Grécia – 19:45hs.
Algumas pessoas passeavam tranqüilamente pelas ruínas do templo de Athena, o Partenon, quando eis que surgiram alguns raios dourados e deles saiu um homem de cabelos e olhos azuis, trajando uma armadura dourada, com uma capa branca presa às suas costas. Ele andava lentamente pelo local, fitando a todos os presentes.
Ao aproximar-se mais do Partenon, observou o local reverentemente. Mas algo chamou sua atenção, fazendo-o voltar o olhar para trás.
Sua capa começou a esvoaçar cada vez com mais velocidade, assim como seu cabelo, a medida que um vento sem precedentes tomava conta do local. Nuvens escuras tinham tomado conta do céu azul em questão de segundos. Ao longe o Cavaleiro distinguiu o que parecia ser um tornado aproximando-se da terra firme e do templo de Athena.
Com sua grande velocidade, o Santo de Athena dirigiu-se para a praia. As pessoas corriam para longe do mar, cheias de temor. As ondas tornavam-se cada vez maiores, arrebentando com fúria sobre o Cavaleiro.
Ele sentia que aquilo não era obra da natureza e sim de alguém muito poderoso. Esticando as mãos em direção do furacão, o Cavaleiro de Ouro disparou alguns raios de Cosmo contra o estranho fenômeno. Mas este continuou seu curso por ainda alguns metros, antes de ir dissolvendo-se lentamente à frente do Cavaleiro dourado.
No lugar onde estivera o furacão ficou apenas uma silhueta que foi tomando mais consistência a medida que uma fumaça dourada ia desaparecendo. Logo ficara no local apenas uma bela jovem de aparentes 20 anos, com cabelos azul-escuro de comprimento até o meio das costas, de franja rala e curta, cobertos por um véu quase transparente. Seu rosto estava coberto por uma máscara prateada. Ela trajava um vestido comprido estilo frente-única, lilás, de alça dupla e dourada; a saia era levemente rodada. Dois pares de asas negras brilhavam às suas costas.
Ela flutuava no ar e parecia olhar fixamente a face de Miro quando levantou sua mão direita e retirou sua máscara lentamente, revelando um belo rosto: olhos azul-anil e lábios pintados em vermelho-sangue, além de um desenho na testa (uma esfera no interior de outra, esta última rodeada por um par de asinhas):
Ela pronunciou uma única palavra, com uma nota de espanto em sua voz melodiosa enquanto jogava sua máscara para o solo – Kael!
O Cavaleiro logo entendeu tratar-se de um engano e respondeu – Sou Miro de Escorpião, um dos Cavaleiros de Athena. Quem ou o que é você?
A moça pareceu entristecer-se por alguns instantes, mas respondeu docemente:
- Sou Zieel, um demônio que escapou do inferno. – ela continuou com seus olhos fixos em Miro e murmurou para si mesma – Como é possível que sejam tão semelhantes fisicamente?
- Com quem me confunde? – perguntou Miro.
Zieel pareceu lembrar-se repentinamente de sua missão e começou a flutuar para trás, levantando um pouco os joelhos:
- Não importa. Você é um dos defensores de Athena e devo destruí-lo.
Miro levantou um pouco sua mão direita e sua unha brilhou, crescendo e tornando-se em cor escarlate:
- Pois bem. Mas não será eu quem será destruído. Agulha Escarlate!
O fino raio escarlate foi em direção de Zieel, mas nada causou-lhe, pois esta esquivou-se, transformando-se em uma fumaça dourada.
- O que! – Miro surpreendeu-se – Ela é rápida!
O demônio começou a girar em torno de si mesma e logo transformou-se em um tornado gigantesco que avançou contra Miro. O Cavaleiro não conseguiu esquivar a tempo e foi sugado pelo furacão, sendo lançado com violência contra a praia em seguida.
Ao levantar-se, deparou-se com Zieel a sua frente.
- Este é todo o seu poder? – perguntou Miro, sorrindo cinicamente, sem nenhum dano aparente em seu corpo, apenas a Armadura estava um pouco suja de areia – Por que diminuiu sua força ao atacar-me?
Zieel ficou furiosa e levantou suas mãos ao céu, atacando Miro com raios de Cosmo em seguida. Estes raios foram desviados sem dificuldades pelo guerreiro, para maior fúria do demônio, que armou suas asas e partiu numa investida. Ao invés de se desviar, o Cavaleiro retrucou com um raio de energia, lançando o demônio de encontro ao mar.
