Disclaimer: Saint Seiya e seus personagens são propriedade de Kurumada, Toei, etc.

Capítulo 7 - No Matter How I Try, I Find My Way Into The Same Old Jam.

Se você já teve uma ressaca daquelas bem violentas, provavelmente, não achará necessário descrever o estado em que Milo acordou na manhã seguinte ao seu desafortunado encontro com Camus (sem falar no namorado e o cunhado dele). Afinal, você irá deduzir que ele se sentia como se tivesse sido atropelado por um caminhão-cegonha (carregado de carros enormes, decerto). E também que a cabeça de nosso estimado protagonista latejava como se alguém acertasse, insistentemente, uma marreta em uma enorme barra de ferro. E, mais ainda, que Milo estava se sentindo como se tivesse engolido um guarda-chuva molhado ou algo do gênero (embora não se saiba de ninguém que jamais tenha engolido um guarda-chuva, mas, de qualquer maneira, deve ser algo muito desagradável). Em resumo, a mera visão do estado de Milo naquela manhã seria suficiente para tornar abstêmios os de convicção menos firme.

Mas o pior não era o estado em que o loiro acordou, e sim o que aconteceu após alguns breves segundos de desorientação, quando ele se deu conta de algo muito sério: não fazia idéia de onde estava!

"Maldita vodka vagabunda! Se bem que estava boa mas... É, bem, que o Aioria fala para eu não beber qualquer porcaria que eu encontro por aí. Mas e agora, cacete?" - pensou atordoadamente.

Coçou a cabeça pensativo enquanto observava o quarto onde estava. Definitivamente, não era um hospital (se fosse, concluiu, ele teria reconhecido no primeiro momento e não haveria razão para se preocupar... muito). Tudo estava muito bem organizado no cômodo: Havia uma estante com alguns livros enfileirados, um guarda-roupas, dois criados mudos e a cama. Nada espalhado pelo chão, nenhum vestígio de poeira, nada fora do lugar. Uma decoração de aspecto austero e prático, mas, de certo modo, lhe parecia aconchegante.

"Não deve ser nenhum seqüestro, porque o lugar está muito arrumado para ser um cativeiro, então é a casa de algum conhecido, provavelmente" - pensou - "mas quem foi que me trouxe e porque não me deixou na minha casa? O Aioria provavelmente não foi, tava ocupado com a ruiva, então..."

Tentou recapitular os eventos da noite anterior, mas infelizmente as lembranças se misturavam todas e paravam em um certo ponto que devia ser lá pela metade da festa (hora estimada, pelo nosso amigo, já o lugar era mais fácil de determinar: Bem ao lado do barzinho, junto do amigo barman).

Levantou-se com alguma dificuldade, pois a cabeça doía muito, o que o deixava meio tonto. Reparou que haviam trocado suas roupas, estava usando um pijama que ficava-lhe um pouco apertado. Sentou-se novamente por causa da tontura e jurou para si mesmo que nunca mais encheria a cara de vodka ruim daquela repente se lembrou de algo. Levantou-se e saiu do quarto, tinha que falar com o dono da casa e agradecer por não tê-lo largado jogado por aí. E, logicamente, descobrir quem era seu benfeitor e onde estava.

Atravessou o corredor e entrou na sala, tão arrumada quanto o quarto. Nesse momento uma ouviu alguém lhe dizer:

- Já acordou? Pelo estado em que eu te trouxe para cá, achei que fosse dormir mais.

Isso foi algo completamente inesperado para Milo. Sim, porque ele jamais imaginaria que logo Camus, que ainda estava possesso consigo, cuidaria dele depois de uma bebedeira! De repente o pior aconteceu e suas lembranças da noite anterior retornaram. Flashes constrangedores lhe vieram à mente, incluindo o ápice da festa, com a cena patética no estacionamento. Desabou no sofá, sentia-se mais tonto que nunca.

- Eu fiquei em dúvida sobre o que fazer - o francês continuou, com um tom de voz constrangido - Achei que alguém poderia te atropelar se eu te deixasse lá no chão, e não sabia onde você morava. Além disso, não tinha a menor idéia se você estava sozinho ou não, mas

achei que nem adiantava ir procurar ninguém - também porque a reação de Kanon ao vê-lo arrastando um Milo apagado seria algo que não suportaria, mas isso o ruivo preferiu não falar - Aí resolvi te trazer para a minha casa. Se bem que, pensando melhor agora, talvez fosse melhor ter te levado até um hospital...

