Casal: DeanxSam

Classificação: Slash, Angst, Darkfic

Nota: Se passa no final da segunda temporada, por isso desconsiderem qualquer evento ocorridos na terceira.


Devour - Capítulo sete

A chuva parou quase perto do sol nascer. Os raios alaranjados iluminaram as gotas de orvalho espalhadas pelos arbustos do local.

Sam abriu os olhos, sonolento. Seu hálito úmido atingia a pele abaixo de si lentamente. Ele passou o nariz por aquele pedaço, ronronando como um gatinho pequeno. Seu ouvido podia captar as batidas fortes e ritmadas do coração debaixo de toda aquela pele.

- Dean... – murmurou baixinho.

O corpo se mexeu e Sam pôde sentir o braço em sua cintura apertar levemente, mandando agradáveis arrepios por toda sua pele. O moreno ergueu os olhos, observando o rosto de Dean na penumbra, os raios do sol que nascia ainda não iluminando o quarto completamente.

Dean.

Sam pulou da cama como se ela pegasse fogo. Os olhos claros estavam arregalados quando o seu movimento deixou o lençol cair até a cintura de Dean, expondo seu corpo, iluminados pelos pequenos raios da manhã. Sam engoliu em seco, seu coração pulando com aquela visão. Dean gemeu algo e virou-se na cama, deitando de bruços. O mais novo deslizou o olhar pelas costas delineadas do irmão, sua respiração ficando cada vez mais falha. Ele podia ver pequenos arranhões perto dos ombros de Dean, que sabia ser resultado das suas unhas.

E com essa constatação os flashes voltaram com força total, fazendo Sam correr parar o banheiro e se trancar lá dentro. Ele deslizou até o chão, seu corpo protestando quando ele abraçou as pernas apertado.

- Eu não acredito. Deus, isso não aconteceu... – balbuciou Sam, batendo a cabeça contra a porta.

Ele não podia acreditar que todas aquelas visões, todos aqueles momentos em seus sonhos acabaram se transformando em realidade. Aquilo o assustava mais que tudo, pois provava que ele não tinha como mudar o destino, mesmo tendo premonições, que os caminhos eram já traçados. Se fosse assim, como ele poderia ter qualquer chance de salvar o irmão?

Seu irmão.

Sam tentava segurar o choro, a respiração rápida não ajudando em nada. Ele esfregou os olhos com as palmas das mãos, apertando-os dolorosamente, até que se levantou do chão, indo até a pia. Ele jogou água fria no rosto e encarou-se no espelho, como se seu reflexo lhe trouxesse as respostas que precisava.

Só havia uma coisa a fazer.

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Dean acordou num sobressalto, sentando-se na cama. Ele olhou em volta, franzindo o cenho. Foi quando notou duas coisas: primeiro, Sam não estava. Segundo, os pertences de Sam não estavam.

O loiro levantou-se em pânico, sentindo seu corpo protestar com o movimento súbito, mas ele não podia se importar menos. Ele logo pegou sua boxer, colocando a peça de roupa. Ele foi até o banheiro, escancarando a porta, encontrando-o vazio.

- Não...Sammy, não, não, não... – balbuciou Dean enquanto voltava ao quarto, revirando todo móvel que achava.

Ele passou a mão pelos cabelos, grunhindo frustrado. Ele só podia chegar a uma conclusão óbvia: Sam tinha ido embora. Tinha simplesmente pego suas coisas e desaparecido.

- Porra, Sammy... – xingou Dean cada vez mais irritado. Ele se aproximou da mesa de cabeceira, respirando rápido, até que num movimento rápido, acertou o abajur, jogando-o longe, vendo-o se espatifar contra o chão. – PORRA SAMY!

Dean sentou-se na beirada da cama, colocando a cabeça entre as mãos, sentindo seus olhos arderem com lágrimas não derramadas, seu coração batendo feito bumbo em seu peito. Ele apertou as mãos nos cabelos, mordendo os lábios, não sabendo o que fazer ou o que pensar.

