Aviso Legal: Saint Seiya não me pertence, e sim à Toei, Shueisha, Bandai e todo esse povo que não sabe direito o que fazer com eles. Nhé.

Disclaimer: Essa fic é continuação direta do Epílogo de Faro Fino, portanto também ambientada no universo Sui Generis/Sideways (e não vai conter yaoi/shounen-ai). Nela existem vários spoilers de Faro Fino e dos capítulo de Sideways - por isso, antes de começar aqui e se você não tiver lido Faro Fino ou esses capítulos de Sideways... Cola lá e dá uma lidinha, nunca te pedi nada, vai.

O título da música vem emprestado de 'Todo amor que houver nessa vida' (Cazuza, 1988)


VII


"Todo amor que houver nessa vida"


"No que diabos você estava pensando?"

Uma parte de Milo queria pegar as duas palavras que tinha acabado de dizer e enfiá-las de volta na sua boca - o que a outra parte, sua mente racional que deveria se sobressair ante ao resto, sabia ser impossível. Então ele deveria se levantar, dizer que não era bem isso que ele queria dizer, que tudo aquilo era uma péssima ideia desde o começo porque ele não queria se machucar mais do que já tinha se machucado, e…

Ele seguia em silêncio, ele não se mexia, sequer levantava os olhos para encará-la.

Sentiu o colchão afundando pelo peso dela ao seu lado, seu coração queria pular para fora do peito.

- O que você quer dizer com isso? - Ela perguntou, e a mão dela estava tão perto da sua. - O que… você quer que eu faça?

- ...Eu não sei. - Murmurou. - Eu não sei o que você faria diferente, eu…

Os dedos dela roçaram seu queixo, ela tinha aproximado e abaixado o rosto para que pudesse encará-lo.

- O que foi?

- Eu… gosto dos seus olhos… - Ela respondeu, parecendo um pouco envergonhada. - ...quando eles estão assim.

- Assim, como?

- Quando você não faz aquela cara de soldado modelo do Santuário, sabe? Não que eu ache que você fique feio quando encarna o corregedor das tropas, é que…

Ele já tinha ouvido isso de outras pessoas. Camus, Aiolia, Aldebaran… Pessoas que o conheciam bem, que conviviam com ele quase que diariamente. E se por um lado o comentário pudesse ser um tantinho inoportuno, por outro… Era bom saber que ela prestava atenção nele a ponto de perceber isso.

Sentiu as bochechas arderem e um sorriso nascer nos cantos de sua boca, que ela percebeu e a fez sorrir de volta.

Um sorriso que se desfez quando os olhos dela foram até a sua aliança no criado-mudo.

- Eu tirei - Disse baixinho enquanto via o anel de brilhante no dedo dela. - Vou colocar de novo, mas… Eu precisava ficar um pouco sem.

- Por quê?

Baixou os olhos, pensando no que responderia.

Ela disse que já tinha visto através dele, e era verdade. Ele também viu através dela pelas frestas que por vezes ela deixava. Não foi intencional, aconteceu - uma festa, um porre, uma sessão de cinema onde aqueles olhos de gata triste partiram seu coração, um investigador maluco…

Uma noite onde eles se deixaram seduzir pelos papéis que representavam.

- Eu não sou o Seiya. - Replicou, meneando a cabeça. - Eu te disse isso aquele dia.

- Eu sei disso. Eu sabia disso ontem, eu sempre soube disso. Era por isso que eu tinha tanto medo de…

Ela se interrompeu.

- De quê?

- De enterrar essa história toda. - Ela meneou a cabeça, os olhos fixos na parede. - Encarar o que você me faz sentir é jogar uma pá de cal numa ilusão que era… confortável. Era isso que me dava tanto medo. Porque você existe de verdade.

- O Seiya também existe.

- Não. - A cabeça dela acompanhou a negativa. - A Geist tem razão. Ela sempre teve…

Ela ficou em silêncio, ele também.

Aquilo era diferente. Conversar, realmente se mostrar para uma pessoa que queira te ver, sem a torrente de emoções e o drama no meio do caminho.

Shina tinha medo, porque sair do círculo vicioso de amar uma pessoa impossível implicava em tirar suas máscaras de verdade. Ele entendia isso, agora. E entendia porque ela tinha medo - porque ele também tinha.

E se ela não gostasse do que ela visse? E se ela se decepcionasse com ele? E se ele não fosse o suficiente para ela? Foi por isso que ele nunca tinha, até então, realmente tentado se aproximar dela.

Ele queria que ela fizesse diferente, e ela estava fazendo. Ele tinha que fazer também. Nada mais justo, não?