- Não, tudo bem, eu estou legal - Milo afirmou - não preciso de médico nem nada, obrigado.

Um silêncio constrangedor pairou no ambiente. Milo achava que precisava falar alguma coisa para se desculpar com Camus. E pensar que andava querendo melhorar a opinião do ruivo sobre ele...Agora havia estragado tudo, com certeza!

Já Camus estava incomodado consigo mesmo e não sabia até agora porque raios havia trazido aquele grego infeliz para dentro da sua casa!

- Mas valeu mesmo pela ajuda - disse Milo após alguns instantes - e me desculpa pelo aborrecimento todo.

- De qualquer forma, eu também peço desculpas por ontem. O Kanon só foi te perturbar porque... Bem, porque queria "me" perturbar... Ele não tinha nada que...

- Espera aí, quem é Kanon? - O loiro perguntou confuso. Pelo que se lembrava, foi Saga quem o abordou (e arrastou e quase arremessou) na noite anterior.

Camus arregalou os olhos sem entender a confusão do outro. Então se lembrou de que o grego, para sua sorte, provalvelmente não conhecia Kanon ainda.

- Ah não, excepcionalmente ontem o Saga não te fez nada. Foi o irmão gêmeo dele, o Kanon, quem te levou até a nossa mesa. Do que veio depois eu acredito que você já tenha se lembrado, não? - Camus disse a última frase com uma nota de reprimenda em sua voz.

- Entendi - Milo não havia esquecido o modo como Camus costumava lhe censurar desde que se conheceram e, pelo visto, isso não havia mudado – Aliás, entendi tudo o que estava implícito aí, Camus. Foi mal mesmo ter te dado tanto trabalho e te deixado irritado e tal. Pode deixar que não vai acontecer de novo.

- Estou certo disso. – A voz do francês soara mais ríspida do que este pretendia. Estava fazendo um esforço sobre-humano para se manter controlado e não deixar transparecer o quanto a presença de Milo ali, na sua casa, o desconcertava – Mas deixa isso para lá, é melhor você comer alguma coisa antes que passe mal novamente – Emendou com voz baixa.

- Ah, claro, muito obrigado – Respondeu o loiro, enquanto seguia Camus até a mesa. Os dois se sentaram e começaram a refeição no mais absoluto silêncio. Era uma situação meio constrangedora para ambos. Mas, como uma das características de Milo era seu incrível senso de oportunidade, ele logo se deu conta de algo muito importante: Aquilo era praticamente uma trégua. Camus não o estava censurando (muito), não estava realmente bravo e, melhor ainda, não tinha para onde fugir! Aquela era, sem dúvida, uma oportunidade única de tentar amolecer o francês.

- Mas de qualquer jeito foi muita mancada da minha parte. Logo agora que eu queria provar que eu aprendi a me comportar melhor eu faço uma burrada dessas! E ainda por cima te dou o maior trabalho. Me desculpe mesmo...

Simulou uma expressão de pesaroso arrependimento e passou uma das mãos pelos cabelos. Camus arregalou os olhos e engoliu em seco. Não podia fraquejar agora. Era a pior hora possível para isso! O francês sabia o que deveria fazer: Continuar sendo forte e acabar logo com aquela conversa... estranha.

- O.K., não tem problema... Não mesmo. Se você já tiver terminado pode se trocar e eu te deixo em casa – disse o ruivo, tentando mudar o assunto.

- É mesmo cara, você ainda teve que me dar banho! – nesse ponto Camus ficou muito vermelho, quase roxo. Milo fingiu não perceber – Muito obrigado mesmo.

- De nada, de nada. Agora é melhor você ir se trocar e eu te levo embora. Você precisa trabalhar e eu também, além disso...

- Não, eu não vou embora agora – Milo disse em um tom tão seguro quanto sua dor de cabeça permitia – Não antes de te dizer uma coisa, Camus...


Saga tomava seu café da manhã tranqüilamente enquanto escrevia algo em um bloco de anotações. Tamborilava com a caneta na beirada da mesa enquanto conferia o que já havia escrito. Estava tão absorto que nem percebeu que seu irmão havia se aproximado.

- E aí, fabricando o hype da semana que vem? – perguntou Kanon, espiando por cima do ombro do irmão.

- Não, não, são só as resenhas da semana que vem... – resmungou Saga - quero entregar até quarta, então preciso adiantar isso.

- Alguma coisa que valha a pena essa semana?

- Ainda tenho uns três discos para ouvir, os outros dois eram ruins de doer.

