Oi, oi povo! Eis mais um capítulo, aproveitem. ^^

Viola: Oi, oi flor. É as vezes esse site dá umas dores de cabeça... Espero que goste desse capítulo.

Ana Rickman: Espero que goste da adaptação! ^^

Daniela: Aproveite flor! Logo mais chegará um explosivo! ^^

Lembre-se, comentar nunca é demais!

Bjs e boa leitura!


À tarde seguinte da festa de madame Greengrass, Peter Pettigrew pagou com tristeza duzentas libras a Rodolphus Lestrange.

—Vi eu mesmo — disse Pettigrew, movendo a cabeça — Da janela. E mesmo assim, não teria acreditado se alguém mais não tivesse visto. Severus saiu pela porta e a seguiu pela rua. Para assustá-la, suponho. Imagino que já estará fazendo as malas.

—Esteve na festa para expor o quadro aquela noite — replicou Lestrange, sorrindo — Tranqüila, serena e dirigindo a seu enxame de admiradores com absoluto aprumo. Quando a senhorita Granger fizer as malas, será com seu enxoval. E os lençóis estarão adornados com uma letra S, de Snape.

Pettigrew piscou.

—Não é isso. Eu sei o que ocorreu. Severus não gosta que o interrompam. Não gosta que ninguém chegue sem ter sido convidado. E quando não gosta de algo o faz pedaços. Se a senhorita Granger fosse um homem, a teria feito pedaços. Como não o é...

—Trezentas — disse Lestrange — Trezentas que é marquesa antes do aniversário do rei.

Peter reprimiu um sorriso. Por muito que fizesse ou deixasse de fazer à senhorita Hermione Granger, jamais se casaria com ela. O que não equivalia a dizer que Snape não fosse a casar-se nunca, mas só para maior vergonha e indignação de sua família, dos poucos que ficavam vivos — uns primos longínquos — e dos mortos, que formavam uma legião. Sem dúvida, a noiva seria a amante, a viúva ou a filha de um conhecido traidor ou assassino; e também uma conhecida prostituta. A mulher ideal seria a proprietária de um bordel, mulata ou meio irlandesa, cujo último amante tivesse ido à forca por sodomizar e estrangular o único descendente legítimo do duque de Ravenclaw, conhecida como Moaning Myrtle, uma menina de nove anos. Não cabia pensar em uma virgem de boa educação e família respeitável, embora um tanto extravagante.

Era tão impensável um Snape casado, com quem fosse, no prazo de dois meses, como um ser de outra galáxia.

Pettigrew aceitou a aposta. E não foi a única aposta que se fez em Paris aquela semana, nem em que intervinha uma quantidade mais elevada com os nomes de Snape e Granger. As prostitutas que tinham sido testemunhas da entrada da senhorita Granger no salão da casa do moreno e da conseguinte perseguição o contaram a seus amigos e clientes. Os convidados também contavam a história, com os enfeites de costume, a quantos quiseram dar ouvidos, quer dizer, todo mundo.

E é obvio, todo mundo tinha sua opinião. Muitos respaldaram sua opinião com dinheiro. Ao cabo de uma semana, Paris fervilhava, como o circo romano, com a multidão impaciente e inquieta, à espera do combate a morte entre seus dois gladiadores mais poderosos.

O problema consistia em levar os combatentes ao mesmo circo. A senhorita Granger se movia na sociedade respeitável. Lorde Dain rondava pelos baixos recursos.

Com uma grande falta de consideração, evitavam-se mutuamente. Não se podia convencer nem enganar nenhum dos dois para que falassem do outro.

Lady Lavender Brown, que residia em Paris dezoito meses e tinha dedicado a maior parte desse tempo a tentar, com desiguais resultados, ser a principal anfitriã da cidade, viu uma oportunidade singular e se apressou a aproveitá-la.

Teve a audácia de programar um baile no mesmo dia que uma de seus rivais tinha programado um baile de máscara. Casualmente duas semanas depois da cena da perseguição da senhorita Granger pela rua. Embora lady Pembury e seus dois netos não fossem considerados como a nata da alta sociedade parisiense nem da londrina, e embora lady Brown nunca tivesse feito tal convite em outras circunstâncias, convidou-os a seu baile.

Também convidou a lorde Snape.

Depois contou a todo mundo o que tinha feito. Embora ela, como meia Paris, estava convencida de que Snape se deixou escravizar pela senhorita Granger, lady Brown não esperava que aparecessem. Todos sabiam que havia tantas probabilidades de que o marquês assistisse um acontecimento social respeitável como de que convidasse ao algoz a testar a lâmina da guilhotina em seu próprio pescoço.