- Olhar pra a aliança... doía. - Percebeu-se falando sem pensar, respondendo de forma objetiva a pergunta que ela tinha feito antes. - Ainda mais depois de saber que eu… eu te tive. Eu posso não lembrar, mas eu tive. E eu queria, sabe? Em… uma situação onde realmente pudesse dar certo depois entre a gente, eu quero dizer.

Engoliu em seco, sentindo o peito apertado.

A mão dela foi até o criado-mudo, pegando a aliança dourada com os dedos longos e finos. Ela então a examinou, como se tentasse perceber na joia algum detalhe que tivesse deixado escapar. Mas aquela era uma aliança simples, sem adornos, o único detalhe distinguível era a gravação do nome da joalheria na sua parte interna.

Os olhos dela então se pousaram em sua mão esquerda.

- Eu queria que… - A voz dela, baixa e calma, cortou o momento de silêncio. -...pudesse dar certo. Além do teatro da missão e tudo…

Seus dedos tocaram de leve a mão esquerda dela, que então segurou a sua enquanto ela tinha a aliança na outra mão. O rosto dela lhe perguntava se ela podia, ele assentiu e ela então colocou a aliança de volta em seu dedo anelar.

- ...Você até "pôs um anel nisso". - Milo deixou escapar um sorriso.

- Como assim?

- "Put a ring on it". - Ele respondeu, lembrando-a da expressão idiomática dos americanos que significava mais até do que seu sentido literal. Também expressava promessa. Compromisso.

- A situação toda é meio surreal, vamos e venhamos. - Ela soltou um riso anasalado.

- Ô se é. - Ele riu também, os dedos deles entrelaçados. - A gente começou brigando na Lua-de-mel, mais de um mês depois é que foi ter a noite de núpcias...

Ela riu um pouco mais, mas logo parou. Os olhos verdes risonhos e mornos, fixos nos seus. Subiu os dedos pelo braço dela, sentindo seu próprio rosto quente. Ela aproximou o corpo até que sua testa tocasse a dele.

- ...Que foi antes de eu beijar a noiva…

Foi interrompido pelo contato dos lábios dela nos seus, suave e gentil como se lhe pedisse permissão para continuar.

Devolveu o beijo, sua mão indo do braço dela até o pescoço, ela sorriu.

O peso dela o empurrou de costas no colchão e ele pensou em algum comentário engraçadinho sobre como ela gostava de encurralá-lo assim, se era algum fetiche de dominância ou algo do tipo, mas dessa vez ela abriu os lábios de leve para mordiscar os seus. Puxou-a para si, uma de suas mãos em suas costas e a outra a segurando pela nuca, enquanto abria os lábios para que ela o imitasse.

Ele sabia que ela beijava bem. Ele sabia que ontem, na noite da qual eles não lembravam - talvez não lembrariam nunca - um beijo assim deve ter acontecido. Mas senti-la em cima dele, a mão dela descendo pela sua cintura, a língua dela acariciando a sua, todos os seus sentidos alertas…

Não sabia se ontem tinha sido assim - esse calor desordenado pelo seu corpo misturado ao frio na barriga de saber que era ela quem estava ao alcance de seus dedos.

A coxa dela roçou entre suas pernas. Uma vez, sem querer talvez. Duas. Três…

- Você tem certeza…? - Sussurrou entre um beijo e outro.

- Eu quero lembrar - Ela disse em seu ouvido. - Eu quero lembrar de você, dos seus olhinhos azuis olhando pra mim desse jeito…

- ...Meus olhinhos? - Milo riu, piscando os olhos docemente. - Tem outras coisas mais interessantes pra você lembrar, sabe…

Imediatamente se arrependeu porque ela não tinha dado nenhum indicativo de que queria entrar por esse clima. Mas não conseguia evitar de pensar nela como pensou naquela festa, ouvindo e dizendo coisas que uma dama não diria. Só isso fazia sua boca se molhar de vontade, de desejo, do que quer que fosse aquilo.

- Tipo o quê? - O sussurro quente dela em seu ouvido fez sua pele se arrepiar.

"Você não tem ideia", ele teve vontade de dizer. Não disse porque o que saiu de sua garganta foi um suspiro trêmulo quando sentiu os lábios dela se fecharem no lóbulo da sua orelha.

Desceu as mãos pelas suas costas, buscou a barra da camiseta para tocá-la diretamente na pele. As mãos dela passeavam por baixo de sua roupa e os quadris se roçavam, os beijos que trocavam já sôfregos, língua, dentes e saliva. Girou o corpo para tê-la por baixo quando ela se desfez da blusa, os puxões dela para que ele tirasse a dele ficaram mais insistentes. Levantou os braços e jogou-a longe, para voltar a se afogar no pescoço dela, no cheiro que agora estava entranhado no quarto inteiro.

