- Ninguém melhor que você – sorriu novamente para ela – Além de ser uma bruxa de elite também já foi comensal, conhece o modo como eles atacam.

- A pergunta não foi porque me escolheu e sim se o Ministro concorda com essa nomeação – sabia que apesar de tudo seu chefe a adorava. Podia fazer aquela pergunta sem ter medo de ser demitida.

- Você é atrevida, garota! – mesmo sendo uma repreensão, o sorriso continuava lá – Sim, ele concorda. Posso te fazer uma pergunta? – ele pareceu desconfortável ao dizer isso, contudo havia uma determinação em seus olhos.

A vontade dela era dizer que não e mandá-lo para o inferno, mas infelizmente não poderia fazer isso. Uma coisa que havia aprendido com muito custo durante o tempo que esteve dentro do Ministério era que hierarquia não era uma coisa que ela poderia discutir.

- Acho que você vai descobrir que pode – respondeu contrariada. Era obrigada a respeitar a hierarquia, mas mesmo assim podia deixar claro sua opinião exatamente como ela havia feito agora.

- Você faz parte da Ordem da Fênix? – ele não pareceu constrangido ao perguntar isso. Deixou mais do que claro que sua lealdade era ao Ministério e não a organização que Dumbledore fundou sem o consentimento do ministro.

Ela riu da pergunta, essa era um das vantagens de ser uma comensal. Você aprende a dissimular muito bem. A loira jogou os cabelos para trás, fazendo charme. Era óbvio que ela sabia do poder que possuía. Era óbvio que também já havia usado isso inúmeras vezes ao seu favor.

- Acha realmente que eles deixariam uma comensal entrar? – rebateu dissimulada. Como se não bastasse desafiá-lo ela ainda pisava em cima dele sem que o mesmo se desse conta disso.

- Você tem razão, pode ir.

Kammy sorriu cinicamente pelas costas de seu chefe. Levantou a manga da blusa, passando seus dedos sobre a marca gravada em sua pele, agora avermelhada. Para alguma coisa tinha servido ela ter sido um comensal. Agora era oficial. Keenan teria que aturá-la, querendo ou não.

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Já estava irritado com aquela perseguição toda. Chegava a duvidar que o tal lorde tivesse tanto poder assim. Estava prestes a chamar o secretário quando o pigarreio as suas costas chamou sua atenção. Não gostava nem um pouco quando ouvia aquele ruído, pois sabia muito bem o que aquilo significava.

- O Primeiro-Ministro está vindo – disse a voz mecânica vinda do quadro mecânico em sua parede que já tentará se livrar inúmeras vezes sem o menor sucesso.

Qual seria a catástrofe da vez? Mais uma ponte? Mais ataques? Mais mortes? Quando será que isso iria parar? O homem alto e imponente apareceu pela passagem. Mesmo já o tendo visto algumas vez, Keenan ainda se sentia imponente em sua presença.

- Chame Kingsley – pediu, apesar de que seu tom de voz não parecia um pedido e sim uma ordem. Estava acostumado a dar ordens em seu próprio departamento que se esqueceu que ali não era seu território.

Sem alternativas, o moreno fez o que era pedido. Com passos carregados e arrastados, dirigiu-se a sala ao lado. Mesmo o bruxo parecia surpreso com a vinda de seu superior. Segundos depois, os dois homens se encontravam na sala. O auror sentou-se numa das cadeiras quase a vontade enquanto o Primeiro-Ministro trouxa permaneceu de pé, desconfortável com a situação.

- Onde está sua pupila? – perguntou seco sem dar um sorriso. Nunca havia visto Scrimgeour dar um sorriso desde que se conheceram. Até podia entender devido a gravidade da situação.

Isso fez o auror gelar na hora. Se tocasse no nome da pequena na frente do trouxa, Scrimgeour saberia que a ordem estava protegendo-o e isso não era nada bom. O Ministério não aceitava a interferência de Dumbledore não decorrer da história. A situação era ainda mais complicada do que o Lancaster poderia imaginar.

- Provavelmente no Ministério – pelo menos era onde ela deveria estar nesse momento. Tonks havia lhe avisado do plantão que teriam que fazer. Sua pupila deveria estar xingando até agora.

