A Substituta
Autora: Érika
"Saint Seiya" é propriedade de Masami Kurumada, Shueisha e Toei Animation.
Capítulo 2 - Parte 4
Shun, Ikki e Hyoga encontravam-se em outra parte do Santuário. Eles estavam sentados lado a lado, mas mantinham-se calados, havia um certo distanciamento entre eles, como se estivessem muito longe uns dos outros. E realmente era o que acontecia naquele momento, pois cada um estava imerso em seus próprios pensamentos.
Shun sentia um imenso cansaço mental, fruto de suas incertezas e receios. Seu pensamento insistia em voltar no tempo, quando ele ainda era somente um pobre garotinho, do qual todos zombavam. Contudo, ele não era infeliz, pois tinha seu irmão para protegê-lo de qualquer pessoa ou perigo. Mas então chegou o dia em que eles tiveram que ir embora do orfanato, e Ikki fora para um destino que não era o dele, e durante longos oito anos eles estiveram separados, vítimas de um caminho que não haviam escolhido. E depois... Ikki convertera-se em um desconhecido, apenas uma vaga lembrança daquele irmão que sempre o defendia de tudo e de todos. No entanto, não demorara muito para que ele voltasse a ser o mesmo de antes. Claro, continuava tendo um gênio muito difícil, mas essa era a sua personalidade, não havia como modificá-la. Todavia, Shun sentia-se inquieto; perdera algo muito precioso para ele, pois os anos em que ele e o irmão não estiveram juntos eram irrecuperáveis.
Era verdade que ele nunca pensara muito nisso antes, mas também não tivera tempo, porque tudo acontecera rapidamente: o Torneio Intergaláctico, a aparição de um estranho chamado Ikki, outras lutas, a suposta morte de seu irmão, seu reaparecimento... e tantas outras batalhas, até a derradeira. Entretanto, Shun não queria deter-se neste ponto, na batalha contra Hades, mas era inevitável, porque sua culpa era real, já que, usando seu corpo, Hades causara muitos males.
"Se eu fosse mais forte... Eu sucumbi ao domínio daquele deus... e Seiya morreu. Por outro lado, eu deveria sentir-me um pouco consolado, pois meu irmão está aqui comigo, meus outros amigos sobreviveram... mas um deles morreu. E o único que deveria expiar suas culpas com a morte sou eu. Além disso, eu sou fraco, dependente... Não há dúvida de que os deuses gostam de se divertir conosco, meros mortais, porque é ilógico que Seiya, que sempre fora tão forte e valente, já não esteja entre nós e, em troca, eu esteja aqui" , pensou Shun amargamente. Porém, logo em seguida ele corrigiu seus pensamentos: não, não era ilógico, ele tinha mesmo que sobreviver para pagar por seus erros, seria injusto que ele também tivesse morrido e, assim, pudesse esquecer. Nada disso, ele tinha que viver, pelo sacrifício que Seiya fizera. E no entanto, Shun sabia perfeitamente que já não poderia esperar mais nada da vida ; não havia esperança, apenas um futuro muito escuro, pois ele estava certo de que as lutas ainda não haviam terminado ; e neste momento, sentiu um medo indescritível. Mas não por ser supostamente covarde, e sim por estar condenado a viver naquele mundo tão triste.
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Alexei Hyoga estava pensando para onde ir, agora que a luta contra Hades acabara e ele e quase todos os seus amigos conseguiram sobreviver (por milagre, talvez?). Neste instante, ele sentiu-se outra vez como aquele menininho que precisava tanto de sua mãe. Mas ela se fora e isso acontecera havia muito tempo. Ele já não tinha mais opções, não tinha como se refugiar nos braços de alguém... porque não havia ninguém. Isto é, ele tinha seus companheiros de lutas, mas não era a mesma coisa, pois sua carência era mais profunda. E novamente, aquela pergunta em sua mente: "Para onde devo ir?"
Quem sabe voltar para a Sibéria?... E por quê? Camus enviara o navio no qual se encontrava o corpo de sua mãe a uma parte inacessível do mar. Então, seria inútil voltar para lá, pois seria uma tortura estar tão perto e ao mesmo tempo tão longe de sua mãe. Mas afinal, ele nunca mais poderia aproximar-se dela mesmo, já que ela estava no outro mundo... Nesse caso, talvez Camus tivesse agido corretamente, embora não pelas razões que ele expusera. Na verdade, provavelmente era melhor que ele já não pudesse visitar o túmulo de sua mãe, para que, dessa forma, pudesse enterrar suas recordações junto com ela. De qualquer maneira, a pergunta ainda permanecia: para onde ir? Se houvesse algum lugar no qual ele pudesse ignorar o frio... E este frio não estava em seu corpo, e sim em seu coração. Porque faltava algo, alguma coisa de que ele precisava... Mas o que seria? Talvez alguma perspectiva ou objetivo... Não, ele não deveria ser negativo, precisava olhar adiante, para o seu futuro. Porém, uma vez mais a dúvida aflorava em seu interior: qual era o seu lugar?