Ele sabia bem porque Sam tinha partido. Dean apertou os olhos enquanto sua mente revivia as cenas da noite passada. Os toques, os beijos, a consumação de algo que acumulava na alma do loiro há anos. Mas aparentemente não tinha sido assim para seu irmão mais novo, se a reação dele fosse alguma indicação.

- Deus... – soluçou Dean.

O que ele tinha feito? Desde quando Sam dera alguma indicação de que ele queria qualquer coisa desse tipo, que ele sentia tudo que Dean sentia?

Mas Dean pouco se importara, quando aquele corpo, aqueles gemidos, aquela pele fora oferecida de bandeja para ele. Tinha totalmente se aproveitado da situação frágil entre eles e tomado o que desejava há muito tempo.

Sua respiração estava rápida e ele se esforçou para se concentrar numa maneira de rastrear Sam e traze-lo de volta. E ao mesmo tempo, enterrar todo aquele sentimento dentro de si, o mais fundo possível.

Deus, eu queria que esse sentimento dentro de mim nunca existisse.

Assim que pensou nessas palavras Dean sentiu sua respiração ficar mais forte. Parecia como se alguém estivesse pressionando seus pulmões, sua garganta, cortando a circulação de ar. Dean começou a tossir, sufocando, ajoelhando-se no chão. Ele levou a mão ao peito, gemendo quando sentiu o amuleto que sempre usava queimar contra a palma da sua mão, como se tivesse sido jogado ao fogo.

Ele não tinha idéia do que estava acontecendo, mas sua visão começava a embaçar nas bordas. Seu último pensamento antes de desmaiar seria que iria para o inferno mais cedo, sem ao menos ver Sam pela última vez.

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Ela abriu a porta do quarto cuidadosamente, fechando atrás de si, assim que encostou-se a madeira. Seus olhos scanearam o local, observando o abajur espatifado no chão, as roupas espalhadas, os lençóis sujos e bagunçados de uma única cama. Ela andou até lá, ajoelhando-se ao lado do homem desmaiado no chão, notando seu estado de quase nudez. Ela sorriu, tocando os fios loiros, arrumando-os carinhosamente, seus dedos longos deslizando por aquele rosto perfeito, parando na boca. Ela desenhou a boca com cuidado. Logo seguiu sua exploração, deslizando pelo pescoço, acariciando o ombro, até que encontrou o amuleto que ele nunca tirava. Ela pegou-o na mão, deslizando o dedão pelo artefato.

- Dean Winchester. – sussurrou deliciada – Cuidado com o que deseja, ou pode acabar conseguindo.

Ela abaixou-se, beijando-o na testa, sorrindo maliciosa.

- Seu desejo é uma ordem, meu escolhido.

Ela se afastou apenas para ver Dean abrir os olhos, piscando-os lentamente. Ele sentou-se, ainda confuso, mas seus olhos perderam um pouco do brilho que antes havia neles.

- O...que houve?

- Apenas uma tontura. – explicou. Ele encarou-a.

- Quem é você?

- Aquela que vai te ajudar no seu contrato.

Ele apenas ergueu os olhos enquanto ela se levantava. Ela estendeu a mão.

- Venha. Temos uma putinha de olhos vermelho para encontrar e matar.

Dean sorriu divertido, aceitando a mão e se erguendo. Ele lambeu os lábios, seu sangue já correndo rápido pelo prazer da caçada que iria começar.

- Tem razão. Não temos tempo a perder.

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Sam enterrou a cabeça entre as mãos, seu coração pulando rápido enquanto repassava os eventos da noite passada, retrasada, quase do mês inteiro.

Suas visões. Elas começaram a mudar cerca de um mês atrás, quase um mês após a morte do demônio de olhos amarelos, quase um mês após ele ter voltado à vida de forma não-natural.

Pera aí.

Sam ergueu os olhos, encarando o local a sua volta, mas seu olhar estava perdido. Será que o demônio de olhos amarelos tinha alguma coisa a ver com isso? Raios, qualquer um dos demônios que eles libertaram pode ter sido responsável.

O moreno ergueu-se, indo até a janela da rodoviária onde se encontrava, observando a paisagem do lado de fora, franzindo o cenho. Certamente algo sobrenatural estava empurrando-os naquela direção, fazendo algo para que eles pudessem...

