[...]

Nada disso se iguala ao prodígio sombrio

Da tua saliva forte,

Que a alma me impele ao esquecimento num transporte,

E, carreando o desvario,

Desfalecida a arrasta até os umbrais da morte!

- Charles Baudelaire

O homem adentrou o Escritório Internacional de Direito em Magia na manhã seguinte sem olhar para os lados: foi direto para o gabinete de Elizabeth Bones, onde encontrou o objeto de seu ódio sentado a uma mesa de forma magistral e com postura perfeita; papéis, pergaminhos, tinteiros e penas impecavelmente arrumados, livros nas estantes clinicamente limpas, catalogados por assunto e em ordem alfabética: Valkiria era o demônio organizado. Levantou o olhar para ele com uma calma cínica, a frieza e o controle aparentemente haviam voltado a habitá-la.

Pousou a pena que estava à mão no tinteiro e abriu a boca, porém antes que pudesse pronunciar qualquer palavra, Elizabeth entrou na sala e deteve-se observando o visitante inesperado. A presença da senhora pareceu puxar Augustus de volta à realidade, afinal, não poderia acabar com a raça de Valkiria bem no meio do Ministério, à luz do dia e na frente de testemunhas.

- Posso ajudá-lo, Sr. Rookwood?

- Na verdade, estava imaginando se a srta. Adler aqui poderia me ajudar, já que ela é um pequeno prodígio jurídico... – ele sorriu ácido para a loira. Teve que pensar rápido, mas não teve que ir muito longe para justificar-se. – Questões sobre uma propriedade de minha família, na Irlanda. Se puder me emprestá-la?

Valkiria levantou-se de pronto, confiante:

- Bem, eu já estou com os processos adiantados, Bones. A papelada de Ramadesh já foi protocolada e enviada para o Ministério da Índia, e a audiência com Crouch será somente ao final da tarde. O caso de Rookwood muito me interessa... - foi a vez dela devolver o sorriso ácido para ele. - Já conversamos previamente, será bom tê-lo no currículo. Se puder me ceder a tarde livre, voltarei antes da audiência.

- Tudo bem, Adler, pode ir. Estou te devendo algumas folgas, você pode utilizá-las, sabe? - O olhar de Bones era difícil de decifrar, mas Augustus imaginou ter visto alívio neles por se ver longe da assistente workaholic por uma tarde.

A alemã adiantou-se na frente dele, interrompendo a observação. Olhou-o por sobre o ombro, sem parar para esperá-lo:

- Vamos?

.

Os dois andaram emparelhados pelos corredores, cada um com a varinha a postos por baixo da capa por precaução, até encontrarem uma sala de reunião vazia. Deslizaram para dentro dela e foi Valkiria quem fechou a porta atrás de si, virando-se com a varinha em mãos, cruzando com a de Augustus que já estava mirando-a.

- Posso fazer um feitiço para certificar que fiquemos a sós, senhor? Ou quer que ouvidos curiosos escutem nossa conversa? - Ela falou sem se abalar com a ameaça mútua que se faziam.

Rookwood recuou alguns passos antes de abrir um sorriso cafajeste e fazer uma leve reverência, com ironia.

- Fique à vontade, senhorita. - Murmurou, sentando-se sobre a enorme mesa redonda ao centro da sala e abaixando a varinha.

Ela bufou discretamente e virou-se de frente para a porta fechada. Fez uma série de gestos retos com a própria varinha, como se estivesse desenhando no ar algo cheio de pontas e ângulos. A porta não apresentou nenhum sinal detectável de mudança quando ela encerrou e voltou a ficar de frente para ele, que debochou:

- Acaso esse embuste valerá de alguma coisa?

- Se o senhor ouvir um passo sequer neste corredor, Rookwood, eu te dou cem galões.

- Nah... quinhentos, que tal? - Ele voltou a erguer a varinha, ao passo que ela fez o mesmo, apontando para ele.