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Ikki estava se sentindo angustiado, embora fosse irônico que o cavaleiro de Fênix, indiferente a todo o frio e a toda dor, pudesse experimentar tal sentimento. Todavia, apesar de sua rispidez e modos bruscos, Ikki tinha uma certa sensibilidade, embora ela só aflorasse em ocasiões específicas. Na verdade, Ikki estava tão acostumado a aparentar invulnerabilidade perante todas as pessoas, que já não conseguia reconhecer a si mesmo. Certamente ele não era tão emotivo quanto seu irmão, mas talvez não houvesse realmente uma grande diferença entre eles, afinal, nas circunstâncias mais desesperadoras, Shun demonstrava uma coragem e uma força de vontade insuperáveis.
"Muito mais do que eu. Porque... o que eu fiz até hoje? Eu sempre falhei com todos. Fui mandado para aquela ilha infernal, não pude defender Esmeralda, tornei-me um infeliz, quis matar meu próprio irmão... um pobre inocente, com todo o valor que eu jamais terei. Fui um arrogante, imaturo ao querer machucá-lo, culpando-o por meu destino desafortunado. Claro, eu sempre precisava culpar alguém... porque eu nunca quis reconhecer meus próprios erros. Mas afinal, o que eu posso fazer? Fracassei como irmão, não pude dar ao Shun uma vida bonita e tranqüila como ele sempre quis. Quando ele ainda era uma criança, eu podia enganá-lo, esconder-lhe os sofrimentos e a crueldade e fingir que o mundo era perfeito... só que agora não sei como ajudá-lo. Antes ele podia chorar no meu peito, enquanto eu o amparava e dizia várias mentiras mais belas do que qualquer verdade jamais poderia ser, mas hoje... eu já não sei o que dizer, pois procurei as respostas e nunca consegui encontrá-las. Talvez se eu tivesse a inocência do meu irmão... mas mesmo ele agora conserva um olhar triste, tão estranho em um jovem com um coração tão puro... E eu sou o único responsável, por ter construído para ele um castelo de ilusão, quando eu deveria tê-lo acordado para a realidade e mostrado como é o nosso mundo de verdade. No fim ele descobriu, só que sozinho, e eu sei que até hoje ele ainda não está preparado. Certamente, ele está culpando a si mesmo pela morte de Seiya. Eu deveria consolá-lo, mas não sei como, sinto-me impotente por não ter podido salvar nosso amigo. Ele... ele me tirou do ódio, eu voltei para o meu irmão. E em troca, o que eu fiz por ele? Deixei que morresse pela espada de Hades. Mas talvez não faça diferença, porque eu creio que esse será o destino de todos nós. Outras lutas virão e a vida sempre será um ciclo infernal de eterno recomeço."
Ao pensar em tudo isso, Ikki olhou de soslaio para Shun e, em seguida, para Hyoga, porém sem realmente vê-los. De repente, sentiu uma vontade quase insuportável de recuperar a vida que havia perdido, encontrar o sorriso que havia deixado esquecido em algum lugar do passado. Mas nesse momento, seu rosto estava tão inexpressivo que dir-se-ia que ele era uma pessoa que havia experimentado todos os sentimentos possíveis de uma só vez e agora já não era capaz de sentir mais nada. E de fato, Ikki já não sentia mais angústia, só um vazio em seu coração.
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Shiryu estava procurando por seus amigos, mas não conseguia encontrá-los. Isso não era estranho, já que o Santuário era um lugar enorme, portanto, eles poderiam estar em qualquer parte. De qualquer modo, talvez fosse melhor assim, provavelmente eles prefeririam ficar sozinhos com seus pensamentos. Pelo menos esse era o caso de Shiryu, e ele imaginava que mesmo que Shun, Hyoga e Ikki estivessem juntos, era bem possível que cada um estivesse perdido em suas reflexões, ignorando a presença dos demais.