- Ótimo – sorriu secamente – Eu tenho novidades para você – ele se referia ao Primeiro-Ministro – Eu colocarei um guarda-costas para seu filho. Temos fontes seguras que ele está em perigo – não disse quais eram exatamente as fontes. Preferia ter Dumbledore como um aliado a um inimigo. Era o único bruxo que rivalizava a Você-Sabe-Quem.

- Como aquela... – começou, contudo foi interrompido pelo outro ministro. Já deveria ter aprendido que quando lidava com bruxos ele nunca estava no comando da situação.

- Eu não aceito contestações. A Black vai protegê-lo quer queira quer não – não deixou nem margem para contestações – Eu odeio admitir isso, mas ela é uma poderosa auror. Não existe ninguém no ministério que tenha metade do pode letal que ela tem – isso era inteiramente verdade. Claro que omitiu o fato que mais da metade do poder dela era devido ao seu desequilíbrio emocional.

- Poder letal? – seus orbes se arregalaram com o susto. A imagem que havia montado dela era de uma desequilibrada e insana não de uma excelente lutadora.

- Você não ficaria nada satisfeito se soubesse a real extensão dos poderes dela – deu um sorriso seco – Eu chego a ficar feliz que ela esteja do nosso lado – Scrimgeour nunca havia encontrado nenhum bruxo, além da loira, que conseguisse controlar a magia em tão tenra idade como ela.

Não deu nem tempo para o Lancaster formular uma pergunta sequer, pois o ministro já havia sumido nas chamas esverdeadas como acontecia em todo encontro. Teve que se resignar em não obter as respostas que procurava. Mudou de idéia ao ver que o auror ainda estava sentado numa das cadeiras.

- O que ele quis dizer com poder letal? – sentou-se a sua frente e procurou olhar em seus olhos.

- Bem – o bruxo suspirou pesadamente antes de responder – A Kammy é uma comensal, apesar de tudo. Ela conhece as maldições melhor do que a maioria dos bruxos – sabia que sua pupila não aprovaria nem um pouco ele estar contando essa história ao ministro, ainda mais que esse não a aceitava.

- E por que não venceram ainda? – perguntou incrédulo. Se a garota possuía tanto poder quanto eles afirmavam, ela poderia muito bem acabar com essa guerra e deixá-lo governar seu país se a interferência dos bruxos.

- Por que o outro lado também as conhece e a usa ao seu favor muito mais do que a Kam – ele ainda não havia entendido tudo que estava em jogo nessa guerra.

- Confia nela?

- Eu entregaria minha vida a ela – Shacklebolt resolver ser totalmente sincero em sua resposta – Ela vai me matar se descobrir, mas tudo bem, vamos lá. A Kammy odeia os comensais. Ela teve sua vida destruída por causa de um deles, mais especificamente, sua própria irmã. Não vai deixar ninguém por as mãos em seu filho, pois sabe muito bem o que vai acontecer com ele se isso vier a ocorrer.

- Eu vou transformar a vida dela num inferno se eles pegarem o meu filho. Pode apostar que sim, eu vou até as últimas conseqüências – deixava claro que não se importaria de ir até o inferno se fosse preciso. Neowën era seu bem mais precioso.

- Ele não é seu filho biológico, certo? – já que ele tocou no assunto resolveu investigar. Não teria outra oportunidade tão cedo.

- Não, mas eu o criei como se fosse – sabia que poderia confiar no bruxo.

- Talvez seja por isso que Você-Sabe-Quem esteja atrás dele – falou mais alto do que deveria.

- O que disse?

- Nada – tentou sorrir tranquilamente – Precisamos voltar ao trabalho – disse a palavra mágica. Trabalho era o suficiente para manter o trouxa muito ocupado.

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A maioria dos comensais estava em volta da grande mesa. Alguns simplesmente giravam a varinha, outros suspiravam entediados e outros ainda tentavam conter seu temor. Seu mestre não estava plenamente satisfeito com o seu trabalho e alguns temiam ser o alvo para o bruxo descontar sua raiva.

- Eu não entendo, milorde – a voz da morena estava exaltada. Ela era uma que não tinha noção do perigo. Seu amor incondicional pelo bruxo a deixava cega.

