Harry conhecia a casa. Ela pertencera ao marquês de Avory anterior e fora o cenário de mais de uma orgia embriagada. O lugar prometia se tornar uma das residências mais notórias de Paris quando o homem faleceu. Isso tinha acontecido havia cerca de dois anos, e a mobília e a decoração eram muito diferentes agora.
Ainda assim, Harry não teve problemas para reconhecer o pequeno solário no térreo cujas portas se abriam para o jardim.
Foi para lá que ele levou Hermione.
Para negociar.
Porque – como devia ter imaginado e se preparado – a situação não ocorreu como ele planejara.
Queria causar tumulto e caos. Mas, em cinco minutos de festa, ele descobriu que orgulho dos Potter e Evans não permitiria que o fizesse.
Não importava quanto fosse provocado, Harry não se deixaria rebaixar a ponto de se comportar como um animal.
Não na frente dela, pelo menos.
Ele se lembrou do olhar zombeteiro que ela lançara para o irmão duas semanas antes e do desprezo com o qual se divertira à custa dele mesmo, e como aquilo o fez se comportar como um completo idiota.
Harry tentou esquecer, mas cada momento e emoção daquele episódio ficaram marcados em sua mente: humilhação, fúria, frustração, paixão... e uma felicidade arrebatadora. Nesta noite ele experimentou muitas emoções desagradáveis... e se esqueceu de todas no instante em que dançou com ela.
Hermione fora formosa, graciosa e leve em seus braços. Tão fácil de conduzir. Quando as saias roçaram nele, Harry imaginou as belas pernas brancas enroscadas nas suas em meio ao farfalhar dos lençóis. O aroma de Hermione, uma mistura provocativamente inocente de sabonete de camomila e cheiro de mulher, o enlouqueceu, e ele pensou naquela pele em tons de pérola iluminada por uma única vela e nos longos cabelos espalhados sobre o travesseiro... e em si mesmo envolto naquela feminilidade pura e doce, tocando, provando, bebendo. Já tinha tentado se convencer de que aquelas eram fantasias ridículas, que mulheres puras e doces não se deitavam em sua cama e nunca o fariam. Mas ela pareceu muito disposta a dançar com ele. Embora talvez não tivesse se divertido tanto e devesse ter algum motivo específico para dar a entender o oposto,
Hermione o fez crer que havia apreciado a dança e que estava feliz. E, quando ele a fitou, Harry acreditou, por um momento, que aqueles olhos castanhos brilhavam com entusiasmo, e não com ressentimento. Além disso ela permitira que ele a trouxesse mais para perto porque era ali que ela queria estar.
Tudo mentira, é claro, mas havia maneiras de transformar certas mentiras em meias verdades.
Harry sabia como. Hermione, como todo ser humano desde a Criação, tinha um preço. Consequentemente, ele só precisava descobrir qual era esse preço e decidir se estava disposto a pagar.
Harry a levou até o canto do jardim mais distante das luzes do interior da casa. A maior parte da coleção de artefatos romanos do falecido lorde Avory ainda estava espalhada entre os arbustos, sem dúvida porque remover aquelas peças mastodônticas custaria uma pequena fortuna. Harry a ergueu e deixou-a sentada sobre um sarcófago de pedra, que se apoiava numa base ornamentada. Era alto o suficiente para que os dois ficassem quase na mesma altura.
— Se eu não retornar logo – disse ela, por entre os dentes –, minha reputação será destruída. Não que você se importe com isso, claro. Mas estou lhe avisando, Potter: não vou ser gentil e você...
— Minha reputação já está destruída! – interrompeu ele. – E você não se importou com isso.
— Isso não é verdade! – gritou ela. – Eu tentei lhe dizer antes: simpatizo com você e estava disposta a ajudar a consertar as coisas. Dentro dos limites da razão, obviamente. Mas você não me escuta! Porque, como todo homem, você só consegue pensar uma coisa de cada vez. E ainda pensa errado.
— Já as mulheres mantêm 27 noções contraditórias dentro da cabeça – rebateu ele. – E é por isso que são incapazes de ter princípios.
Harry pegou a mão dela e começou a remover-lhe a luva.
— É melhor parar com isso – avisou ela. – Você só vai piorar ainda mais.
Ele retirou a luva e, ao primeiro vislumbre daquela mão branca e frágil, todo e qualquer pensamento relacionado à negociação desapareceu.
