Capítulo 8
Abrindo as portas para a sociedade
Ana-Lucia subiu as escadas, aborrecida. Por que seu marido tinha que ser sempre tão mandão? Nessas horas ele a fazia recordar-se de Dom Guimarães e seus desmandos. A vida fora do bordel não era tão diferente da vida que vinha levando agora à exceção de que ela não precisava mais servir bêbados inveterados e também não havia a ameaça de ter que se deitar com eles. Mas continuava tendo que ser subserviente a alguém e agora tinha seu próprio bêbado para cuidar, seu marido.
Ela não sabia de onde vinha toda aquela sede por liberdade e independência. Na comunidade cigana, as mulheres não tinham nenhum tipo de poder político. Sua função social se limitava a cuidar dos maridos, criarem os filhos e trabalhar arduamente para manter a comunidade.
Na sociedade dos americanos, pelo que aprendera durante seus três anos vivendo no bordel, a vida das mulheres também tinha funções limitadas, mas só para aquelas que eram de boa família e possuam ricos dotes. Mulheres como essas se casavam com bons partidos e não faziam nada mais do que bordar ao pé da lareira e olhar os filhos. As criadas é que se encarregavam de realmente cuidar das crianças.
No velho oeste, numa cidade pequena e rural como Dharma Ville, as mulheres trabalhavam arduamente nas tarefas domésticas ou tinham seus próprios negócios como Shannon Jarrah, mas ainda assim havia a limitação imposta pelo fato de terem nascido mulheres. Ciganas ou americanas, não havia muita diferença, mas se alguém naquela cidade descobrisse sobre a origem de Ana-Lucia ela podia esquecer o tratamento cordial por parte dos cidadãos de Dharma Ville. Ciganos eram considerados um povo vagabundo e pagão. A beleza de suas mulheres só servia para que fossem transformadas em escravas e prostitutas.
Ana-Lucia mirou-se em frente ao espelho do quarto. Não tinha entendido porque o marido ficara tão zangado com ela ao vê-la na sala. Apesar de estar trajando a camisola e sabendo que na sociedade de seu marido as mulheres não podiam ser vistas em seus trajes de dormir por outra pessoa que não o marido ou a criada, ela não viu problema nenhum no que vestia. Suas pernas estavam cobertas, portanto ela não o tinha envergonhado. E como era casada, o fato de seus cabelos estarem soltos era muito natural. A não ser que ele tivesse vergonha de ser visto com ela?
Pensando bem, em nenhum momento, desde que chegaram à cidade ele a levou a algum lugar. Sim, era isso, seu marido, o valente xerife de Dharma Ville, ainda que precisasse dela para se manter no cargo tinha vergonha de passear com ela pelas ruas da cidade.
- Que cretino!- Ana resmungou consigo mesma. – Eu é quem deveria ter vergonha de ser casada com um homem que deixa a esposa em casa para se divertir com outras mulheres em um bordel!
Zangada, Ana-Lucia escolheu um dos vestidos em seu baú e começou a arrumar-se tendo o cuidado de colocar cada peça de roupa exigida pela sociedade do oeste, mesmo as odiadas meias de seda que tanto detestava. Que saudades dos tempos em que podia correr na chuva descalça, usando apenas a blusa de babados e a saia rodada.
Enquanto Ana divagava sobre sua própria sorte, o xerife trocava algumas palavras com o prefeito Linus na sala, ainda muito irritado com os olhares que o homem deu à sua esposa logo que chegou. O que aquela menina estava pensando ao aparecer apenas em trajes de dormir na sala diante de uma visita?
- Então, xerife Sawyer, como eu dizia, não precisa se preocupar sobre suas escapulidas. Eu mesmo sou um freqüentador assíduo do bordel de Madame Libby e me gabo em dizer que as atenções da anfitriã são todas para mim.
- Folgo em saber disso, prefeito Linus, mas o que era mesmo tão importante que o senhor tinha para me dizer?
- Oh sim, eu vim reiterar o convite que lhe fiz na delegacia ontem para o jantar de aniversário da minha Nancy. Espero vê-lo esta noite em minha casa acompanhado de sua bela esposa.
- Não sei se minha esposa estará disposta.- disse Sawyer querendo se livrar do inoportuno convite do prefeito, mas Ana-Lucia desceu as escadas nesse momento, usando um vestido verde-claro. Mas os cabelos continuavam tentadoramente soltos e os botões do decote do vestido não estavam totalmente abotoados. Os olhos de lince de Sawyer puderam captar de imediato também que ela não usava espartilho e os contornos dos seios de sua esposa estavam visíveis através do tecido de musselina.