Ela e ele.

Desceu a boca para beijá-la nas clavículas, no colo, nos mamilos. Desceu mais porque ele sabia o que queria, ele queria se afogar nela - era nisso que pensava quando seus dedos se enroscavam no elástico do shorts de moletom e na calcinha que ele tirava sem nem querer ver, porque eles eram obstáculos para onde seus dedos realmente queriam estar. Desceu-os abaixo dos pelos pubianos para achar o que procurava - sim, claro que ele sabia o que era um clitóris, afinal de contas é o que se espera de qualquer homem que se gabe de ter alguma experiência sexual com uma mulher - e sentiu-a arquear as costas, deixando escapar um gemido rouco que ele queria que ficasse gravado na sua memória para sempre.

Isso, e o calor úmido nos seus dedos, desejo líquido fluindo de dentro dela.

Separou suas pernas com sua cabeça, os dedos dentro dela indo e voltando enquanto a lambia e sugava como sabia que ela iria gostar. Ele queria que ela gostasse. Ele queria que nada, nada ocupasse a cabeça dela além dele. Não saberia dizer o que viria depois, mas aquele momento era dele. Só dele.

Pensar nisso o deixava louco. Mais do que qualquer outra coisa. Mais do que ter seus dedos dentro dela, mais do que sentir o gosto dela na ponta de sua língua, e isso tudo era tão bom, tão bom.

Ela começou a se contrair contra seus dedos, espasmos rítmicos seguidos do seu nome - seu nome - sussurrado como se fosse a coisa mais sensual do mundo. "Eu vou estar nela", ele pensou enquanto subia para beijá-la na boca, ele inteiro embebido no cheiro dela, no gosto dela. "Eu vou estar nela, dentro dela, entrando e saindo, e ela vai pensar em mim."

E vai gostar.

Já estava livre das calças, camisinha a postos, e logo ficou por cima, as pernas dela fechadas em torno de seus quadris. "Vem", ela dizia enquanto ele se ajeitava, seus dedos ainda a sentiam molhada, ela movia os quadris pedindo com corpo e voz.

Vem.

Ele foi. Uma vez. Duas. Três. Ela o acompanhava, ávida, entregue. Um gemido rouco escapou pela sua garganta, ele afundou o rosto no vão do pescoço dela. Entrou com um pouco mais de força e ela respondeu com as unhas nas suas costas e um puxão nos seus cabelos. Puxou-a para um beijo, descendo para o pescoço dela com lábios, língua e dentes porque sim, ele queria marcá-la. A cada chupada as unhas dela pressionavam a pele das suas costas.

- Não me provoca - Ela sussurrou, o rosto ofegante com um meio sorriso safado. - Eu não sou tuas menininhas…

- Então me mostra… - Mal reconheceu a própria voz pesada de desejo, cedendo quando ela fez menção de que queria virá-lo de costas e ficar por cima.

Ela o puxou para que ele ficasse sentado, ela montada em seu colo enquanto se movia em torno dele. Um dos braços dela se seguravam em suas costas em busca de apoio, o outro segurava sua nuca e puxava seus cabelos enquanto ela mordiscava sua boca. Usou os seus para segurá-la pelos quadris e intensificar o movimento e aumentar o contato dele com a púbis dela, ela correspondendo enquanto se contraía para estimulá-lo também.

- Olha pra mim… - Ela gemeu quando ele fechou os olhos porque ele estava perto, bem perto, e ela também. - ...Mete com força olhando pra mim…

Obedeceu, deixando de segurar os gemidos afogados com o nome dela, o prazer em ondas pelo seu corpo enquanto via os olhos dela semicerrados, pupilas enormes e cravadas nele, nele, só nele enquanto ela já também não segurava os gemidos e se contraía involuntariamente em torno dele, seus braços tremendo junto com o resto de seu corpo.

Ela ofegava, suada, cansada pelo gozo mas ainda se movendo enquanto ele terminava também, derramando-se dentro dela, chamando por ela sem fechar os olhos.

Porque ela o queria ver.

Ela derreou a sua testa na dele, exausta e satisfeita. Eles tinham acabado; mas o calor que brotava de seus poros, o suor se misturando junto com os cheiros e os gostos de cada um, não.

Isso persistia, ou pelo menos ele queria que fosse assim.

Ele queria que ela continuasse olhando para ele.

- Milo… - A voz dela veio abafada no vão do seu pescoço.

- Fala…

- ...Você ainda tem camisinha na sua mala, não tem?...