Sam balançou a cabeça, pensando nas outras pistas. As mortes misteriosas. O aparecimento de Nicole. Os testemunhos sobre os cães do inferno. Tudo isso muito suspeito quando Dean teria que fugir dos mesmo cães ao fim dos sete meses que restavam...

Deus! Como ele poderia esquecer de um detalhe tão importante?! Sam voltou a sua mochila num passo apressado, procurando seu celular até encontrar o aparelho. Ele não deveria ter ido embora sem ter deixado sequer um bilhete, sabia como Dean pirava quando ele fazia isso. Sam tentou enterrar a pontada de culpa que lhe atingiu e concentrou-se em coisas maiores. Ele logo ligou para Bobby.

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Quase duas horas depois, quando achou que morreria de ansiedade, Sam respirou aliviado quando recebeu a ligação de Bobby, de volta. E o que o jovem Winchester ouviu do outro lado da linha fez seu coração bater mais rápido em pânico e sua garganta fechar em fúria.

Não existia nenhum professor Robert. Não existia nenhum ritual greco-romano que pudesse salvar almas do inferno, e olhar eu Bobby era um expert nessa área. E não...existia nenhuma Nicole.

Sam quase caiu da cadeira quando ouviu essa última. Ao perceber o pânico na voz do jovem, Bobby logo perguntou:

- O que aconteceu Sam? E onde está Dean?

- Ele está bem. Deus, espero que ele esteja bem. Bobby, eu preciso desligar.

Sem esperar por resposta, o moreno desliga o celular, logo pegando sua mochila, colocando por sobre os ombros, caminhando a passos largos pra fora da rodoviária, fazendo o caminho de volta para o motel. Enquanto anda, ele seleciona o celular de Dean, querendo avisar ao irmão do perigo, querendo pedir desculpas pela forma como fôra embora, querendo...Dean.

O celular toca cinco vezes antes de cair na caixa postal.

Oi, aqui é Dean Winchester...

E o coração de Sam pára quando ouve as próximas palavra, definitivamente numa voz feminina.

E se você acha que vai voltar para os braços do seu irmão, Sam Winchester, chegou tarde. Ele agora...é meu.

Sam começa a correr, colocando o celular de qualquer jeito no bolso da calça, as palavras de Nicole revolvendo em sua cabeça como alfinetes afiados e venenosos. Ele logo vê o motel surgindo em sua visão e trata de acelerar o passo. Seu coração está saindo pela boca quando ele percebe que o Impala não está em frente ao quarto, como ficou na noite passada.

Ele praticamente chuta a porta, escancarando-a. Seus olhos se arregalam ainda mais quando encara o quarto a sua frente. As camas estão bagunçadas, as armas de Dean espalhadas pelo carpete, totalmente abandonadas. Temendo o pior, Sam inspeciona o quarto inteiro, mas não encontra nenhum rastro a mais, nehuma mancha de sangue, nada.

Significa que Dean não lutou.

Significa...

...Que Dean foi embora por contra própria.

Sam cai contra a beirada da cama, respirando rápido, seu coração se apertando em seu peito, sua mente embaralhada. Como ele pôde deixar isso acontecer, como ele pôde ser tão cego? Ele estava tão obcecado em salvar Dean que perdeu vista de algo muito mais importante.

O que Dean, ali, ao lado dele, representava.

Sam ergue-se com as pernas bambas em desolação e logo começa a recolher as armas, com carinho, uma a uma. Ele as guarda na mochila largada do lado de uma das camas, quando acha a blusa preta que Dean usava noite passada, que foi jogada de lado, logo que eles voltaram ao quarto, quando a chuva começara.

Sam pega a blusa e fecha os olhos, afundando o seu rosto contra o tecido, inalando aquele cheiro cítrico e tão masculino, tão indefinivelmente Dean. Seu corpo se arrepia com aquele cheiro.

Ele vai achar Dean, é só uma questão de tempo. E ele vai matar Nicole. Lentamente.

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Seis meses se passam.

TBC