- Não seja rude com o Sr... – Ana começou a dizer.
- Linus. Benjamin Linus.- completou o prefeito voltando a devorar Ana-Lucia com o olhar.
- Não seja rude com o Sr. Linus, meu marido.- repetiu ela dessa vez incluindo Sawyer em sua assertiva. – Nancy me falou ontem sobre o seu jantar de aniversário e seria muito grosseiro de nossa parte não comparecer.
A última coisa que Ana-Lucia queria era comparecer a um jantar na casa do prefeito para ter seu comportamento avaliado por todos os habitantes da cidade, mas ela não pudera conter a si mesma. Ao ouvir Sawyer rejeitar o convite do prefeito, ela sentiu um desejo incontrolável de se vingar por ele ter gritado com ela na frente do homem há alguns minutos atrás.
- Vejo que sua senhora é educada e tem muito bom senso, xerife.- disse Linus se aproximando de Ana-Lucia e beijando-lhe a mão num gesto respeitoso ainda que cheio de insinuações.
O coração de Sawyer saltou dentro do peito de tanto ciúme. Se ele pudesse colocaria sua mulher nos ombros e expulsaria Benjamin Linus de sua propriedade com tiros de espingarda no traseiro.
- Bem, prefeito Linus, eu e minha senhora ainda não tomamos o desjejum, então... – disse Sawyer se controlando para não chutar o homem para fora de sua casa.
- Oh me desculpem, eu não quis ser inoportuno. Nos vemos na cidade então xerife?
- Com certeza.- respondeu Sawyer se aproximando de Ana-Lucia e colocando um braço possessivo ao redor da cintura dela.
- Senhora?- ele fez uma reverência para Ana e ela se inclinou para ele.
Linus finalmente deixou a propriedade do xerife montando em seu cavalo e partindo. Quando ele se foi, Sawyer soltou a cintura de Ana e apontou o dedo em riste para ela:
- Ninguém nunca te falou que as mulheres devem usar espartilho? Que droga, mulher! Eu posso ver seus peitos há um quilômetro de distância.
Ana cruzou os braços sobre os seios e corou respondendo:
- Eu não gosto de espartilhos!
- E eu não gosto de ver a minha mulher sendo cobiçada como um pedaço de carne por outro homem?
- Do que está falando?- ela indagou, com inocência.
- Eu estou falando daquele pervertido do Linus. O homem é um déspota. E eu quero que você fique bem longe dele. E o pior de tudo é que agora por sua causa teremos mesmo que ir a essa porcaria de jantar.
- Você tem vergonha de mim!- ela acusou. – Não quer me levar a esse jantar porque não quer ser visto com uma cigana.
- Que coisa mais absurda está dizendo! Eu só não quero outros homens cobiçando o que é meu. E sobre você ser cigana, ninguém sabe disso, meu bem. Portanto, aconselho que fique de bico fechado pois meus conterrâneos não costumam ser muito amáveis com ciganos.
Ana-Lucia fechou a cara e subiu correndo as escadas. Sawyer foi atrás dela somente para dizer.
- Não quero que vá à cidade sozinha, de jeito nenhum! Eu estou indo comer o desjejum na cidade, voltarei no final da tarde para irmos ao jantar e é bom que escolha algo decente para vestir, mocinha!
O xerife subiu mais alguns degraus da escada para saber se ela ouvira tudo o que ele dissera, mas recebeu uma botinada na cabeça. Ana-Lucia tirou a elegante botina preta que calçava e atirou na cabeça do marido de cima da escada antes de entrar no quarto e bater a porta.
- Caramba!- Sawyer resmungou sentindo a cabeça latejar e jogou a bota no chão resolvendo que não adiantava mais discutir com ela. Só esperava que ela cumprisse suas ordens.
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O doutor Jack estava terminando de organizar sua prateleira de remédios no consultório quando ouviu uma suave batida na porta.
- Dr. Shephard?- chamou uma voz feminina.
- Sim, Mary Sue?- indagou ele à sua secretária e enfermeira.
- O senhor tem uma paciente.- anunciou a moça do outro lado da porta fitando a mulher com quem acabara de falar de cima a baixo. Era uma das meninas de Madame Libby. Mary Sue não gostava de atendê-las, mas o doutor Shephard não se negava a atender ninguém mesmo que fosse uma prostituta ou um fora da lei.
- Mande-a entrar.- Jack autorizou e foi sentar-se em sua modesta cadeira atrás de uma mesa de mogno.
