Ato III – Capítulo III – Na minha vida
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O tempo que durou a reunião, Shiryu não prestou atenção em uma única palavra dita, todos seus sentidos estavam em Shunrei. A garota, incomodada com os olhares sobre si e sem entender muito bem o que se passava consigo, pediu licença a Hilda e resolveu subir para seu quarto.
Encantando, Shiryu a viu subir as escadas e sumir pelo corredor do primeiro andar.
-Isso tudo é maçante... Não sei como o Inspetor agüenta! – comentou Hyoga com o amigo, mas ele sequer ouviu.
Decidido, Shiryu levantou-se em um rompante e foi até o balcão, onde Hilda estava arrumando alguns pratos.
-Senhora?
-Sim?
-Poderia me dizer onde encontro um... Um banheiro?
-Claro, é só subir a escada, é a porta no final do corredor.
Shiryu agradeceu com um aceno e subiu rapidamente as escadas. Parou no meio do corredor, tentando descobrir por qual das portas o anjo poderia ter entrado.
No quarto, Dohko somente percebeu a presença da filha quando Shunrei aproximou-se da cama e se sentou, com um olhar perdido.
-O que foi, minha filha? Aconteceu alguma coisa lá embaixo?
-Não, papai... Eu estou me sentindo um pouco cansada, por isso subi.
-Ficar ouvindo os devaneios românticos daqueles estudantes deixam qualquer um cansado... Bem, descanse um pouco que eu preciso descer e conversar com a senhora Hilda sobre alguns assuntos.
Beijando a testa de Shunrei, Dohko deixou-a com Kiki e foi saindo do quarto, sorrindo. Um sorriso que morreu assim que abriu a porta e deu de cara com Shiryu no corredor, parado a centímetros de distância do quarto.
-O que quer aqui, rapaz?
-Eu... Eu? – Shiryu atrapalhou-se todo com as palavras – Eu... Estou procurando pelo banheiro!
Dohko ia abrir a boca para responder quando ouviu passos tímidos atrás de si e a voz curiosa de Shunrei próxima ao seu ouvido.
-Com quem está conversando, papai? – ela questionou, postando-se ao lado do pai.
Arregalou os olhos, surpresa por Shiryu estar ali, parado no corredor. O rapaz abriu um largo sorriso ao vê-la, os olhos brilhavam de encantamento. Shunrei sorriu timidamente, sentindo a face queimar de vergonha.
Dohko, atento à cena que se desenrolava, mandou que a filha entrasse no quarto e fechou a porta com tudo, assustando o rapaz.
-Você não queria o banheiro? Fica ali naquela porta, no fim do corredor!
-O-obrigado, senhor...
Meio desolado, olhando torto para o homem, Shiryu foi para o cômodo indicado. E Dohko só saiu da frente do quarto quando o rapaz passou de volta e desceu as escadas para o salão.
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-Vamos embora, Hyoga... – falou Shiryu ao amigo, que quase dormia recostado na cadeira.
-Como assim, vão embora?
-Nós temos alguns assuntos a resolver, ins... Shion. Mas voltaremos à noite, como o combinado.
Cumprimentando os estudantes mais próximos, os dois rapazes saíram do café apressados, Shiryu com a cabeça tão longe que não notou que alguém estava plantado na porta do lugar, esperando por alguma coisa. Ou pessoa.
-Perdão, senhorita! – ele falou, ao trombar com tudo nesse alguém, quase derrubando-o no chão – Espere, eu não a conheço de algum lugar?
-Acho que sim... Você me ajudou na Praça da Paz Celestial, quando derrubei minhas coisas no chão.
Shiryu franziu o cenho, mas lembrou-se pouco depois da garota de melenas lavanda e olhos tristes que ajudara. Sorrindo, cumprimentou-a de maneira respeitosa.
-Agora me lembro, senhorita...
-Saori.
-Um bonito nome, senhorita... O meu é...
-Shiryu. Eu já sei disso...
-Como sabe?
Saori arregalou os olhos, por que havia dito aquilo? Subitamente sentindo-se envergonhada, ela baixou a cabeça, querendo que um buraco se abrisse no meio da rua e ela pudesse se esconder. O rapaz sorriu com o jeito dela, mas foi cortado de seus pensamentos por um impaciente Hyoga.
-Vamos logo, Shiryu, eu tô louco pra sair desse lugar e ir embora.
-Vamos sim, Hyoga... Até qualquer dia, senhorita Saori.
Os dois amigos saíram pela calçada e Saori encostou-se em um muro, sentindo o coração disparado. Como aquele rapaz podia ser tão encantador? Subitamente feliz por ele ter se lembrado dela, Saori desencostou-se do muro e foi caminhando para o meio da rua dando pulinhos de excitação. Felicidade que se extinguiu rapidamente, quando levantou o olhar para as janelas do primeiro andar do café.
-Então... É por causa dela que estava aqui, Shiryu? – perguntou a si mesma, tristemente.
Em uma das janelas, Shunrei observava o movimento na rua e, principalmente, Shiryu ir embora. Um leve sorriso bailava em seu rosto, que sensações eram aquelas que experimentava somente de olhar para o rapaz ou ouvir sua voz?
