CAPÍTULO 8 - KUROI YURI

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Era uma tarde calma. Uma brisa suave balançava levemente as folhas da grama nas pradarias que cercavam a cidade de Prontera. O clima estava ameno, morno e agradável. O Sol fazia reflexos dourados nas águas do riacho que atravessava os campos. De tempos em tempos, um Rocker passava saltitando pacificamente, ou um Zangão voava zumbindo de uma árvore a outra. Uma jovem mercante de cabelos dourados andava sem pressa pelo gramado verde-claro. O barulho ritmado de seus passos e o rangido das rodas de seu carrinho se misturavam aos murmúrios do riacho, ao farfalhar das folhas e ao sopro suave do vento. A cena poderia ser motivo para uma pintura bucólica, se não fosse um único elemento destoante. Acompanhando a mercante havia uma gatuna. Sua capa de viagem escura jogada ao ombro fazia contraste com a grama clara. Seus cabelos cor-de-luar não combinavam com o dourado do Sol. Sua atitude era defensiva e desconfiada, mão apoiada no cabo da adaga, olhos vermelho-sangue sondando o ambiente como se as águas do riacho e as folhas da grama fossem seus inimigos, fazendo da garota uma borrão escuro e estranho naquele quadro.

"Senhorita, se importa se pararmos um pouco? Estou exausta!", disse a mercante.

"Melhor não", respondeu a gatuna. "Não é seguro aqui, e não quero diminuir a marcha até chegarmos na Vila dos Orcs."

"Mas senhorita, de qualquer jeito vamos ter de parar uma hora. A Vila dos Orcs fica a, no mínimo, um dia de marcha daqui, e o Sol já vai se por! Além do mais, mais a oeste a floresta fica mais densa, e não poderemos parar por lá, pois há monstros agressivos! E por último, estou faminta e quero comer!"

Ao ouvir as últimas palavras, Tenko sentiu seu estômago se contorcer. Não havia comido praticamente nada naquele dia, e já estava andando há horas. Resignada, suspirou e sentou-se na grama, apoiando as costas contra uma árvore e esticando as pernas. A mercante agachou-se e começou a procurar algo dentro de seu carrinho. Os olhos de Tenko se fixaram no rosto sardento da garota. Depois deslizaram para a mão direita, coberta com uma estranha tatuagem que lembrava um caule negro enrolado entre os dedos da moça. Estava curiosa e gostaria de questionar o sentido daquele desenho, mas Tenko Kitsune era uma pessoa muito reservada, e não se achava no direito de fazer tal pergunta. Havia conhecido a simpática e jovial mercadora naquele mesmo dia, em Prontera. Mais tarde, a encontrou de novo, nos arredores da cidade. Depois de uma curta conversa e de descobrir que ambas tinham como destino a Vila dos Orcs, a mercadora lhe pediu que andassem juntas, pois temia não conseguir atravessar as florestas cheias de criaturas agressivas. Tenko preferia viajar sozinha. Não queria chamar atenção. Mas se sentia em dívida com a garota, por causa de um punhado de asas de mosca que haviam salvo sua vida. Assim sendo, aceitou a proposta e as duas haviam andado juntas a tarde inteira.

"Aceita um pouco de chá, senhorita? Já está frio, mas ainda está bom", disse a mercadora, oferecendo-lhe uma xícara. Tenko aceitou, murmurando um agradecimento. Tirou da sua bolsa o lanche comprado na estalagem naquela manhã e começou a comer. A mercante tirou um embrulho de seu carrinho e fez o mesmo. Mastigaram em silêncio por algum tempo.

"Sabe, andamos a tarde inteira juntas e ainda não sei seu nome!", disse a mercadora, sorrindo cordialmente.

"Tenko. Tenko Kitsune.", respondeu a gatuna, sem tirar os olhos da xícara de chá.

"Tenko... não seria a senhorita Tenko Renard, filha de Sir Lucius? Ei, ei, não precisa puxar a adaga! Não vou te denunciar!"

Tenko havia se levantando bruscamente, derrubando no chão a comida e o chá. Estava de pé, em posição de batalha, a Damascus desembainhada refletindo os tons vermelhos e laranjas do sol do fim da tarde. Olhou ferozmente para a mercante, que mostrava as palmas das mãos abertas, pedindo paz. A gatuna se sentou novamente, mas não colocou a adaga de volta na bainha. Continuou segurando-a firmemente, a ponta voltada para a mercadora.

"Como você sabe quem eu sou?"