- Cara Bella – o bruxo falava pausadamente, acariciando o rosto da comensal, ato que a fez fechar os olhos involuntariamente. Contentava-se com migalhas do afeto dele, como nesse momento – Pegar o garoto é essencial. Eu vou ter o ministro sangue-ruim na minha mão se isso ocorrer – óbvio que não revelou totalmente seus planos para a bruxa. Ela fracassou somente uma vez, porém foi o suficiente para ter mais cautela.

- Por quê? – a comensal ainda estava trêmula pelos carinhos recebidos. Sabia que seu mestre não a amava, porém seu coração apaixonada impedia que visse a verdade.

- Vou liquidar os sangue-ruins desse mundo, além de que o garoto não é um trouxa como aparenta ser! – resolveu compartilhar somente essa informação com seus aliados. Ainda não tinha absoluta certeza do que realmente o moreno era, mais trouxa certamente não era. Trouxas não viam adementadores.

- Ele é um bruxo? – perguntou um dos homens, na ponta mais distante da mesa. Muito provavelmente ele só teve coragem de fazer essa pergunta por estar longe de seu mestre.

- Não é questão te ter mais um no nosso exército. Eu preciso de bruxos poderosos – por hora preferia manter seus planos para si. Não queria ver Bellatrix pirando.

- Em outras palavras, milorde estará usando para atrair alguém – o bruxo no canto mais próximo de Voldmort deduziu mais rápido do que os outros, ou pronunciou-se antes dos demais.

- Perspicaz Yaxley. Mas a verdade é essa. Eu vou trazer a pequena Black de volta ao nosso círculo – pensando bem, queria ter o prazer de ver sua adorada Bella espumar de raiva.

- O quê? – a Lestrange abriu os olhos repentinamente, ultrajada com o que acabara de ouvir. O bruxo não poderia estar falando sério – Você quer aquela pivete? – como já imaginava, Bellatrix estava com raiva.

- Olha o respeito, Bella – disse suavemente – Ou posso esquecer a admiração e o respeito que tenho por você – a referida mulher se calou na hora ainda mais que o bruxo passava a ponta de seus dedos suavemente pelo rosto dela – Eu não preciso de quantidade e sim qualidade. Sei que você a odeia, mas não posso ignorar o fato que aquela garota tem um poder e um controle mágico excepcional.

- Grande coisa – murmurou, embora o homem ouviu cada palavra. Não era segredo para nenhum deles que a bela morena simplesmente odiava sua pequena irmãzinha e que ela fez de tudo para infernizá-la.

- Querida Bella, controlar a magia com apenas quatro anos não é para qualquer um. Você a transformou numa comensal agüente as conseqüências – afastou-se bruscamente da mulher, fazendo a mesma se apoiar na mesa para recuperar o controle perdido.

- O que deseja? – não tinha mais forças para continuar aquela discussão, ainda mais sabendo que iria poderia sair perdendo.

- Convença Neowën Lancaster a vir para o nosso lado! – ordenou para a comensal. Estava louca para saber como essa história terminaria.

- Quer realmente que ele venha? – levantou-se com a varinha em punho, praticamente pronta para atender a ordem.

- Não, eu quero que a pequena se sinta ameaçada pela nossa presença – riu diabolicamente – Mais cedo ou mais tarde ela vai voltar ao lar – conhecia muito bem os medos interiores dela para saber que isso se tornaria uma realidade, não importasse o tempo que fosse.

- Como pode ter tanta certeza, milorde? – a voz trêmula de Lucius se fez presente.

- Ela perdeu muito mais naquela noite do que a maioria de vocês sonha ou até mesmo a Ordem. Ela não vai deixar ninguém sofrer o que ela sofreu em nossas mãos – o sorriso diabólico adornava seu rosto. Soube através de uma fonte segura o segredo que ela resguardava da Ordem com tanto afinco.

- Como se ela tivesse poder – como sempre, a Lestrange não suportava que sua meia-irmã tivesse a atenção do Lorde, atenção que era para ser direcionada a ela. Por que raios sua irmã pegava tudo que ela algum dia amou?

