"A morte sempre foi inevitável, mas o sofrimento é opcional. Ninguém precisa de platéia para morrer.
_MrsEloi. "
Lord Sasuke
Coração de mármore.
Escrito por MrsEloi;
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A saliva de Sakura dança conforme o movimento abrupto do músculo intrínseco da língua, as papilas fungiformes – pequenos glóbulos espalhados por toda região dorsal e responsável pela manipulação e sabor, degusta então da amargura, provavelmente uma consistência salivar modificada devido ao nervosismo; o bolo salivar desce acidamente pela epiglote, seguindo o trajeto pela orofaringe, causando uma contração nos tecidos, infelizmente, suas justificativas falsas foram engolidas juntas.
— Serei obrigado a perguntar novamente? — a rajada de palavras frias do demônio surtiu como um choque térmico no organismo da garota. Ela estava definitivamente desesperada, outrora, não poderia vacilar justo ali, tão próxima de algum vestígio de esperança.
— Circundado pelo castelo... — murmurou, quase sem voz. O auxílio oral não estava ao seu favor naquele mórbido instante.
— Em algum momento passou por sua petulante mente, uma mísera hipótese, de que sou um homem idiota? — a pronuncia homem surtiu irônica; o Uchiha se ergueu, robusto e miseravelmente encantador, friccionando para a rosada com a cruel realidade de que ele era, indubitavelmente, um Lord e todas as triviais almas dali, pertenciam unicamente a ele; as pernas de Sakura tremularam por debaixo do tecido suave do vestido. Sasuke estava longe da silhueta hesitante de Sakura, porém, perto o suficiente para tornar o ambiente desagradável no qual triturava sua garganta e lhe asfixiava, uma tensão colossal. Seria possível mentir para o demônio ou singelamente devoraria seus pensamentos absorvendo toda a fatídica verdade? O quê era Lord Sasuke afinal, quais circunstâncias havia o tornado tão obscuro e medíocre? — Diga-me a verdade.
— Seja qual a verdade em que deseja ouvir, não é a realidade, afinal, já foi dita.
" Garota extraordinariamente petulante. " O pensamento agitado atordoou Sasuke.
Ele arqueou a sobrancelha e Sakura não pode negar a pontada estridente de medo presente em seu coração; ela gostaria de possuir o dom de ler mentes naquele momento.
— Deixe-me ver, acredito que eu estava tentando escalar o muro deste castelo, afinal, não sei se já tivemos a oportunidade de conversar sobre minha linhagem familiar, sou descendente de aranhas... Ou não — Sakura pausou o deboche e prendeu seu olhar nos ônix confusos. —, eu poderia estar transando com todos os guerreiros do imensurável palácio. Droga! — Sakura estava exaltada e os processos de diástole e sístole proporcionados por sua bomba cardiovascular – coração, estavam frenéticos, sua cabeça latejava com o fluxo do sangue – vasodilatação, como se em algum momento cada parte do seu corpo se tornara uma bomba relógio prestes a explodir. Em tese, ela não estava mentindo, preferia a opção de omissão, outrora, mesmo assim, assumia um risco colossal. — Eu estava andando por esse miserável castelo com o único e colossal intuito de evitar qualquer tentativa de suicídio.
— Suicídio? — Sasuke franziu as sobrancelhas, enrugando o cenho de forma perplexa. De todas as palavras proferidas por Sakura, insolitamente, ele se prendeu em apenas uma, onde de fato, era um demasiado exagero, ou não. — Diga o quê vê quando olha para mim, Sakura! — mesmo que anormal, Haruno Sakura notou, nas profundezas dos orbes negrumes, a enaltecida expectativa. Então, era evidente que sua resposta definiria o humor de Sasuke durante aquele fatídico dia e talvez, os outros que estão por vir.