"Como eu sei? Ora, senhorita Tenko, você é procurada, sabia? Além disso, venho de uma tradicional família de mercantes, e temos uma excelente relação com os cavaleiros de Prontera, que são bons fregueses nossos. Sir Lucius tem boas relações com meu pai, e já havia ouvido falar de você antes mesmo de você fugir de casa. Por Odin, quer colocar essa adaga de volta na bainha! Já disse que não vou te denunciar! Sou uma fugitiva também! Deixe-me contar minha história, e talvez a senhorita se sinta menos desconfiada..."
Tenko hesitou por alguns segundos, então colocou a Damascus de volta na bainha. Mas continuou encarando ferozmente a jovem mercante. A jovem loura então deu um longo suspiro, pegou a xícara de Tenko no chão, encheu-a novamente e a entregou de volta para a gatuna. Tenko pegou seu lanche do chão e começou a espanar a terra que havia nele, enquanto a mercadora enchia mais uma vez sua própria xícara. Tomou um longo gole e começou a falar.

"Me chamo Héstia Aetna, e nasci na cidade de Alberta. Venho de uma família antiga e tradicional de mercantes. Meus pais são mercantes, e meus avós também foram, assim como meus bisavós. Assim, desde muito jovem aprendi os segredos desta profissão. Somos uma família muito rica, então eu e minhas duas irmãs sempre tivemos tudo que desejávamos. O sonho de nós três era nos tornarmos belas damas e um dias nos casarmos com um mercante rico ou com um garboso cavaleiro. Não faça essa cara de desprezo, senhorita Tenko! Me deixe terminar a história!

Como eu disse antes, a família Aetna sempre teve excelentes relações com as famílias nobres de Prontera. Cavaleiros sempre estão em busca de novos armamentos, ou de itens raros e valiosos. Meus pais conseguiam esses itens. Em troca, sempre éramos convidados para os bailes nos castelos, as festas, até os casamentos. Sim, senhorita Tenko, meus pais estavam no casamento de Sir Lucius e Lady Irina. Eu não era nascida naquela época, ou estaria lá também. Minhas irmãs e eu nunca perdíamos uma chance dessas. Quem sabe um belo cavaleiro tiraria uma de nós para dançar.

Imagino, senhorita Tenko, que você deve estar se perguntando porque estou aqui, indo a pé para Geffen e puxando um carrinho pesado ao invés de estar dançando em alguma festa. Eu poderia estar, realmente. Ao contrário de você, senhorita Tenko, nunca tive vontade de sair em batalha, de empunhar uma arma e matar monstros. Mas sempre fui uma garota muito curiosa, e tinha uma vontade enorme de aprender, e principalmente, de criar. Ficar a vida inteira negociando e fazendo contas não me parecia uma idéia interessante, mas nem passava por mim a idéia de ter outra vida. Para mim, era meu destino. Imutável. Mas uma coisa me fez descobrir que o que eu achava que era minha felicidade não passava de um sonho imposto a mim. Aconteceu há pouco tempo, quando minha família resolveu fazer um inventário das mercadorias que guardávamos no sótão de nossa casa, em Alberta.

Minha mãe pediu que eu trouxesse algumas caixas do sótão para ela, que continham minério de Elunium que ela queria mandar refinar para vender em Prontera. Encontrei as caixas e levei para ela sem dificuldade, pois o Elunium é um metal muito leve. Quando voltei ao sótão para ver se não tinha esquecido nenhum minério no chão, notei um pequeno baú, fechado com chave, que estava provavelmente por trás das caixas que eu havia acabado de levar para baixo. Era um baú simples, de madeira. Peguei-o nas mãos, e era pesado. Procurei descobrir se a chave estava por perto. Não estava. Obviamente, aquele baú fechado atiçou minha curiosidade! O que eu encontraria lá dentro? Todo tipo de artefato raro passava pela minha cabeça!

Peguei a caixa e levei para minha mãe. Perguntei o que havia dentro dela, e se ela sabia onde estava a chave. Minha mãe olhou para o baú, e seus lábios encrisparam e seus olhos perderam o brilho. 'Ponha isso no lugar onde estava antes', ela disse. 'Não é importante. Não tem nada aí dentro'. Claro que isso só serviu para me deixar ainda mais curiosa! Assim, levei a caixa de volta para o sotão e coloquei-a de volta no lugar, mas naquela mesma noite peguei-a de volta e levei para o meu quarto. Por horas a fio tentei arrombar a fechadura, e o dia ja ia nascendo quando eu finalmente consegui. Para minha decepção, não encontrei nenhum artefato mágico ou coisa do tipo. Só o que encontrei dentro do baú foi uma pequena caixa, ao lado de um caderno e uma tela enrolada.

