MEMÓRIAS
Nina Neviani
Beta-reader: Chiisana Hana
Capítulo VII - Reviver
Não esqueça nunca, não esqueça nunca
para mim você é o mundo pelo qual vale viver
Não esqueça nunca, nós pararemos o tempo
se você quiser, se você quiser tudo é possível (1)
- Ele a encontrou. - Ele disse com um sorriso no rosto. Há tempos não se sentia feliz o bastante para sorrir. Contudo, a perseverança daquele mortal em reencontrar o amor da sua vida o fazia sentir um sopro de esperança pelos mortais. Pelo mundo.
Estava tão compenetrado vendo o momento imensamente aguardado pelo ex-Cavaleiro de Dragão e por ele próprio que não a ouviu se aproximar. Apenas quando ela estava perto demais foi que se deu conta do seu perfume único. Não se conteve e repetiu, ainda com o sorriso estampado no belo rosto: - Ele a encontrou. Estavas errada. Todas as manipulações que os deuses fizeram de nada adiantaram. O verdadeiro amor venceu todos os percalços.
O sorriso dele foi diminuindo à medida que o dela crescia.
- Oh, Apolo, Apolo. - Ela suspirou enquanto se deitava em um divã. Parou para ajeitar o decote do seu traje, e então se voltou para ele: - Sempre tão impulsivo. Deverias parar e pensar. Ou realmente crês que nós, os deuses sagrados do Olimpo, seríamos relapsos o bastante para dar oportunidade a estes risíveis mortais de burlarem o nosso justo castigo?
- Mas ele a encontrou. - Apolo tornou a dizer.
Afrodite, exasperada com o discurso repetitivo do outro deus, fez um gesto de impaciência com as mãos e falou:
- Sim, sim, ele a encontrou. Confesso que não esperava que ele conseguisse. Mas... - Sorrindo e com os olhos brilhando ela disse: - Sabes, são criaturas fascinantes esses mortais. Tão tolos. - Riu. - Chego a desconfiar que buscam de forma deliberada e incansavelmente o sofrimento. Esse homem, Shiryu, tinha a mulher a quem amava e que o amava ao seu lado. Recebeu uma dádiva que poucos recebem e fugiu desse amor. Então, a perdeu e enxergou o quanto a amava e o quanto fora estúpido. Rodou pelo mundo até encontrá-la. Conseguiu. E mal sabe que agora é que o seu sofrimento começará.
- Não te entendo. - Apolo disse sinceramente. - Eles se reencontraram, poderão ser felizes. Poderão viver esse belo amor que os une.
- Quem és tu para saber julgar quando um amor é belo ou não? - A deusa se enfureceu. - Eu sou a deusa do amor. E eu digo que esse amor não deve existir. Eles não são merecedores.
- Eles são merecedores e sabes disso. - Apolo redarguiu.
Afrodite suspirou e novamente a expressão vitoriosa surgiu na mais bela face do Olimpo e do mundo.
- Entendas, meu querido Apolo. O tormento desse mortal só está começando, porque muito em breve ele se dará conta que tudo aquilo que o moveu para encontrar essa mulher só existe na cabeça dele. O amor, esse sentimento que move o mundo, só traz felicidade quando é recíproco. E o dele não é. Ele a ama e ela o desconhece. Diga-me, Apolo. O que sentirias se a tua preciosa Dahpne estivesse viva, mas fosse indiferente ao amor que há dentro de ti? Se tu não fosses nada para ela, absolutamente nada? - Levantou-se e após ajeitar as suas vestes, sorriu serenamente e concluiu: - É por isso que torno a dizer, Apolo, a dor desse jovem só está começando. - E saiu.
Apolo respirou fundo e disse para si mesmo:
- Vamos, jovem. É agora que terás que mostrar a tua força.
Vale da Esperança, 6 de julho de 1997.