Por outro lado, Snape já tinha atuado de uma forma inverossímil com a senhorita Granger, o que supunha que existiam probabilidades. E quando existia alguma probabilidade de que ocorresse algo impossível, sempre havia pessoas desejosas de estar presente.

No caso de lady Brown, eram precisamente as pessoas às que havia convidado. Ninguém apresentou desculpas por não poder assistir, nem sequer lorde Dain, circunstância que a inquietou.

Mas Snape tampouco enviou uma nota de confirmação, de modo que lady Brown não tinha que fingir que não sabia se ia aparecer ou não, nem preocupar-se com que fosse alvo de chacote caso ele não aparecesse. Podia manter a dúvida dos convidados com a consciência tranqüila. Mas para se precaver, contratou uma dúzia de criados franceses como complemento dos seus.

Enquanto isso, Hermione começava a reconhecer sua derrota. Depois de três encontros com Snape, a simples atração animal se intensificou até chegar a uma teimosia cega. Seus sintomas não só internos; era também visíveis.

Na festa de madame Greengrass o senhor Lestrange fazia certos comentários maliciosos sobre Snape. Hermione, cujos nervos seguiam vibrando com as conseqüências de um tormentoso abraço, respondeu com muita dureza. O sorriso de cumplicidade de Lestrange lhe deu a entender que tinha adivinhado qual era seu problema, e não duvidava que tinha contado a Snape. Mas os Lestrange partiram precipitadamente de Paris uma semana depois da festa, e o moreno não se aproximou dela nem a um quilômetro de distância do irresistível beijo em meio a tormenta.

De modo que, se tinham lhe contado que Hermione Granger estava obcecada por ele, evidentemente não se importava. Que era justo o que ela queria, dizia-se Hermione. Porque o marques só se importaria com uma mulher quando a derrubava em uma cama, ou a mesa de um botequim, desabotoava-se as calças, despachava o assunto e voltava a abotoá-las.

Obcecada ou não, tinha muito juízo para tentar o destino arriscando-se a um outro encontro com ele, para que visse em que humilhante estado se encontrava.

Quando já estava quase convencida de que o mais inteligente era partir de Paris chegou o convite de lady Brown. Ao cabo de vinte e quatro horas, Hermione sabia, como toda Paris, que Snape também tinha sido convidado.

Não precisaria ser um gênio para imaginar o motivo. Todos esperavam que os dois proporcionassem o espetáculo principal. Hermione também compreendia que haveria grande intercâmbio de dinheiro, apoiando-se em sua atuação ou sua falta de atuação com sua senhoria.

Chegou à conclusão de que não queria desempenhar nenhum papel naquilo, mas Geneviéve chegou a uma conclusão distinta.

—Se for e você não estiver, sentir-se-á humilhado — comentou — Inclusive se simplesmente quer ir, pela razão que seja, e se inteira de que você não vai, sentirá o mesmo. Sei que é irracional e injusto, mas os homens são assim, sobre tudo em questões que, conforme acreditam eles, afetam seu orgulho. Será melhor que vá, a menos que prefira se arriscar a arrasar o orgulho do homem para aliviar seus sentimentos feridos.

Embora Hermione duvidasse que Snape tivesse sentimentos, e que pudessem ser feridos, também era consciente de que Geneviéve tinha décadas de experiência com os homens. Com muitos homens.

Aceitou o convite.

Snape não sabia o que fazer com o convite de lady Brown. Uma parte de sua cabeça lhe recomendava que o queimasse. Outra parte aconselhava que urinasse sobre ele. Outra sugeria que fizesse a tal lady come-lo. Por fim, meteu-o em um baú, junto com diversas lembranças de suas viagens, um chapéu feito migalhas e um guarda-chuva cheio de adornos. dentro de seis meses ao olhar aquelas coisas riria, pensou. Então as queimaria, como tinha queimado há alguns anos as luvas que usava a primeira vez que Lucretia tocou sua mão, parte da pluma que lhe tinha caído do chapéu e a nota em que convidava ao fatídico jantar na casa de seu tio.