- ...Tenho…

- ...Então a gente ainda não acabou.

Heh.

OOO

Eles já tinham feito isso antes, mesmo que não se lembrassem.

Não que ela tivesse muitas dúvidas, mas… Agora ela repetia para si mesma que aquela não era a primeira vez deles, que aquilo já tinha acontecido, pois ela não conseguia acreditar.

Milo ainda dormia atrás de si, a respiração dele roçando de leve em sua orelha, os braços e pernas dele e dela entrelaçados embaixo das cobertas naquela cama que era quase que tão estreita quanto uma cama de solteiro. Bem que ela tinha dormido também, precisaria dormir até mais porque pelos deuses, ela não conseguia entender como é que tinha sido capaz de se esquecer disso mesmo com todo o champanhe que os dois beberam.

E, mais importante ainda, das entrelinhas daquele reprise da sua 'noite de núpcias'.

A razão pela qual seus olhos se abriram e ela agora não conseguia mais dormir.

Ainda dormindo, ele a trouxe para mais perto, seus pés estavam gelados. Os dela também estavam, mas ela ainda assim usou-os para tentar enroscar-se mais nos pés dele e aquecê-los junto com os seus.

O ar-condicionado daquela pequena cabine, vindo direto da central e sem um termostato igual ao da cabine originalmente deles, deixava duas opções de temperatura: frio intenso e desligado - o que significava 'forno' naquele clima, logo estava fora de cogitação. Mas mesmo o frio, a cama estreita, o quarto pequeno e o banheiro minúsculo eram capazes de diminuir nela a sensação de que ali, apertada entre a parede e os braços dele, ela jamais esteve tão confortável em toda a sua vida.

Não era só atração física. Não era só tensão sexual desembocando em uma transa fantástica. Havia mais, muito mais, e era esse mais que fazia seu peito arder num paradoxo entre a vontade de se aninhar nos braços em volta de si e a sensação de que estava completamente desprotegida ao embrenhar-se em um território desconhecido e perigoso.

O medo de sair da sua zona de conforto e realmente se envolver, a vontade de que ele a olhasse sempre com os olhos brilhantes e desarmados, as pupilas dilatadas de desejo e um toque de doçura por ser ela ali com ele, e não outra.

Virou-se de frente com cuidado para não acordá-lo, pegou uma mecha do cabelo dele entre os seus dedos. Um loiro quase castanho claro, com ondas formando cachos largos nas pontas que ele teimava em desfazer penteando-os depois de secos. A franja, desarrumada pela sua tendência a ondular como o resto do cabelo, caía por cima dos olhos e do dorso do nariz levemente arrebitado.

Ela entendia porque ele escondia o rosto atrás da expressão dura de Cavaleiro de Ouro - pelo mesmo motivo que ela se sentia confortável atrás da máscara.

Os olhos azuis, junto com o nariz arrebitado e os cabelos anelados, não davam a ele a perfeição de Afrodite de Peixes ou Misty de Lagarto, nem a beleza imponente dos gêmeos de Gêmeos. A beleza de Milo, em vez de lhe conferir impacto e respeito, fazia-o parecer mais novo do que ele realmente era. Mais vulnerável também.

"Cara de menino", ela pensou, deixando um sorriso em seus lábios.

Seus dedos roçaram no anel no dedo dele.

"Eu escolho você", era ao que toda uma cerimônia de casamento podia ser resumida. Duas pessoas que escolhem uma à outra porque se amam a ponto de partilhar uma vida. Isso não dependia de arranjo social ou religião, porque acima de tudo era isso: Uma escolha.

Quanto tempo levaria para que Milo se arrependesse de tê-la escolhido? Quanto tempo, até ele ver que ela não era isso tudo que ele achava que ela era?

Remexeu-se na cama, suspirando e pensando em não pensar nisso, ele abriu os olhos e deu um sorriso sonolento.

- O que foi…? - Ela disse, sentindo aquela sensação paradoxal aumentar até que seu peito ficasse apertado.

Ele se aproximou mais dela, afundando o nariz nos seus cabelos e trançando ainda mais suas pernas nas dela. Alguém começou a bater na porta, Milo não fez menção de parar.

As batidas continuavam, mais fortes e mais insistentes.

- Não deve ser serviço de quarto… - Shina disse, fazendo com que ele parasse. Ele virou-se de barriga para cima, suspirando enquanto afundava a cabeça no travesseiro para então levantar atrás de sua cueca e depois ir até a porta, onde as batidas continuavam.

Quando Milo abriu a porta apenas o suficiente para colocar a cabeça para fora, conseguiu ouvir a voz impaciente do Agente Stan.