— Não imagino como a situação possa piorar – murmurou ele. – Já estou encantado por essa dama provocante, presunçosa, de língua afiada a quem os homens seguem como se fossem cachorrinhos.
Hermione ergueu a cabeça com um movimento repentino, os olhos castanhos se arregalando.
— Encantado? Impossível. Vingativo seria um termo mais adequado. Ou rancoroso.
Harry começou a tirar a outra luva com uma velocidade impressionante.
— Devo estar encantado – disse ele, no mesmo tom. – Ando com uma ideia imbecil de que você é a garota mais bonita que eu já vi. Com exceção desse seu penteado – acrescentou, olhando com asco para os cachos, as plumas e as pérolas. – É pavoroso.
Ela fez uma careta.
— De fato, suas demonstrações de romantismo me deixam sem fôlego.
Lorde Potter ergueu a mão de Hermione e pressionou os lábios contra o pulso dela.
— Sono il tuo schiavo – murmurou, sentindo a pulsação dela contra os lábios. –Significa "Sou seu escravo" – traduziu ele, quando ela puxou a mão de volta. – Carissima. Queridíssima.
Ela engoliu em seco.
— Acho que é melhor você continuar com o inglês.
— Mas o italiano é muito mais envolvente. Ti ho voluto dal primo momento che ti.
Eu a quero desde o primeiro momento em que a vi.
— Mi tormenti ancora.
Você me atormenta desde então.
Ele continuou falando, com palavras que Hermione não entendia, tudo o que pensava e sentia.
Enquanto isso, ele observou os olhos dela se enternecerem e ouviu sua respiração acelerar, então despiu as próprias luvas.
— Ah, não faça isso – sussurrou ela.
Harry se aproximou, ainda falando aquela língua que parecia hipnotizá-la.
— Você não devia usar esse charme masculino – disse ela, com a voz sufocada. E tocou na manga da camisa dele. – O que eu fiz de tão imperdoável?
Você me fez desejá-la, disse ele na língua de sua mãe. Você fez com que eu me sentisse solitário, apaixonado. Você me fez desejar o que eu jurei que nunca precisaria, que nunca procuraria.
Hermione devia ter percebido a fúria e a frustração sob tantas palavras intensas, mas não recuou nem tentou escapar. E quando Harry a envolveu com os braços, ela simplesmente prendeu a respiração e soltou-a com um suspiro, o qual ele provou quando sua boca se fechou sobre a dela.
Hermione ouviu o desespero na voz dele e não precisou adivinhar que aquilo não acabaria bem. Já tentara se convencer a fugir. Harry permitiria. Era orgulhoso demais para forçá-la a ficar ali ou persegui-la. Mas ela não conseguia. Não sabia do que ele precisava e, mesmo se soubesse, duvidava que pudesse lhe dar. Ainda assim, tinha a sensação – tão certa quanto a iminência do desastre – de que Harry estava desesperado, e ela não poderia abandoná-lo, apesar do bom senso e da razão lhe dizerem o contrário.
Em vez disso, ela sucumbiu a ele, como na primeira vez em que o viu, como quando ele desabotoara a luva na cafeteria e como quando ele a beijara sob a tempestade. Harry era grande, moreno, bonito e cheirava a fumaça, vinho, água-de-colônia e homem. Agora, Hermione se dava conta de que nunca quisera algo tão desesperadamente em toda a sua vida como aquela voz de barítono que lhe causava arrepios, a força arrasadora do abraço dele e aquela boca depravada esmagando a sua. Não conseguia se impedir de retribuir a doçura feroz do seu beijo, não mais do que conseguia impedir que suas mãos deslizassem sobre a lã e o linho, aquecidas pelo calor do corpo dele, até encontrar o lugar onde o coração de Harry batia, forte e acelerado, assim como o seu próprio.
Ele estremeceu com o toque dela e forçou-se entre as suas coxas, puxando-a para perto de si enquanto beijava-lhe o pescoço ardentemente. Hermione percebeu a intumescência masculina abrasadora latejando contra sua barriga e o calor que aquele contato gerava no lugar mais íntimo entre suas pernas. Ouviu sua cabeça lhe dizer que as coisas estavam acontecendo rápido demais, urgindo-a a retroceder enquanto ainda podia, mas não conseguiu.
Ela era como cera nas mãos dele: derretia com os beijos escaldantes em seus seios.