Kate abriu a porta devagar e sorriu para o médico quando o avistou sentado atrás de sua mesa. A primeira coisa que Madame Libby lhe havia dito de manhã quando ela descera para o desjejum foi que ela tinha de procurar o médico da cidade para fazer uma consulta sobre suas indisposições. A dona do bordel disse que era uma pessoa paciente e de índole sensível, mas que também possuía um negócio e não podia ficar no prejuízo com uma garota que estava sempre indisposta para se deitar com os homens.
Sem ter escolha, Kate resolveu ir até o consultório. Sabia que uma vez feita a consulta ela não teria mais como se negar a assumir sua função no bordel e isso a aterrorizava. Mas não mais do que se pega pela polícia e passar o resto de sua vida apodrecendo em uma cadeia. Ela ainda se perguntava como Sawyer conseguira tão brilhante disfarce? Xerife? Era difícil de acreditar.
- Bom dia, doutor.- disse ela cumprimentando o médico.
- Bom dia, senhorita. Eu sou o doutor Jack Shephard. A senhorita é nova na cidade?- ele indagou apontando uma cadeira diante de sua mesa para que ela se sentasse.
- Cheguei há pouco mais de três semanas.- ela respondeu sentando-se na cadeira. – Meu nome é Mônica Fields.
- Muito prazer em conhecê-la senhorita ou senhora...
- Senhorita.- ela reiterou. – Na verdade eu sou viúva.
- Oh!
- Não, tudo bem, já faz mais de um ano que meu marido faleceu.- ela explicou.
- Tem filhos?- Jack perguntou com educação. Era estranho, mas desde que aquela mulher entrou em seu consultório ele se sentiu muito perturbado. Há tempos que uma garota não lhe chamava tanto a atenção. Na verdade, desde que se apaixonara por Sarah, sua falecida esposa que ele nunca mais sentira desejo por nenhuma outra mulher. Mas aquela moça que acabara de entrar em seu consultório tinha algo de doce e vulnerável que fez seu coração se encher de ternura.
- Não tenho filhos.- ela respondeu.
- Bem, o que a traz ao meu consultório?
Kate desamarrou a fita que prendia o desgastado chapéu de palha á sua cabeça e o colocou sobre a mesa do médico. Jack ficou encantado com o tom naturalmente avermelhado dos cabelos castanhos dela presos em um coque frouxo, com alguns cachos escapando dos grampos.
- Eu não tenho me sentindo bem, doutor.- ela explicou. – Sinto-me cansada e indisposta todos os dias.
- A senhorita sente dores no peito?- ele indagou profissionalmente.
- Oh sim!- exclamou Kate levando a mão ao colo salpicado de pequenas sardas. Os seios pequenos se erguiam imponentes com a ajuda do espartilho no decote do vestido azul lavanda.
- Eu preciso examiná-la, senhorita. Vou chamar a enfermeira para que a ajude a afrouxar o espartilho.
- Não precisa, doutor.- garantiu Kate. – Eu mesma posso fazer isso.
Jack pigarreou e disse:
- Certo. Então por favor, venha até aqui.- ele indicou um biombo atrás de onde tinha uma cama de hospital.
Kate ergueu-se da cadeira e foi para trás do biombo.
- Assim que terminar é só me avisar.- disse Jack.
Dois minutos depois, ela o chamou. Jack foi para trás do biombo segurando o estetoscópio. Kate estava sentada na cama, de costas para ele, os delicados botões do vestido abertos, assim como os laços do espartilho estavam frouxos.
Jack colocou o aparelho nas costas nuas dela, afastando as fitas do espartilho e auscultou, dizendo:
- Respire fundo.
Kate respirou fundo e bem devagar. Jack então foi à frente dela. Kate cobria a renda transparente do espartilho com os braços, mas quando o médico se aproximou, ela deixou os braços penderem ao lado de seu corpo para que ele a examinasse.
Jack tentou a todo custo desvencilhar os olhos dos seios dela aparecendo sob a lingerie. Mas os delicados mamilos rosados e túmidos sob o tecido de renda o faziam relembrar há quanto tempo ele não tinha o corpo cálido de uma mulher junto do seu.
Kate notou o olhar de desejo do médico para o seu corpo e corou ligeiramente. Jack sentiu-se mal, aquela não era a atitude de um cavalheiro e muito menos a de um médico.
- Perdoe a minha indiscrição, senhorita.
- Está tudo bem.- respondeu Kate ainda com o rosto vermelho.
Jack colocou o aparelho sobre o peito dela e tratou de fazer seu trabalho depressa. Assim que terminou, ele mandou que ela ajeitasse o vestido antes que ele lhe massageasse as amídalas e examinasse a garganta. Ao fim da consulta, ele diagnosticou:
- Resfriado mal curado senhorita Fields. Um pouco de secreção nos pulmões mas nada que não se resolva com um bom xarope de milho.