- Está aqui para fazer apostas sobre a minha capacidade ou conversar sobre o que eu te escrevi, Rookwood?

- Ah, sobre aquilo... - ele cerrou os olhos, lembrando-se da vontade de pular sobre o pescoço dela. - Devo entender que foi uma brincadeira boba de uma pirralha insolente, não?

Ela se aproximou e sentou-se na cadeira de frente a ele, com a habitual postura altiva, ainda que estivesse um nível abaixo do dele. Parecia ignorar o perigo da proximidade, olhando-o direto nos olhos.

- O senhor deve entender como um pedido amigável, que se não for atendido acarretará consequências mais graves.

- E a senhorita terá coragem de entrar em litígio comigo?

- Por que não? Eu expliquei para o senhor, de acordo com o artigo XVI da Lei de Aparatação, no que diz respeito ao direito privacidade, o que o senhor fez foi invadir, com o agravo de, como último descendente, não ter se apresentado para desfazer o feitiço sanguíneo da propriedade vendida. Estou no meu direito.

- Bla, bla, bla, Adler. Você sabe melhor do que eu que nem todas as leis foram feitas para serem seguidas. O que me intriga é você se dispor a fazer isso na nossa condição perante... você sabe quem...

- O senhor realmente acha que nossa vida pessoal interessa a ele? Por favor, Rookwood, ele tem mais o que fazer. Além do mais, o máximo que acontecerá é você perder tudo o que tem... não se preocupe, não será nada que o senhor já não esteja acostumado. - Ela cerrou o olhar, acentuando a última sentença com malícia.

Augustus se levantou de sobressalto e se inclinou sobre ela, que permaneceu impassível. A varinha dele chegou a tocá-la no queixo, ao que ela simplesmente levantou um pouco mais a cabeça, o nariz empinado quase encostando no dele, os olhos azuis perfurando com confiança a fúria dos castanhos.

- É só uma maldita torre, Adler... - ele murmurou entre os dentes, parecendo demonstrar alguma humanidade como último recurso, provando para ela que o assunto não era somente "uma maldita torre" para ele.

- Então aceite o acordo que lhe propus. - Ela falou se aproximando um pouco mais, como se fosse uma reação magnética natural e abaixando o tom de voz, prosseguiu: - Ensine-me a entrar no Departamento de Mistérios e eu faço vista grossa para as suas visitinhas na mansão.

- A senhorita não dura meia hora lá dentro sozinha, acredite. Nem eu duraria em outra sala que não a minha. - Ele sequer piscava, continuando a murmurar em tom confidente, como se realmente se preocupasse. O ar quente de seus pulmões sendo trocados um com o outro, seus hálitos se misturando, provocando nele um efeito pior do que um narcótico faria. Como imaginasse que o mesmo ocorresse com ela, sussurrou: - Eu não gostaria de perdê-la lá dentro...

- Minha sobrevivência não te interessa, Rookwood, não blefe comigo.

- Talvez interesse... - os lábios dele quase tocaram os dela, fazendo-a se afastar dessa vez, balançando a cabeça, tentando resistir ao jogo dele.

- Claro que interessa! - Ela o interrompeu, irônica. - Uma insolência aqui, um ultraje ali, uma invasão de vez em quando... eu me lembro da forma como me olhou no Três Vassouras a primeira vez que me viu... ah, estava distraído, me deixou entrar na sua mente com relativa tranquilidade... - ele abafou um riso que a inundou em seu hálito quente, fazendo-a arrepiar, porém continuar inabalável: - Sua mente é muito suja, Rookwood, mas quando se trata de mim ela é especialmente imunda, ou estou errada?

- Veja como você age! Acha que isso não é motivo o suficiente para... - ele parou no meio da frase, sem conseguir encontrar uma palavra adequada para completar.

- Querer me foder? - Ela arriscou.