- Cara Bella – ele voltou a passar seus longos dedos pelo rosto da mais fiel comensal – Você tirou tudo dela naquela noite no Ministério. Inclusive o bebê que ela esperava, o que poderia significar a salvação da sua família – sabia que ela não iria sentir nenhum remorso por ter tirado a vida de seu sobrinho, ainda mais quando soubesse a identidade do pai do bebê.

- Ela estava grávida? – Bellatrix ainda não acreditava fielmente nessa informação. Como sua tola irmã poderia estar esperando um bebê? Quem seria o pai do bastardo?

Ela não precisou realmente que Voldemort lhe respondesse. Estava muito claro agora. Cerrou os punhos com raiva. Como sempre, a bastarda ficava com tudo que ela mais desejava. Primeiro seu pai, depois Sirius e agora Voldemort. Não, a pequena jamais teria o lorde para si, ela simplesmente não deixaria.

- Agora vá, e faça o que eu mandei – estou louco para ver o circo pegar fogo. Queria ver até onde a Lestrange iria em sua louca obsessão de acabar com sua irmã.

A morena não precisou de uma segunda ordem para se levantar da mesa, atravessar a sala e a partir em busca do pivete. Tinha certeza que onde ele estivesse a bastarda estaria junto. Não lhe importava nem um pouco os planos que seu lorde traçara para a garota. Ela acabaria com a pivete mais cedo ou mais tarde, de preferência que fosse o mais cedo possível.

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Neowën não agüentava mais olhar para fora e não poder sair da residência. Ele precisava de ar puro para digerir as idéias, sem contar a faculdade. Afinal, todos pensavam que ele estava seguro, certo? Não iria fazer mal nenhum em escapulir dali e ir para a universidade. Era exatamente isso que ele iria fazer e ninguém iria impedi-lo. Havia descoberto muitas coisas nas últimas horas e não agüentaria mais ficar trancado dentro de um quarto se não colocasse as idéias no lugar.

Com certa dificuldade – okay, muita dificuldade – ele conseguiu voltar ao centro de Londres. A nostalgia o atingiu em cheio ao observar as lojas, tão suas conhecidas. Caminhou mais alguns quilômetros até reencontrar a faculdade e se dirigisse ao seu centro. Precisaria de algum que desviasse sua atenção urgentemente. Assim que chegou à porta da secretaria, uma mulher morena o esperava. Ou pelo menos parecia esperar. Ele realmente não tinha tempo para conferir.

- Neowën Lancaster – chamou-o numa voz suave e amaciada.

Ele observou-a pelo canto dos olhos. A mulher era razoavelmente alta, cabelos cheios e desgrenhados. Ele não tinha tempo para ficar parado, batendo papo, todavia o medo circulava em suas veias, impedindo o mesmo de se mover. Aquela voz parecia familiar aos seus ouvidos, sabia que já havia escutado alguma vez na sua vida, só não sabia onde.

- Sabia que ia encontrá-lo aqui – ela caminhou com passos leves em sua direção, encurtando a distância que os separava. Ela bloqueou o único caminho que o jovem agrônomo poderia usar para fugir.

- Quem é você? – já que não poderia fugir, teria que enfrentá-la embora todos os seus instintos dissessem para ele se afastar.

- Bellatrix. E não se preocupe, minha maninha não vai vir salvá-lo, se é isso que você espera que ocorra – o sorriso debochado tomou conta de seu rosto ao ver o efeito que causava naquele pivete. O que o moreno ainda não sabia é que Lestrange adorava brincar com suas vítimas, muito mais do que sua irmã.

O medo se intensificou. Ela parecia ainda mais letal ao vivo. Kammy era até inofensiva perto dela. Pensar na auror lhe trazia certo conforto. Daria tudo para ter a garota ao seu lado nesse momento.

- O que você quer de mim? – apesar do medo, ele ainda tinha coragem para enfrentá-la. Sabia que fugir não era uma das opções viáveis.

- A pergunta é o que você quer – ela já começava com seu jogo doentio. Em vez de ficar parada como todo torturador, ela agora rodava em torno dele como se quisesse desestruturá-lo, tirar sua noção de tempo e espaço.