- Que bom!- ela exclamou. – Eu já estava preocupada.
Jack se levantou de sua cadeira e pegou em seu armário um vidro de xarope, entregando-o a ela.
- Obrigada, doutor. Mas não posso aceitar. Mal tenho dinheiro para pagar a consulta.- ela disse com sinceridade.
Kate abriu sua pequena bolsa de moedas e estava retirando o dinheiro quando o médico a parou.
- Não, pode deixar. Não precisa pagar.
- Como não preciso pagar?- Kate retorquiu.
- Pelo menos não agora.- disse ele. – Me pague quando puder e por favor tome o xarope.
Kate agradeceu com um belo sorriso que iluminou-lhe os olhos de esmeralda deixando o médico ainda mais fascinado.
- Obrigada, doutor. Eu o pagarei o quanto antes.
Quando ela deixou o consultório, Jack ficou com cara de bobo parado à porta e Mary Sue percebeu de imediato o fascínio do médico por aquela mulher.
- Jamais vou entender o encanto que as mulheres da vida possuem sobre os homens.- disse ela com despeito.
- Do que está falando, Mary Sue?- Jack indagou sem entender.
- Ah, então o senhor não notou?- retrucou ela cruzando os braços sobre o peito.
- Não notei o quê?
- Que ela é uma das protegidas de Madame Libby, doutor. Uma mulher da vida, especialista em divertir os homens.
Jack mal podia acreditar no que acabara de ouvir. Então aquela moça recatada e tímida era uma prostituta? Não, não podia ser. Depois de tantos anos sem se interessar por alguém, ele se interessava logo por uma mulher de vida fácil?
- Doutor?- Mary Sue balançou uma das mãos à frente do rosto do doutor.
- Vou voltar pra minha sala Mary Sue, me avise se chegar algum paciente.
Dito isso, ele entrou em seu consultório novamente e fechou a porta.
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Ana-Lucia desceu da charrete e amarrou o cavalo próximo à loja de Shannon. "Prendas e Bordados" era o nome da sofisticada boutique no centro da cidade. Sawyer tinha ordenado que ela ficasse em casa, mas Ana se sentiu no direito de desobedecê-lo depois da bebedeira dele na noite anterior.
Apesar de apreciar a casa onde moravam, ela se sentia muito sozinha naquele casarão o dia inteiro. Precisava ver gente. E ela tinha gostado muito de Shannon, a pessoa que tinha se mostrado mais simpática com ela desde que tinham chegado à cidade. Além do mais, ela tinha dois vestidos rasgados que gostaria de ver costurados.
Uma vez que o cavalo estava bem preso, ela deu um torrão de açúcar ao animal em recompensa por sua colaboração de vir guiando a charrete sob as mãos inexperientes de dela e finalmente atravessou a rua poeirenta em direção à loja da amiga.
Quando ela entrou, Shannon estava terminando de atender à uma cliente que tinha ido buscar o vestido que encomendara para o batizado da filha. Ana-Lucia ficou olhando para a criança e se perguntou como seria quando tivesse seu próprio bebê um dia. Sawyer gostaria de ser pai? Não, claro que não, ela nem deveria pensar nisso, não deveria desejar ter o filho de um não-cigano.
Shannon viu Ana entrar na loja segurando uma trouxa nas mãos e sorriu.
- Olá, Sra. Sawyer, em que posso ajudá-la?
- Bom dia, Shannon.- Ana respondeu. – Por favor, pode me chamar de Ana. Eu vim aqui porque esses vestidos precisam de conserto especializado.- ela colocou a trouxa sobre a mesa de madeira e desatou o nó que a prendia.
Shannon observou os dois vestidos cuidadosamente dobrados e franziu o cenho quando Ana-Lucia os desdobrou.
- Nossa! O que houve com esses vestidos?
- Esse foi o meu vestido de casamento.- Ana mostrou o bordado todo rasgado nas costas. – E esse outro, um dos vestidos do meu enxoval.- ela mostrou a renda torcida e rasgada do decote.
- Mas o que aconteceu com eles?- Shannon perguntou com certo embaraço porque fazia idéia do que podia ter acontecido, embora não soubesse se Ana-Lucia considerava isso uma coisa boa ou ruim.
- Penso que meu marido não sabe esperar.- Ana respondeu com um sorriso que imediatamente acabou com a insegurança de Shannon e a fez dar uma estrondosa gargalhada.
- Homens!- ela exclamou. – Não tem o menor senso de delicadeza. Mas não se preocupe, eu posso consertar os vestidos e eles ficarão como novos.- Shannon garantiu. – Acho que a paixão que seu marido tem por você não tem preço.
