Capitulo 8 – Curando as feridas

They tried to make me go to rehab
I said, "no, no, no"
Yes, I been black
But when I come back, you'll know, know, know

(Amy Winehouse: Rehab – Back to Black, 2006)


No dia seguinte, Bulma acordou mais cedo que o habitual, mas quando chegou à cozinha pensou em Vegeta e em vez de preparar seu café da manhã foi ver se ele estava bem. Quando chegou à porta do quarto, achou que talvez não fosse educado entrar sem bater e bateu de leve. Imaginou que ele perguntaria quem era, mas na verdade ele mesmo abriu a porta e a encarou em silêncio. Percebeu que ele viera mancando da cama até ali e disse:

– Não precisava levantar. Eu vim perguntar se você queria comer alguma coisa.

– Seria bom – ele disse – estou faminto... acordei no meio da madrugada e não consegui mais dormir.

Ela riu e disse:

– Deite-se um pouco. Vou trazer seu café.

Sem muito ânimo para responder, ele voltou mancando até a cama, onde sentou-se. Não queria se deitar. Na verdade, queria voltar ao treino imediatamente, por mais que o corpo protestasse. Cada dia perdido o deixava mais distante do seu objetivo.

Quando ela voltou, trouxe uma bandeja com um pão inteiro, muitos ovos, manteiga, leite e até mesmo biscoitos. Depositou tudo na mesa ao lado da cama, onde ela mesma adormecera dois dias antes. Ele levantou-se com alguma dificuldade, mas não aceitou a ajuda dela. Desabou na cadeira sem esconder a irritação e ela disse:

– Se ficar brigando com seu corpo você não vai se recuperar tão cedo.

Ele a olhou de lado, desconfiado, e perguntou:

– Quanto tempo fiquei desacordado?

– Desde sábado. Hoje é segunda.

Ele resmungou um palavrão. Ela riu e ele perguntou:

– Por que não tem café?

– Você vai se recuperar melhor se tomar leite.

Ele torceu o nariz mas começou a comer com o mesmo apetite que ela já conhecia. Ela sentou-se na beira da cama, bem próxima da cadeira onde ele sentara. De repente ele a olhou e disse:

– Não vai comer?

– Não estou com fome.

Ele acabou de mastigar um pedaço de pão e perguntou:

– O que aconteceu?

Ela hesitou. Não queria trocar confidências com ele. Na verdade, não queria falar sobre nada que se referisse à noite anterior, mas acabou dizendo:

– Eu terminei com Yamcha. Ele me traiu.

Ele não disse nada. Ergueu uma sobrancelha, meneou a cabeça de um jeito estranho e tornou a comer.

– Você não vai perguntar mais nada?

– Não, – ele disse objetivamente – queria saber por que você parecia estranha, você já me disse o porquê. Não vou te incomodar perguntando por que você dispensou seu parceiro de sexo recreativo.

– Parceiro de quê? – ela perguntou, indignada.

Ele pareceu perplexo, como se ela não soubesse algo óbvio.

– Não era isso que vocês faziam todas as noites em que ele passava aqui? Eu podia escutar.

– Não era algo vulgar como você faz parecer! Eu e Yamcha tínhamos um relacionamento.

– Relacionamento? É assim que se chama quando alguém faz piadas e o outro ri? Eu chamo isso de palhaçada.

– Vegeta, eu tenho certeza que você não entende nada de amor, porque é um porco egoísta e mesquinho. Mas não me ofenda dizendo que eu e Yamcha fazíamos apenas sexo.

Ele a encarou, perplexo:

– No que isso é ofensivo? Milhões de criaturas, aliás, bilhões ou trilhões, fazem apenas sexo. Todos os dias. No Universo inteiro. Fazer apenas sexo é quase um esporte! E dos mais populares.

– Mas esse negócio aí de dizer que era... recreativo!

Ele riu e disse:

– Então vocês estavam tentando ter filhos? Sayajins às vezes faziam isso. Escolhiam um parceiro que pudesse dar descendentes fortes e...

– Não estávamos tentando ter filhos, seu ridículo! Nós fazíamos amor. É o que casais que se amam fazem...

Ele riu com vontade e ela conseguiu se sentir ainda mais furiosa. De repente ele levou a mão às costas e disse:

– Não me faça rir assim de novo. Minhas costas doem muito.

– O que é tão engraçado, Vegeta? Você quase nunca ri! E quando ri resolve rir de mim!

– Eu não estou rindo de você. Estou rindo da sua capacidade de se autoenganar. Amor? Você não amava aquele palhaço. Talvez gostasse dele... mas não o amava.

– O que te dá tanta certeza disso?

Ele a encarou. Ela estava realmente mais atraente para ele que nunca, furiosa daquele jeito, e, pela primeira vez desde que a conhecera, ele admitiu para si mesmo que adoraria beijá-la. Mas, em vez disso, disse apenas, ficando o mais sério que podia:

– Não sei. Perdoe minha inconveniência, mas, como te disse uma vez, sou um soldado, não um diplomata. Às vezes minha percepção não é exatamente racional, mas intuitiva. E confiar nos meus instintos já salvou minha vida, algumas vezes.

Ela se levantou, furiosa.