— Vejo um homem arrogante e solitário, que se alimenta do sofrimento alheio e não se importa com nada além de si mesmo. Destrói qualquer um que atravessar seu caminho apenas para alimentar seu egoísmo. Não existe algo a se esperar de um demônio, afinal. — suas palavras saíram como ferroadas árduas. Ela possuía tamanha bravura ao confrontar o demônio daquela maneira, outrora, não era capaz de prever até onde sua coragem poderia resistir naquele lugar, denominado por muitos como uma prévia do inferno.
— Venha até mim, Sakura. — ela obedeceu, aproximando-se a passos lentos, os lábios pressionados e o ar mantido enclausurado em seus pulmões. Não sentia esclarecidamente o medo, no entanto, poderia definir como apreensão.
— Eu... — Sasuke a silenciou ao pousar o dedo indicador em seus lábios voluptuosos e ousados momentaneamente, então, percorreu sua face em uma carícia delicada. Ela estremeceu.
— É imensamente satisfatório saber que tens consciência de que sou o maior pesadelo presente na Terra; e que deverás temer a mim todos os dias de sua frágil vida, estimada Sakura. — o timbre de sua voz era ameaçador, porém, existia algo a mais naquela avassaladora declaração com o intuito errôneo de amedrontá-la. Talvez, uma minúscula probabilidade de números incontáveis, o grande demônio imortal desejava outra definição para sua diabólica pessoa, afinal, seria Lord Sasuke o monstro que todos temem? — Jamais mencione sobre suicídio novamente, ou serei obrigado a prendê-la. Algo não tão nobre vindo de alguém como eu. — alertou, indiferente; como se suas palavras não fossem verdadeiras, ou eventualmente, o desgosto em dizê-las.
— Nobreza em um ser considerado a personificação do inferno?
— Nobreza em um ser considerado a personificação do inferno!
Uma pergunta resultante em afirmação, onde, o duplo sentido era constante e de fato, verdadeiro. Sasuke deu de ombros ao se virar, revelando as costas largas e rígidas entre as vestimentas negras; ele disfarçava bem, afinal, não seria vantajoso revelar seu incômodo perante as palavras rudes de Sakura.
A Haruno levou a mão trêmula e repousou em seu ombro. Sasuke moveu o rosto para olhá-la e então, o som estalou. Ocasionalmente, a morte disse um "Olá".
Retirou-se em silêncio, pela primeira vez. Sem cortesia, sem charme, singelamente, a ausência de luxúria.
A vida era realmente irônica, ou simplesmente, Uchiha Sasuke inconstante. Foi possível notar a pontada escarlate no interior dos olhos ônix.
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O sangue gotejava dos dedos de Sasuke, formando uma poça grotesca no chão; seus olhos antes de tonalidade escarlate, agora voltavam ao normal. O masseter ainda estava enrijecido, e a epiderme na qual cobria o músculo encontrava-se avermelhada e latejante.
Ela havia acertado-lhe uma bofetada e devido esta insolente atitude, vinte e cinco vidas de seus homens, ele ceifou e enviou para seu pai – Lúcifer.
A culpa era dela, não dele.
A mão destra desvencilhou-se do órgão capaz de bombear o sangue e proporcionar vida, quicando algumas vezes no piso antes de adentrar na sombria da futilidade. O corpo deste despencou no chão logo em seguida.
Sasuke andejou alguns passos com firmeza, ergueu a cabeça para o céu grafitado em cinza e suspirou, passivamente.
Atitudes precipitadas, promoviam consequências ferozes.
A culpa era dela, não dele.
(...)
Uma semana se passou e Sakura evitou sair dos seus aposentos mais vezes que o necessário. Não pelo fato de estar presa, mas sim por ter agredido Sasuke de maneira repentina e rude; outrora, o sentimento de aflição a cercava durante todos os dias, afinal, Sasuke desaparecera e também, não a castigou.
— Por favor, não... — rogou em um murmúrio quando a porta se abriu. Ela não se arrependia, porém não se orgulhava por agir feito uma selvagem.