- Você não sabe – já se sentia tonto ao vê-la mudar de direção constantemente. Até já estava se esquecendo que a mulher era uma bruxa.

- Tem certeza? – murmurou em seu ouvido esquerdo numa tom de voz razoavelmente baixo. Sentiu estremecer devido a proximidade que se encontravam.

Tudo aconteceu muito de repente. A morena puxou a varinha e lançou o feitiço antes mesmo que ele pudesse sequer pensar em se defender. A situação agora era inversa. Em vez de observar as lembranças alheias, ele teve suas lembranças acessadas. Alguma delas tão constrangedoras que não chegou a compartilhar nem mesmo com seus amigos e agora aquela completa estranha observava tudo.

Ele fechou os olhos e esperou que o tormento acabasse. Demorou muito mais do que imaginava que duraria. Quando aconteceu com a loira, parecia muito mais rápido do que foi com ele. É claro, ela era uma bruxa e sabia muito bem se defender, ao contrário dele. Odiava admitir, mas ele realmente precisava de um protetor. Uma onda de calor começou a se alastrar por seu peito ao pensar na auror, ao pensar que a loira pudesse estar sempre ao seu lado, protegendo-o.

- Sabe por que sua família o odeia, não é? – de alguma maneira inexplicável o pivete conseguiu expulsá-la de sua mente. Sendo assim, a morena resolveu mudar de tática e usar o que havia descoberto. Sua voz agora estava infantilizada, como se ele não fosse um adulto que merecesse sua atenção.

Ele realmente não queria falar naquilo. Doía em seu peito, ainda mais que ele não tinha culpa de nada, absolutamente nada. Keenan não era seu pai biológico, a verdade era essa. Embora ele o tenha criado como fosse, a parte paterna de sua família não aceitou esse fato tanto bem quanto o político e descontava o erro de Aileen no filho, que não tinha nada a ver com o assunto.

- Se você se tornar um comensal, nós poderemos encontrar seu pai verdadeiro – abandonou seu tom infantil e passou a falar numa voz carinhosa e esperançosa. Só que dessa vez as palavras foram sopradas no seu ouvido direito. Logo após isso ela deixou de rodeá-lo como vinha fazendo e postou-se a sua frente.

Bella viu o efeito de suas palavras se refletirem na íris castanha do moreno. O primeiro passo estava dado. Ele cairia em suas mãos facilmente, ainda mais que a semente da curiosidade fora plantada em seu coração. Sorriu sadicamente. Sua pequena irmãzinha teria que se rebolar para trazê-lo de volta a luz. A marca negra começou a arder e um segundo depois o feixe de luz quase a atingiu. Não pensou que a garota pudesse tê-la encontrado tão rápido assim.

- Ora, ora, se não é... – começou com seu tom infantilizado com o intuito de atingi-la, porém foi impedida pela própria garota que a interrompeu bruscamente.

- Encoste um dedo no Neowën e eu esqueço que deixei de ser comensal – fagulhas saíam da ponta de sua varinha. Dava para ver a raiva que a loira sentia devido o modo como apertava a varinha em sua mão.

- Divirta-se, maninha – Bellatrix sussurrou ironicamente o que fez com que mais fagulhas saíssem da varinha de Kammy.

Rápido demais para seus olhos acompanharem os movimentos, Neowën somente viu o feixe de luz se aproximar da auror e ricochetear próximo dela, como se um campo a protegesse. A outra desapareceu antes mesmo que ele pudesse piscar. Aquele seria o primeiro duelo de varinhas que ele veria nos próximos conturbados meses.

- Como sabia... – começou surpreso, todavia nem chegou a metade da frase. A loira o interrompeu numa voz extremamente irritada.

- Eu juro que te azaro se você sair mais uma vez de debaixo dos meus olhos! – os orbes dela estavam escuros e brilhavam perigosamente.

Ele sentiu o medo o corroer pela primeira vez desde que a havia encontrado. Foi a primeira vez que pode vislumbrar a fachada de comensal dela e finalmente percebeu o perigo que aquilo representava. Como já imaginava, a loira não tinha controle de suas ações e sentimento. Era exatamente isso que a tornava perigosa e mortal. Ninguém podia saber qual seria o próximo passo que ela tomaria.