– E, pelo visto, "seus instintos" não entendem nada de amor, realmente – ela se dirigiu à porta do quarto e disse, abrindo-a cheia de raiva – mais tarde alguém pega a louça, para que você não tenha que ir até a cozinha. Descanse, e tente não ser tão cretino.

A porta do quarto bateu com força e ele disse para si mesmo:

– Que mulher mais mal educada. E como grita.

Ficou desconcentrada o resto da manhã. Depois de um tempo, chegou a pensar que talvez a forma crua e direta que Vegeta se referira ao relacionamento dela com Yamcha se devesse a alguma diferença cultural, mas ela estava furiosa assim mesmo. Furiosa com Yamcha, furiosa com Vegeta, furiosa com aquela maldita armadura dele que ela não conseguia reproduzir.

Precisava arejar a cabeça. De repente seu pai surgiu dizendo que terminara de consertar a nave com a sua equipe e que Vegeta já estava treinando novamente. Ela mal podia acreditar na ousadia do sujeito! Ainda nem era meio dia! Três horas antes ele estava mancando ainda. Ela ligou o intercomunicador e discutiu com ele sem nem mesmo entender por quê. Quando ele a mandou calar a boca, ela desligou, tremendamente irritada por se importar com ele, por se preocupar com a possibilidade dele se ferir ou morrer.

Nessa hora o telefone tocou e uma solução inesperada para os seus problemas surgiu.


– Pai, vou tirar o resto da semana de folga – ela disse, se sentindo subitamente muito leve e disposta.

– Tudo bem... mas e a armadura...?

– Quando voltar eu resolvo, assim como os outros projetos, prometo. É só até sábado, domingo estou de volta. – ela deu um beijo de leve no rosto do pai – e vou tirar a tarde para fazer umas compras.

Naquela tarde, quando Yamcha apareceu para procura-la, ela não estava. Foi ao cabeleireiro, mudou o visual, abandonando o permanente que usara nos últimos meses, comprou roupas, alguns presentes e, quando passava por uma loja de esporte teve uma ideia boa de um presente para o próprio Vegeta. Sabia que ele ia ficar um pouco nervoso nos próximos dias, então, decidiu que deixaria o presente com um cartão e uma mensagem irônica.

Soube à noite que Yamcha deixara um recado: ia começar sua viagem de treino. Ela mentalmente desejou sorte a ele, sabendo que a página estava realmente virada.


Quando Vegeta entrou, mais tarde, ela não estava assistindo a nenhum filme, a casa estava bem silenciosa. Sentiu falta dela, embora não quisesse admitir. Ainda passou na cozinha, esperançoso, dando a si mesmo a desculpa de que tinha sede, mas ela também não estava por lá. Foi meio desapontado para o seu quarto, dando uma longa olhada para a porta do quarto dela antes de entrar no seu.

"Diabos, por que sinto falta dela? Ela gritou comigo hoje. Duas vezes." ele sentiu raiva de si mesmo, abriu a porta de supetão e bateu com força. Talvez ela escutasse. Passou direto para o chuveiro, ligando a água fria, tentando não imagina-la nua ali com ele. Quando saiu, ainda se enxugando, viu um embrulho em cima da mesa ao lado da cama. Que ousadia. Ela entrara no seu quarto e deixara algo para ele?

Havia um bilhete em cima do embrulho, que dizia: "Já que quer tanto, treine pesado. Sobreviva à minha ausência. Volto domingo. B."

Ele riu. Por que ele "sobreviveria à ausência dela?". Como era presunçosa a mulherzinha terráquea. Abriu o embrulho. Eram muitas, muitas peças de roupa: bermudas e malhas inteiras, como as que ele usava com a sua armadura, mas de material um pouco menos resistente. Afinal, ela se importava com ele. Percebera que suas roupas de treino estava em frangalhos e sabia que ele jamais sairia para comprar novas.

Havia ainda camisas e calças do tipo que os homens da Terra usavam, em cores mais discretas que as que ela entregara para ele no dia em que ele voltara e algmas cuecas. Teve de admitir que se fosse realmente obrigado a sair com roupas humanas, preferiria usar aquelas a quaisquer outras.

No dia seguinte, ao chegar na cozinha, viu um prato com ovos mexidos ainda quentes e uma fatia de pão, com um bilhete: "Faça seu próprio café. E eu falava sério quando disse que você precisava sobreviver à minha ausência. Até à volta, B". Sentou-se para comer os ovos tentando entender por que "teria de sobreviver".


Nota: Embora o Vegeta seja um rabugento e reclamão, ele tem algum senso de humor. Acho que a Bulma tem que agradecer porque ele pelo menos não chamou o Yamcha de "Verme" nesse capítulo, hehehehehehe.

Nota 2: Porque escolhi "Rehab" como trilha sonora desse capítulo: Dois motivos: primeiro, o Vegeta está começando a ficar "viciado" na Bulma, como podemos ver quando ele não a vê por perto, segundo, porque imagino a Bulma dizendo "você vai saber quando eu voltar" ;)

Tradução da música:

Eles tentaram me fazer ir para reabilitação

Eu disse "não, não, não"

Sim, eu estive mal

Mas quando eu voltar, você saberá, saberá