— Vai ficar tudo bem. — a voz meiga foi reconhecida imediatamente e então, o coração da Haruno disparou.
— Sasori! — sorriu, enlaçando seu pescoço com os braços quando se aproximou.
— Preciso que me encontre hoje durante a noite na capela, faça o possível e me prometa.
A mente de Sakura elaborou milhares de perguntas para disparar sobre Sasori naquele momento, porém, optou por confiar em seu grande amor.
— Estarei lá, prometo.
Sasori torce os lábios em um sorriso, esboçando satisfação e vitória. Sakura não pode deixa de se espelhar nele, permitindo-se sorrir também.
— Sasori, vamos. — dessa vez, a voz estridente de Naruto atravessou as paredes.
— Enfim lhe livrarei deste inferno.
Seria capaz alguma alma se desvencilhar do inferno sem uma fatídica punição?
— Eu amo você!
Nem sempre o amor é a resposta para os empecilhos da vida, tampouco, justificativa.
(...)
A íris esmeraldina contraiu, e suas pupilas permitiram a passagem de seu vislumbre reflexo. Radiante lhe definia. Finalmente ela havia encontrado a agulha no palheiro. Optou por trajes mais singelos, afinal, não desejava chamar atenção para si.
— Com sua licença — Ino entreabriu a porta, revelando apenas a cabeleira loira e a pontinha do pé. — Lord Sasuke não comparecerá esta noite, o precipitado conselho adiantou a reunião de amanhã para esta madrugada, onde provavelmente irá durar aproximadamente três horas, o suficiente para você e Sasori fugir. — murmurou sorridente.
— Obrigada por tudo, Ino. Juro que farei o possível para tirá-la daqui. — Sakura a envolveu em um abraço apertado ao alcançá-la.
— Seja feliz, garota. — a loira desvencilhou-se dela, apreensiva. Observou atentamente à rosada partir, não imaginando se para o sucesso ou perdição. O destino decidiria.
Sempre pontual, Sasori já se encontrava no local marcado quando a Haruno chegou; um pequeno feixe de luz iluminava seus fios vermelhos e ela se permitiu admira-lo um pouco mais.
Sasori enlaçou sua cintura, pressionando seu corpo contra a parede de tijolos mofados; capturando seus lábios com desejo. Seus dedos andejaram apressadamente em direção ao busto, apertando-os de forma abrupta, apressando-se em se livrar da parte superior do vestido esverdeado.
— Sasori, por favor, não. Essa é nossa oportunidade de fugir, Sasuke estará ausente está madrugada. — murmurou, um tanto aflita. Não achava nada viável desperdiçar uma oportunidade única.
— Eu irei matá-lo por encostar as mãos em você antes de mim, isso é uma promessa. — Sasori espremeu os seios de Sakura mais uma vez, desta vez mais forte, ocasionando em um incômodo. Passou pela cabeça de Sakura que Sasori não fazia a mínima idéia do que realmente estavam lidando. Até mesmo a alusão de destruir Sasuke era ludíbrio.
— Pare! O que pensa que está fazendo? — Sakura tentou inutilmente se desvencilhar do aperto, na tentativa máxima de evitar uma exaltação. — Estamos a um passo de nos vermos livres daqui, para enfim ter a oportunidade de construir uma vida juntos.
— Que tipo de estúpido seria eu em arriscar minha vida por uma garota fodida por outro? — o aperto no braço foi forte, mas não tão impactante quanto à frustração que atingiu Sakura.
— É assim que me vê? A garota que transou com outro? O que veio fazer aqui afinal, Sasori? Sabe com o quê está lidando? O demônio imortal não é uma lenda, é real e muito mais perigoso do que as historinhas de terror que mencionavam para nós na infância.
— Vim resgatá-la, meu amor, mas não posso agir como um frouxo. Por favor, Sakura, poupe-me, nada é tão forte que não possa ser detido. — machismo, Sakura via isso em seus olhos.