As garras da morte tinham passado muito perto do povoado daquela vez, o que fez com que quase toda a pequena população se agitasse. Logo após a chegada dos pais do pequeno Lian, vários outros moradores se aproximaram para buscar ajudar de alguma forma ou apenas para matar a curiosidade sobre a quase tragédia.
Shunrei estava no quarto que existia aos fundos da pequena mercearia do povoado. O menino tinha sido levado para lá por ser o mais perto do local onde ocorrera o incidente. A professora acompanhava os pais do garoto e o dono do estabelecimento, que naquele exato instante retornava com um líquido forte e quente para colaborar com a recuperação dele. O pai do menino fez com que ele ingerisse, ignorando a careta que o filho fez. A mãe, que estava mais pálida do que o filho, ao mesmo tempo em que segurava a mão da criança perguntou para a outra mulher no recinto:
- O que aconteceu?
Shunrei balançou a cabeça, estava muito abalada com os últimos acontecimentos.
- Não sei muito, para falar a verdade. Eles saíram da aula como de costume. Eu estava terminando de arrumar as coisas, quando Li Mei chegou correndo dizendo que esse garotinho - ao dizer isso, olhou carinhosamente para o aluno - estava tentando atravessar o rio. Eu corri até lá, mas quando cheguei aquele homem já o tinha tirado do rio e feito o necessário para fazê-lo recobrar a consciência.
- Quem é aquele homem? - o dono da mercearia perguntou.
- Não faço a menor ideia. - Shunrei disse sinceramente e buscou mascarar a outra questão que martelava em sua mente. Ele era um estranho para ela, mas aparentemente ele a conhecia. - De qualquer forma, seremos eternamente gratos a ele, já que ele salvou a vida do Lian. Ainda que eu tivesse conseguido tirá-lo do lago...
- Você teria. - O pai do menino interrompeu-a. - Nada como ninguém.
Shunrei sorriu tímida e tristemente. Certamente alguém deveria tê-la ensinado a nadar muito bem. Mas ela não sabia quem, nem quando isso tinha acontecido. Era uma constante em sua vida, ter habilidades e não saber como as adquirira.
- Ainda que eu tivesse conseguido resgatá-lo, não sei se conseguiria ter feito aquela massagem que fez com que o nosso menino permanecesse nesse mundo. - As lágrimas encheram os olhos da professora. Era apegada a cada um dos seus alunos. E o pensamento de que quase perdera essa criança maravilhosa a deixava aterrorizada. E frustrava-se ainda mais ao admitir que não teria conseguido salvar o menino, se fosse necessário.
- Não temos que pensar no que poderia ter acontecido. Lian está bem e isso que o importa. - O pai disse solenemente.
Shunrei, ao ver que o menino estava cada vez mais consciente, decidiu deixá-lo a sós com os pais. Certamente teriam muito o que conversar. Ela mesma gostaria de abraçá-lo e também repreendê-lo por aquele ato que poderia ter trágicas consequências, mas poderia esperar.
Ao perceber que já estava mais calma, começou a pensar naquele estranho que fora o herói do dia. Ele sabia o seu nome. Ou aquele que ela acreditava ser o seu nome. Mas isso qualquer pessoa do vilarejo também sabia. O que a intrigava era a expressão de reconhecimento vista no rosto do homem. Dificilmente seria alguém do seu passado. Era muito mais provável que fosse alguém ali mesmo das redondezas, alguém que a conhecera após a sua chegada ao Vale da Esperança. Mas por que então ela não o conhecia? Sua memória de antes de chegar ao Vale da Esperança era nula, mas depois desse acontecimento era invejável. Não pensava ser possível esquecer o rosto marcante daquele homem. Sendo assim quem ele era? Por via das dúvidas, decidiu manter-se cautelosa. Aprendera em pouco tempo que a cautela era sempre bem-vinda. Em especial em situações difíceis. E aquela parecia ser uma dessas situações.