-Shunrei! – ouviu a voz do pai lhe chamar e voltou depressa para dentro do quarto – O que está fazendo na janela?
-Shunrei? Não é possível que seja... Shunrei...
Com uma expressão de surpresa no rosto, Saori tentava ordenar seus pensamentos. Não podia ser que aquela garota bonita e arrumada, com jeito de quem era tratada como princesa, fosse a mesma menina irritante que costumava maltratar quando criança!
Sentiu raiva da garota. Se fosse mesmo ela, a culpava por toda desgraça que vivia desde a infância, pois fora somente aquele viajante levar Shunrei embora para que seus problemas começassem. E agora ela queria lhe roubar também o seu amor?
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-Cara, eu estou morto! Nunca imaginei que ficar ouvindo alguém falar fosse tão cansativo!
Hyoga se queixava enquanto tirava seus sapatos e túnica, precisava urgente de um banho. Shiryu, absorto em seu próprio mundo, nem ouvia o que o amigo lhe dizia.
-Shiryu? Cara, já é a décima vez hoje que eu tento chamar a tua atenção e você fica aí, parado com essa cara de idiota!
-Desculpe, Hyoga... O que você estava falando mesmo?
-Eu estava fazendo alguns comentários sobre o que aqueles estudantes falavam. Sobre os planos qüinqüenais abandonados, a repressão contra os dissidentes, essas coisas.
-Ah, claro... Eu ouvi algumas coisas sobre isso também. Sinceramente, Hyoga, em algumas partes eu concordo com eles.
-Como assim, concorda? – Hyoga questionou, metendo-se debaixo do chuveiro, Shiryu fez o mesmo.
-Ora, será que não presta atenção à nossa volta quando fazemos a ronda? As pessoas que vemos mendigando, gente miserável que não tem outra alternativa senão esperar pela morte.
-Detalhes, Shiryu... Esse tipo de coisa existe em todo lugar.
-Mas não deveria, ainda mais em um país cujo governo prega a igualdade entre seus cidadãos.
Hyoga resmungou algo que Shiryu não entendeu, pois o rapaz estava com a cabeça debaixo da ducha fria. Mais uma vez, seus pensamentos voltaram-se para Shunrei. Para o seu anjo.
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Noite. E como o prometido, lá estavam os dois rapazes de volta ao café. Hyoga, tentando expressar alguma alegria por estar ali, junto daqueles estudantes e Shiryu, feliz pela possibilidade de reencontrar Shunrei. A noite reservava surpresas agradáveis para ambos.
-Hyoga e Shiryu! – gritou Aioria ao vê-los – Só faltava vocês para começar a nossa reunião. Venham até aqui, quero lhes apresentar alguém...
Com os braços sobre os ombros dos dois rapazes, Aioria os levou até as mesas onde se reuniam. E um rapaz de cabelos verdes chamou a atenção de Hyoga, que piscou, como se não acreditasse no que via.
-Rapazes, eu quero lhes apresentar nosso companheiro...
-Isaac? Por Buda, o que faz aqui?
-Hyoga! Há quanto tempo, meu amigo!
Os dois se abraçaram, dando tapas vigorosos nas costas um do outro. Sentaram-se na mesma mesa, falando e rindo juntos.
-Já se conhecem? – perguntou Ikki, com um quê de desconfiança em sua voz.
-Claro! Eu e Hyoga crescemos juntos, morávamos em casa vizinhas... Mas estou surpreso em vê-lo por aqui, não sabia que se engajava nessas lutas estudantis.
-Nem eu sabia de você... Só não entendo o que faz aqui, não é membro do partido?
-Sou, mas isso não quer dizer que concorde com sua política para nosso país. Existem muitas coisas que eles escondem, podridão e injustiças... Por isso estou aqui, Hyoga. Quero ser como um porta voz para o povo, levar suas reivindicações aos líderes do partido.
Isaac falava com propriedade, era um profundo conhecedor de sua realidade, do que vivia dentro e fora do partido. Atento, Hyoga ouvia a tudo e Shiryu também, mas isso até ser cortado pela presença de um certo alguém.
-Com licença, a senhora Hilda pediu para servir-lhes um chá. – disse Shunrei, trazendo uma bandeja para a mesa principal.
Tímida, ela serviu a cada um dos estudantes. E, no momento em que foi servir ao rapaz, sentiu sua mão ser tocada pela dele quando lhe entregou a xícara.
-Obrigado, Shunrei.
Ela sorriu, como era gostoso ouvir seu nome dito por aquele rapaz, sua voz era tão forte e soava firme. Recolhendo a bandeja, ela voltou ao balcão, sob os olhares atentos de Shiryu. E de Dohko, que observava a filha do primeiro andar, encostado em um corrimão.
Não estava gostando nada da aproximação de Shunrei e aquele rapaz. E muito menos dos olhares de Shiryu sobre sua pequena.
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Quando a reunião acabou, os estudantes foram se dispersando um a um, mas Hyoga e Shiryu ainda permaneceram no local, o loiro cada vez mais atento e animado com a conversa que mantinha com Isaac.