— Frouxo? Do que está falando, Sasori? Eu não estou aqui por motivos desejáveis!
— Sim, eu sei bem e lhe compreendo, mas preciso que me entendas também. Quero minha vingança. Eu passei os últimos dias nesse castelo, Sakura para escutar as barbaridades que esses caras falam.
— Vingança? Nada foi feito a ti, Sasori. Está propondo fazer coisas debaixo dos olhos dele? Permanecer aqui, neste inferno? — era constrangedor ter aquele conversa com ele. E mesmo que de maneira insólita, ela não pensava na hipótese de se relacionar desta forma com Sasori naquela ocasião. Queria tantas coisas diferentes para sua vida.
Sasori retirou a camisa, liberando-a em um canto qualquer.
— Se você me ama, deve concordar.
— O Sasori que amo não está aqui, existe racionalidade nele e principalmente gentileza! — Sakura afirmou.
Uma risada macabra ecoou pelas extensões da capela, penetrando a escuridão ao lado do ruído de palmas estrondosas. Sasori entra na frente da rosada, tal como um escudo, porém, os olhos de Sakura não permitiam se desvencilhar da figura negrume ao lado de Orochimaru – estática, no qual permanecia cruelmente silenciosa e sua aura emanava ódio, exorbitante fúria.
— Meu Lord, tentei lhe alertar inúmeras vezes que essa vulgívaga mantinha relações com os demais soldados do castelo, tentou até mesmo me seduzir. — Orochimaru aclamava ludíbrios sem possuir vestígios de moralidade.
— Cale-se, bast... — fora a última pronúncia de Sasori em vida. Sakura sentiu o calor do fluído em seu rosto e conseguintemente, a cabeça de Sasori quicou uma única vez no vasto chão. A lâmina prateada brilhou e por esta, uma mísera gota percorreu um caminho inconstante até falecer no solo. Olhos comuns jamais teriam a capacidade de acompanhar o acontecido, e Sakura não acompanhou. Levando as mãos trêmulas aos lábios, Sakura deixou que seus joelhos pesados encontrassem-se com o pavimento plano e em seguida, a única coisa que foi capaz de fazer foi gritar a tal ponto que imaginou sentir sua garganta rasgar, enquanto suas lágrimas cristalinas formavam uma junção com o sangue de Sasori que se acumulou em seu masseter, pingando gota a gota sobre o vestido esverdeado.
— Monstro... — murmurou. — Não ouse me tocar! — berrou. Provavelmente, naquele instante ela poderia ser considerada uma selvagem. Sasuke não se aproximou, mas ela sabia que tentaria. Ele deveria tentar, não é mesmo?! — Não me toque!
— Não irei. — Sasuke se pronunciou, pela primeira vez, permanecia no mesmo local inicial, como se não tivesse se movido. Como se não tivesse decepado a cabeça de alguém. Como se fosse um mero telespectador. Sua afirmação emanou pelas vias auditivas tão gélidas que congelou até mesmo as batidas de seu coração. — Caminhe.
— O quê? — a indagação gruiu confusa. Ele não estava tentando tocá-la, agredi-la ou até mesmo, persuadi-la.
— Caminhe para a torre do cárcere. Sem comida ou água, até que o ceifeiro deseje debochar de seu corpo pútrido, pois a alma és fétida. — Sasuke parou atrás dela, agindo como se sua existência fosse tão pequena quanto uma bactéria; e era.
— Acompanhe-a, Orochimaru. — após ordenar, sua sombra ligou-se as profundezas da capela.
Orochimaru arqueou o pescoço conferindo minuciosamente a ausência do demônio. A lateral de seus lábios torceu em satisfação e malícia, o ápice da perversidade. — Irei lhe mostrar o que fazemos com fraudulentos neste castelo.