Peguei o caderno e comecei a ler. Era um caderno com capa de couro, e nela havia um lírio pintado em tinta preta. Pareciam ser as anotações de um ferreiro. Alguém de nome "Kuroi Yuri". Folheei as páginas, repletas de anotações sobre metais, bigornas, martelos, sobre como dar ao aço a melhor têmpera, como usar o martelo para fazer a melhor lâmina, entre outras coisas do tipo. Logo, meus pais acordaram. Escondi o baú e o caderno debaixo da cama e fui para meus afazeres diários. Mas naquele dia não pude me concentrar. Achei aquele manuscrito muito interessante. Aquilo atiçava meu desejo pela criação de objetos. Eu invejava aquele ferreiro que parecia ser tão habilidoso, e queria saber o quê aquele baú fazia no sotão da minha casa! Aquela noite fui para meu quarto o mais cedo possível, e lí o caderno até o fim. Depois, abri a caixa que estava ao lado do caderno. Nela havia um punho de espada, ricamente decorado. Perto do lugar onde deveria ter sido a lâmina, havia a marca de um lírio negro. A mesma que havia na capa do caderno. Deduzi que aquela fosse a marca do ferreiro. Então resolvi olhar a tela. E meu coração quase parou quando eu desenrolei a pintura.

Era um retrato. O retrato de um casal. Havia um homem muito baixo e troncudo, com sobrancelhas grossas e uma barba cerrada. O cabelo ruivo preso em duas tranças. O braço direito dele estava coberto por linhas negras que davam a impressão de que uma planta nascia na palma da mão dele e ia crescendo em torno do braço. Uma tatuagem. Sim, igual a minha, mas isso eu explico mais tarde. O homem carregava um martelo de ferreiro. Mas o que me chocou foi a mulher pintada ao lado dele. Era alta, loura, de olhos verdes e rosto sardento. Atrás da tela estavam escritos os nomes dos retratados: Hreidmar "Kuroi Yuri" Khuzd e Rhea Agdistis Khuzd. Ora, Khuzd é o nome de solteira de minha mãe!

Com isso, imaginei que aquele ferreiro fosse um antepassado meu. Mas não entendia por quê minha mãe estava escondendo isto de mim. Eu pressentia alguma coisa, e tinha de saber mais. Então fiz meus planos. Na semana seguinte haveria uma festa em Prontera. Levaria a tela e o punho de espada comigo e sairia pelas ruas atrás de algum ferreiro que pudesse me informar sobre meu suposto antepassado. E assim fiz.

Foi uma semana torturante. Lí e reli o manuscrito de Kuroi Yuri inúmeras vezes. Mal pude dormir. Começava a imaginar outro destino para mim. Um que suprisse meu desejo de criação! Quando finalmente o dia da festa chegou, mal podia controlar minha ansiedade. Escondi meus pequenos tesouros debaixo do vestido, e quando tive a oportunidade, escapei do castelo com a desculpa de 'tomar um ar'. Ah, que cena engraçada deve ter sido, uma garotinha em traje de baile correndo pelas ruas atrás de um ferreiro!

Falei com todos os ferreiros que pude encontrar. Nenhum tinha uma informação que me fosse útil. Quando dei por mim, já havia anoitecido, e eu estava sozinha numa cidade que eu mal conhecia. Comecei a ficar com medo... bandos de homens de aparência horripilante começavam a surgir pela rua. Gatunos e arruaceiros, que olhavam para mim com um interesse suspeito. Eh, Tenko, não se ofenda! Não me olhe desse jeito, por favor, eu não disse que todos os gatunos são horripilantes! Não me olhe desse jeito, que você me assusta!

Quando de repente surgiu do meu lado uma mulher alta, vestindo cota de malha. Montava num PecoPeco e carregava lança e escudo. Estava usando um elmo estranho, que parecia com um par de imensos chifres de carneiro. Os ladrões se assustaram com ela. Ela tinha uma presença muito forte, como se irradiasse algum tipo de energia. Gostaria de me lembrar do rosto dela, mas estava tão escuro! Mas ainda me lembro perfeitamente daquela presença intimidadora e ao mesmo tempo fascinante...

A mulher de cota de malha fez sinal para que eu a seguisse. Sem pensar, obedeci. Não sei que caminho tomamos, apenas a segui. Andamos por muito tempo, para fora de Prontera, e subimos uma montanha. Eu estava exausta, mas ela parecia não ouvir meus pedidos para fazer uma parada. Apareciam criaturas agressivas no caminho, que me deixavam apavorada, mas ela facilmente as destruía com sua lança. Finalmente, chegamos na boca de uma espécie de caverna. Ela apontou a entrada com sua lança, e sem virar o rosto para mim disse: 'O que você procura está aqui'. E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, esporeou o Peco e desapareceu no meio da noite. Eu estava tão exausta que acho que adormeci ali mesmo, na boca da caverna.