De momento, o que tinha que decidir era a melhor maneira de ajustar contas com a senhorita Granger, assim como com os boatos hipócritas que esperavam que ela fizesse o milagre de que lorde Belzebú caísse de joelhos. Sabia que essa era a razão do convite de lady Brown. Nada seria mais agradável a respeitável Paris do que vê-lo cair de joelhos. A perspectiva de que sua assassina fosse uma tola solteirona inglesa o fazia ainda mais divertido. Apenas lhe cabia dúvida de que todos os moralistas de Paris rezavam por sua derrota nas mãos de Hermione, e quanto mais ignominiosa, melhor. Queriam presenciar uma obra moralista, o triunfo da virtude ou alguma estupidez semelhante.

Que esperassem, que contivessem o fôlego em uníssono até asfixiar-se, enquanto o cenário seguia vazio. Adorava a idéia: várias centenas de pessoas em suspense enquanto Belzebú se entretinha em outro lugar, rindo, tomando champanha com meretrizes sorridentes em seus joelhos.

Por outro lado, seria estupendo rir em seus narizes, entrar majestuosamente no cenário e lhes oferecer uma atuação que não esquecessem jamais. Também essa idéia tinha seu valor: uma hora de tumulto satânico em um dos salões mais decorosos e exclusivos de Paris. Depois, no ponto culminante, agarraria senhorita Hermione Granger com seus braços, daria um coice com suas patas fendidas e desapareceria com ela entre uma nuvem de fumaça.

Assim que tinha imaginado a cena quando a descartou, porque contradizia com seu objetivo. Terei que deixar de lado à senhorita Granger para que ela e todos os de mais compreendessem que não tinham nenhum poder sobre ele. Seria melhor recolher um punhado de mulheres ao azar, as arrastar até um cemitério e as deixar ali mortas de medo. Mas daria muito trabalho e Paris não se merecia tanta diversão. Melhor que morressem de decepção.

*.*.*

Sua cabeça esteve dando voltas até a noite do baile.

Hermione chegou ao baile frustrada e ressentida, estado que os acontecimentos posteriores não contribuíram para melhorar. Tinha passado várias horas preocupada com o cabelo, o vestido e os acessórios. Depois de sua chegada, passou mais de duas horas suportando insinuações sutis das convidadas e não tão sutis dos convidados.

Antes das onze e meia, Alonso já tinha perdido várias centenas de libras na sala de jogos, tinha bebido até perder o juízo e o tinham levado a casa. Enquanto isso, Geneviéve estava dançando pela segunda vez com o duque Frank Longbottom. Por sua expressão encantada, Hermione compreendeu que sua avó não ia servir de ajuda aquela noite. O aristocrata francês a tinha impressionado. Quando um homem a impressionava, Geneviéve não era capaz de concentrar-se em nenhuma outra coisa.

Normalmente, Hermione observava as fraquezas românticas de sua avó com certo desapego, inclusive divertida. Naquele momento compreendeu, visceralmente, o que sentia Geneviéve, e não achou divertido. Não tinha graça sentir-se nervosa, inquieta, só e aborrecida sem remédio porque era quase meia-noite e um bruto desprezível não se incomodava em aparecer. Tampouco tinha graça saber que era melhor que não tivesse ido e desejar que estivesse ali e detestar-se a si mesmo por desejá-lo. Inclusive tinha deixado duas danças livres, com a humilhante esperança de que a Sua Satânica Majestade a arrastasse pela pista de baile. Ao ver Geneviéve e o bonito nobre francês, a alma lhe caiu aos pés. Jamais seria assim com Snape.

Snape jamais a olharia com o sorriso enternecedor de Longbottom, e se Hermione o contemplasse com aquela expressão de entusiasmo, ele riria em sua cara.

Sufocando um desespero que sabia irracional, Hermione cedeu ante seus dois pretendentes mais insistentes. Concedeu uma das danças ao Theodore Nott e o outra a lorde Avery. Enquanto escrevia o nome deste na última varinha de seu leque — ia ser uma lembrança da ocasião, sua última noite em Paris —, Avery disse .

— Está segura de que não aparecerá?

— O que você acha? — replicou Hermione — Notou aroma de enxofre ou uma baforada de fumaça que anuncie sua chegada?

—Apostei cem libras que apareceria — disse Avery. Tirou seu relógio de bolso — Exatamente às... Bom, veremo-lo dentro de um momento.

Hermione viu os ponteiros do relógio se sobrepor no mesmo instante no que ouviu os sino de um relógio. Ao soar a décima badalada, as cabeças dos pressente começaram a girar para a entrada do salão de baile, e o clamor das vozes começou a apagar-se. Ao soar a décima segunda, o salão se cobriu de um silêncio mortal.