- Você me deve... – ele começou com suas exigências achando que poderia domá-la facilmente. Mero engano.

- Você perdeu o direito a explicações no instante que desobedeceu minhas ordens e saiu da sede – rebateu grosseiramente. Ela estava inflexível e ele pode perceber isso em sua voz. Ficou sem saber o que fazer, como agir, até que ela resolveu quebrar o clima tenso que havia surgido entre eles e começar o interrogatório.

- Você que me deve explicações agora. O que Bellatrix queria? – havia raiva, ódio e rancor em sua voz.

- Te atingir – isso não deixava de ser verdade, considerando que a garota odiava os comensais – Ela invadiu minhas lembranças – engoliu em seco. Tinha certeza que garota não iria descansar até descobrir a verdade.

- Vai me dizer qual sua pior lembrança ou vou ter que invadir sua mente? – novamente ela apertou a varinha com força e mais fagulhas voaram de sua ponta. Isso estava começando a deixá-lo mais amedrontado.

Ela apertou a varinha com mais força e mesmo inconsciente aos movimentos mágicos, Neo percebeu. Ela não lhe deixou escolhas. Acabaria contando de um jeito ou de outro. Pelo que percebeu e o pouco que sabia da garota, ela não iria exitar nem um minuto em cumprir a ameaça. Respirou fundo antes de começar sua triste história.

- Eu tinha nove anos quando isso aconteceu – ele fechou os olhos quando sentiu as lembranças o invadindo com força total – Estávamos num jantar de família. Como sempre todos ignoravam a minha presença e isso sempre me machucou. Naquela noite eu perguntei a um dos meus primos porque eles me odiavam. Ai eles falaram que era porque eu era bastardo. Foi nessa hora que meus tios entraram e deu a maior briga. Meu pai e minha mãe vieram me defender, mas foi ai que descobri que eu não era filho legitimo deles, pelo menos não do meu pai.

Aquilo acendeu uma lâmpada na cabeça da Black. A ordem tinha razão. Neowën realmente não era filho do primeiro-ministro como aparentava. Mas então quem seria seu pai? Seria ele bom ou mal? Tinha mais um abacaxi para descascar. Como se já não bastasse descobrir como iria mantê-los a salvo de comensais, dementadores e sabe-se mais o que Voldemort iria mandar.

Além disso, a auror sabia que o outro lhe escondia algo, mas não sabia o que era. Poderia usar a Legilimencia, porém sabia que isso diminuiria a confiança que Neowën depositava nela, que já não era muita. Ele tinha errado ao sair de sua proteção como havia feito, todavia ela realmente lhe devia explicações. Quem sabe se ela as fornecesse, o moreno conseguiria entender o real perigo que o rondava.

- Voldemort acumulou poder por mais anos. Ele estava ficando realmente poderoso, tão poderoso a ponto de todos temê-lo. Ninguém se equiparava a ele, com exceção de Dumbledore. Aliás, foi ele que montou a Ordem da Fênix, a primeira organização a tentar lutar realmente contra Voldemort. É claro que teve muitas baixas de ambos os lados. Para acabar com todos os perigos existentes que ele decidiu matar os Potter e seu filho. Só que ele falhou ao matar o pequeno garotinho, em outras palavras "ele morreu". Não totalmente é claro – a auror conseguiu fazer um breve resumo da situação até a queda de seu ex-mestre. Soube de tudo isso através da boca de Sirius e a dor presente na voz do Black ainda a afetava de certa forma.

- Por que está me contando isso? – indagou confuso. Não estava entendendo aonde ela queria chegar com tudo isso.

- Você já vai entender – ela suspirou pesarosa – Ele recuperou seu corpo depois de 13 anos. E voltou a reunir seu exército enquanto a Ordem fora novamente convocada. Seus membros restantes e os novos, inclusive eu. A segunda guerra vai acontecer e não vai demorar muito, ele já começou a agir – sendo filho de Keenan, o moreno já deveria ter notado que tudo que aconteceu nas últimas 24 horas era obra do terrível bruxo.