Desde que o garotinho tinha sido levado com a família e com Shunrei para outro lugar, Shiryu sentara-se ali nos precários restos do que fora ponte que interligava as duas margens do lago. Atualmente ela não cobria nem um sexto da extensão que deveria cobrir e terminava abruptamente. Shiryu não se importaria caso ela cedesse. Não conseguia se importar com nada além dos seus sentimentos.
Poderia resumir o seu tumulto interior a uma simples constatação: não tinha sido como planejara. Esperara que quando encontrasse Shunrei, e não tinha dúvidas de que um dia a encontraria, ele a abraçaria forte e juraria que nunca mais se afastaria dela e então declararia todo o seu amor. Contaria que fora a esperança de reencontrá-la, a razão de se manter vivo quando não tinha mais ânimo de viver. Diria também que desde já há muito tempo, ela era o seu porto seguro. Nas inúmeras batalhas, fora a motivação de dar um mundo justo e pacífico para ela, e por que não para os filhos da união que ele sabia que um dia aconteceria, que o fazia alcançar o seu sétimo sentido e continuar a lutar.
A verdade é que ele, o inteligente cavaleiro de Dragão fora um tolo prepotente.
E agora, era só um tolo prepotente arrependido, já que não podia nem mesmo ter a morte digna em uma batalha.
Uma ou outra pessoa do povoado se aproximava cautelosamente para não cair no lago e batia nas suas costas em sinal de agradecimento pelo ato heroico. Shiryu respondia qualquer coisa, sem nem mesmo se preocupar em olhar atentamente para os moradores. Eles não estranhavam, pois imaginavam que ele ainda pudesse estar surpreso com o próprio feito.
"Um verdadeiro herói!", pensavam.
Ele, porém, sabia que não era nada disso. Afinal, não deixara que os deuses arrancassem a mulher da sua vida em um piscar de olhos? Não se preocupara em salvar o mundo para pessoas que nem mesmo sabiam da existência dele, quando a única pessoa que o amava verdadeiramente era preterida?
Agora, todo o arrependimento que havia em sua alma e que fora se multiplicando dia a dia no decorrer dos últimos anos de sua vida, não era nada se comparado ao medo que o dominava. Cauteloso como sempre, pensara em diversas situações nas quais Shunrei poderia estar. Muito doente, era a que mais pensava ser a real e uma das que mais a assustava também. Que teria recomeçado a vida ao lado de outra pessoa era também razoavelmente recorrente, pois ela podia não saber o que era feito dele e precisava de uma pessoa a seu lado. E tantas outras se somavam a essas. Porém, nem mesmo nos seus piores pesadelos poderia imaginar que ela não se lembrasse dele.
Era uma nota fora do tom e ele queria acreditar que não era verdade. Talvez fossem as mudanças que ocorreram na sua aparência e no seu físico. Era um homem, não mais um garoto, talvez fosse isso. Tinha que ser isso, mesmo no fundo admitindo que a reconheceria mesmo se se passasem cem anos.
Era ilógico que a mulher que o amara com todas as forças e que ele sabia, daria a sua vida por ele se fosse preciso, simplesmente o esquecera em menos de 10 anos. Com amargura, ele sorriu, reconhecendo que no fundo não seria totalmente injusto. Ele não passara tempo demais negando o amor que os unira?
Teve um calafrio ao sentir o cosmo dela se aproximando. Como ela poderia não reconhecê-lo quando tinha mudado tão pouco? E assim a ouviu dizer:
- Sr. Shiryu? Eu gostaria de conversar com o senhor.
Continua...
(1) Non dimenticare mai, non dimenticare mai
dentro me sei il mondo per cui vale vivere
Non dimenticare mai fermeremo il tempo noi
se lo vuoi, se lo vuoi tutto è possibile
Trecho da música "Non dimenticare mai" (2009) da cantora Valentina Giovagnini.
Nota da autora: Seis meses sem atualização, hein? Agradeço a todos que não desistiram da fic e espero que tenham gostado do capítulo.
Como sempre, comentários sobre o capítulo no blog.
Abraços!!!
Nina Neviani
