Capítulo Sete
-Ai,ai- disse Brian, pendurando-se na beira da piscina junto com Draco.- Agora é que são elas.
-Achas?- perguntou Draco.
-Era a voz de zangada da mamã.- explicou-lhe Phoebe, do outro lado do homem louro.- Ela só usa aquela voz quando está furiosa, ou seja, quando fazemos uma asneira muito grande.
-Sim. Significa sempre que vamos levar um castigo. Mas não te preocupes, ela não te vai magoar. A mamã não nos bate com o sapato nem nada disso.
-Ela diz que é maltratar os filhos.- Phoebe acrescentou.- Ela só nos põe num canto sozinhos e não nos deixa voar, tira-nos as varinhas de brincar. Coisas assim.
-Compreendo.- Draco disse, tentando esconder um sorriso.
Ginny tinha um par de crianças muito vivas. Tirando os olhos azuis, a menina era uma Ginny em miniatura. Brian, com o cabelo louro e olhos azuis, deveria ser parecido com Colin.
Draco morria de inveja de um cadáver, o homem que casou com Ginny e morreu assassinado por um ex-Devorador da morte. Nem sequer tinha conhecimento de que Ginny já era mãe até poucas horas atrás, quando Bill tinha ido á cabana e o tinha livrado da teia que Ginny tinha enrolado em torno dele. Bill era o único parente de Ginny que gostava de Draco.
-Ai,ai. Aí vem ela!- Brian exclamou depois de ouvirem a porta bater.
Draco observou Ginny enquanto ela se dirigia à piscina como um hipogrifo ofendido. Com as mãos nas ancas, lançou-lhe um olhar capaz de fazer o Diabo tremer.
Draco colocou os braços sobre os ombros das crianças e esboçou o seu melhor sorriso.
-Não és capaz de me bater em frente das crianças, pois não?
Phoebe tapou a boca, soltando um risinho.
-A mamã não bate, tolo. Já te disse.
-Talvez faça uma excepção neste caso- ameaçou Ginny, com o maxilar apertado.- Phoebe, Brian, vão para dentro e vistam-se imediatamente. Quero falar a sós com este homem, por favor.
Os gémeos saíram da piscina. Com a água a pingar dos cabelos e do pequenino fato de banho rosa, Phoebe puxou a mão da sua mãe e disse-lhe num sussurro um pouco estridente.
-O tio Ron estava enganado. Ele não cheira mal.
-Não lhe ralhes muito. Gosto dele.- Brian sussurrou, por sua vez.
Draco viu o rosto de Ginny suavizar-se com os comentários dos filhos.
-Os dois. Trocar de roupa depressa.- ela disse.
-Sim, senhora.- exclamaram os gémeos em uníssono.
Draco sorriu quando as crianças desataram a correr.
-São fenomenais.- ele afirmou.- e nadam muito bem.
-O que queres dizer com isso?- Ginny disse ferozmente.
-Que é estranho, visto que não gostas muito de água.
-As coisas mudam. Em cinco anos, muitas coisas mudaram.
-E outras não mudam. Continuam saltando faíscas cada vez que estamos próximos.
Ginny recuou um passo.
-Não te aproximes de mim, Draco.
Draco saiu da piscina e levantou as mãos num gesto de inocência.
-Não te toquei.
Os olhos de Ginny semicerraram-se.
-Eu conheço-te!- ela disse.- Como me encontraste?
-Não foi difícil. Com os conhecimentos certos, um bom dinheiro, podes encontrar quase tudo.
-Muito bem. Encontraste-me. Agora dá meia volta e vai-te embora por onde vieste.
Draco esfregou a cabeça energicamente com a toalha que estava sobre o encosto da cadeira, e depois secou a cara. Pegando nas pontas da toalha, lançou-a ao pescoço de Ginny e atraiu-a para si.
-Não posso.- murmurou Draco.
-Por que não?
Capturando o olhar de Ginny com um fascinante dos seus, Draco baixou lentamente a cabeça, procurando os lábios dela.
-Não.- disse ela, com voz rouca e suave.
Draco deteve-se a dois centímetros da boca dela. Ginny não se moveu, mas ele ouviu que continha a respiração. Estava tão perto de Draco que se estremeceu de desejo só de cheirar o perfume dele.
-Quero... que vás... embora- afirmou Ginny, ainda sem se mexer.