- Finalmente, moleque. - O americano bufou. - Bota uma roupa, a gente vai ter que sair atrás da Shina.

- Por quê?

- Está escurecendo, e ela sumiu tem um bom tempo, já. O Jack não tá conseguindo achar ela em lugar nenhum.

Shina se encolheu, o aperto em seu peito muito maior agora.

Sabia que MIlo fecharia a porta para colocar uma roupa e despistar os agentes até que ela voltasse para sua cabine e entendia que isso era o mais prudente a se fazer, não envolver ninguém no que havia entre eles. E ela não deveria sentir-se mal por isso, muito menos recriminar Milo por ser discreto em relação a eles e…

- Tá tudo bem, Stan. Fala pro Jack que não precisa procurar a Shina, não.

- Sério, mon amour? Então você sabe onde seu benzinho está?

- Claro que eu sei. Ela tá aqui comigo.

O silêncio de Stan era um bom indicativo do quão surpreso ele estava em ouvir aquilo da boca de Milo. Mas por mais surpreso que estivesse o agente, com certeza não era tanto quanto ela.

- Então… - Milo fez menção de fechar a porta. - Agora que está tudo esclarecido, você pode nos dar licença?

Ele deve ter dado, porque logo depois Milo fechou a porta e voltou para a cama.

- Esse ar condicionado devia ser ilegal. - Ele entrou debaixo das cobertas. - Isso deve estar pior que a casa do Camus, credo.

Shina sorriu, mas sabia que aquele sorriso pálido não ia fazer muito para esconder sua apreensão.

- ...O que foi?

- Você disse pro Stan que eu tava aqui… - Ela falou, virada de frente para ele, de lado na cama.

- ...Você não queria que eu dissesse?

- Não, não é isso, é que… - Ela hesitou. - ...Eu achei que você é quem não ia querer dizer, sabe.

Milo suspirou, ainda a encarando.

- Eu te disse naquele dia, no meu quarto, que eu não brinco com isso. Lembra? - Ele disse, num tom um tanto tímido, depois de uns momentos de silêncio. Ela assentiu, e ele continuou. - E eu não brinco. Se eu não quisesse que ninguém soubesse, você saberia. Antes até de… acontecer. E depois do que a gente conversou antes, eu achei que… - Ele se interrompeu, baixando os olhos. - Bom, se você não quiser que eu fale pra mais ninguém, eu…

- Eu quero que você fale. - Ela aproximou o rosto do dele. - Pra quem você quiser.

Milo aproximou o corpo, passando o braço pela sua cintura, e ela esticou o rosto para lhe dar um beijo. Recuou, rindo, ao sentir os pés gelados dele encostando nos seus.

- Ei, não, volta aqui - Ele riu também e a puxou para si. - Faz parte do contrato você esquentar os meus pezinhos.

- A gente devia era voltar pra nossa cabine e sair dessa geladeira, isso sim…

- ...Sabe que eu prefiro aqui? Apesar do frio e tudo…

- Mas você não é parâmetro, você é acostumado com a casa do francês…

- Você tá sendo injusta na comparação. - Ele sorriu, apertando-a contra seu peito. - Aqui eu tenho um aquecedor muito melhor do que o cobertor mulambento que ele tem no sofá dele.

- Mas seu aquecedor especial - Shina ladeou um sorriso, apontando para si mesma. - vai estar lá também. Fora que esse quarto é frio, a cama é apertada, o banheiro é pequeno…

- O que eu posso fazer? Eu gosto daqui. Me aconteceu uma coisa muito boa aqui. Eu sou um idiota sentimental…

Shina respirou fundo.

- Então, sabe o que é… - Achegou-se no peito dele, a voz macia e sugestiva. - Eu queria naquela cama, depois na hidromassagem do banheiro…

- Oh. - Milo deslizou a mão de sua cintura até o seu quadril. - Nesse caso…

- ...Mas você ainda tá gelado… - Ela disse, sorrindo falsa inocência. - Se eu prometer que te esquento direitinho aqui, a gente vai depois, né?...

- Benzinho…

Shina não ia mentir: ouvir ele dizer benzinho com esse tom de advertência enquanto ela descia os dedos pela sua barriga era algo que a deixava louca.

Agarrou-o com vontade, ele já semi-ereto em suas mãos, e foi recompensada com um gemido luxurioso.

- ...O japonês de pau pequeno nunca ia dar conta de apagar teu fogo… - Ele suspirou sorrindo, os olhos já nublados enquanto a mão dela ia e voltava. - …Meu benzinho.