Na manhã seguinte acordei numa cama rústica, dentro da caverna. Havia um velho homem de longas barbas brancas sentado numa cadeira ao meu lado, fumando um cachimbo e olhando para a parede. Sentei na cama e olhei ao meu redor. Só vi a cama, o velho e eu. A caverna se aprofundava mais, e do fundo saía uma luz avermelhada. Nesse momento, o velho notou minha presença e se levantou. Era bem baixo, e o braço direito estava coberto por um caule negro. Era o homem do retrato! Ah, senhorita Tenko, você pode imaginar a confusão que eu senti! Eu tinha absoluta certeza que aquele homem era o ferreiro Kuroi Yuri, mas ao mesmo tempo isso não fazia sentido, já que o caderno e o retrato eram tão antigos. Aquele homem não podia estar vivo ainda!
Ele olhou para mim e grunhiu, e depois voltou a fitar a parede. Reunindo todas as minhas forças, murmurei uma pergunta.

'Kuroi... Yuri?'

Ele grunhiu de novo. 'Não mais.', ele disse. 'Não tenho mais idade para isso.' E então virou-se para mim, visivelmente irritado. 'Por quê demoraram tanto pra mandar um substituto? E ainda mandam uma menininha! O que uma menininha pode aprender sobre forja?'
Nessa hora percebi que era minha chance. A chance que eu tinha para mudar meu destino!

'Senhor Khuzd! Eu tenho certeza de que eu posso fazer isso! Me ensine, por favor!'

E me joguei da cama aos pés dele, batendo com força meus joelhos no chão pedregoso. O velho grunhiu de novo. 'Tem determinação essa menininha...', ele disse. 'Rhea... tão parecida com minha Rhea...', murmurou. Depois foi até o fundo da caverna, de onde saia a luz vermelha, e voltou com alguns instrumentos estranhos, feitos de bambu afiado, pelo que parecia. Também trouxe algum tipo de tinta. E também um copo com um líquido de cheiro estranho. Ele arrastou com dificuldade a cadeira para perto da minha cama e se sentou. 'É óbvio que você tem o sangue dos Khuzd.', disse ele. 'Nunca vi ninguém tão parecido com a minha Rhea. Sendo assim, você tem o direito de ser a próxima Kuroi Yuri. Não vai ser fácil, e não acho que uma menininha igual a você vai aguentar!'

'Eu vou fazer o meu melhor!', respondi.

Ele então me deu o líquido de cheiro estranho para beber. Depois disso não me lembro de mais nada. Só sei que acordei em Prontera, junto dos meus pais. Me disseram depois que eu tinha ficado quase três dias desaparecida, e que um dos cavaleiros do palácio havia me encontrado desacordada no meio da calçada. Meus pais pareciam absolutamente chocados, e não pareciam nem um pouco felizes em me ver. Logo entendi o porquê. Senti dor no meu braço direito, e quando olhei para ele vi que ele estava assim. E não foi só isso. Como eu estava imunda, fui tomar um banho e descobri isto:"

A mercante virou-se de costas para Tenko, rapidamente olhou para os lados para ver se ninguém estava a vendo e em seguida tirou a camisa, deixando as costas nuas à mostra. Tenko pode ver então que o caule enrolado no braço da garota subia até o ombro, terminando num grande lírio negro que cobria a omoplata direita. Héstia rapidamente colocou de volta a camisa.

"Bom, para terminar... meus pais não queriam mais ficar comigo. De uma hora pra outra virei a vergonha da família. Pelo visto eles consideram a forja um trabalho 'sujo' ou 'inferior', principalmente para uma mulher. Mas eu saí espontaneamente de casa antes que eu fosse expulsa. Não me importo com o que meus pais pensam. Sou agora, por direito de herança, Kuroi Yuri, e um dia serei a melhor ferreira de Midgard! E agora, quero me aperfeiçoar na arte da forja, mas não tenho nenhuma aptidão para batalhas", disse ela, rindo. Logo em seguida, com a expressão mais séria que Tenko já tinha visto aquele rostinho sardento produzir desde então, Kuroi Yuri pediu:

"Senhorita Tenko... permita por favor que eu assista algumas das suas batalhas! Assim posso ganhar experiência e aprender sobre o manejo de armas. Em troca, posso usar minhas habilidades de negociante para conseguir suprimentos baratos para você! Sei que andar com uma mercadora lenta e fraca é um estorvo, mas eu prometo que vou fazer o meu melhor para me tornar uma ferreira o mais rápido possível, e assim posso retribuir!"

A esta hora, o céu já estava escuro. Tenko e Kuroi procuraram um abrigo onde poderiam passar a noite. Amanhã continuariam sua longa caminhada, desta vez por caminhos mais perigosos.

"Kuroi Yuri?", chamou a jovem de olhos vermelhos.

"Sim?", respondeu a mercadora.

"Eu aceito sua proposta... mas só porque o chá que você faz é muito bom!"

Kuroi abriu um enorme sorriso. Finalmente ela poderia forjar o próprio destino.

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Uma raposa branca observava a cena ao longe.