Hermione achava que compreendia o desejo: uma atração, uma corrente magnética que unia homem e mulher. Achava que sabia o que era luxúria: uma fome intensa, um anseio forte. Passara noites febris sonhando com ele e dias inquietos pensando nele. Chamara isso de atração animal, primitiva, louca. E descobriu que não entendia nada. O desejo era um redemoinho quente e negro que a rasgava de uma ponta a outra, em uma velocidade vertiginosa, e a arrastava rumo à perdição, abaixo de qualquer intelecto, da vontade e do pudor.
Ela sentiu os puxões impacientes nos cordames do seu corpete e, quando eles se afrouxaram, ficou mais impaciente, também, para ceder, para dar tudo de que ele precisasse. Os dedos de Harry tremiam enquanto deslizavam sobre a pele despida e ela também estremeceu, aflita sob aquele toque tão gentil.
— Baciami. – A voz dele era áspera e o toque, uma carícia sedosa. – Mione, beije- me. De novo. Como se quisesse muito.
Ela ergueu as mãos e enfiou os dedos por entre os cabelos grossos dele, trazendo a boca de Harry até a sua. Hermione o beijou com todo o ardor que sentia. Reagiu às investidas da língua dele com o mesmo desejo que seu corpo respondia ao êxtase das carícias que ele fazia, erguendo-se e arqueando-se contra ele para pressionar seu peito arfante contra aquela mão quente e grande. Era tudo de que ela precisava, tudo por que ansiava, desde o momento em que o conheceu. Ele era um monstro, mas ela o desejava mesmo assim. Desejava cada coisa terrível que havia nele... e coisas características maravilhosas: o corpo morno e musculoso vibrando com energia, insolência e graça animalesca... os olhos verdes e atrevidos, às vezes frios como uma rocha e quentes como o fogo do inferno em outras... a voz grave zombando, rindo, gélida pelo desprezo ou provocante pelo desejo.
Hermione o quis desde o início, sem compreender o que era o desejo. Agora que ela o descobrira, queria mais.
Ela se afastou e, puxando a cabeça de Harry, beijou-lhe o nariz belo e arrogante, a testa altiva e deslizou a boca pelo contorno firme de seu queixo.
— Ah, Mione. – Sua voz era um gemido. – Si. Ancora. Baciami. Abbracciami.
Hermione estava absorta pela carência da voz de Harry. Não sentia mais nada, somente o calor do desejo e o calor do próprio corpo. Tinha consciência apenas do poder firme do corpo dele, da boca de Harry que tomava a sua outra vez, do esfregar de seda e cambraia enquanto ele erguia suas saias e tocava-lhe os joelhos e das mãos quentes que roçavam-lhe a pele logo acima da meia de seda.
E de repente a mão de Harry se retesou e parou, e seu corpo se transformou em pedra. Ele empurrou Hermione, que, assustada, abriu os olhos... a tempo de ver o fogo se apagar nos dele, deixando-os tão frios quanto a ônix do alfinete que lhe decorava a lapela. Tarde demais ela também ouviu: o sibilar de um vestido esfregando-se contra as moitas... e os sussurros abafados.
— Parece que temos uma plateia, Srta. Granger – disse Potter, com desprezo na voz.
Ele ergueu friamente o corpete de Hermione e puxou-lhe a barra da saia de volta para baixo. Não havia nada de protetor ou galante no gesto. Ele a fez sentir como se decidisse, após examinar e provar uma amostra do que Jessica tinha a oferecer, que não valia a pena tomá-la para si. Como se ela fosse um brinquedo velho no balcão de Champtois, que não merecia nem mesmo uma segunda olhada.
Ao perceber a expressão indiferente no rosto dele, Hermion entendeu que era assim que ele queria que as pessoas pensassem. Ele a jogaria aos lobos. E essa seria sua vingança contra ela.
— Você sabe que nós dois somos culpados – disse ela, mantendo a voz baixa de modo que os bisbilhoteiros não pudessem ouvir. – Você ajudou a me colocar nessa situação, Potter. E é óbvio que você vai me ajudar a sair dela, droga.
— Ah, sim – respondeu ele no mesmo tom. – Tenho que anunciar que estamos comprometidos, não é? Mas, Srta. Granger, por que eu deveria pagar o preço de um anel de casamento pelo que posso ter de graça?
Hermione ouviu suspiros exasperados atrás dele e uma risadinha.
— Estou arruinada – disse ela, apertando os dentes. – Isso é indigno de você. E é imperdoável.