— Estás tão errado quanto eu, mentiroso de uma figa. — Sakura esbravejou, no entanto, o pavor cresceu em seu peito quando viu Orochimaru retirar o cinto de couro grosso e chicoteá-lo na própria mão. — O que pensas que irá fazer com isso?
(...)
Havia amanhecido e Sasuke recuperava-se permanecendo na capela, por alguns momentos em seus devaneios achou ter escutado Sakura gritar e mesmo se tivesse, ele não se importava. Chamou-o de monstro e o humilhou na frente de seus próprios homens, merecia a punição no qual havia proclamado, apodrecer até o último vestígio de sua alma se esvair – isolamento. Não a alimentaria.
O Uchiha se sentou no chão no qual tinha permanecido o restante da noite adormecido, levantou-se esmagando alguns dos escorpiões com os pés, buscando a localização no qual havia arremessado seus trajes. Sua pele estava completamente picada, além do sangramento, também possuía a presença da vermelhidão e edema, alguns dos sinais da inflamação. Apesar de não matá-lo, o escorpião era um dos únicos animais peçonhentos que lhe causavam algum tipo de dor. Efetivamente, proporcionava delírio e febre por algumas horas. Aquela foi sua punição por ter sido nobre.
— Tsc... — resmungou ao calçar os sapatos.
Ao sair da capela, Sasuke estalou os dedos e toda a estrutura transformou-se em poeira. Logo em seguida, algumas vidas foram ceifadas, afinal, ele era um demônio e estes, levam vermes a óbito apenas por um precário capricho.
A culpa era dele, não dela.
(...)
Era manhã, mas para Sakura, parecia noite. O céu estava escuro e o tempo chuvoso. Até os céus choravam sua partida. Sakura gemeu ao levar as mãos nas costas, na tentativa de retirar os trapos do vestido no qual pairava sobre as feridas causadas pela surra que Orochimaru havia lhe dado. Sasuke não apareceu e nem mais ninguém. Sorte dela que a fome ainda não havia dito um "Olá". Tossiu algumas vezes com a poeira e em alguns momentos estremecia no contato com teias de aranha. Se perguntou diversas vezes se Sasuke sabia o que exatamente Orochimaru tinha feito a ela, não que o fato importasse, afinal, se ele não havia aparecido ou lhe enviado ao menos roupas limpas, uma surra não significava nada para ele; precisou de um lacaio para puni-la.
A torre era absurdamente escura, triste e gélida.
— Sakura... — ela reconheceu a voz de Ino atrás da porta. — Naruto pediu para que eu lhe entregasse...
Ino passou um envelope pelo pé da porta e aguardou até que Sakura conseguisse arrastar seu corpo até o papel.
Senhorita Haruno,
Venho através desta carta lhe pedir perdão. Sei que és indubitavelmente em vão, mas não haveria honra em minha partida sem um pedido de clemência.
Ocorreu-me várias tentativas de convencimento para viver neste mundo imundo, mesmo um rapaz como eu, sem casa, família e até mesmo escrúpulos, não vê capacidade de sanidade neste lugar.
Por vários anos vejo jovens arrancadas de seus lares para apodrecerem aqui. Sim, Senhorita Haruno, seu destino não vai ser diferente, afinal, aqui só existe morte. És o inferno da Terra. Sou culpado pela morte de Sasori, afinal, se nada tivesse feito, nenhuma esperança seria massacrada sem tamanho pudor. Perdoe-me por ser fraco.
Este és o fim de um deplorável, em vida e em morte,
Uzumaki Naruto.
— O que ele quis dizer, Ino? — minhas lágrimas mancharam a caligrafia trêmula do papel.
— Uzumaki Naruto cometeu suicídio. — tudo que a Haruno podia fazer Ra nada a mais que chorar.
Alguns dias haviam se passado desde então, Lord Sasuke não cumpriu parte do prometido e continuou enviando Ino para lhe oferecer alimentos, bem requintados por sinal. Outrora, ela não fez questão de comer.