- Tem sido um problema recorrente nos dias de hoje, muita porcaria sendo lançada. Eu recebo cada demo lixo lá na MTC...- Kanon disse desanimado, sentando-se em frente a Saga – Mudando de assunto, conseguiu falar com o namoradinho?

- Não, ainda não. Acho que o Camus desligou o telefone da tomada. Mais tarde vou passar no trabalho dele para pedir desculpas por ontem. Ele nem estava muito a fim de ir...

- Ele ficou bravo, não é? Acho que não era para tanto.

- Você o conhece, não é? – disse Saga enquanto ajeitava os óculos – devia ter imaginado que ele reagiria daquele jeito.

- Nem vem que você bem que ia gostar de provocar o loiro lá – provocou Kanon.

- É verdade – admitiu o outro gêmeo, sorrindo com um ar travesso – mas era melhor não ter começado naquela hora, devia esperar uma oportunidade melhor.

- Sempre maquiavélico, irmãozinho, sempre maquiavélico. – Riu Kanon – Mas afinal, qual é o lance do cunhadinho com o outro lá? Você me contou por cima, atiçou minha curiosidade e depois não explicou mais nada.

Saga desviou o olhar que se concentrava em suas anotações. Fitou o rosto do irmão, pensativo, e explicou:

- Camus ainda gosta muito do tal Milo. Aliás, ainda é apaixonado por ele.

Kanon arregalou os olhos, encarando o irmão.

- Espera, como assim "ainda ama"? Essa história deles não tinha acontecido faz um tempão? – Saga acenou afirmativamente com a cabeça – Ah, então não era só raiva e despeito o problema do cunhadinho com o Milo?

- Não, o Camus ainda gosta do Milo, apesar de ter sim muita raiva dele e se sentir mal por causa disso.

- E o Milo também está a fim dele ainda, pelo visto...

- É, mas acho que o Camus não vai facilitar, sabe como ele é.

- Besteira. Eu, no lugar dele, caia dentro. O loirão lá está dando o maior mole para ele. Se o Milo cornear ele, é só cornear de volta! – disse Kanon, mostrando sua inigualável forma de contemplar a vida – Mas tem uma coisa nessa história que eu não entendo de jeito nenhum, mas sempre achei melhor não perguntar porque, assim, não era da minha conta. Mas agora eu quero que você me explique.

- Explicar o que? – perguntou Saga.

- Eu nunca entendi esse "seu" rolo com o Camus. Você nunca foi apaixonado por ele. E pelo que eu entendi, ele nunca foi realmente a fim de você, então por que vocês...

- Bom, eu gosto muito dele, ele me atrai, mas realmente, não sou apaixonado por ele. Mas Nosso relacionamento, por mais que você vá achar ridículo o que eu vou dizer, é mais um tipo estranho de amizade.

- Amizade é tudo nesse mundo, né? Especialmente com o cunhadinho, que é tão bonitinho! – disse Kanon bagunçando o cabelo do irmão, quase fazendo o outro derrubar chá em suas anotações.

- É lógico, não podia ser de outro jeito, não é? Além disso eu não sou de ferro! – disse Saga, rindo também.

- E por que você se incomodou tanto com o Milo? Não é ciúmes. Ou é?

Saga parou de escrever e pousou a caneta sobre o bloco de anotações. Fitou o irmão por um momento, embora não o olhasse realmente. Parecia pensativo.

- Claro que eu sinto um pouco de ciúme e tudo, mas o caso não é esse. Aquele cara fez o Camus sofrer demais e até hoje ele ainda sofre. E nunca mais conseguiu confiar realmente em ninguém. Por isso eu quero ter certeza sobre as intenções desse tal de Milo, se ele realmente está a fim de levar o Camus a sério ou se ele só quer brincar de novo.

- Por isso o número do "namorado maníaco" – concluiu Kanon, ao que Saga concordou – Faz sentido, se eu bem conheço seu estilo de ação, se o Milo não gostar muito, mas muito mesmo do cunhadinho, logo ele deve fugir para a Antártida.

- É bem por aí, assim de uma forma ou de outra o problema se resolve. Mas e você. – Saga cruzou os braços e encarou o irmão – Se eu bem conheço o "seu" estilo de ação, posso dizer que seu interesse nessa história vai um pouco além de mera curiosidade. Você vai aprontar alguma coisa... – disse o geminiano como se aquilo fosse uma certeza absoluta sobre um fato já consumado.

- Eu?! – exclamou Kanon com a expressão mais inocente que conseguiu simular.