Ela se levantou das águas mas permaneceu imóvel por alguns instantes, até que suas asas descansaram e ela baixou seu olhar, andando sem pressa para longe do mar. Miro seguiu-a com o olhar inquiridor.
- Você se parece muito com Kael. Sei que não conseguirei atacá-lo, como nunca pensaria em fazer com este anjo. Mas... – ela levantou seu olhar para o céu azul, murmurando tristemente – O que será de mim sozinha pela eternidade?
Miro questionou-a, apenas com o olhar, aproximando-se dela lentamente.
- Escute, Cavaleiro, e não se aproxime. – Miro obedeceu – Sei que serei destruída por revelar-lhe tudo, mas não posso evitar. – ela fechou os punhos com força – Não, não posso mesmo evitar.
Por vários instantes o demônio permaneceu imóvel, refletindo. Depois continuou:
- Primeiramente deve saber que não farei isso pelos tolos humanos ou por mais ninguém, apenas por meu amado Kael.
Ela deu meia volta e andou em direção do mar. Só quando a água tocou-lhe os joelhos, continuou suas palavras, sob o olhar atento do santo de Athena:
- Kael sempre foi meu único amor. Sempre vivemos pacificamente ao lado dos outros seres celestes. Até que... – interrompeu-se por novos instantes, parecendo pesarosa – Até que Lúcifer propôs rebeldia aos anjos, dizendo-lhes que, juntos, poderiam tornar este mundo um lugar melhor. Na opinião dele, os homens eram seres imperfeitos, mas que isto poderia mudar. Junto com muitos outros anjos, Kael concordou e se rebelaram no céu. E foram mandados para sempre para o inferno. E eu fui junto de meu amado. Nunca teria forças para separar-me dele. Mas eu sabia que aquilo era errado.
- Por que não tentou dizer-lhes a verdade? – Miro interrompeu-a.
- Tentei! Mas não consegui. Kael estava determinado a transformar os seres imperfeitos em seres perfeitos. Só depois de sermos exilados é que Kael compreendeu a verdade. Mas pagou com a destruição de sua alma por isso. Desde então jurei vingança. Agora surgiu a oportunidade de vingar-me. Os humanos, culpados pela destruição de Kael, devem pagar. Mas acima de tudo, os 12 demônios que participaram do assassinato!
- Doze demônios vieram à Terra! – perguntou Miro.
- Treze, contando comigo. – respondeu Zieel.
- Mas como vocês conseguiram escapar do inferno?
- Através de um poder antigo... uma jóia... Viemos para destruir a humanidade, mas sabíamos que a deusa grega que protege esta Terra, Athena, mandaria seus defensores contra nós. - silenciou-se.
- Zieel, pare de lutar contra os Cavaleiros de Athena... Deixe tudo em nossas mãos, que acabaremos com os outros demônios, eu prometo. Você não será destruída por aqueles monstros.
A mulher demônio voltou seu olhar em direção de Miro e sorriu levemente:
- De nada adiantaria afastar-me das batalhas. Agora que lhe contei tudo, quando descobrirem o segredo da jóia, voltarei ao inferno e lá serei destruída. Mas isto não importa... - desviou o olhar - Minha vida, se é que posso chamá-la assim, não tem mais sentido.
Miro observava aquela bela mulher com tristeza. Tão formosa dama, destinada a ser um demônio pela eternidade, sofrendo por uma dolorosa separação.
- Escute, Cavaleiro. Vá informar seus amigos sobre o que eu vou lhe dizer. Os 13 demônios escaparam do inferno com a ajuda de uma jóia antiga. Aquela preciosidade estava quebrada, mas alguém uniu suas metades. Quebrem esta jóia e vencerão a todos os demônios. Mas tomem cuidado. O chefe dos demônios, Zaniel, estará protegendo o portal do inferno. Aquele maldito é muito poderoso.
A máscara prateada surgiu nas mãos de Zieel, que a recolocou sobre a face e foi se afastando sem pressa, rumo ao oceano.
Miro agradeceu antes de também afastar-se, apressado:
- Agradeço muito por tudo o que nos revelou, Zieel, e sinto muito por você. Prometo que acabaremos com Zaniel, custe o que custar. Adeus.
A mulher demônio murmurou - Guarde sua piedade para outros, Cavaleiro de Athena. Eu não preciso dela, não mais. - olhou para o céu - Em breve estarei com você, meu amado Kael... - uma lágrima escapou por debaixo de sua máscara rumo ao solo.
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