- Será? – ergueu as sobrancelhas, descrente. Bellatrix havia feito um belo trabalho em seu cérebro. Era do tipo que precisava de provas, evidências para acreditar em algo, mesmo que este estivesse piscando em letras berrantes bem na sua frente.

- Confirme com seu pai. A ponte de Brockdale foi obra dos comensais assim como o furação no oeste e as mortes inexplicável, incluindo Madame Bones, juíza da suprema corte – ela deixou de citar todas as demais mortes inexplicáveis e também todos os incidentes ocorridos fora da Inglaterra. Se soubesse de tudo ele não iria mais por os pés fora de casa.

Ele estava de queixo caído. Jamais imaginou que os últimos acontecimentos ocorridos em seu país foi fruto da fúria de bruxo malignos. Carinhosamente a loira empurrou seu queixo para si e sorriu. Sem seguida ela pegou sua mão e aparatou mais uma vez. Uma onda de calor se alastrou pelo corpo do moreno. Era tão reconfortante estar do lado dela. Sentir o contato entre seus dedos.

Assim que chegaram a Toca, todos o abraçaram extremamente preocupados. Deixou todos desesperados com seu sumiço. Keenan estava furioso. Kingsley havia jurado que a bruxa não deixaria nada de acontecer com seu garoto e ele havia sumido. Iria garantir que ela nunca mais chegaria perto dela.

- Viu? Ela não consegue protegê-lo! – apontava freneticamente para a garota. Queria que seu assistente conseguisse ver a enorme burrada que havia cometido. Mais como sempre Kammy não conseguiu ficar de boca ferrada, logo despejou na cara do político.

- Para sua informação, eu fui designada para protegê-lo pelo próprio Ministro da Magia – claro que ela ainda não sabia que o próprio Scrimgeour foi até o gabinete do Lancaster lhe dar essa informação em primeira mão.

Então era isso. Ela o protegia por ordens superiores e não porque estava preocupada com ele. Essa notícia o frustrou totalmente, pois achava que a loira se importava com ele. Se importava de coração e não somente porque ele era uma missão que ela foi obrigada a aceitar.

- Pai, eu somente fui para a faculdade – murmurou exasperado. Que mal poderia haver em uma ida a universidade? Não era tolo o suficiente para relatar o encontro que teve com a comensal. Seu pai era capaz de matar alguém se soubesse que sua segurança esteve em perigo.

- E cruzou com Bellatrix Lestrange – ela estava com uma cara carrancuda – Se eu não estivesse lá você poderia estar morto! – acusou irritada. Não sabia porque estava tão irritada. Ele não foi o primeiro que Kammy teve que proteger muito menos o primeiro a desobedecer suas ordens, contudo foi o primeiro que ela se alterou verdadeiramente.

- Eu não vi você fazer nada – acusou elevando o tom de voz. Não queria admitir que o erro era todo seu e não dela. Precisava arrumar uma desculpa para continuar com a razão.

- Não veria mesmo. Ela luta a base de feitiços não-verbais, como qualquer auror – informou a metamorfomaga, mas nem mesmo assim a raiva se dissipou. Para começar ele não fazia a menor idéia do que seria feitiços não-verbais. Segundo, não conseguia aceitar que não era o suficientemente importante para Kammy se preocupar verdadeiramente com ele. Chegou até a sentir ciúmes de Sirius.

- Você não pode culpar a Kammy por estar preocupada com você – conciliou Lupin, pois conhecia suficientemente o comportamento da loira para saber o que dizia –Ela, melhor do que ninguém, sabe do que Bellatrix é capaz – esperou que o garoto se tocasse do quanto a morena era perigosa e letal. Perto dela, Kammy chegava a ser inofensiva, isso quando ela não estava descontrolada, claro.

- Que me protegesse antes então – rebateu irritado. Praticidade era uma coisa que todos deveriam aprender um dia.

- Ela estava, com uma identidade secreta – Moody não pensou que essa informação fosse afetá-lo tanto. O auror era ainda mais prático e sincero que o moreno. Preferia a verdade nua e crua a uma trilha de mentiras e mortes.

- Como? – estava confuso. A primeira vez que havia visto Kammy foi na madrugada daquele mesmo dia. Uma madrugada extremamente corrida e reveladora.