- Você mesmo – Saga já havia percebido que o irmão andava com interesses escusos naquela história. E torcia, do fundo do coração, que esse interesse não fosse "Naquilo", ou melhor "Naquela Pessoa" em quem estava pensando. Caso contrário, tinha certeza de que muita, mas muita dor de cabeça estava vindo por aí.

- O.K., mas vamos deixar isso para lá. Você tem que ir para a gravadora ainda... Acho que vou dar um pulo lá com você. Aliás, me conta sobre a banda que vocês contrataram esse mês. Vale uma ouvida ou é mais uma bandinha para fabricar uma moda e encher o bolso?

Kanon começou a contar sobre a banda que a MTC havia contratado. Não seria mais uma modinha, ele acreditava muito no potencial dos caras e, com certeza, logo seriam capa de todas as revistas musicais da Ilha ("Pode acreditar, Saga, até você vai gostar!"). Mas, enquanto falava, sua mente já pensava em um pequeno estratagema que lhe traria muita diversão; Afinal, se o seu cunhadinho não estava mais a fim, não fazia mal nenhum conhecer "um pouco melhor" o tal de Milo...


"Camus, dessa vez você se superou. Que idiotice foi essa de trazer esse maldito para dentro da sua casa!"

O francês pensava desolado enquanto via diante de si o grego que era a razão de parte considerável de seus tormentos dizer que eles precisavam conversar. "De novo? Eu pensei que ele já tivesse entendido que eu não estou mais querendo conversar".

- Eu sinto muito, mas agora não vai ser possível. Eu vou acabar chegando atrasado no trabalho se demorar muito por aqui. É melhor se arrumar se quiser que eu te leve – Camus disse mantendo a voz o mais firme possível e se levantou, mas Milo o segurou pelo braço.

- Não vai demorar, eu prometo. – o loiro havia percebido o incômodo do ruivo, mas insistiu – É importante para mim, por favor!

Camus hesitou por um instante. Sabia que não deveria dar atenção para Milo. Sentia que iria ter problemas novamente e, mais uma vez, pensou que fora realmente uma péssima idéia ter vindo para a Ingraterra! Mas acabou fraquejando mais uma vez. Voltou a se sentar e disse, tentando soar desinteressado:

- Está bem, fale logo o que quer dizer.

Milo respirou fundo. Sabia que Camus ia ficar com raiva quando tocasse naquele assunto, mas isso seria um investimento de longo prazo. Ia mostrar que estava consciente de seus erros e arrependido.

- Naquela época eu realmente comecei errado com você. – Camus fez uma careta de desgosto, ao que Milo continuou – Eu sei que você já está cheio dessa história, mas eu preciso muito te dizer isso. Eu comecei sim, a sair com você por causa daquela aposta estúpida e te pedi desculpas por isso porque eu realmente comecei a gostar demais de você. Aquele dia, com aquele cara, eu tinha tomado um pileque pior que o de ontem e na verdade nem me lembrava direito do que tinha acontecido. Só lembrava que você ficou muito magoado comigo. Me desculpe.

Camus estava vermelho de novo, mas agora, Milo sabia, não era vergonha e sim raiva. Levantou-se, com os punhos cerrados, embora não pretendesse bater no outro. Não era do seu feitio. Devia ter deixado aquele grego ser atropelado na noite anterior.

- Seu... Seu... Como você pôde? Você não tinha nada que ter ido naquela maldita festa, enchido a cara e dormido com aquele palhaço! Você sabia que eu não ia te perdoar, então porque fez isso comigo? Eu devia... Eu devia...

O ruivo virou-se, constrangido e se afastou. Havia se exposto demais, novamente. Isso não poderia ter acontecido, de maneira alguma. Se antes Milo já havia zombado dele, agora então, estaria perdido.

- É, eu não devia ter feito isso mesmo. E pode acreditar, não teve um dia nesses anos todos em que eu não tenha me arrependido daquilo. Eu sei que talvez você nunca me desculpe, mas... Eu precisava tentar, não é mesmo? – Milo disse com um sorriso que parecia triste e logo emendou, em outro tom – E agora acho melhor eu me trocar, porque não quero que você se atrase por minha culpa.


Mais ou menos umas dez horas da manhã, Milo entrava ainda tonto em sua loja, onde Mu e, invariavelmente, Aioria o esperavam, ligeiramente aflitos e prontos para um interrogatório. Como era de se esperar, leonino foi o mais rápido:

- Seu maldito, onde você se enfiou ontem? Me deixou preocupado, te procurei um tempão! – Aioria ralhou logo que Milo entrou na loja de discos – O que aconteceu? Ficou tão bêbado que desmaiou em uma lixeira por aí?