Com o coração batendo no peito, Hermione fez um esforço para voltar-se e olhou para a entrada, um arco enorme. Não parecia suficientemente grande para a figura escura, imponente, que se deteve abaixo dele.

Fez-se uma pausa larga, dramática, que combinava com a dramática aparição da meia-noite. E para combinar com sua fama de príncipe das Trevas, Snape usava um traje todo negro. Apenas em seus pulsos aparecia um pouco de linho níveo, e outra parte no pescoço e no peitilho da camisa, que só contribuíam a realçar o efeito. Inclusive o colete era negro.

Embora se encontrava no outro extremo da sala, Hermione não teve a menor duvida de que o escuro olhar que percorria displicentemente aos ali reunidos tinha um brilho de desprezo, e que a dura boca estava curvada com o perpétuo sorriso levemente desdenhoso.

Ao recordar o que lhe tinha feito aquela boca duas semanas antes subiu uma onda de calor pelo pescoço. Se abanou e tentou afastar aquela lembrança, junto com a suspeita de que Avery a estava observando com a extremidade do olho. disse-se que não importava o que aquele cavalheiro ou outro qualquer pensasse; só o que pensasse Snape.

Tinha aparecido e ela estava ali, assim Snape não tinha motivo de queixa nesse sentido. A única coisa que Hermione tinha que averiguar era que tipo de jogo ele estaria disposto a fazer agora, e jogar seguindo suas regras com a esperança de que estas estivessem dentro dos limites da conduta civilizada. Uma vez aplacado, Snape riria e seguiria feliz, e ela poderia voltar para a Inglaterra sem complicações. Ela retomaria sua vida precisamente onde a tinha deixado, e ao cabo de muito pouco tempo se esqueceria da existência dele. Ou possivelmente o recordaria como um sonho mau ou um resfriado, e suspiraria aliviada porque acabou.

Assim deve ser, dizia-se Hermione. A alternativa era a ruína, e não ia consentir que sua vida ficasse destruída por uma loucura passageira, por mais forte que fosse.

Snape demorou exatamente nove segundos para localizar à senhorita Granger em meio da multidão. Estava com Avery e vários conhecidos no extremo do salão de baile. Usava um vestido azul prateado que brilhava à luz e vários objetos brilhantes e ondeantes na cabeça. ele supôs que os levava presos nos cachos. Mas aquele penteado, como as mangas exageradamente grandes e os chapéus, eram a moda do momento, e Snape duvidava de que pudesse ser mais espantoso que as aves do paraíso que se sobressaíam do coque de lady Brown.

A gorda cara de lady Brown mostrava uma rígida expressão de cortesia. Snape se dirigiu a ela com decisão, fez-lhe uma extravagante reverencia, sorriu e assegurou que se sentia encantado, honrado e que não cabia em si de gozo. Não lhe deu desculpa alguma para que se retirasse, e quando lhe pediu amavelmente que apresentasse aos convidados, desfrutou maliciosamente com a consternação em seus olhos arregalados, e da ausência de cor de sua carnuda cara.

Naquele momento já tinham começado a voltar a vida as estátuas que os rodeavam. A tremente anfitriã fez um sinal, os músicos começaram a tocar diligentemente e o salão voltou pouco a pouco para a normalidade que podia esperar-se dentro do razoável, dado o monstro que ocupava o centro.

Entretanto, enquanto a anfitriã o levava de um grupo de convidados a outro, Snape percebeu a tensão no ar; deu-se conta de que todos estavam esperando que cometesse alguma atrocidade, e provavelmente apostando sobre o tipo de atrocidade.

E ele desejava ardentemente agradá-los. Há quase oito anos não entrava naquele mundo, e até aqui todos atuavam como ele recordava que o fazia a boa sociedade, tinha esquecido o que significava se sentir um inseto estranho. Recordava a rígida cortesia que não podia ocultar o temor e a repulsão em seus olhos. Entretanto, tinha esquecido como se sentia terrivelmente só naqueles momentos e como odiava aquela solidão. Tinha esquecido como se retorciam suas vísceras e a vontade de gritar e quebrar tudo em sua volta.

Ao cabo de meia hora, seu autocontrole tinha chegado ao limite e decidiu partir assim que tivesse posto em seu lugar a responsável por seus sofrimentos de uma vez por todas.

Uma vez cabada a dança, Theodore Nott devolveu à senhorita Granger a seu círculo de admiradores, que vadiavam junto a um vaso de barro com uma samambaia enorme.