Para ele, não era difícil ter alguma idéia do que seus companheiros estavam sentindo, mesmo os sentimentos mais profundos. Até mesmo no que se referia a Ikki, embora ele fosse mais enigmático, Shiryu tinha uma sensibilidade bem apurada, logo, era capaz de fazer alguma suposição sobre o que se passava no interior do cavaleiro de Fênix. Ademais, havia um laço muito forte entre todos eles, então, Shiryu estava consciente de que ele mesmo e seus amigos tinham um só coração e emoções semelhantes. Apesar de ele ter a impressão de que seus parceiros não compartilhariam (ao menos nesse momento) de sua tranqüilidade. Porque Shiryu realmente era uma pessoa de natureza serena, se bem que ficara abalado com a morte de Seiya, é claro, pois ele fora seu melhor amigo, um irmão, tudo.
Certamente, o cavaleiro de Dragão jamais poderia se esquecer de como o cavaleiro de Pégasus salvara a sua vida no Torneio Intergaláctico. Outra pessoa, no lugar de Seiya, talvez não tivesse se importado, porque afinal, eles estavam lá para lutar até as últimas conseqüências e, embora segundo as regras do torneio fosse proibido matar o oponente, não seria de se admirar se alguém tivesse morrido, já que os combates foram muito perigosos. Obviamente seria uma mácula para Saori Kido, pois fora ela quem organizara o torneio, e somente por isso ela ficaria abalada se tivesse ocorrido alguma morte, porque naquela época (ou seja, havia apenas uns poucos meses) Saori era uma egoísta e a única vida que tinha valor para ela era a sua mesma. Realmente ela mudara muito em tão pouco tempo. De qualquer maneira, nada de mal acontecera a Shiryu, pois Seiya o salvara, se bem que não tinha nenhuma obrigação de fazer isso, pois apesar dos momentos que passaram juntos na infância, anos depois eles eram somente dois estranhos, já não existia qualquer resquício de amizade entre eles. Entretanto, Seiya fora muito nobre, e mesmo estando muito ferido, fizera um tremendo esforço para salvá-lo, e com isso conquistara a eterna admiração de Shiryu.
As palavras de Seiya, ditas quando os dois já estavam no hospital, recuperando-se do confronto, permaneceram fixas na memória de Shiryu :
- De fato, eu não tinha por que tentar impedir que você morresse, já que o tempo e os anos de treinamento nos distanciaram de tal maneira, que eu quase não pude reconhecê-lo agora, apesar de que você não mudou tanto assim fisicamente. Mas em nome daquela amizade que ficou no passado, eu nunca poderia permitir que você morresse por minha culpa. Talvez eu não tivesse a obrigação de ajudá-lo como cavaleiro, mas como ser humano, essa era a minha responsabilidade.
E fora nesse instante que Shiryu soubera que, mesmo perdendo a amizade que eles tiveram na infância, havia conseguido recuperá-la graças a uma batalha. Isso era irônico, porque em uma luta só existiam perdas, o próprio vencedor às vezes perdia mais do que o derrotado. Mas era normal que Shiryu pensasse dessa forma, afinal, era comum que durante certos combates ele fizesse o possível para tentar convencer o adversário a passar para o seu lado, e estranhamente algumas vezes acabava fazendo com que seus oponentes se convertessem em seus amigos. Isso ocorrera com Okko, Shura e com o cavaleiro negro de Dragão, sendo que estes dois últimos até mesmo o salvaram. Presenciou o sofrimento deles, nunca pôde retribuir o gesto nobre de nenhum deles. E com Seiya, esse sim seu grande amigo, ocorrera o mesmo.
"Ele impediu a minha morte, mas eu não impedi a dele. Agora já não me resta mais nada a não ser rezar por ele e por seu descanso eterno" , pensou Shiryu com um suspiro resignado, enquanto decidia-se a voltar para Rosan, porque aquele era seu lugar, e acontecesse o que acontecesse, ele sempre voltaria para lá. Todavia, após todas essas reflexões, algo começava a perturbá-lo: depois de assistir ao sacrifício de todos aqueles que o apoiaram, e não fazer nada em troca (por fraqueza?), que espécie de ser humano ele era?
