Acordei com um bom humor típico dos últimos dias, que sempre acabavam de um jeito inusitado. Dei mais uma olhada na mensagem que havia recebido antes de me levantar e realizar meu ritual matinal. Banheiro, uniforme, mochila, cozinha.

Enquanto saboreava o café da manhã, me lembrava de quando Atsushi estava aqui e ficou envergonhado ao ouvir que eu gostava dele. Foi um momento realmente inesquecível.

Tudo parecia estar se encaixando aos poucos, mas um problema ainda insistia em me perturbar. Qual seria a reação do time ao saber de nosso relacionamento mais... Intimo? Uma certeza eu tinha, não seriam todos que aceitariam numa boa, óbvio.

Por mais que esse pensamento fosse plausível, não adiantaria ficar com ele o dia todo rondando minha mente, pois acabaria ficando irritado, principalmente se começassem a fazer perguntas petulantes a respeito. A bem da verdade, eu mesmo não queria me preocupar com isso, embora tivesse plena consciência de que não seria possível manter segredo por muito tempo.

Parti em direção à escola tentando parecer despreocupado e quando estava próximo a entrada, cumprimentei algumas pessoas acenando de longe. Enquanto me dirigia até a sala, procurei inutilmente por Atsushi, mesmo sabendo que ele chega em cima da hora todos os dias. O vi entrando logo depois do professor e nossos olhos se encontraram por um pequeno momento, mas que me deixou desconfortável. Tinha certeza que ele estaria um pouco encabulado. Estava errado, como sempre.

— Bom dia Murocchin. — disse indo se sentar sem esperar que eu respondesse.

A aula seguiu como de costume, sem mensagens, sem olhares incriminadores, apenas uma e outra vez. Não havia notado como eu gostava de quando ele olhava em minha direção mesmo que por alguns segundos, embora não soubesse explicar o motivo. Na verdade, eu sabia, mas preferia agir como se não soubesse.

Quando o intervalo chegou e os alunos começaram a se dispersar, vi Atsushi fazendo um discreto sinal apontando para cima. Entendi que era para encontrá-lo no terraço e antes de ir para lá, passei na cantina, avistando Fukui junto com seu grupo de amigos. Pelo menos dessa vez não teria que me preocupar em estar sendo seguido.

— Atsushi...? — chamei-o depois de chegar ao terraço.

— Estou aqui. — respondeu. Ele estava próximo da entrada, mas não deixava de estar fora da vista de quem entrasse de repente.

Sentei do lado dele e me inclinei para dar um beijo rápido, porém quando estava para me afastar, Atsushi segurou meu rosto, mordiscou de leve meu lábio inferior. Sua língua invadiu minha boca aprofundando ainda mais nosso contato.

— He-hey pare — tentei falar entre beijos.

— Por que?

— Porque estamos na escola! — me afastei começando a comer.

Ele não disse nada em resposta, continuou com o que estava fazendo antes, comer salgadinhos. Passamos o tempo apenas apreciando a companhia do outro. Estava completamente distraído quando ouvi um "click" vindo do celular do Atsushi.

— Você ainda continua com essa mania de ficar tirando fotos de mim.

— Uhum.

— E não vai parar? — indaguei.

— Hmm... Não... — respondeu como se estivesse em dúvida se dizia a verdade ou não.

Fiquei o observando enquanto ele passava de foto em foto. Quantas havia em seu celular? Acho que não importa quem seja, mas a ideia de ter alguém sempre te observando e fotografando não é muito agradável. E foi com esse sentimento que tomei o celular de suas mãos por puro impulso.

Levantei-me o mais rápido que pude e mesmo que a reação de Atsushi tenha sido lenta, em poucos passos ele me alcançou. Segurou minha cintura com uma mão e a outra tentava pegar o celular. Visto que isso não funcionou, ele partiu para outra estratégia. Derrubou-me devagar no chão, segurando uma perna e inclinando-se para frente. Não dava para fazer mais nada, cheguei a ver não mais que 15 fotos, e algumas delas eram bem constrangedoras.