Ana-Lucia sentiu vontade de desabafar que as coisas não eram exatamente como Shannon estava pensando, mas não teve coragem de falar nada sobre o marido. Ainda que estivessem tendo problemas, ela não podia esquecer de que ele a salvara de um destino terrível no bordel de Dom Guimarães.
- Acho que está certa.- ela respondeu simplesmente.
Shannon pegou os vestidos e os colocou embaixo do balcão.
- Eu os entregarei em dois dias. Tem pressa?
- Não, não tenho pressa.- disse Ana. – Apenas me diga quanto vai custar. Preciso dizer ao meu marido.
- Não vai custar nada.- Shannon respondeu amavelmente. Costurarei seus vestidos com o maior prazer. Aceite isso como um presente de boas-vindas.
- Oh não, Shannon, não posso aceitar.
Shannon tomou as mãos dela nas suas.
- Aceite Ana, por favor.
Ana-Lucia sorriu e disse:
- Está bem, eu vou aceitar. Mas como uma condição. Que você aceite um presente em troca. Eu farei um bolo pra você e biscoitos também.
- Eu vou adorar.- Shannon respondeu.
- Bem, eu vou indo.- falou Ana. – Meu marido nem sabe que estou aqui. Ele me disse para ficar em casa.
- Não, não vá ainda, Ana-Lucia. Não gostaria de olhar alguma coisa na loja para você? Eu tenho lindos vestidos, pérolas, chapéus, meias de seda...
- Oh, eu não poderia.- Ana recusou educadamente. – Meu marido já me comprou um enxoval e eu não tenho dinheiro para...
- Ah, bobagem!- retrucou Shannon. – Para que servem os maridos afinal?
Shannon caminhou pela loja e puxou uma cortina onde havia vários vestidos pendurados em cruzetas.
- Com que roupa pretende ir à festa de aniversário da Nancy esta noite?- Shannon indagou.
- Eu nem pensei nisso ainda.- Ana-Lucia revelou.
- Oh!- Shannon exclamou. – Amiga, você definitivamente precisa de ajuda. Aprenda uma coisa a partir de hoje sobre Dharma Ville.
Ana prestou atenção.
- Nancy Linus é a mulher mais invejosa e fofoqueira da cidade. Se a esposa do xerife aparecer mal vestida na festa de aniversário dela, então querida, ela terá muito do que falar nas próximas semanas. Mas não se preocupe que eu tenho tudo o que precisa para ser a dama mais linda da cidade esta noite.
Shannon pegou um vestido de cor lilás, assim como uma combinação da mesma cor, uma calçola com detalhes em renda e meias de seda.
- Gostaria de experimentar estas roupas?
- Bem, eu... – Ana começou a dizer, mas Shannon já a estava arrastando para o provador.
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Ser xerife não era tão divertido e emocionante quanto Sawyer imaginara, ele concluiu depois de mais uma manhã tediosa sentado em sua cadeira com os pés sobre a mesa. Cansado de não fazer nada, ele resolveu dar uma volta pela cidade e ver se achava alguém para prender.
Ele levantou-se de sua cadeira, ajeitou a arma no coldre e lustrou com os dedos a estrela que trazia no peito. O símbolo dos homens da lei. Sawyer não poderia estar mais orgulhoso de si mesmo.
O xerife caminhou pela cidade por alguns minutos e constatou que não havia nada de diferente exceto sua charrete parada com o cavalo perto da única butique da cidade. Sawyer piscou os olhos. Teria Ana-Lucia desobedecido suas ordens e vindo sozinha até a cidade? Isso não era possível! Ele quase gritou as palavras. Por que sua mulher era tão teimosa? Longe de casa ele não podia protegê-la e a cidade era cheia de perigos para uma garota inocente como ela.
Ele tinha que levá-la de volta para casa. Foi pensando nisso que ele adentrou a loja de Shannon pisando firme. Não havia nenhum sinal de sua esposa, mas ele precisava perguntar. Shannon sorriu para ele educadamente ao vê-lo entrar. Sawyer tirou o chapéu de cowboy e cumprimentou a moça:
- Bom dia, senhora. Eu vi a charrete do meu rancho parada lá fora e...
- Está procurando sua esposa, xerife?- ela indagou como se não fosse óbvio.
- Sim, a senhora sabe onde ela está?- ele indagou sem muita paciência.
Shannon apontou o provador.
- Ela está ali mas...está experimentando roupas.
A vendedora mal pôde terminar sua frase porque Sawyer foi direto para o provador e abriu a cortina. Ana-Lucia estava acabando de experimentar a lingerie. Sawyer quase engasgou com as próprias palavras ao ver a esposa vestida com aqueles trajes ousados.