- Não grita, seu retardado! – Milo resmungou irritado – Minha cabeça ainda está doendo um pouco...

- Tá, me desculpa. Mas me diz onde você se enfiou?

- Eu acabei capotando no estacionamento e o Camus me levou para a casa dele – o loiro explicou enquanto massageava as têmporas.

O som de dois queixos chocando-se contra o balcão pôde ser ouvido. Milo compreendeu a reação dos amigos e emendou logo:

- É, se eu não tivesse acordado tão mal a minha reação hoje cedo teria sido a mesma de vocês. Ele disse que ficou sem saber o que fazer.

- Certo, mas como logo ele foi te socorrer? Vocês estavam discutindo de novo? – perguntou Mu.

- Não, eu estava tentando conversar com ele novamente.

- E conseguiu?

- Só hoje de manhã, mas acho que acabei falando alguma merda, porque ele não disse nada – em seguida Milo começou a contar aos amigos sobre o que tinha acontecido na noite anterior, ou melhor, tudo aquilo de que ele se lembrava, pois o grego ainda estava sofrendo os efeitos da temível (ou abençoada) "amnésia parcial pós-ressaca".

- Mas então já está tudo mais ou menos bem, não é? – Disse Aioria animado – Você já está amolecendo o cara.

- Espero que sim, mas você sabe, eu te contei como o temperamento dele é difícil...

- Pois eu acho que você deveria tomar mais cuidado de agora em diante – a voz de Mu parecia preocupada.

- Por que? – Milo e Aioria perguntaram juntos sem entender.

- Como "por que"? – O ariano perguntou, cruzando os braços junto ao peito - Você não está esquecendo de nada não?

- Do que eu estaria esquecendo, meu caro amigo de cabeça roxa?

O ariano suspirou pesadamente. Às vezes Milo não raciocinava mesmo, só ficava perseguindo o objetivo sem pensar nas conseqüências que isso poderia ter. Explicou então:

- Você está se esquecendo do tal namorado insano do Camus. Se antes ele já te perseguia, imagine agora! Se ele achar que você dormiu com o Camus...

- Mas eu não dormi com ele! – Protestou Milo – Eu bem que queria, mas ele não iria topar.

- Você sabe disso, eu sei disso, mas você acha que o tal Saga vai acreditar? – Perguntou Mu.

- Não fale "o tal Saga" como se você não o conhecesse. – Debochou Aioria – Você lê a coluna dele toda semana!

- Traidor! Você ainda lê o xxx (insira aqui o nome daquele periódico musical muito, mas muito popular mencionado anteriormente)? Pensei que sua assinatura tivesse expirado mês passado – Milo encarava o amigo de maneira acusativa – Não me diga que você renovou?

- Ah, eu gosto das colunas dele... – justificou-se Mu.

- Seu traidor! Não fale mais comigo, seu Judas! – Bradava Milo, mas em seguida parou – Olha aí, por sua culpa minha dor de cabeça piorou!

- É você que tem algo contra ele, não eu! Que culpa eu tenho que vocês gostam do mesmo cara?

- Ah, como você é cruel! Você não era assim quando eu te conheci – disse o loiro, fingindo estar prestes a chorar – Você está maldoso e malicioso hoje, Mu.

- Mas não é só hoje não, isso tem virado rotina – completou Aioria – E sem contar que ele anda alegrinho demais nesses últimos dias, não é?

O tibetano ficou alerta. Não sabia como o foco da conversa podia ter mudado tanto tão rapidamente, mas agora ele tinha certeza de que teria problemas, porque, pelo visto, os dois amigos iam começar a praticar seu esporte preferido.

- Isso só pode significar uma coisa... – disse Milo dando risada, aparentemente esquecido de sua dor de cabeça.

- Sim, que o Muzinho está apaixonado! – completou Aioria, também rindo.

"Pronto, eles chegaram lá!" – pensou Mu desolado. Era nessas horas em que se arrependia de não dar ouvidos aos conselhos de sua mãe. Agora o negócio era esperar até que os dois se cansassem ou surgisse uma brecha para desviar a atenção deles. O que viesse primeiro. O tibetano nunca gostara de comentar sobre sua vida íntima com ninguém, por isso era comum os amigos dizerem (e pensarem) que ele nunca saía com ninguém, (se bem que, na verdade, ele não chegou a se envolver com muita gente mesmo). Por isso o ariano não se sentia muito à vontade para falar sobre Shaka. De repente se lembrou de algo que tinha acontecido no dia anterior.