-Mentirosa.
-Não me faças isto, Draco.- ela disse, suas palavras eram uma súplica desesperada, mas sem convicção.- Deixa-me em paz.
Ela foi buscar o que restava da sua força de vontade e afastou-o dela. Suspirou de alívio quando viu que ele estava suficientemente longe dela para ela conseguir se controlar. Ela deu a volta e dirigiu-se para a casa.
-Impossível. Voltei e quero-te para mim.- ele murmurou para si mesmo.
A porta da cozinha abriu-se, e Alma saiu abanando as ancas com um tabuleiro nas mãos.
-Senhor Malfoy, apetece-lhe um sumo de abóbora?
-Obrigado, Alma.
Draco pegou no copo e bebeu o sumo de uma vez só.
-Excelente. Fazes o melhor sumo de abóbora do mundo. Porque não nos livramos do Javier e nos casamos?
A mulher riu com a piada.
-Oh, senhor, está louco- replicou Alma, e aproximou-se de Draco para lhe dizer no ouvido- Gosto da Senhora Ginevra. É encantadora. Muito bonita. E os pequenos, oh, são uns doces.
-Tenho que te pedir que guardes o nosso segredo um pouco mais, Alma. Não quero que Ginny saiba que eu sou o dono da casa. Ainda não.
-Não percebo porquê. É uma casa magnífica.
-Eu sei, mas confia em mim. É melhor que ela não saiba de momento. Era capaz de ir embora agora mesmo se soubesse. E outra coisa, lembra-te de me chamar Draco. Nada de Malfoy ou Abraxas.(N/A: O nome dele é Draco Abraxas Malfoy nesta história)
-Sabe que não gosto de o chamar pelo primeiro...
-Tem de ser, Alma. E lembra o Javier.
Alma encolheu os ombros e abanou a cabeça com um olhar expressivo, em jeito de repreensão.
-Está bem.
-E vou dizer a Ginny que tu me convidaste a ficar.
-Eu? Mas senhor Mal...Draco.
-Sim. Tu só tens que seguir o jogo, Alma. Por favor.
Quando a mulher foi embora, Draco ainda ouviu-a sussurrar algumas coisas em espanhol durante todo o caminho até casa.
Ainda trémula, Ginny apoiou-se na porta fechada do seu quarto. Precisamente quando começava a recuperar-se do seu último encontro com Draco, ali aparecia ele outra vez. E ela não tinha recuperado nada. Estar ao lado dele provocava sempre um caos entre as suas emoções. Teve vontade de afogá-lo quando o viu na piscina com as crianças. Mas, ao contemplar o olhar suplicante do seu filho, a sua ira evaporou-se.
Os olhos de Brian, a expressão de Brian, eram uma réplica exacta das do seu pai. De Draco. Phoebe também tinha os olhos dele, mas Brian parecia a versão de quatro anos do seu pai. Draco devia estar cego se ainda não tinha notado a espantosa semelhança que havia entre eles.
Ou teria notado?
Com certeza que não.
Oh, Deus, o que podia fazer? Os gémeos ansiavam por ter um pai, como as outras crianças, mas tinham aceitado a idéia de que o seu pai, Colin Creevey, morrera quando eles ainda eram bebés. Mas o verdadeiro pai deles era Draco Malfoy e estava ali.
Tinham os gémeos o direito de saber que Draco era o verdadeiro pai deles?
Tinha Draco o direito de saber que tinha dois filhos?
Ginny começou a passear de um lado para outro, com o coração doente e despedaçada pela situação, tentando tomar uma decisão. A deserção de Draco durante cinco longos anos tinha sido um golpe muito duro. Nada na vida tinha doído tanto. Ver-se abandonada e grávida levou-a a um buraco negro de depressão tão horrível e profundo que tinha chegado a pensar em suicídio para escapar daquele sofrimento terrível. Durante semanas intermináveis, meses intermináveis, não lhe importou viver ou morrer. E Draco Malfoy era o único culpado de todos e cada um daqueles dias infernais. Não confiava nele. Achava que não podia confiar nele outra vez. O seu primeiro instinto foi proteger as crianças e a si mesma fazendo as malas e saindo dali o quanto antes, para bem longe.
Mas ela já tinha feito isso e não tinha resultado.