Deu um sorriso malicioso depois que recuperou o celular e ficou me encarando. Devolvi o olhar na mesma intensidade, porém um pouco aborrecido. Ele deve ter percebido, pois começou a fazer cócegas em meu abdômen, e não consegui deixar de rir igual a uma criança.

Quando ele decidiu parar, eu já estava sem ar e com as bochechas vermelhas. Atsushi sorriu e abaixou o rosto até o meu, depositando alguns selinhos antes de aprofundar o beijo. Minhas mãos seguraram sua nuca e uma mecha de seu cabelo.

— MAS QUE DROGA É ESSA?

Afastei o Atsushi rapidamente. Não que fosse adiantar alguma coisa, foi mais pelo susto. Sentia meu coração disparado quando enfim olhei quem era. Fukui, completamente perplexo. Tentei falar algo, mas não conseguia. Parecia ter alguma coisa bloqueando minha voz.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou Atsushi como se nada tivesse acontecido.

— Sou eu quem tenho que perguntar isso! Achei que vocês estavam juntos, escondendo algum segredo, mas não achei que estivessem tão... Tão íntimos! — respondeu fazendo alguns gestos obscenos. — Cara, vocês iam fazer aquilo aqui na escola?

— Claro que não! — intervim — Não estávamos fazendo isso que você tá pensando!

— Não era o que parecia. — rebateu com um leve toque de desdém na voz.

— Fukui... Por favor, não conte pra ninguém, pelo menos por enquanto. — pedi.

— Tch... — não respondeu, apenas se virou e foi embora.

Virei-me para Atsushi com o semblante sério, peguei minhas coisas e fui procurar Fukui, mas antes descer todos os degraus, o sinal tocou avisando o fim do intervalo. Dei uma olhada em volta e nem sinal dele. Seria impossível encontrá-lo agora, quando todos os alunos estão voltando para as salas e, mesmo não querendo, fiz o mesmo, diferente de Atsushi, que provavelmente ficou no terraço.

As aulas finais pareciam que nunca acabariam e estavam me deixando cada vez mais ansioso e agitado. Será que Fukui havia contado para alguém? Se pensar bem, essa história poderia estar se espalhando pela escola neste momento. Ele não faria isso... Faria?

Quando o último sinal tocou, todos começaram a guardar seu material e saírem da sala. Arrumei o meu lentamente, esperando se Atsushi apareceria ou eu teria que levar a mochila dele. Em menos de 10 minutos ele chegou, ficando um pouco surpreso por eu estar a sua espera.

— Você ficou no terraço? — perguntei.

— Sim... Conseguiu falar com ele?

— Infelizmente não... Você acha que o Fukui vai contar?

— Hmm não sei. Talvez.

— Certo. Eu tenho que ir. — avisei.

— Eu também. — pegou sua mochila e se aproximou de mim, beijando de leve minha testa, em seguida saindo da sala. — Tchau, Murocchin.

Caminhei lentamente para fora da escola, a ideia de ter minha vida exposta por outra pessoa era perturbadora. Verifiquei se tinha dinheiro suficiente para almoçar em algum lugar perto da escola. Não sentia disposição para ir em casa e voltar para o treino depois.

Faltava alguns minutos até começar o treino quando decidi sair do restaurante. Sabia que não adiantaria em nada ficar tentando prever o que aconteceria, mas seria bom pensar no que fazer se caso todos ficassem sabendo sobre o Atsushi e eu. Do jeito que Fukui é, ele não vai poupar esforços para deixar a situação constrangedora.

Estava chegando na quadra quando vi o time todo reunido. Com exceção de duas pessoas, claro. Voltei alguns passos até chegar a parede do prédio de salas. Não tinha mais dúvidas, aquele idiota havia contado.

Confesso que passou pela minha cabeça de sair dali o mais rápido possível, só que pensei que seria bem infantil da minha parte e, mesmo se quisesse, não daria para me esconder sempre. Vi a treinadora chegando com Atsushi, e todos entraram na quadra. Fui logo depois que todos entraram.