Ele, no entanto, ficou em silêncio, olhando-a congelado, parecendo hipnotizado. Valkiria levantou uma das sobrancelhas, chocada que ele hesitasse em ofendê-la mais. No fundo era aquilo que ela mais temia: ser capaz de abalar a confiança dele também, causar... aquilo. Eram vulneráveis um ao outro, o que poderia conduzi-los a um círculo vicioso passional como já haviam iniciado, de provocação e retaliação, distraindo-os do que realmente teriam de ocupar-se - como Mackeller, que naquele momento poderia muito bem estar escrevendo uma matéria de mau gosto sobre o passado do tio dela, por exemplo, expondo-a e levantando dúvidas sobre sua conduta. A lembrança do dever a fez deslizar furtivamente para o lado, saindo de baixo dele que, porém, no segundo seguinte agarrou o braço dela, impedindo-a de se afastar muito.

- Saia do meu caminho, Rookwood, e eu sairei do seu. - Ela falou firme, do alto de sua sensatez, sem se importar com as renúncias que aquilo implicava, porém ele não estava disposto a fazer o mesmo.

Seus olhos castanhos brilhavam misteriosamente enquanto passeavam pelos lábios bem desenhados, cujo inferior era deliciosamente projetado para frente por questão de milímetros, uma observação insinuante demais; o rosto parecia ter sido perfeitamente esculpido por algum deus maligno que colocara tal víbora na terra para fazê-lo sentir-se daquele jeito. Num impulso ilógico, Augustus retirou os óculos que maculavam a imagem com a mão livre, jogando-os longe sob um muxoxo indignado, completamente ignorado. Passou o braço pelo corpo dela, envolvendo-o, apertando-o contra si, e forçou os lábios contra os dela.

A loira tentou se livrar do terrível toque, porém, por mais que resistisse, em poucos segundos a língua dele rompeu a barreira física, invadindo sua boca de forma áspera, quente e brutal, com o gosto acre de um fumo mais forte do que ela estava acostumada a fumar. De repente, o que era terrível se tornou algo a ser contemplado e apreciado. Poucas vezes havia sido beijada na adolescência em Durmstrang por garotinhos patéticos, macios e cheios de saliva. A possibilidade de um beijo ser tão distante do ideal romântico a fez ceder aos poucos, segurá-lo pelos cabelos contra si, sentindo não só a aspereza da língua a provocar-lhe arrepios, como também a da barba por fazer roçando em seu queixo; a forma como ele apertava-a, deixando-a sem ar de tão forte, fazendo-a ficar nas pontas dos pés para alcançar a altura dele.

Liberando-a do beijo, Augustus se virou para a mesa e jogou seu corpo pequeno e maleável sobre a superfície de madeira, sem consideração, tato ou delicadeza. Valkiria sentira o baque nas costas, as pernas baterem na beirada da mesa de forma que ela sabia que deixaria marcas, mas apenas mordeu os próprios lábios com força, abafando o gemido fraco de dor. Augustus ignorou qualquer incômodo, inclinando-se sobre o corpo dela e puxando-a para si de uma vez, as coxas se interpondo entre as dela forçando a abertura. A mão livre do homem cobriu seu rosto, sentindo as feições apolíneas na palma da mão, abrindo os lábios ornados por um finíssimo filete de sangue e deslizando o polegar até a língua úmida da alemã, que o prendeu entre os dentes com brutalidade quase idêntica à dele e chupou-o com uma malícia instintiva. O homem soltou um murmúrio de prazer, observando-a entregue e disposta sob ele, pressionando e mexendo de leve o resultado de sua excitação sobre a virilha dela, para que estivesse ciente do que mais aguardava a sucção de seus lábios.