- Que maldoso… - Ela mordiscou-lhe a orelha, rindo. - ...Só que pode ser que você tenha razão... - Mordiscou-lhe o pescoço. - Então você pode se preparar, porque essa agora é uma tarefa exclusivamente sua...

Virou-o de barriga para cima e colocou seu corpo por cima dele quando achou que ele já estava duro o suficiente, apoiando-se em seus joelhos e braços enquanto começava a descer com beijos pelo seu peito, depois por seu torso e abdome. Agarrou-o novamente, sentindo ele contrair a pelve e arquear as costas quando percebeu o que ela ia fazer, e afastou as cobertas para que ele a pudesse ver.

- ...Mas eu trato bem quem me trata bem, mon amour.

OOO

- E eis que no final da missão, esses dois resolvem se acertar… - Jack suspirou. - Parece até que fazem de propósito pra irritar a gente, benza deus.

- Pelo tempo que a cobrinha ficou sumida, eles se acertaram bastante. - Stan respondeu. - Mas não pense que eles vão passar assim, lisos, não.

Levantou-se e foi até a mesa do quarto para pegar o telefone satélite.

- Stan - Jack arregalou os olhos. - O que você vai fazer?

- O que qualquer pessoa decente no meu lugar faria, ué. - O outro agente deu de ombros. - Vou avisar uns amigos preocupados que o Santuário tem um casal de novo…

- Agente Stanley Martin Lieber(1) - Jack levantou-se da cadeira, apreensivo. - Não ouse me fazer uma sacanagem dessas.

- Mas ora... Vai me dizer que você realmente encarnou o papel de fada madrinha do casal de pombinhos.- O outro devolveu, sorrindo enquanto já discava um número e esperava na linha. - Eu te conheci mais durão do que isso, Agente Jacob Kurtzberg(1).

OOO

- Bom, amiguinhos, então é isso. - Kanon se dirigia até a porta da cela, chave em mãos. - Já que o Camus aqui finalmente viu a luz graças ao argumento tão eloquente do Agente Stan, eu acho que não tem mais porque eu manter vocês aqui nessa cela aporrinhando minha preciosa paciência. Já está tarde e eu realmente tenho mais o que fazer…

- Kanon - Mu, ao contrário do mais velho, parecia preocupado. - Eu não sei se é boa ideia soltar eles agora, vai que…

Mu, por sua vez, foi interrompido pelo toque insistente do telefone sem fio.

- Alô? - Kanon atendeu a contragosto.

- Kanon?

- ...Agente Stan?

- Eu mesmo. Ainda está com os conspiradores aí?

- Estou, mas…

- Ótimo. Pode avisar o ruivinho comunista que ele não precisa mais se preocupar com o amigão dele, nem vir bater aqui porque isso pode atrapalhar o Milo na suas -heh- novas atividades...

- Ah?...

- É que -heh- o Santuário tem um casalzinho novo, então se o time de resgate aí aparecer aqui, vai cortar o clima. Que deve estar bem bom, porque os dois bonitinhos estão há horas dentro da cabine sem dar sinal de vida…

- Kanon, aconteceu alguma coisa? - Aiolia se alarmou com a cara que fazia o marina.

- Uma subversão da ordem natural do universo… - O mais velho tampou o microfone do telefone sem fio para falar com eles.

- Como assim? - Camus perguntou, apreensivo.

- ...O Stan tá aqui dizendo que o Milo e a Shina estão… juntos?

- Meu deus, quanto drama… - O agente Stan riu. - Então que você pode soltar os amigos do moleque, mas avise pra eles não se largarem até aqui. Pode atrapalhar o casal. E bem que eles merecem aproveitar o restinho da lua-de-mel, não?

- Não, ó, isso não é possível. - Aiolia sacudia a cabeça. - Kanon, passa o telefone pra cá, ou então coloca no viva-voz que a gente quer esclarecer essa história de uma vez por todas…

- Agente Stan… - Kanon apertou o botão do viva-voz. - Explica a história direitinho, desde o começo. Com riqueza de detalhes…

- Well… Se é isso que vocês querem pra deixar os pombinhos em paz, vamos lá, então…

OOO

- Muito bem, meninos, entre trancos e barrancos terminamos essa missão...

Lá estavam eles de volta no mesmo salão do restaurante de esquina no centro de Atenas. A missão tinha acabado, eles voltaram para Atenas e agora estavam ali para finalizar as partes burocráticas e devolverem os itens usados na viagem.

Os agentes Stan e Jack, sentados na mesa diante deles, olhavam-nos com uma certa malícia nos olhos que o incomodava.

Shina olhou para ele de soslaio, também estava percebendo os olhares dos dois.