Quando Snape deixou a lady Brown, cambalenate em uma cadeira, atravessou o salão, dirigindo-se para a grotesca samambaia. Caminhou com passo firme até que os homens que rodeavam à senhorita Granger tiveram que abrir caminho ante o risco de ser atropelados. Lhe deram espaço, mas não partiram.

Snape lhes dedicou um olhar carregado de dureza e disse:

—Saiam.

Foram-se.

Examinou dos pés a cabeça à jovem, lentamente, e esta lhe devolveu o olhar. Sem fazer caso da fervente sensação que tinha despertado aquele olhar dourado, sua atenção recaiu sobre o corpete de Hermione e estudou descaradamente a exuberante exposição dos ombros e peito, de um branco cremoso.

—Deve estar preso com arames — disse — Se não, sua costureira terá descoberto um método para desafiar as leis da gravidade.

—Está forrado com um entrelado de varinhas, como os espartilhos — replicou ela com calma — É terrivelmente incômodo, mas é o que está na moda e não queria me arriscar que me considerassem sem estilo.

—Ou seja, estava segura de que viria — disse Snape — Porque é irresistível.

—Espero não estar tão louca para desejar estar irresistível para você. — sorriu — É muito simples. Ao que parece, está armada uma farsa onde somos protagonistas. Eu estou disposta a tornar medidas razoáveis para contribuir que isso se acabe. Você foi quem desatou as línguas no café, mas tenho que reconhecer que eu o provoquei em certo modo — se apressou a acrescentar, sem dar tempo ao moreno que replicasse — Também tenho que reconhecer que poderiam ter cessado as fofocas se eu não tivesse irrompido em sua casa e o tivesse incomodado. — sua face ficou ligeiramente vermelha — Com respeito ao que passou depois, ao que parece ninguém viu, então é irrelevante no problema que nos ocupa.

Snape observou que Hermione segurava com força o leque e que seu peito subia e descia com evidentes sinais de agitação. Sorriu.

—Naquele momento não atuou como se fosse irrelevante. Pelo contrário...

—Snape, beijei-o — disse Hermione sem alterar-se — Não vejo razão alguma para transformar isso em um problema. Não é a primeira vez que o beijam, nem será a última.

—Por Deus, senhorita Granger, não estará ameaçando-me voltar a fazê-lo, não é?

Ele arregalou os olhos, com horror zombador.

Hermione deixou escapar um suspiro.

—Já sabia eu que era muito esperar que você fosse razoável.

—Ao que uma mulher se refere quando fala de um homem "razoável" é poder dirigi-lo — replicou — Está certa, senhorita Granger, é esperar muito. Parece que alguém está arranhando um violino. Parece-me que temos em perspectiva uma valsa, ou algo pelo estilo.

—Parece — disse Hermione com tensão.

—Pois vamos dançar — disse Snape.

—Não — replicou Hermione — Já tenho par para esta dança...

—Claro. Eu.

A jovem plantou ante a cara o leque com a escritura masculina nas varinhas.

—Note bem — disse — Vê aqui escrito em algum lugar o nome Belzebú?

—Não sou cego — disse Snape, arrebatando o leque das tensas mãos delicadas — Não tem por que pô-lo tão perto. Ah, estou vendo. É este? — acrescentou assinalando "McLaggen".

—Sim — respondeu Hermione, olhando para frente — Ali vem ele.

O moreno girou o corpo. Um francês se aproximava cautelosamente, com o rosto tenso. Snape cruzou os braços. O homem se deteve. Sorrindo, Snape apertou entre o polegar e o indicador a varinha com o nome de "McLaggen". Quebrou-se com um estalo.

O homem partiu.

Snape se voltou para a senhorita Granger e, ainda sorrindo, quebrou todas as varinhas, uma atrás da outra. Depois atirou o leque destroçado no vaso de barro da samambaia. Estendeu as mão.

—Meu baile, acredito.

Foi uma exibição primitiva, disse Hermione. Na escala do desenvolvimento social, supunha apenas um grau por cima de ter lhe dado uma paulada na cabeça e haver a levado arrastando-a pelos cabelos.

Só Snape podia se sair bem daquela ação, e dizer aos inimigos que partissem, sem a menor sutileza nem afetação. E só ela, obcecada como estava por ele podia considerá-lo delirantemente romântico.