Já o amigo, absorto na observação constante dos movimentos de Shunrei pelo café, não tinha ouvido uma única palavra dita naquela noite. Sorte que o inspetor não estava presente, ou certamente teria problemas.
-Shunrei! – Hilda chamou pela garota, que atendeu prontamente – Será que você podia procurar pelo Kiki na rua e entregar este pacote a ele?
-Claro, senhora!
Solícita, Shunrei pegou o pacote, uma espécie de marmita envolta em um pano de copa, e foi para a rua. Estava parada na calçada, procurando ao seu redor, mas nada do menino aparecer. Teria que procurá-lo pelos arredores.
-Não acha que está um pouco tarde para andar sozinha por estas bandas?
A garota estremeceu ao ouvir aquela voz, tão perto de si. Sorrindo timidamente, ela voltou-se para trás e viu Shiryu parado na calçada, a lhe fitar.
-É que... Que eu preciso entregar isso ao Kiki.
-Kiki?
-O menino de cabelos vermelhos que às vezes ajuda a senhora Hilda.
-Ah, me lembro agora... Se quiser, eu posso ajudar a procurar por ele.
-Não precisa, eu não quero incomodá-lo, senhor Shiryu...
-Senhor Shiryu? – ele riu – Pareço tão velho assim? E como sabe meu nome?
-Ah, bem... Eu... Eu ouvi os estudantes o chamando.
Shunrei estava vermelha de vergonha. Não sabia muito bem o que fazer. Shiryu, então, aproximou-se da garota e pegou o pacote que ela tinha em mãos, sempre sorrindo.
-Vamos, precisamos encontrar o Kiki, não é mesmo?
Encantada, ela por fim aceitou a ajuda do rapaz e o seguiu pela calçada, sentindo a face incendiar pela proximidade e aparente excitação por finalmente poder conversar com ele.
No café, Dohko acabara de descer para jantar quando percebeu que a filha não estava presente. Procurou por todo o local e só viu Hilda mexendo em algumas panelas e Hyoga e Isaac nos fundos, comendo e rindo muito.
-Onde está Shunrei? – perguntou, sentando-se ao balcão.
-Foi procurar pelo Kiki e levar o jantar para ele, não vai demorar a voltar.
Agradecendo, Dohko pegou seu prato e já ia começar a comer quando notou que o rapaz de cabelos negros que costumava acompanhar o loiro não estava presente. Uma palpitação tomou conta de seu coração, onde ele estaria?
Teria ido atrás de sua pequena?
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Encontraram Kiki em uma rua lateral, sentando na calçada. Shunrei entregou o pacote a ele e deu-lhe um beijo na bochecha. Depois, ainda tímida, voltou para a rua principal junto de Shiryu.
Em silêncio, chegaram ao café e ela já ia entrando quando o rapaz a deteve, segurando-a delicadamente pelo braço.
-Espere, Shunrei... Eu preciso lhe falar...
-Fa-falar?
Trêmula, ela viu Shiryu assentir e se aproximar mais de si, tomando suas mãos entre as dele. Fitando-a com intensidade, seus olhos negros brilhando, ele abriu a boca para falar, mas as palavras simplesmente não saíram.
Uma onda de choque percorreu o corpo de Shunrei quando Shiryu simplesmente desistiu de dizer alguma coisa e fechou os olhos, tocando os lábios rosados da garota em um beijo terno.
Era um toque tão suave e cálido que Shunrei sentiu-se flutuar, fechando os olhos para aproveitar melhor as sensações que aquele gesto refletia em seu ser. O rapaz, por sua vez, enlaçou a cintura dela delicadamente e a envolveu em um abraço carinhoso e confortante. A proximidade maior fez com que uma corrente elétrica percorresse a espinha de Shunrei, ela acabou entreabrindo os lábios para um suspiro e Shiryu aproveitou o momento para aprofundar o beijo, tocando a língua incerta da garota, brincando com ela.
As pernas ficaram bambas, certamente teria caído se não estivesse nos braços de Shiryu... Nos braços daquele rapaz maravilhoso, de quem nada sabia, mas que a fazia se sentir a garota mais linda e feliz do mundo. Logo, pequenas lágrimas brotaram dos olhos de Shunrei, misturavam-se ao beijo tão cheio de carinho e promessas...
Do outro lado da rua, escondida atrás de um poste, Saori via a cena. Sentindo o chão faltar sob seus pés, ela baixou a cabeça, lágrimas correndo por seu rosto. Mais uma vez, havia perdido para Shunrei...
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Demorou, mas aqui está mais um capítulo desta fic... Ele já estava escrito há algum tempo e betado também, mas a pedido da Themys, eu reescrevi a cena do beijo. Ah, parece que foi rápido, mas estou seguindo mais ou menos o ritmo dos acontecimentos do livro, mas não se esqueçam de que a fic é menor, né gente!
E no próximo, começará a ação, mal posso esperar (e olha que sou eu quem escreve a fic, hein)!!!
"Na Minha Vida", dueto de Marius e Cosette, cantado na primeira parte do segundo ato de "Les Misérables".