Sakura observou uma sombra tapar o pequeno fio de luz que escapava do lado de fora para dentro do cômodo da torre. Era diferente da de Ino, está, poderia se considerar com uma presença pesada.
— Quem você pensa que é, para tratar a vida das pessoas como se fossem brinquedos? — acusou, com o timbre enfraquecido, aguardando que o demônio abrisse a porta; isso não aconteceu. — Não sente remorso? — Sakura se levanta com dificuldade, um tanto cambaleante, sua palma direita se estende um pouco acima da maçaneta da porta enferrujada, coincidentemente, o moreno fazia a mesma coisa do lado de fora. — Tens certeza de que seu coração não bate?
Sasuke recuou, silencioso. Apesar da porta evitar qualquer tipo de contato entre eles, Sakura agia como se estivesse o enxergando.
— O coração foi criado para manter criaturas vivas, não para essas tolices que os humanos idealizam.
Sakura espremeu as pálpebras, e o fluído cristalino escorreu pelas suas bochechas. — Que triste... — soluçou. — Deve ser horrível viver uma vida imortal tão vazio assim — Sakura voltou a se sentar, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Eu tinha um coração, mas você fez questão de arrancá-lo de mim.
A quietude brotou ali. Sasuke foi embora sem se despedir.
Rosas negras enraizaram na porta, talvez como um pedido de desculpas onde Sakura não foi capaz de perceber.
— Por um momento de alucinação, eu vi um coração em você um dia...
Sakura notou que havia uma janela no interior do cômodo, ficou surpresa ao perceber que nada a impedia de abri-la.
"A morte sempre foi inevitável, mas o sofrimento é opcional. Ninguém precisa de platéia para morrer." Pensou ao olhar para baixo.
Certamente essa não seja a maneira mais digna de morrer – embora surte como uma opção para fugir, mas a essa altura, ela não desejava ser honrada, apenas liberta.
Tudo que amava foi arrancado de si; seu coração foi estilhaçado em mil pedaços, onde já havia sido puro, porém, agora consumido pela escuridão que o explodiu.
Uma mera explosão de angustia, dor, sofrimento e desejo.
A silhueta frágil – humana, de Sakura estava caindo e logo se ruiria sobre o chão, banhando-o com seu sangue escarlate – consumindo sua dor.
Os fios róseos chicoteavam o rosto da garota freneticamente, fechando os olhos ela entrega-se à morte.
Optou por cair de costas, assim, teria uma ultima oportunidade de observar a vastidão do céu e imaginar a proporção de pessoas que ele já assistiu partir assim.
Sua silhueta sofre uma arranco brusco, ingenuamente ela acreditou ser a morte. O calor preenche seu corpo como um déjà vu e o chão é triturado com o pouso do demônio, arremessando pedaço de concreto para todos os lados com o impacto.
Sakura entreabre os olhos, deparando-se com o ondular dos fios negros seguindo minuciosamente o ritmo do vento, as íris escarlates tão vivas que em seu interior era capaz de se notar o flamejar, a pigmentação da epiderme um tanto acinzentada e as garras pontiagudas a espremiam com tanta força que a fez prender o ar momentaneamente mais uma vez. Ela jamais havia reparado o quão longo era o sobreveste de Sasuke, onde ali, circundava-os como um globo.
O demônio vibra, e então a garota nota que são asas negras que os envolviam, de diâmetro colossal, tão negras como a escuridão e belas quanto a lua. Era incalculável definir o quão imensas eram. A respiração da garota estava ofegante e as batidas de seu coração estavam incontáveis.
O vento tirita por seu rosto, sacolejando a cabeleira rósea repetidamente, o aspecto físico das asas negras torna-se sombras até enfim desaparecerem.
— Não ouso perdê-la nem mesmo para a morte.
Talvez, nas profundezas amordaçadas, no interior de Lord Sasuke bate um coração.