— Então me mate. – E, com um olhar zombeteiro para as figuras que observavam das sombras, ele deu meia-volta e foi embora.
Com a mente borbulhando pela humilhação e pela fúria, Harry andou às cegas pelo jardim, pisando duro, arrancou o portão trancado das dobradiças e marchou pelo beco estreito até chegar à rua. Percorreu-a até o fim, depois as duas ruas seguintes. Apenas quando se aproximou do Palais Royal sua respiração começou a voltar ao normal e a fúria negra deu lugar a pensamentos tempestuosos. Ela era como todas as outras – como Gina, mas pior; melhor como atriz e mais talentosa para armar a mesma armadilha. E ele, com anos de experiência nas costas, entrou nela de cabeça. De novo. Para ser envolvido em circunstâncias piores.
Com Gina, ele apenas roubara um beijo no rosto diante da família gananciosa. Desta vez, vários membros da elite mais sofisticada de Paris o viram fazer papel de palhaço, ouviram-no gemer, ofegar e balbuciar desejo e devoção como um adolescente febril. Mesmo aos 13 anos, ele não se comportava como um cachorrinho bobo. Mesmo naquela época, ele nunca lamentou sua solidão.
Harry sentiu a garganta se apertar. Parou e engoliu aquela dor abrasadora, recompôs-se e continuou a caminhar. No Palais Royal, reuniu um trio de prostitutas rechonchudas e um grupo de homens e mergulhou de cabeça na depravação. Meretrizes, casas de jogatina e champanhe: aquele era o seu mundo. O lugar ao qual ele pertencia e onde se sentia feliz, garantiu a si mesmo. E assim ele jogou, bebeu e contou piadas sujas. Engolindo o asco que sentiu ao cheiro familiar de perfume, pó e maquiagem, encheu o colo com prostitutas e enterrou o coração ferido, como sempre fazia, sob gargalhadas.
Mesmo antes que a risada de Harry se apagasse e ele desaparecesse pelas sombras do jardim, Hermione tentava se arrastar para fora do poço negro da humilhação e do desespero no qual ele a tinha abandonado. Não havia alternativa a não ser levantar-se e enfrentar a situação. Ela encarou os espectadores, desafiando-os a proferir um único insulto. Um por um, eles lhe deram as costas e se recolheram.
Somente uma pessoa veio na direção dela. Ron tirava o seu casaco enquanto Hermione saltava do alto do sarcófago, segurando o corpete para se cobrir. Ele lhe estendeu o sobretudo.
— Eu tentei – disse ele, entristecido, evitando olhar diretamente para ela. –Contei a eles que Potter havia saído sozinho e que você tinha ido procurar sua avó, mas um dos criados viu quando vocês entraram no solário. – Ele fez uma pausa. –Eu lamento.
— Talvez eu devesse sair discretamente – disse ela, mantendo a voz solene. – Poderia fazer a gentileza de encontrar Lady Pembury?
— Odeio ter que deixá-la sozinha.
— Não vou morrer – respondeu ela. – Não sou dada a ataques histéricos. Vou ficar bem.
Ron lhe lançou um olhar preocupado e afastou-se rapidamente. Assim que ele se foi, Hermione tirou o casaco de Ron e arrumou seu vestido da melhor maneira que conseguiu sem a ajuda da criada. Não alcançou todas as presilhas, cuja maioria ficava nas costas, mas prendeu algumas de modo que não tivesse que segurar o corpete o tempo inteiro. Enquanto lutava com os laços e os ganchos, ela analisou a situação de forma bem objetiva.
Sabia que ninguém se importava com o fato de que Harry não a havia desonrado. O que importava era que ela fora flagrada nos braços dele. Isso já era o suficiente para transformá-la em algo indesejável aos olhos do mundo. Em menos de um dia, aquela história chegaria a todos os cantos de Paris. Em uma semana, a Londres. Ela sabia muito bem o que o futuro lhe reservava. Nenhum cavalheiro de respeito mancharia o nome da sua família casando-se com as sobras Potter. E não haveria como atrair à sua loja as pessoas ricas e respeitáveis das quais seu sucesso – e sua própria respeitabilidade – dependiam. Damas ergueriam as saias para que o tecido não tocasse em Hermione quando passassem por ela ou atravessariam a rua para evitar a contaminação. Cavalheiros deixariam de ser cavalheiros e a submeteriam às mesmas indignidades que ofereciam às prostitutas.