Pôs sua mão na do moreno. Os dois usavam luvas. Entretanto, Hermione estremeceu com o contato como uma descarga elétrica que percorreu seus membros e lhe deixou os joelhos moles. Ao levantar o olhar viu a expressão assustada nos olhos de Snape, e quando seu sorriso de cumplicidade se apagou, perguntou-se se ele também teria notado. Entretanto, se acaso o tinha notado, não o fez vacilar, porque a agarrou descaradamente pela cintura e, ao seguinte compasso, começou a fazê-la girar.

Ofegante, Hermione se agarrou a seu ombro. Depois o mundo ficou a dar voltas, desapareceu, deixou de existir, enquanto Snape a arrastava em uma valsa de um modo que ela jamais tinha experimentado. Não era a forma repousada da Inglaterra, e sim estilo europeu, vertiginoso, abertamente sensual, popular nas reuniões dos baixos níveis, supôs Hermione. Assim devia dançar Snape com suas putas, pensou.

Mas ele não ia trocar seus costumes simplesmente para adaptar-se a um montão de dissimulados da alta sociedade. Dançava como sentia vontade, e ela estava louca de alegria porque escolhera ela.

Snape se movia com uma graça inata, com força e absoluta segurança. Hermione não tinha que pensar, só se deixava arrastar imensamente pelo salão enquanto seu corpo estremecia com a consciência da presença dele e só dele: o largo ombro sob sua mão... o enorme corpo musculoso a centímetros por cima do dela... o sedutor aroma de tabaco, colônia e homem... a cálida mão em sua cintura, atraindo-a para ele pouco a pouco, de modo que a saia girava entre suas pernas... ainda mais perto com um rápido giro... suas coxas roçando-se...

Hermione olhou aqueles olhos negros, cintilantes.

—Não está opondo muita resistência — disse Snape.

—Como se fosse servir de algo — replicou Hermione, contendo um suspiro.

— Nem sequer quer tentar?

—Não. E aí está o mau.

O moreno observou seu rosto um longo momento. Depois, sua boca curvou com um exasperante sorriso zombador.

—Compreendo. Pareço-lhe irresistível.

—Superarei — disse Hermione — Amanhã volto para casa.

Snape apertou sua cintura com mais força, mas não replicou.

A música estava a ponto de acabar. Depois de uns segundos, o moreno riria e em seguida partiria, e ela poderia voltar para a realidade... e a uma vida da que ele não podia nem devia formar parte, porque então não seria vida.

—Lamento ter manchado sua reputação — disse Hermione — Mas não o fiz sozinha. Não tinha por que se negado a fazer negócios e ter vindo esta noite.. A única coisa que deveria fazer agora e rir e partir e assim todos verão que não significo nada para você, que tinham se equivocado.

Snape a fez girar rapidamente quando acabou a música e a reteve mais do que devido durante um longo momento. Quando por fim a soltou, não a soltou por completo, continuou aprisionando sua mão.

— E o que aconteceria se tivessem razão, Hermione? — perguntou com voz mais profunda.

A vibrante corrente da voz de barítono a fez erguer o olhar. Depois desejou não havê-lo feito, por que acreditou ver agitação nas negras profundidades de seus olhos. Devia ser sua própria agitação refletida nele, disse a si mesma. Não podia ser de Snape, e não havia razão para que seu coração não ansiasse livrar-se dela.

—Não é assim — respondeu com voz trêmula — Só veio para faze-los de ridículos, e sobre tudo a mim. Entrou na sala, apropriou-se da situação e obrigou a todo mundo a humilhar-se ante você, também me obrigou a dançar ao som de sua música.

—Pois parecia que gostava — replicou ele.

—Isso não significa que eu goste de você — disse Hermione — Será melhor que solte minha mão antes de que as pessoas comecem a pensar que gosta.

—Não me importa o que pensam.

Snape pôs-se a andar lhe segurando com firmeza a mão, e a jovem não teve mais remedio que ir com ele, ou deixar se arrastar por ele.

Levava-a para a entrada, enquanto Hermione olhava freneticamente ao seu redor pensando se serviria de algo pedir ajuda aos gritos. De repente se ouviu um grande estrondo na sala de jogo. Alguém chiou, várias pessoas gritaram e se ouviram mais golpes. No mesmo momento todos que estavam no salão de baile se precipitaram para o lugar de onde procediam os ruídos. Todos menos Snape, que se limitou a seguir andando para a entrada.

—Deve ser uma briga — disse Hermione, tentando soltar-se da mão dele — Mas pode ser um motim. Vai perder a diversão, Snape.

Ele se pôs a rir e saiu carregando-a.