- Mas o que você está vestindo?- ele indagou fitando-a de cima a baixo. Ele podia ver o corpo dela inteiro através do tecido transparente da lingerie.
- São umas coisas que a Shannon disse que me fariam ficar mais bonita. Você não gostou?
Sawyer estava com a garganta seca. Não podia mentir para ela naquele momento.
- Você está preciosa vestindo essa lingerie, querida. Mas por favor, é melhor que tire isso e vista sua comportada lingerie de algodão, não quero que ninguém a veja e fique cobiçando.
- Mas ninguém está me vendo, xerife. Só o senhor.- ela lançou-lhe um olhar tímido porque os olhos azuis de seu marido não saíam do meio de suas coxas. Ele estava encantado com o contraste da feminilidade dela com o tecido lilás transparente. – E acho que o senhor é quem está me cobiçando agora.
Sawyer sorriu e para a surpresa dele, Ana-Lucia sorriu também.
- Então o senhor gosta da minha lingerie nova?- ela deu uma volta ao redor de si mesma, provocando-a como uma menina levada.
- Oh, sim, eu gosto muito.- disse ele forçando-se a manter o controle. – Mas se não parar de me provocar desse jeito, vou agarrá-la aqui mesmo nesse provador.
- Não!- Ana ralhou. – Ainda não pagamos pela lingerie, então você ainda não pode rasgar.
Sawyer deu uma gargalhada e fechou o provador voltando para a recepção. Shannon sorriu para ele amavelmente.
- Senhora.- ele tocou a aba do chapéu e sorriu de volta para Shannon. – Deixe que minha esposa compre tudo o que lhe aprouver, inclusive quantas dessas... – ele pigarreou. – ...roupas de baixo ela quiser.
- Como queira, xerife.- assentiu Shannon, feliz porque sabia que faria uma boa venda naquela manhã.
Ana saiu do provador e entregou a lingerie que tinha experimentado para Shannon.
- Você gostou?- perguntou Shannon.
- A lingerie é linda, mas não sei se...- começou a dizer Ana.
- Como eu disse, deixe que ela leve o que quiser.- reiterou Sawyer.
Shannon assentiu e dobrou as peças com cuidado para envolvê-las no papel de seda.
- Vai levar o vestido e o xale também, não é Sra. Sawyer?
- Bem, eu...
- Ela vai levar tudo. Meias de seda também se a senhora tiver.
- Ah sim, eu tenho meias maravilhosas para sua esposa.- assegurou Shannon.
Ana-Lucia encarou o marido, surpresa com tanta generosidade e resolveu testá-lo.
- E quanto a esse chapéu?- ela perguntou pegando um chapéu branco e delicado, adornado com fitas de cor lilás que combinariam perfeitamente com o vestido que ela escolhera.
- Ponha sobre seus cabelos, meu amor e veremos se combina com você.- disse Sawyer.
Ana sorriu abertamente. Gostava de chapéus. Talvez a indumentária mais interessante da vestimenta das mulheres norte-americanas para ela. Desde que fora morar com Dom Guimarães, ela tivera apenas um chapéu de palha sem nenhum tipo de adorno para protegê-la do sol e outro chapéu que Sawyer comprara junto com seu enxoval de casamento, mas nenhum dos dois era tão perfeito quanto o chapéu que ela segurava agora. Devia custar uma fortuna e ela duvidava que depois de seu marido ter comprado o vestido e todas aquelas outras peças ele levaria um chapéu supérfluo como aquele.
Mesmo assim, Ana-Lucia colocou o chapéu sobre os cabelos soltos. Mas não sabia usá-lo direito e precisou da ajuda de Sawyer para aprumá-lo sobre a cabeça.
- Não, querida, você está fazendo errado.- disse ele. – O chapéu deve ficar assim meio de lado e essas fitas você tem que amarrar embaixo do pescoço. Assim...
Ele arrumou as fitas no pescoço dela, tendo o cuidado de não trançar-lhe os cabelos. Shannon ficou observando do balcão o adorável casal.
- Pronto?- ela perguntou, ansiosa por se olhar no espelho usando o chapéu.
- Sim, já terminei.- respondeu Sawyer.
- Como eu estou?- Ana indagou, afoita.
- Você está linda.- ele respondeu acarinhando a face dela.
Ana-Lucia correu para a frente do espelho e se admirou usando o chapéu.
- Eu gosto desse chapéu!- exclamou tocando a superfície lisa do adorno.
- Então o chapéu é seu.
- Mesmo?- ela mal podia acreditar.