- Catherine Hegel. Era eu o tempo todo – respondeu a auror de cabeça baixa, sem olhar diretamente em seus olhos. Aprendeu com Sirius a não mentir e contar sempre a verdade. Esconder o tempo todo sua verdadeira identidade tinha sido um martírio para ela.

A raiva o cegou. Não conseguia admitir que a única garota que havia atraído sua atenção desde a morte de Anne era a auror o tempo todo. Se ela fizesse isso por preocupação, pena, compaixão, qualquer sentimento ele perdoaria, mas não. Ela o protegia somente para cumprir ordens e isso ele não conseguia aceitar. Não aceitava pois no fundo ele esperava que ela sentisse alguma coisa por ele que não fosse obrigação. Em um dia ela conseguiu abalar suas convicções o que muitas tentavam e não tinham o menor sucesso. Mais isso não significava que ele iria perdoá-la.

- Quer saber? Eu CANSEI! EU VOU ACEITAR A PROPOSTA DELA E ME TORNAR UM COMENSAL! – berrou. Elevar a voz era uma das únicas maneiras que ele encontrou de aliviar sua raiva.

Ele estava chateado e irritado. Irritado demais para perceber o brilho assassino nos olhos de Kammy.

- Se assim quiser, mas antes vou lhe mostrar três coisas – disse com uma calma aterradora. Calma essa que chegou a deixá-la apreensivo.

Assim que se virou para encará-la finalmente percebeu que havia algo de errado com a auror. Todos estavam apavorados por sua decisão repentina e ela estava com um brilho psicótico no olhar.

- Primeira: a Maldição do Controle. Imperius! – ela não esperou que seus olhares se encontrassem. Elevou a varinha e movimentou levemente seu pulso. Uma sorriso prazeroso tomava conta de seus lábios.

Apavorado demais para reagir ele a viu apontar a varinha para sua melhor amiga e o feitiço atingi-la bem no peito. Como se não tivesse mais controle de seu corpo, ela caminhou em passos razoavelmente longos até a auror e parou a dois passos da mesma. Ele voltou a sentir o medo novamente. Sabia que a garota tinha potencial a ser perigosa, entretanto jamais imaginou que ela usaria os poderes de bruxa contra seus próprios amigos.

- Segunda: A Maldição da Dor. Crucio! – era o mesmo sorriso prazeroso e sádico que adornava a rosto da Lestrange, momentos atrás.

A morena caiu no chão, contorcendo-se de dor. Os gritos dela eram como facas entrando no coração de Neowën. Ele sabia que cada fibra do corpo dela sentia realmente a dor que aparentava sentir. A loira parecia sentir prazer em causar essa dor. A surpresa que a Ordem sentia deu lugar ao pavor ao notar aonde a loira queria chegar. Ela provocaria uma tragédia se realmente levasse a cabo suas intenções.

- NÃO – gritaram uma confusão de vozes, dentre as quais o Lancaster identificou a do Nixon e da Tyler, seus amigos.

Uma nova presença se fez na sala, sem que qualquer um dos membros tivesse se dado conta disso. Ao contrário dos demais, ele sorria tranquilamente. A auror voltou a sorrir sadicamente. O feixe de luz disparou de sua varinha no exato momento que Rosalie parou de se contorcer. Ela não teve tempo de se defender, pois no instante seguinte o raio a atingiu. A loira guardou a varinha com a maior calma do mundo enquanto o moreno ficou pregado no chão sem conseguir se mover.

- Terceira: A Maldição da Morte. É isso que você vai aprender, a torturar e matar. Se quiser seguir em frente e se tornar um comensal eu não vou te impedir. Agora você sabe o que te aguarda. Espero que realmente valha a pena para você e que não se arrependa mais tarde – caminhou com passos leves até ela e parou bem na sua frente – Como eu me arrependi – o hábito fresco dela bateu diretamente em seu rosto e por um segundo ele teve a ilusão que ela o beijaria.

N.A.: Mais um cap reescrito. E que decididamente ficou bem melhor que o anterior *-* Pra quem não leu o antigo, será que a Kammy realmente matou a Rose ou ela estava blefando? Descubram no próximo cap õ/

Beijos e reviews õ/