Em resumo, Potter havia destruído sua vida. De propósito.
A única coisa que ele precisava ter feito era lançar um daqueles olhares mortíferos e dizer àquelas pessoas que não havia nada a ser visto, e todos decidiriam que era melhor concordar com ele. O mundo inteiro o temia, até mesmo aqueles que se declaravam seus amigos. Harry podia forçá-los a dizer e acreditar no que ele quisesse. Mas ele só tinha olhos para a vingança – por qualquer coisa que sua mente malévola acreditava que ela lhe fizera. Ele a havia levado até aquele jardim sem outro propósito. Hermionea achava até mesmo que ele poderia ter revelado a alguém o que iria fazer, certificando-se de que a descoberta aconteceria no momento mais humilhante: com o corpete desatado e caindo-lhe sobre a cintura, a língua enfiada no fundo da garganta dela e aquela mão imunda por baixo das suas saias.
Embora ficasse excitada com aquela lembrança, Hermione se recusou a se sentir constrangida. Seu comportamento podia ser considerado indecente pelas regras da sociedade e errôneo por suas próprias convicções, mas não se ressentia por isso. Ela era uma mulher jovem e saudável que acabara cedendo a sentimentos aos quais inúmeras outras mulheres cediam – e que podiam agir impunemente se fossem casadas, viúvas ou discretas.
Ainda que não fosse casada ou viúva, e pelas regras vigentes devesse ser considerada intocável, Hermione não poderia culpar Potter por se aproveitar do que lhe fora oferecido com tanta boa vontade. Mas ela poderia e iria culpá-lo por se recusar a defendê-la. Ele não tinha nada a perder e sabia muito bem que ela ficaria arruinada. Poderia tê-la ajudado. Não custaria nada a ele; mal lhe demandaria algum esforço. Em vez disso, ele a insultara e abandonara. Aí estava o mal. Aí estava o ato cruel e imperdoável.
E por isso, decidiu ela, ele iria pagar.
Às quatro e meia da manhã, Harry estava com seu séquito no Antoine's, um restaurante no Palais Royal. Seu círculo de amigos incluía um punhado dos convidados de Lady Wallingdon: Neville, Ronald Wesley, Simas e Goodridge. Hermioe Granger foi um assunto evitado. Em vez disso, a briga na sala de jogos – que Harry perdera a oportunidade de testemunhar – entre um oficial prussiano embriagado e um republicano francês – e a confusão que veio a reboque foram as principais pautas da noite. Até as prostitutas expressaram suas opiniões: a que estava sentada sobre a perna direita de Harry assumia o lado republicano enquanto a da perna esquerda defendia o prussiano. As duas discutiam com um nível de ignorância, tanto político quanto gramatical, que fariam Bertie Granger parecer um prodígio intelectual.
Harry desejou não ter se lembrado do palerma. No instante em que a imagem do homem surgiu na mente de Harry, a irmã dele veio junto: Hermione fitando-o por baixo de uma touca ridiculamente ornamentada... observando seu rosto enquanto ele lhe desabotoava a luva... agredindo-o com a touca e os punhos... beijando-o com ardor enquanto os relâmpagos faiscavam e os trovões ressoavam... girando pelo salão de baile com ele, as saias lhe roçando as pernas, o rosto iluminado pelo entusiasmo. E, mais tarde, nos braços dele... uma tempestade ardente de imagens, sensações e um momento doce e angustiado... quando ela beijou seu nariz grande e asqueroso... e partiu seu coração e o remendou, fazendo-o acreditar que não era um monstro. Ela o fizera crer que era bonito.
Mentiras, disse ele a si mesmo.
Não passavam de mentiras e trapaças criadas para envolvê-lo. Ele havia arruinado o irmão de Hermione. Ela não tinha mais nada. Assim como Gina, cujo irmão perdera no jogo a fortuna da família, Hermione Granger estava desesperada o suficiente para armar a arapuca mais velha da história a fim de agarrar um marido rico e nobre. Mas agora Harry considerava o círculo de homens à sua volta. Todos ali eram bonitos, bem-comportados e bons pretendentes. Seu olhar fixou-se em Neville, ao seu lado, o homem mais bonito e possivelmente – embora ninguém tivesse certeza – mais rico do que o marquês. Por que não Neville? Se precisava de um marido rico, por que uma mulher inteligente como Hermione Granger tinha escolhido Belzebu em vez do Anjo Gabriel? Por que preferira o inferno ao paraíso?