Valkiria olhava-o com languidez, ainda que o enxergasse sem foco - pela primeira vez, ficar sem óculos não a deixava nervosa, pelo contrário, se conseguisse distinguir com perfeição a íris castanha do homem sobre ela, talvez a razão invadisse-a de forma devastadora. A única coisa que deveria invadi-la era Augustus, que retirara o dedo de sua boca e apertara-lhe o rosto como um senhor possessivo, fazendo-a encolher-se sob ele. A mão deslizou pelo corpo firme dela até a coxa, puxando a capa para cima com ânsia, descobrindo a pele sem se deixar abalar pelas eventuais cicatrizes que descobria pelo caminho. De certa forma, estava acostumado com relevos sobre a pele, pois ele próprio os tinha aos montes. O fato dele só usar a mão esquerda, e manter a direita apoiada em algum nível sobre ela, fez Valkiria sentir que ele estava ainda com a varinha apontada para ela, e ela mesma sentiu que mantinha a varinha apertada na mão que passava pelas costas dele. Ao invés de se sentir ameaçada ou ultrajada, aquilo a excitava mais.

Pôde notar que os lábios dele se abriram num sorriso demoníaco antes de se afundarem em seu pescoço, mordiscando-o, chupando-o como se fosse capaz de puxar seu sangue através dos poros, deixando mais marcas em seu corpo. A mão livre de Rookwood se enfiou até a última peça de tecido, úmida, afastando-a com dedos hábeis e fazendo-os embrenhar em pelos e reentrâncias até atingir o ponto que a fez fechar os olhos. Ele murmurou alguma palavra difusa que sua razão perdida não fez questão de absorver além da vibração prazerosa de sua voz. A mão desceu e deslizou para dentro de Valkiria, gerando um desconforto estranho e dúbio para ela, e mostrando uma resistência que ele jamais esperara encontrar em uma mulher - apesar de ter imaginado aquilo sobre ela. A sensação fez Augustus parar completamente e procurar os olhos dela, que, porém estavam cerrados ainda. Ele soltou a varinha para agarrá-la pelos cabelos, direcionar seu rosto para o dele, e quando a loira abriu os olhos, ele sorriu de forma mais bestial ainda.

- Virgem, ahn? - Ele murmurou malicioso, porém a palavra dessa vez inteligível funcionou como um balde de água fria para despertar a razão dela sobre o que estava acontecendo ali.

Estavam em uma mesa, em pleno Ministério da Magia, em uma discussão interrompida sobre um processo litigioso envolvendo invasão de propriedade e talvez uma proposta para satisfazer um plano pessoal - e ele estava prestes a... de repente, ela sequer conseguia imaginar aquilo. Augustus já havia retornado a atenção para seu corpo quando ela o chamou, baixo, porém sem a mesma languidez de outrora:

- Augustus...?

No momento em que ele dirigiu o olhar para ela novamente, Valkiria apenas passou a mão direita para a frente dele, encostando a varinha com firmeza em seu esterno e falando rapidamente, mais firme e mais alto:

- Estupefaça!

.

- Você fica bem assim. - Elizabeth Bones fez um gesto para indicar os cabelos agora soltos de Valkiria. - Ele deve ter notado.

- Quem? Crouch? - A loira se fez de desentendida, mas amargamente já previra a resposta.

- Não, claro que não... Rookwood, dos Mistérios... vai dizer que não é por causa dele que você está assim?

- Não! Que ideia...

Valkiria se esforçou em fazer cara de paisagem e deixar o assunto absurdo morrer, sem saber se aquilo pioraria ou melhoria a situação. Estava de cabelos soltos, sim, por causa do maldito chupão que Augustus deixara no pescoço dela, e ela não conseguira melhorar muito da aparência dele no pouco tempo que teve para resolver a bagunça em que se metera.

- De qualquer forma, Crouch também gosta de você, e da forma como ele está subindo de cargo... não me admiraria se eu perdesse minha assistente em breve.

A alemã levantou o olhar para Bones, uma senhora encorpada e de maxilar ossudo, competente, porém com ideias de justiça completamente equivocadas aos olhos de Valkiria. Ambas estavam retornando ao gabinete após a audiência com Crouch, onde a loira destacara-se bem. Agora, ela não entendia se o comentário da superiora era elogioso, pesaroso ou esperançoso, mas não importava.

O importante é que estava certa.