No dia (ou seria noite?) anterior:

- Puxa, Mu, isso é incrível! – Shaka disse, impressionado.

- É, eu sempre falo, mas as pessoas não me levam a sério. Acham que eu tenho mal gosto - Mu respondeu com um sorriso tímido.

- Mas não tem, eu achei muito legal mesmo.

- Que bom que gostou, se quiser ouvir os outros depois eu deixo separados para você.

- Ah, eu vou querer sim, quero me inteirar melhor sobre o seu "trabalho" – afirmou o indiano – afinal, eu não entendo muito de música, então vou precisar de umas sugestões.

- Não parece muito o seu estilo virar um "nerd de música" como diz o Aioria...

- Talvez não – Shaka tirou os fones de ouvido enormes que estava usando – mas eu quero conhecer as coisas de que você gosta. Pensa que eu não reparei que você fez a mesma coisa e começou a ler alguns dos meus livros?

- Eu nunca tinha lido muito sobre história, parecia interessante – o ariano tentou se justificar.

- E sua coleção de discos do Bruce Springsteen me parece igualmente interessante, por isso eu vou ouvi-la com muita atenção, enquanto faço outra coisa.

- Faz o que? – Mu perguntou.

- Isso aqui – disse Shaka antes de beijá-lo de forma ao mesmo tempo doce e intensa.

De volta à loja no dia de hoje:

- É, ele está sim, olha a carinha dele! – disse Aioria – Conta aqui para o titio, não precisa ficar com vergonha.

- Ih, Aioria, acho que o negócio foi muito pesado, hein! Olha só, ele está mais vermelho que nunca! Vou até tapar seus ouvidos porque você é muito inocente, não pode ficar ouvindo essa pouca-vergonha! – disse Milo enquanto fingia tapar os ouvidos do amigo – Pronto, Muzinho, pode me contar tudo. Faço questão de saber dos detalhes sórdidos e das bizarrices, viu?

- Mas não aconteceu nada! – protestou o ariano.

- Nem brinca, vai! Com essa cara que você está... – retrucou Aioria.

- É a cara que eu sempre faço quando vocês me atormentam. Não aconteceu nada.

- Nada mesmo? – perguntou Milo incrédulo.

- Nada!

- Porque você é bobo. O loiro está arrastando um bonde por você – O escorpiano disse, como se constatasse algo óbvio.

- Vocês... acham mesmo que o Shaka gosta de mim?

Mu perguntou hesitante, parecendo muito encabulado, sem ao menos se dar conta de que "se entregara" e que Milo só estava "jogando verde" quando disse aquilo. Mas achou que seria maldade demais com o amigo e resolveu não fazer nenhum comentário malicioso. Só por enquanto.

- Tenho certeza – disse o loiro, categórico – rolou alguma coisa entre vocês, não é?

- Bom, ele me beijou algumas vezes e...

- Oohh! Viu como nós estávamos certos? – disse Aioria sorrindo – e depois o que?

- Eu estava mostrando minha coleção de discos do Bruce Springsteen e...

- Ah, o que é isso? – Milo perguntou indignado – Quer espantar o Shaka logo de cara?

- Ele gostou, tá? – Mu protestou.

-Então vocês dois tem o mesmo mau gosto. Tanto melhor, continue, por favor.

- Ele estava me beijando ontem – e de repente Mu soou desanimado – mas aí a minha mãe ligou, eu não atendi, a secretária eletrônica começou a rodar a mensagem com ela reclamando muito, eu atendi e ela ficou mais de uma hora brigando comigo porque eu não fui até a casa dela no último mês, nem telefonei e tal. E para avisar que vem para Londres na outra semana.

O desfecho do relato parecia tão deprimente que Milo e Aioria olharam com pena para o amigo.

- Além da trilha sonora broxante a sua mãe ainda tinha que ligar bem na hora? – Milo parecia revoltado - Mas que empata f...

- Eu acho que foi até melhor – Mu interrompeu o amigo – Além disso, eu não sei, eu tenho um pouco de receio...

- De que?

- E se não der certo e acabar estragando até a nossa amizade? – disse o ariano preocupado.

Milo e Aioria se encararam e deram sorrisos igualmente maldosos.

- Que gracinha, ele está apaixonado mesmo!

- Ah, chega vai! – disse Mu irritado – E, além disso, não era de mim que nós estávamos falando. Já pensou no que vai fazer a respeito do Saga, Milo?

