Os olhos dele derretiam debaixo daquela luz cansada.

Ele estava com sono — ela percebeu e sentiu vontade de chorar porque soube que nada aconteceria, mais uma vez. Mas ele era apenas um menino, apesar dos quase vinte anos. Um menino sentindo o chão ondular debaixo dos pés porque havia uma garota sentada ao seu lado.

E, por Deus, como os olhos dela brilhavam.

Ela sabia que mataria e morreria se ele quisesse que ela o fizesse.

Mas eram quase quatro da madrugada e ele ainda estava esperando. Esperando que ela pegasse sua mão por entre as almofadas do sofá. Esperando que ela deitasse a cabeça em seu ombro e dissesse qualquer coisa que ele não prestaria atenção porque estaria ocupado demais pensando no que fazer. Esperando que ela o olhasse com olhos naufragados e perguntasse de quanto tempo mais ele precisava para perceber que ela o amava.

Esperando que ela fosse sua.

Mas nada aconteceu.

Ela deixou os ombros caírem — ele viu e se perguntou que diabos estava fazendo ali — e bebeu um gole do chá que fumegava na caneca. E continuou assistindo o maldito filme sem realmente vê-lo. Porque desde aquela noite estrelada de fim de ano, há muito tempo atrás — foram meses que pareceram séculos —, quando ele lhe ofereceu sua camisa de flanela ao perceber que ela estava com frio, tudo o que Sakura conseguia ver eram aqueles olhos de escuridão que a tocavam como um suspiro.

Uchiha.

Será que ele imaginava que ela murmurava seu nome toda noite antes de dormir? Será que um dia ele se importaria?

Então ele riu baixinho, aquele riso de menino. Ela fingiu ter visto a tal coisa engraçada no filme e riu também. Riu pra ele — e se ele tivesse percebido que quando estavam juntos, havia sempre um sorriso maior que o mundo no rosto dela, talvez já tivesse tomado coragem para beijá-la. Eles se olharam, os olhos dele se perdendo no brilho dos olhos dela, até que aquela coisa estranha aconteceu — um overload — e ela desviou o olhar para as próprias mãos.

Sentiu o sorriso murchar e o rosto esquentar.

Até quando continuaria doente daquilo? Doente dele.

Sakura viu a noite passar sentindo-o tão perto e ao mesmo tempo tão longe. E antes que ele desligasse a luz e os entregasse às sombras, ela ainda o olhou com olhos que chamavam — gritavam — uma última vez. Mas ele apenas sorriu, ah... Aquele sorriso que pedia desculpas e que ela nunca entendeu, e desejou-lhe uma boa noite.

Então o escuro.

Deitada em seu colchão aos pés da cama dele, ouvindo-o respirar no silêncio sepulcral do quarto, ela se perguntou se um dia ele a amaria como ela o amava naquela noite fria.


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E a gente só suspira imaginando esses dois, não é?

Muito obrigada a todos que estão acompanhando e comentando a fanfic.