- ...Tudo correu bem, vocês aproveitaram bastante…

- Stan, pelo amor de deus, chega de indiscrições. - O Agente Jack interrompeu o colega. - Conferiram o valor nos cheques nominais de vocês?

- Sim, está tudo certo. Deixamos também as malas com os pica-fumos de vocês. - Milo esticou as costas na cadeira. - Eles já devem estar conferindo, mas está tudo lá.

- Sim, eles conferiram, tudo bate. - Jack meneou a cabeça. - Aliás, tem que dar os parabéns, porque geralmente não é o que acontece. Sempre tem briga pra ficar com isso e aquilo…

- Nós somos profissionais. - Shina respondeu, com um sorrisinho no rosto. - E como bons profissionais que somos, só falta entregar uma coisa para vocês.

Ele e ela colocaram ao mesmo tempo as caixinhas da Tiffany com as alianças dentro.

- Ah, não. - Stan riu. - Garotos, com isso vocês podem ficar!

- Como é? - Shina arregalou os olhos. - Não! É um anel de brilhante, eu não posso-

- Não podemos aceitar, um anel dessa joalheria é uma despesa para a CIA e-

- Meninos, meninos… - O Agente Jack os cortou. - Fiquem tranquilos, a CIA tem como conseguir muita coisa sem, bem… pagar. Nós já pedimos para nossos superiores que os anéis sejam um bônus no pagamento de vocês, e eles toparam.

- Mas são alianças… - Milo tentou argumentar. - Você quer que a gente as venda pra…

- Eu não disse isso… - Stan piscou, maroto. - Eu, vocês, ficaria com elas… Porque se minha intuição não falha, vocês vão precisar.

Milo sentiu o rosto arder, apertou os lábios para disfarçar o incômodo. Shina também baixou a cabeça, visivelmente desconfortável.

- Bom, então é isso, Milo de Escorpião e Shina de Cobra. - O Agente Jack se levantou para apertar-lhes a mão, gesto imitado pelo Agente Stan. - Foi um prazer trabalhar com vocês.

- Igualmente… - Milo aceitou o cumprimento e, junto com Shina, levantou-se para deixar o salão.

Já na rua, cada qual com sua mala de mão, eles andaram calçada abaixo à procura de um ponto de táxi.

- Então… - Shina disse, ambos lado a lado esperando algum carro aparecer no ponto. - O que vai ser, quando a gente chegar no Santuário?

- Eu tava pensando em pegar uns três dias de folga que eu ainda tenho…

- Ah… - Shina parecia reticente.

- ...O que foi?

- Eu já usei todas as minhas folgas, mas se você quiser usar as suas, sair pra dar uma viajada, eu…

- Eu não disse que eu ia viajar… - Milo pegou sua mão, entrelaçando os dedos nos dela e a puxando para um abraço - ...Você vai me achar muito inconveniente se eu te pedir passar esses dias na minha casa, benzinho?

- Pelo contrário. - Ela disse, segurando um risinho contente. - Inclusive eu prometo que vou cuidar muito bem de mon amour.

Shina descansou a cabeça no seu ombro, um pequeno sorriso no rosto corado enquanto ambos viam um táxi chegar no ponto.

OOO

Santuário de Atena, dois dias depois…

- Sério que a gente vai ainda ter que preencher papelada por conta dos dois babacas quereno foder com a missão do Milo?

Kanon resmungava enquanto escoltava, junto com Mu, o Cavaleiro de Leão escadarias acima. Diante deles, a entrada do Oitavo Templo, com as inscrições em grego antigo que diziam 'Casa do Escorpião Celeste'.

- Pelo menos aqui a gente pode pegar um atalho e perder menos tempo. - O lemuriano retorquiu. - Porque a gente ainda tem que parar em Aquário e arrastar o Camus junto, vocês sabem como aquele lá é liso.

- Negativo - Aiolia, por sua vez, rolou os olhos. - O bicho até pode estar de folga, mas tudo indica que ele está em casa.

- Mas gente - Kanon amaciou a voz. - Quem disse que é pro bicho que a gente pede permissão agora?

- Kanon, pelos deuses, não começa.

- Tch - O mais velho chasqueou a língua. - Bem se vê que o carneirinho não entende nada da vida…

Enquanto o lemuriano continuava se lamentando, Kanon dirigiu-se até a entrada do templo.

- Shiiiiiiina! - A voz grave do General Marina e Segundo Cavaleiro de Gêmeos era impossível de se ignorar. - Shinaaaaaaaaaa!

Aiolia deixou escapar um risinho, Mu derreou a cabeça num sinal de exasperação.