Os olhos dele cruzaram com os seus.
— Amore è cieco – murmurou ele com um perfeito sotaque florentino.
O amor é cego.
Harry lembrou-se de quando Neville lhe falara sobre o mau pressentimento que cercava o Vingt-Huit. Observando-o agora, o marquês sentiu a mesma sensação desconfortável: o conde angelical parecia ler a sua mente e ele percebia os indícios, invisíveis aos outros, sobre o palácio dos pecados que agora jazia sem vida. Harry começou a abrir a boca para retrucar com rispidez quando Neville enrijeceu e virou lentamente a cabeça, com o olhar fixo em outro ponto enquanto seu sorriso se desfazia.
O marquês olhou para a mesma direção – a porta –, mas não viu nada de início, porque Ron havia se inclinado para a frente enchendo seu copo. Então Ron recostou-se outra vez na cadeira.
E Harry a viu.
Ela usava um vestido vermelho-escuro, abotoado até o pescoço, e um xale negro que lhe cobria a cabeça e os ombros. Seu rosto estava lívido e com uma expressão rígida. Ela andou até a mesa, com o queixo erguido e os olhos castanhos faiscando, e parou a poucos passos de distância.
O coração de Harry batia em um galope frenético que lhe tornou impossível respirar, ou mesmo falar.
— Saiam daqui – ordenou Hermione, com a voz baixa e dura, dirigindo o olhar para as outras pessoas que dividiam a mesa.
As prostitutas saltaram do colo dele, derrubando copos na pressa. Os homens se levantaram e recuaram. Uma cadeira tombou. Neville foi o único que conseguiu manter a calma.
— Mademoiselle – começou ele, com a voz gentil e apaziguadora.
Ela jogou o xale para trás e ergueu a mão direita. Havia uma pistola ali, e o cano apontava diretamente para o coração de Harry.
— Vá embora – disse ela a Neville.
Harry ouviu o clique quando ela engatilhou a arma e o arrastar de uma cadeira quando Neville se levantou.
— Mademoiselle – tentou ele outra vez.
— Comece a rezar, Potter – disse ela.
O olhar dele se desviou da pistola para a expressão furiosa que ela ostentava.
— Mione – sussurrou ele.
Ela puxou o gatilho.
NA: Heiiii tenho que admitir que chegou a minha parte favorita do livro e foi justamente essa ultima frase do capítulo que chamou minha atenção pelo livro! Espero que gostem tanto quanto eu!
Muito, muito obrigada por todos que estão lendo e principalmente para quem está comentando,vocês não tem ideia do quanto é bom abrir o email e ter notificações de reviews, meus lindos!
Witchysha: Acho que sua resposta foi respondida, hein? HAHAHAHA Tenho que admitir que fiquei super ansiosa para postar logo essa atualização e ainda estou para postar logo a próxima, que já estou terminando! Espero que tenha gostado - quero MUITO saber o que você achou do final - e até o próximo capitulo, bjoos querida!
LuanaMalfoyLivros: kkkkk MEU DEUS, quantos elogios! Adorei! Eu também sou super fã de o candelabro e você acredita que foi baseado em fatos reais? O pai da autora ele fazia isso para aperriar os vizinhos, morri de rir com ela contando. E esse livro me conquistou e ocupa um lugar especial na minha pratileira e já perdi as contas de quantas vezes reli ele e fico muito feliz em saber que te conquistou tanto quanto a mim. Muitíssimo obrigada por estar acompanhando e claro, comentando (E pelos todos aqueles elogios maravilhosos, você não sabe o quanto eu fiquei feliz em lê-los) Espero que tenha gostado da atualização (quero Muito saber o que achou do final). Bjoos, flor!
Midnight: Eu achei que você tinha me abandonado! kkkkkk (não sou nem um pouco dramática). Eu tenho que admitir que quando li essa parte dele entrando todo de preto à meia noite mandando em tudo, achei um pouco sexy kkkk sou uma romântica incorrigível e se Harry é dramático imagine a Hermione nessa ultima parte entrando para dar um tiro nele, HAHAHAHA É simplesmente minha parte favorita acho que de todos os livros que já li. E, mulher, me diz como não gostar de Genevivre, ela é simplesmente DEMAIS! Espero sinceramente que tenha gostado da atualização, até a próxima, florzinha, bjoos