E ela era uma pessoa justa. Talvez Draco e as crianças merecessem desfrutar de algum tempo juntos, mesmo desconhecendo os seus verdadeiros laços.
Ginny não estava com vontade de lhe contar. Não parou de dar voltas e voltas aos seus pensamentos. Quando desceu para jantar duas horas depois, ainda se sentia numa encruzilhada. Talvez estivesse a preocupar-se por nada. Talvez Draco tivesse acedido as suas súplicas e se tivesse ido embora. Talvez ver que tinha dois filhos o tivesse assustado.
E talvez o oceano Atlantico fosse Cerveja de Manteiga.
Vestido com calças pretas e camisa branca fora das calças, Draco Malfoy estava sentado no sofá junto com as crianças que o observavam enquanto ele fazia alguns truques com a varinha. Phoebe estava no colo dele e Brian observava cada um dos movimentos dele com descarada admiracção de fã pelo seu heroi.
Draco desviou o olhar e esboçou um sorriso que fez Ginny sentir a força abandonar as suas pernas. Por que é que Deus lhe tinha feito tão bonito? O calor sedutor que emanava foi direito dos lábios de Draco ao coração de Ginny, como se fosse um dardo.
Draco colocou Phoebe sobre o sofá e levantou-se, meteu as mãos nos bolsos e dirigiu-se a Ginny.
-Olá, ruiva. Estávamos quase a mandar um batalhão chamar-te. Este cheiro que vem da cozinha está a abrir-nos o apetite.
Brian levantou-se e colocou as mãos nos bolsos tal como Draco.
-Sim, estamos com muita fome.
-É a carne assada da Alma- afirmou Phoebe, abraçando uma perna de Draco- E o Draco cheira bem, diz que é um "pefume" chamado Boss. Comprou em Roma, que fica em Itália. Ele tem uma casa lá, sabias? Mas já viveu muito tempo aqui em Londres, como nós. Ele disse que andou em Hogwarts como tu, mamã.
-Sim, eu sei- Ginny respondeu e depois virou-se para Draco.- Pensava que já te tinhas ido embora daqui.
-Oh, não. Faço tenção de passar aqui uns dias contigo e com as crianças. Alma disse-me que não representaria nenhum problema.
-Enganou-se. Lamento, mas temo que não haja quarto para ti.- ela disse com falsa doçura, tentando guardar a educação á frente das crianças.
-Pode ficar no meu quarto – interveio Brian.- Pode dormir na cama de cima do meu beliche.
-Sim – disse Draco, sorrindo maliciosamente. - Posso dormir na cama de cima no quarto do Brian.
-Acho que não vais ficar muito cómodo ali.
-Não te preocupes, sei adaptar-me às situações. Então, vamos jantar?
-Sim.- gritaram as crianças.
-Vamos, ruiva!- Draco agarrou o braço de Ginny pelo cotovelo, e apesar de todos os protestos que ela resmungou, arrastou-a até á sala de jantar.
Depois do jantar, Ginny refugiou-se no seu quarto sem sequer dirigir uma palavra a Draco.
Este estava tentando dormir. Já passava das dez e Draco sentia-se muito infeliz. Brian já dormia, mas o louro mais velho permanecia encolhido na cama de cima do quarto do pequeno, desejando estar na confortável e grande cama que tinha lá embaixo, no seu quarto. Aquelas camas não tinham sido desenhadas para adultos do seu tamanho.
Por volta das onze sentia-se ainda pior. Como é que conseguiria dormir sabendo que Ginny estava deitada a escassos metros de distância? Só os separava uma parede, mas tinha os mesmos efeitos que se estivessem separados por um continente. E ainda assim, o corpo respondia-lhe como se ela estivesse nos seus braços.
Inquieto, mudou de postura, tentando desesperadamente encontrar uma maneira de descansar sem que as cuecas o oprimissem. Normalmente dormia nu, mas como havia crianças, tinha vestido uns calções.
Á meia noite continuava acordado, contemplando as sombras projectadas no tecto pelo luar. Não havia demasiada distância entre ele e o tecto. Se fizesse um movimento brusco ou descuidado iria provavelmente colidir com o tecto ou cair da cama. Mas suportava o risco. Só por Ginny.
N/A: Quero deixar um especial agradecimento a Mari Gonzalez por ter se oferecido para betar minhas fics. Obrigada!D