Sawyer balançou a cabeça assentindo e Ana-Lucia pulou nos braços dele irradiando felicidade. Em meio à toda aquela espontaneidade, ela buscou os lábios dele e os beijou repetidas vezes.
- Obrigada, cowboy.- ela disse por fim e se afastou dele, retirando o chapéu para que Shannon também o embrulhasse.
O xerife ficou lá parado, ainda sob o efeito dos beijos de Ana. Além de chamá-lo de xerife ou senhor, ela nunca o tinha chamado de cowboy, ainda mais daquele jeito carinhoso. Ele gostou do apelido. Definitivamente.
- Doçura, eu preciso voltar ao trabalho, mas a senhora Jarrah pode enviar as contas para a delegacia mais tarde.
- Está bem.- disse Ana.
- Quer que eu a leve para casa?
- Não, eu posso voltar sozinha.
- Tudo bem, mas tenha cuidado querida. Eu a verei mais tarde.
Ana-Lucia assentiu. Ele a beijou na testa e disse a Shannon antes de partir:
- Tenha um bom dia, senhora.
- O senhor também, xerife.- respondeu Shannon.
Quando ele saiu, Shannon disse à Ana:
- O seu marido parece amar muito você.
- Acha mesmo?- Ana indagou.
- Oh sim, com toda a certeza. Até hoje nunca vi um marido que entrasse na minha loja e comprasse todas essas coisas com um sorriso no rosto.
- È que...eu e ele nos conhecemos há tão pouco tempo.- Ana desabafou. – Eu gostaria de poder agradá-lo mais.
- Minha amiga, tenho certeza de que ele ficará encantado quando a vir pronta para ir à festa na casa do prefeito esta noite. E eu posso ajudá-la com isso.
- Como?- Ana quis saber.
Shannon segurou-a pelo braço e a levou para trás do balcão da loja.
- Venha, vamos nos acomodar. Eu ensinarei a você tudo o que eu sei sobre maquiagem, como arrumar os cabelos, os detalhes do vestido...acredite em mim, você roubará a cena esta noite.
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Por volta das seis da tarde, Nancy Linus parecia que ia ter um ataque cardíaco. Sua filha Pat já estava quase indo chamar o Dr. Shephard para que desse uma olhada em sua mãe quando a própria disse:
- Não será necessário, Pat querida. Eu só preciso que os aperitivos estejam prontos em meia-hora. Meus convidados já devem estar chegando. – ela fez uma pausa levando a mão ao peito e observou as criadas que serviam a porcelana e as taças de cristal sobre a mesa de jantar.
- Natalie, o ponche está bem gelado?- ela indagou a uma das criadas.
- Sim, senhora.- respondeu a moça.
- E o peru?
- Já está assado e recheado, Sra. Linus.- respondeu a outra moça.
- Oh sim, o que mais está faltando?
- Boa tarde, Nancy. Feliz aniversário!- soou uma voz familiar vinda da sala de estar.
Nancy correu para lá e fez um gesto dramático ao ver a amiga Charlotte adentrando a casa tendo nas mãos sua famosa torta de maçã.
- Oh querida, você chegou bem na hora. E trouxe a torta!
- Sim, acabei de tirar do forno.- disse Charlotte. – Eu colhi as maçãs esta manhã.
- Pat, leve a torta para a cozinha.- ela ordenou a filha que obedeceu de pronto.
- E o Dannyw- perguntou Nancy.
- O Danny está vindo daqui a pouco com as crianças.
- Seu vestido está lindo!- elogiou Nancy observando de cima a baixo o vestido rosa claro de tafetá bordado que Charlotte usava.
- Obrigada, amiga. Mas por que você ainda não está pronta?
- Porque ainda não tive tempo de me arrumar, Charlotte querida. Você sabe como os empregados são incompetentes hoje em dia. Precisei ficar de olho neles o dia inteiro para que as coisas saíssem como o planejado.
- Bem, se quiser ir se arrumar, eu posso dar uma olhada nas coisas para você.
- Seria maravilhoso.
- Que cor escolheu para esta noite especial, Nancy?
- Amarelo.- respondeu Nancy toda orgulhosa. – Comprei meu vestido em Albuquerque, numa loja muito chique, com coisas muito mais elegantes que na loja da Shannon.
- Eu posso imaginar.- disse Charllote.
- Duvido que alguma outra mulher dessa cidade vá estar mais bela do que eu esta noite. Depois de mim, apenas você será a mais bela, Charlotte.
- Obrigada Nancy. Você tem toda a razão. Mas, eu fico me perguntando que traje usará a esposa do xerife esta noite?