- Shinaaaaaa, a gente sabe que você está aí-í… - Kanon cantarolou. - Responde, por favo-oooorrrrr…

- O que é? - A voz inconfundível da amazona de Cobra veio da área privativa da Oitava Casa.

- Por favor - Aiolia resolveu entrar no jogo de Kanon, sob o olhar reprovador de Mu. - Você nos poderia conceder a permissão para atravessar o templo que a ti pertence?

Alguns momentos de silêncio se passaram, enquanto Aiolia e Kanon seguiam com um sorriso malandro no rosto.

- Gloriosa Amazona de Ofiúco, você poderia-

- Vão cagar! - A voz de Shina cortou o meloso pedido de Kanon.

- Mas o que é isso, que falta de civilidade! - Kanon levou as mãos ao peito, falsamente dramático. - Se eu estou sendo cortês e pedindo a permissão da pessoa que atualmente é a responsável pela casa de Escorpião, eu sou tratado assim?

- Vai pro inferno, seu palhaço! - Foi a eloquente resposta que ecoou dos quartos privativos, na voz de Shina. - Passem logo daqui antes que eu expulse vocês na base da porrada!

- Ô Shinaaaaaa - Aiolia levantou a voz. - Não pense que isso que você tá fazendo com o Bicho vai ficar assim! A gente ainda vai te denunciar pra polícia ambiental! Maus tratos aos animais, você transformar um pobre artrópode no seu escravo sexual!

- Um absurdo, Shina! O coitado tá até magrinho! - Kanon riu. - Mon amour, tenha fé, nós vamos te salvar! Aguente só mais um pouco, use sua resistência de cavaleiro de ouro!

- Eita - Aiolia deu um tapinha nas costas de Kanon para guiá-lo templo afora, sentindo a inequívoca perturbação no cosmo que prenunciava uma Garra de Trovão.

- Seus miseráveis…

- Nós tamos saindo, nós tamos saindo, nós tamos saindo! - Aiolia e Kanon já iam porta afora, deixando para Mu a tarefa de tourear a Cobra que chegava bufando no hall de entrada. - Eu não falei nada, só tô escoltando esses babacas até a sala do Shion!

- SUMAM DA MINHA FRENTE! - Shina berrou, enquanto Mu corria para alcançar os outros dois

OOO

- Pelos Deuses do Sagrado Olimpo, já é a quinta vez só nesses dois dias!

- Você ainda não viu nada. - Milo riu, dando de ombros. - Isso vai durar meses.

- ...Como você sabe? - Shina arregalou os olhos.

- Foi o que aconteceu com o Aiolia. - Milo replicou candidamente. - Você deve se lembrar.

- Ai, ai. - Shina balançou a cabeça, exasperada. - Vocês Cavaleiros de Ouro são uns idiotas…

- ...Não vou dizer que você está errada. - Ele esticou o braço para puxá-la para si, vencendo a resistência inicial para então entrelaçar os dedos na curva das costas dela. - ...Me desculpa por te colocar pra aguentar esses imbecis?

- Hunf. - Ela fez um biquinho emburrado. - Eu não devia, sabia...

- ...Eu prometo que arrumo um jeito bem legal de te compensar... - Ele baixou os olhos, fazendo carinha de falsa inocência. - ...Benzinho.

- Nesse caso… - Shina finalmente desfez o bico para dar um meio sorriso. - Era melhor a gente começar logo, não?

- Mas já? - Ele perguntou. - Você sabe que daqui a pouco esses mal-nascidos tão descendo, né?

- A intenção é justamente essa... - Ela passou os braços sobre seus ombros, um sorriso safado brincando em seus lábios. - ...mon amour.

Deixou o sorriso safado dela se espelhar em seus lábios, imaginando a cara dos três quando descessem e percebessem.

A ideia era fantástica.

˜FIM˜


(1) - Como não tivemos Deadpool, dessa vez tivemos a participação especial de mais um ilustre "personagem" do Universo Marvel!... Dois, na realidade, e que não são exatamente personagens.

Jacob Kurtzberg é ninguém menos do que o Mestre Jack Kirby, que junto com seu parceiro Stanley Martin Lieber roteirizou, desenhou e arte-finalizou a era de ouro da Marvel Comics - e deu-lhes tamanha identidade visual que é, junto com Stanley Martin Lieber, o 'pai' de quase todos os personagens criados durante a ascensão da editora de quadrinhos que virou todo um Universo especial.

E seu companheiro, Stanley Martin Lieber… Stan Lee dispensa apresentações.


Mas... acabou?

Ainda não. A pedidos, vocês ganham um epílogo que na verdade não é bem um epílogo, é... Uma memória perdida para sempre.