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"Seika" caminhava pelo Santuário, pensando no que deveria fazer. Ela tinha duas opções, no entanto, estava propensa a seguir a primeira que tinha em mente, afinal, não tinha por que esperar mais; conseguira o mais difícil: entrar no Santuário sem que ninguém desconfiasse dela. Sim, todos se mostraram tão crédulos que ela ficara (agradavelmente) surpresa, pois nunca imaginara que ainda existissem pessoas tão ingênuas no mundo. A própria amazona de Ofiúco, Shaina, quem supostamente a encontrara (pois na verdade fora "Seika" quem se deixara encontrar por ela) era uma tola, mas ao observá-la, ninguém diria isso, porque ela parecia inteligente. "Mas acreditou que eu sou Seika, então ela é tão estúpida quanto os outros", pensou "Seika" com um sorrisinho divertido. Em seguida ficou séria, pois aquela não era uma ocasião para pensamentos sarcásticos, pelo contrário: ela precisava enfrentar sua situação seriamente.
Para começar, já vira que Athena era uma pessoa débil, muito diferente da Athena mitológica, logo, isso tornava sua tarefa menos complicada. Por outro lado, ela tinha muitos cavaleiros a seu dispor, vários deles em partes diferentes do mundo, mas bastaria que alguém os convocasse e, claro, eles viriam prontamente. E quanto a ela? Também tinha muitos cavaleiros, mas não tantos quanto Athena. Neste caso, qual seria a melhor estratégia a adotar? Um ataque surpresa? Não, isso não, pois "Seika" efetivamente não estava planejando uma batalha contra o Santuário, ela já possuía o seu, e não sentia o menor interesse em conquistar o mundo. Sua imaturidade ou ganância não chegavam a esse extremo, embora ela fosse uma pessoa bastante vaidosa, não só na aparência, mas principalmente no caráter. Decididamente seu plano era mais simples, se bem que não fosse tão fácil de se executar. Por outro lado, a fraqueza de Athena era um ponto a seu favor, ela poderia aproveitar-se disso e conseguir o que queria, ou melhor, o que era seu por direito. O problema eram os cavaleiros dela, obviamente eram muito leais e talvez interferissem. Mesmo assim, Athena era a deusa, e ainda que eles não quisessem, teriam que obedecê-la.
Outrossim, havia certas coisas a considerar, e "Seika" não estava muito segura de que aquele fosse o momento propício para agir. Duas forças antagônicas a dominavam ; uma lhe dizia que deveria fazer algo agora, mas a razão lhe dizia que talvez fosse melhor esperar algum tempo. Se bem que ela já não precisava de mais nada, Athena voltara e isso era tudo o que lhe importava. Ela poderia ter morrido na luta contra Hades, já que fora uma batalha muito grave e, nesse caso, todos os planos de "Seika" teriam sido frustrados, mas ela tivera que correr o risco, pois não poderia intrometer-se naquela luta, porque não tinha nenhuma intenção de ajudar Athena ; na verdade, ocorria o inverso: Athena era quem tinha a obrigação de ajudá-la, já que tomara o que era seu.
E se por acaso algo saísse mal, e as coisas não acontecessem da forma como "Seika" pensara (embora ela tivesse muita confiança em sua superioridade sobre todos naquele Santuário), não haveria o que lamentar. Afinal, quem era ela? Apenas uma mulher sozinha, que não deixava nada para trás. Mesmo se ela morresse, isso não atingiria ninguém, nem mesmo os seus servos, pois eles a veneravam somente pela importância dela. Se ela fosse apenas mais uma mulher como qualquer outra, certamente não seria digna de nenhuma atenção. Todavia, ela não podia perder, sua vaidade não suportaria; tivera que amargar aquela derrota por muito tempo, mas finalmente chegara o momento da sua revanche. Mesmo que algum inocente tivesse que sofrer.
"Só que isto não será necessário. Basta que Athena concorde comigo e ninguém será prejudicado. Eu realmente não estou interessada em ferir quem quer que seja. Aliás, eu pude notar que, dentre esses cavaleiros que regressaram com Athena, há um que tem um olhar muito peculiar, nota-se claramente sua pureza e sua doçura. Certamente ele tem horror às batalhas. Não estou lembrando o nome dele, mas sei que é o cavaleiro de bronze de Andrômeda. E também há aquela criança, Kiki, creio que é esse o nome. Realmente eu não gostaria que algo ruim acontecesse a eles, não gosto de ferir a inocência. Porém, isso vai depender da decisão de Athena, e de que os cavaleiros não façam nada para me impedir. Porque senão, eu terei de convocar meus guerreiros e não sentirei nenhum remorso pelo derramamento de sangue que eles provocarão, porque se eu ofereço uma oportunidade e as pessoas recusam, eu não tenho culpa, elas que enfrentem as conseqüências de seus atos", pensou "Seika" .