Sentia os olhares postos sobre mim e tentei ignorá-los, o que não foi tão difícil como havia imaginado. Pude perceber alguns comentários sussurrados e alguns risos abafados.

O treino inteiro foi cheio de olhares especulativos, não apenas sobre mim, mas Atsushi também. Ele estava ficando irritado. Muito irritado. Acabaria mal se continuasse por muito tempo. Como Taiga disse uma vez, ele parece uma criança quando é provocado. Estou impressionado pelo tempo que ele está aguentando essas "provocações indiretas".

Para meu alívio, Masako anunciou o fim do treinamento um pouco antes do normal. Provavelmente deve ter percebido alguma coisa errada com todos.

Tinha entrado no vestiário quando ouvi o final de uma conversa.

— … Estranho? Vai saber se eles não ficam olhando pra gente?

— Eu acho.

— Uhum, acho desconfortável saber que tem homem gostando de homem no time... Tipo, eles nos veem pelados...

— Não vejo nada de errado.

— Ahh não sei não, hein.

— Shhh...

Tinha pegado a mochila e estava prestes a sair quando perceberam minha presença. Estava parecendo um julgamento, com todos aqueles olhares pousados em mim. A entrada do vestiário estava ficando lotada, pois todos que entravam, simplesmente para na porta.

— Oe, você gosta de garotos mesmo? — alguém que não identifiquei perguntou.

— Fukui disse que pegou você dando uns beijos no Atsushi hoje.

Depois que fizeram essa pergunta, cada um continuou a arrumar suas coisas e saíram de lá. Provavelmente perceberam que não acabaria bem.

— Você e o Murasakibara já transaram, hum? — soou uma voz maliciosa. Mais pessoas saíram, sobrando não mais que cinco pessoas.

Senti meu rosto ruborizar violentamente. Mas que droga que eu estava fazendo? Ficaria ali parado enquanto falavam o que quisessem?

— O que você… — comecei a falar.

— O que é que você está falando? — Atsushi indagou.

— Oh, apareceu o outro … — deixou a frase no ar quando percebeu a expressão de Atsushi. Podiam falar o que quisessem dele, mas não deixava de ser intimidador quando queria. E dessa vez não era só a altura que estava assustando.

Os quatro saíram depressa deixando-o para trás. O último resquício de arrogância se extinguiu quando seus amigos foram embora.

Ele se trocou rapidamente, pegou sua bolsa e veio em minha direção, passou o braço direito em volta de meu pescoço e nos guiou para fora. O capitão Okamura, Liu e a treinadora estavam conversando, parando no instante que aparecemos.

— Aconteceu alguma coisa no vestiário? — Masako perguntou.

— Não. — respondi.

— Err... Ficamos sabendo sobre vocês dois... Então é verdade mesmo, né? — Okamura indagou receoso. Apenas acenei com a cabeça confirmando. — Hmm precisamos resolver isso logo, caso contrário o time vai ficar uma bagunça. Talvez não... Amanhã resolvemos então.

— Tudo bem, até amanhã — disse.

Os três responderam em uníssono, e consegui ouvi uma comemoração de Okamura dizendo "mais garotas para mim...". Reprimi um sorriso. Não era bem verdade isso.

Paramos de andar na esquina da escola e nos encaramos por um tempo, até Atsushi resolver se manifestar.

— Você...

— Estou bem — suspirei pesadamente — Eu já vou indo, até amanhã... E obrigado.

— Até. Obrigado por quê? Ei, Murocchin!

Mas eu já estava a alguns passos de distância, apenas acenei de longe.

Cheguei em casa e fui direto para o banho.

O dia havia começado bem e terminado não tão bem assim, mas não foi tão ruim quanto poderia ser. Não foram todos que ficaram debochando e isso era um progresso. O problema era comigo mesmo, fiquei apenas ouvindo as provocações. Idiota. Foi a primeira e última vez.

Amanhã é um novo dia, e quem sabe as coisas não melhorassem depois de explicadas...