- Eu ainda não sei. Vocês acham que uma boa conversa civilizada resolveria? – perguntou o loiro, já sabendo da resposta. Ao ver a expressão dos amigos completou – É, eu também acho que não...


Era desagradável. Horrível. Insuportável. Camus estava a ponto de arrancar os cabelos de tanta aflição. Sabia que tinha feito uma besteira muito grande no dia anterior e agora só lhe restava pagar o preço e suportar a pior das provações.

Reconstituição 1:

- É, eu não devia ter feito isso mesmo. E pode acreditar, não teve um dia nesses anos todos em que eu não tenha me arrependido daquilo. Eu sei que talvez você nunca me desculpe, mas... Eu precisava tentar.

- E eu sei que não adianta mais me lamentar pelo que eu não fiz, afinal, eu poderia ter virado astronauta, casado com a Kim Basinger ou mesmo nunca ter me envolvido com você, mas eu nunca fiz nenhuma dessas coisas e não fico importunando ninguém por isso. Então vê se me dá um tempo.

Reconstituição 2:

- É, eu não devia ter feito isso mesmo. E pode acreditar, não teve um dia nesses anos todos em que eu não tenha me arrependido daquilo. Eu sei que talvez você nunca me desculpe, mas... Eu precisava tentar.

- Posso até te desculpar, mas vou logo avisando que decidi me tornar hétero a partir de hoje.

Reconstituição 3:

- É, eu não devia ter feito isso mesmo. E pode acreditar, não teve um dia nesses anos todos em que eu não tenha me arrependido daquilo. Eu sei que talvez você nunca me desculpe, mas... Eu precisava tentar.

- Claro que eu perdôo! (Jogando-se em cima do loiro em seguida)

Reconstituição 4:

- É, eu não devia ter feito isso mesmo. E pode acreditar, não teve um dia nesses anos todos em que eu não tenha me arrependido daquilo. Eu sei que talvez você nunca me desculpe, mas... Eu precisava tentar.

- Vá para o inferno, Milo! (Joga o grego pela janela em seguida).

Enfim, sentado em sua mesa de trabalho, Camus passava por maus momentos. Em seu rosto se sucediam as mais variadas expressões de desagrado, e, ao mesmo tempo, suas mãos se ocupavam em desarrumar seus cabelos, como se isso pudesse distraí-lo dos pensamentos que o atormentavam. Mas, obviamente, não iria funcionar, pois agora ele estava condenado a passar um bom tempo tendo idéias sobre o que deveria ter dito ou feito naquela hora em que Milo lhe "explicou" o incidente de anos atrás. E, como todos devem saber, é muito cansativo ficar editando e re-editando mentalmente certas passagens da própria vida onde você deveria ter dado "aquela" resposta espetacular, mas, por alguma razão, na hora certa não conseguiu pensar em nada adequado para dizer.

De repente, Camus sentiu que estava sendo observado. Ergueu os olhos e deparou-se com Shura parado diante de sua mesa, parecendo fazer um esforço imenso para não cair na risada. O ruivo bufou, visivelmente irritado, e disse:

- Pode rir, anda. Eu sei que eu mereço.

- Eu nem vou perguntar o que aconteceu para te deixar desse jeito porque estou com medo que você exploda de raiva. – disse o espanhol. Mas, depois de fingir pensar por um segundo, continuou – Por outro lado eu estou curioso e acho mais importante satisfazer minha curiosidade que me preocupar com a sua fúria. Por isso, comece a falar, mocinho.

Shura puxou uma cadeira e sentou-se diante do amigo, apoiando as mãos e a cabeça no encosto, dando a entender que estava pronto para ouvir.

- Não aconteceu nada de mais... – disse Camus visivelmente incomodado.

- Você não é do tipo demonstra tanta irritação com "nada de mais". Anda, pode falar – replicou Shura.

- Mas não foi nada mesmo. Vamos deixar isso de lado...- insistiu, ou melhor, quase implorou o francês.

- Vai-contando-logo! – disse o espanhol com jeito de que não estava para brincadeiras.

Camus já estava cansado daquilo e entendeu que o amigo não iria desistir do interrogatório, por isso resolveu contar o que o aborrecia de uma vez. Respirou fundo e começou a falar, mas sem se dar conta, narrou a história toda desde o começo, com o reencontro com Milo, a reação de Saga, sua ida à loja do loiro e os eventos da noite anterior.

