a ela um sorriso largo.
- Tanto melhor. Conversar sobre bordados, danças e cavaleiros em armaduras brilhantes enquanto tomo chá com alguma dama não é exatamente o que eu chamo de uma conversa produtiva, ou no mínimo interessante. – a Mãe de Dragões disse – Esteve em Braavos por muito tempo, não é mesmo?
- Exatamente. – Arya respondeu – Se não me falha a memória, a princesa passou anos nas Cidades Livres.
- Correto. Sinto falta às vezes. – Daenerys disse – Foram anos em Pentos, antes de me casar com Khal Drogo e seguir junto com o kalasar. Gosta de cavalgar, Lady Stark?
- Acho que é uma das coisas que mais gosto de fazer. – Arya respondeu sincera.
- Ótimo! – Daenerey disse entusiasmada – Poderiamos cavalgar amanhã. Eu sinto falta de um pouco de exercício. O que acha da ideia, meu rei?
- Contanto que leve uma escolta, eu não vejo qualquer problema nisso. – Aegon respondeu satisfeito – Acho que seria muito bom para ambas, afinal, já que Lady Stark fará parte da família em breve é do meu agrado que as duas se deem bem.
- Tenho certeza que nos divertiremos muito, não é mesmo? – Daenerys voltou suas atenções para Arya novamente – Eu fui visitar seu lobo gigante nos canis hoje. Que animal esplendido.
- Imagino que para alguém que possui dragões, deve ser bem entediante. Nymeria é um tanto temperamental. – Arya disse séria – Jaulas a deixam nervosa e a mim também.
- Criaturas poderosas não foram feitas para serem presas. – Aegon disse em tom pacificador – Entretanto, se dragões vivessem soltos, ou lobos gigantes tivessem liberdade para andar por qualquer parte, não sobraria muito do reino.
- Isso se aplica a mim também? – ela lançou a ele um olhar de desafio – Tem medo de perder seu reino e por isso me mantém aqui? – Daenerys arregalou os olhos diante da ousadia dela, enquanto Aegon se limitou a sorrir.
- Precisamente! – ele respondeu com um toque de bom humor – Se desejasse tomar o reino para si eu não duvido que conseguiria. Digo mais, comandaria os exércitos pessoalmente e nada no mundo poderia detê-la.
- O mundo não conseguiu me parar também. – Daenerys disse em seguida – Mesmo que Aegon não tivesse dado o primeiro passo, seria apenas uma questão de tempo até que eu viesse para Westeros. No fim somos todos conquistadores por natureza nesta mesa.
- Imagino que sim. – Arya respondeu deixando a comida de lado.
O restante do jantar foi de pouca consequência. Daenerys era realmente uma mulher interessante e talvez as duas até pudessem se dar bem, não fosse a situação em que Arya estava presa. Quando terminaram a refeição Aegon pediu para que elas o acompanhassem e os três seguiram até uma liteira que esperava por eles no pátio.
Ele a ajudou a subir e fez o mesmo por Daenerys. Do lado de fora a cidade dormia e havia neve cobrindo o chão das ruas de Porto Real. Era uma noite fria, mas nenhum dos dois Targaryen parecia se incomodar com aquilo.
Arya conhecia o caminho que estavam fazendo. Lembrava-se das ruínas onde antes eram abrigados os dragões nos tempos de Aegon, O Conquistador. Por algum motivo, ela não gostou daquilo, mas não disse nada a respeito. Quando a liteira parou ela pode ouvir o som poderoso daquilo que estava dentro do prédio e o sangue dela correu gelado nas veias.
O urro das bestas era ensurdecedor. As portas foram abertas e com assombro Arya viu pela primeira vez as criaturas que assombravam seus sonhos. Havia fumaça saindo das narinas, as presas eram gigantescas e as asas se erguiam ameaçadoramente. Ela tentou se afastar e voltar para a liteira, mas Aegon a segurou onde ela estava.
Ela sentia o coração disparar. O dragão verde parecia maior e mais forte do que o branco. Eram lindos, como joias e perigosos como uma combinação de todas as armas e todos os venenos.
- Estes são meus filhos. – Daenerys disse de forma gentil – Rhaegon e Viseryon. Uma pena que não possa ver Drogon também.
- São uma visão e tanto, não é mesmo? – Aegon perguntou de forma gentil – Acho que este é meu melhor argumento e nem mesmo seus irmãos poderão contradizer isso.
Nota da autora: Então, Aegon. Pare de ser fofo ou serei obrigada a tomar medidas drásticas com você! Tia Danny dando o ar da graça. E demonstração desnecessária de poder, eu sei, mas sinceramente, Targaryens sempre me parecem um tanto apelões XD. Espero que gostem e comentem. Bjux. Bee.