- Provavelmente algum dos trapos que a tia lhe deu de presente no enxoval de casamento.- disse Nancy com maldade indisfarçável na voz. – A pobrezinha não teve sequer um dote para se casar. O xerife deve tê-la desposado por pena ou por falta de opção. Talvez ela fosse a única moça de aparência saudável no lugar de onde ele veio. Se bem que não sei ao certo se posso dizer que ela é totalmente saudável com aquela pele escura. Aposto que é uma garota que veio da roça.
- Pode ser.- disse Charlotte já acostumada aos monólogos de Nancy. – Mas a verdade é que eu a vi hoje de manhã fazendo compras na loja da Shannon e alguém me disse que ela levou bastante tempo lá e saiu da loja com um monte de pacotes.
- Está falando sério?- retrucou Nancy, preocupada de repente.
- Sim, mas acho que não deve se preocupar Nancy querida, como acabou de dizer, essa garota não deve passar de uma caipira, portanto só deve ter comprado ponta de estoque na loja da Shannon.
- Oh, sim, eu também acho. Mas agora me dê licença querida, preciso mesmo me arrumar.
Charlotte assentiu e Nancy subiu as escadas para o seu quarto, ainda pensando que a caipira esposa do xerife não ousaria aparecer mais do que ela naquela noite. Era sua noite.
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O xerife voltou para casa pouco depois das seis. Mais um dia perdido sem nada interessante para fazer na delegacia. Nenhum bandido para prender e ainda tinham que ir àquele jantar de aniversário enfadonho da esposa do prefeito. A única coisa boa nisso tudo é que Ana-Lucia ficara feliz com os presentes que ele comprara na loja de roupas, portanto não estava mais zangada com ele e Sawyer esperava ansiosamente que ela estendesse sua gratidão à cama deles naquela noite.
Quando entrou em casa, tendo o cuidado de limpar as botas sujas de lama na entrada, ele não avistou a esposa. Resmungou consigo mesmo. Já estava cansado de chegar em casa e não encontrá-la esperando por ele como uma esposa deveria fazer.
Subiu as escadas depressa e a procurou no quarto. Mas tudo o que encontrou foi seu traje de festa, passado e engomado sobre a cama junto com a camiseta de baixo, as ceroulas e as meias. As botas sociais também estavam impecavelmente engraxadas.
- Lulu!- ele chamou e Ana-Lucia saiu do vestíbulo indo encontrá-lo no quarto.
Sawyer pôde ouvir o barulho dos saltos das botas dela e tomou um grande susto quando a viu. Ela nem parecia a mesma garota que ele vira pela manhã toda alvoroçada comprando roupas na loja. Aquela Ana-Lucia era muito diferente e não se parecia nada com uma menina.
- Boa noite, cowboy.- ela disse com um sorriso que o deixou entontecido de tanta beleza.
Ela usava o vestido lilás de manga curta e bufante que ela adquirira na loja de Shannon. O decote era discreto com pequenos botões de um lilás mais claro. A saia rodada trazia alguns laçarotes nas bordas. As mãos estavam cobertas com luvas de seda e os cabelos, presos em um coque formal no alto da cabeça. A maquiagem era simples e leve, de muito bom gosto.
- Você gosta?- ela indagou.
- Você está absolutamente linda.- disse ele tomando uma das mãos dela e beijando suavemente. – Tem certeza que devemos mesmo ir à esse jantar, meu bem? Nós podíamos ficar aqui e...
- Você é o xerife da cidade.- ela disse com segurança. – Se pretende ser respeitado pelas pessoas, precisa comparecer à esses eventos.
- Certo.- disse ele. – Agora eu pergunto, o que foi que fizeram com a minha ciganinha?
Ana-Lucia sorriu.
- Achei que fosse gostar se eu me parecesse mais com a esposa de um xerife.
Sawyer se aproximou dela e disse com a voz levemente rouca:
- Eu a quero de qualquer jeito, quindim. Não me importo que continue a me arranhar com suas unhas afiadas de cigana rebelde.
Ele tentou beijá-la, mas Ana recuou:
- Deixei meu xale lá embaixo. Vou descer e esperá-lo, por favor não demore.
Sawyer suspirou fundo. Chegaria o dia em que todas as vezes em que ele se aproximasse para beijá-la, ela não recuaria? Por que ela não agira como quando estavam na loja e se atirou nos braços dele? Sawyer gostou muito daquilo.
Ele apreciava o esforço dela em querer se parecer com uma dama da sociedade. Mas ao mesmo tempo se perguntava se isso era o melhor. Ele não queria nenhum homem abusado em cima de sua esposa como um abutre. Se aquele maldito prefeito Linus tentasse chegar perto dela outra vez, se arrependeria para sempre.
Continua...