Shura ficou impressionado ao ver seu amigo, sempre tão lacônico e discreto, falar tanto. Camus devia mesmo estar perturbado mas, a seu ver, a solução era muito simples:

- Bem, meu amigo, o que você tem que fazer é: jogar limpo com o Saga e em seguida se entender de uma vez com o tal de Milo já que você gosta dele. Se ele te trair de novo, você trai ele também e os dois ficam quites.

- Não acho que seja a solução mais adequada – disse o aquariano friamente.

- Mas é claro que é – disse o espanhol como se fosse algo óbvio – ou então começa a sair com mulher que dá muito menos trabalho...

Camus apoiou o rosto sobre um braço em cima da mesa, com um ar exasperado. Shura levantou-se e disse:

- Eu estou falando sério. É óbvio que você está louco para dar mais uma chance para aquele cara, então não sei porque fica dificultando tudo. Tenta mais uma vez, você não tem como saber se vai dar certo se não fizer isso. E se der errado, então paciência. Eu sei que você agüenta o tranco.

Camus não respondeu nada. Parecia pensar a respeito das palavras do amigo.

Shura continuou:

- Pensa um pouco no que eu te disse e decide o que vai fazer. Só não adianta você ficar aí, todo agoniado e não fazer nada. – parou, como se de repente lembrasse de algo – Ah sim, nada a ver com o que nós estávamos falando, mas foi o que eu vim te dizer. Sua mãe ligou e avisou que está despachando seu primo para cá por uns tempos.

O ruivo arregalou os olhos, incrédulo:

- Como assim? Sem avisar? Ela não disse nada?

- Ela mencionou algo sobre ele estar dando muito trabalho. Esteja preparado – disse Shura rindo.

"Era só o que me faltava. Como se eu já não tivesse problemas o suficiente" – pensou Camus desolado.


Alguns dias se passaram. Milo não tivera nenhuma notícia de Camus, mas decidiu não procurá-lo por ora. Achou melhor dar um tempo ao outro antes de partir novamente para o ataque. Prometeu a si mesmo que seria paciente e não faria nada precipitado dessa vez.

Como naquele dia havia acordado bem disposto e, excepcionalmente, não estava atrasado, decidiu ir a pé até a Station. Mal podia imaginar que em menos de vinte minutos estaria se maldizendo por causa dessa idéia já que, enquanto andava tranqüilamente pensando em um top cinco de músicas para fazer com os amigos ("música alegre para sair de uma fossa, vai ser isso", pensou), encontrou alguém que não desejava ver, absolutamente.

Saga tirou os óculos escuros e aproximou-se, com uma expressão serena.

- Bom dia, Milo, que bom que está de bom humor. Nós precisamos ter uma conversinha. De novo.

- Eu estava de bom humor, Saga – disse Milo irritado. E eu não tenho nada para conversar com você.

- Ah, tem sim. Você até tinha me desafiado, não se lembra. Achei muito audacioso da sua parte.

O loiro engoliu em seco. Era óbvio que Saga não iria esquecer o episódio do "recado via disco". Saga chegou mais perto e passou um braço em volta dos ombros de Milo, dizendo:

- Vamos nessa, procurar um lugar sossegado para conversar.

- Eu vou é trabalhar, que eu tenho mais o que fazer e se você...

- Ah, você vem sim, ou eu não respondo por mim – e, dizendo isso, Saga soltou os ombros de Milo para, em seguida, colocar junto às costas dele algo muito parecido com uma arma (não que Milo já tivesse visto uma arma, mas ele imaginava que a sensação de ter uma encostada em si era exatamente aquela que ele sentia naquele momento).

- Tá certo, já que é só um papinho amigável né... - disse Milo enquanto se deixava conduzir até o carro de Saga – "Pronto, agora eu me ferrei legal!".


Olá para todos!

E mais uma vez eu peço desculpas pela demora na atualização, eu sei que eu disse que ia tentar demorar menos, foi mal...

Talvez o capítulo esteja meio cansativo porque tem muita falação e pouca ação, por isso também peço desculpas. Eu pretendo que o próximo seja mais movimentado. Bom, o título do capítulo provavelmente é conhecido por muita gente, é um trecho da música "Good Times, Bad Times" do primeiro disco do Led Zeppelin, de 1969, se não me engano.

Quero agradecer imensamente a todos que estão lendo a fic e a quem comentou os capítulos até aqui, e principalmente à Lhu Chan, que me faz a enorme gentileza de revisar e corrigir as besteiras que eu eventualmente escrevo. Brigadão Lhu!

Abraços e até a próxima!