Um Fantástico Recomeço - parte 8
Layla acordou um bom tempo depois. Sua perna nunca doera tanto, mas ela não disse uma palavra, ao ver que Kalos, Sora e Kate estavam na sala.
- Srta. Layla, que bom que acordou! Ficamos preocupados! – disse Sora.
- Kalos, o que faz aqui? – disse ela ao se recostar na cabeceira, ignorando Sora.
- Nada demais – respondeu ele, em tom irônico – estou só admirando uma louca obcecada.
Layla não disse nada de início. Não esperava uma resposta em tom de ironia, muito menos bem feita, mas se tratando de Kalos, era de se esperar. Após alguns segundos em silêncio, porém, retomou sua expressão de sempre e começou a falar.
- Se veio me dizer o que fazer, acho melhor você des...
- Não, não vim lhe dar outro sermão – Kalos interrompeu – vim aqui EXIGIR que vá com calma nesses seus exercícios.
- São treinos – disse ela, irritada com o que acabara de ouvir.
- Caso contrário – continuou Kalos em um tom mais frio, ignorando-a – cancelarei a peça e também o seu contrato.
Layla passou de irritada a assustada. Não podia acreditar no que estava ouvindo. O fitou por alguns segundos, esperando que aquilo fosse uma brincadeira. Kalos nunca a olhara tão sério.
- Não pode fazer isso! – disse ela num susto, desesperada.
- Não só posso como devo fazer isso – disse Kalos, ainda frio no tom de voz. Pegou o celular e começou a digitar um número – se quiser faço isso agora mesmo e...
- Não! T-tudo bem! – disse ela, interrompendo Kalos, que a olhou esperando um complemento àquela frase – eu vou mais devagar com os treinos...
- Muito bem então. Espero que cumpra o que acabou de me dizer, porque eu não pensarei duas vezes se souber que você está exagerando. – disse Kalos, saindo da sala – Ah... Layla?
- Pois não. – disse em um tom mais frio, indignada.
- Faço isso para o seu bem. Ao invés de encarar isso como uma injustiça, tente perceber que todos nós estamos tentando ajudá-la.
- Estou vendo... – disse ela, irônica.
- Há pessoas à sua volta que se preocupam com você mais do que você pensa... – disse Kalos, de costas para Layla, parado na porta. Layla olhou para ele sem entender – Sora, venha cá um instante.
- Huh? – disse Sora, "acordando" e seguindo Kalos – Ah! Certo!
Layla só voltou a falar quando percebeu que Kalos já estava longe.
- Yuri... Ele me paga! – disse ela, com raiva.
- Layla! Não percebe o que está dizendo?! – disse Kate indignada – está cega, surda e sei lá mais o quê! Não entendeu ainda que queremos ajudá-la e...
- Isso não é verdade – interrompeu Layla – a única que me ajudou aqui foi a Sora!
- Layla, foi a lealdade dessa menina a você que fez com que ela a apoiasse, mas não há quem não concorde que está doente por isso! Está louca!
- Estou louca? Por que não me internam em um hospício, então? Seria mais fácil! – disse Layla, em um tom mais forte e mais angustiado.
- Não é assim que funciona, Layla. – disse Kate, tentando se controlar para não descontrolar a amiga – O que você tem que entender é que é impossível se recuperar dessa maneira!
- Impossível? – Layla colocou lentamente os pés para fora da cama e fez um esforço para ficar em pé. Kate foi tentar ajudá-la, mas ela a impediu. Apesar de tremer um pouco, Layla ficou alguns segundos em pé e, ao invés de cair na cama por não suportar mais tempo, sentou-se normalmente na mesma, como se estivesse 100 bem. Kate a olhou impressionada.
- L-Layla...
- Se não fosse pela Sora, eu jamais teria feito este progresso em tão pouco tempo.
- Mas Layla, mesmo assim...
- E se eu tivesse mais apoio – interrompeu Layla – talvez eu não estivesse mais nesse hospital. Já estaria treinando no Kaleido Star.
- Mas está se esforçando demais! Sorte minha que Kalos veio aqui... Caso contrário, assistir às suas quedas e não poder fazer nada me mataria...
- Kate...?
- O quê?
- Eu não irei com calma nos meus treinos – disse Layla calmamente.
Sora conversava com Kalos enquanto o acompanhava até a porta. Kalos estava sério, mas não como o de costume. Depois de algum tempo em silêncio, ele voltou a falar.
- Sora, sei o quanto gosta da Layla, mas sugiro que não a ajude mais. O problema dela só tende a piorar se ela continuar forçando. Nunca pedi a você algo desse tipo, mas dessa vez, Layla foi longe demais.
- Kalos, eu... Não posso dizer isso.
Kalos a olhou, mostrando um décimo de perplexidade. Sora continuou.
- Eu prometi a ela que a ajudaria até o fim, que não a decepcionaria... E também... É sobre a Técnica Fantástica que estamos falando... Aquela em que os parceiros devem confiar plenamente um no outro, sem hesitar, sem ter medo da morte... Se a Srta. Layla quer levar isso até o fim, não importando as conseqüências, então eu também vou levar minha decisão adiante.
Kalos não olhou diretamente para Sora. Apenas empurrou a porta de vidro da entrada do hospital.
- É bom que você saiba, então, que seu nome estará em todas as revistas e jornais da cidade, ao lado do dela, e será a primeira culpada se algo acontecer à Layla.
- Sim, eu sei. Obrigada, Kalos. – disse Sora. Kalos foi embora.
Kate não se conformou com o que Layla acabara de dizer.
- COMO ASSIM, NÃO IRÁ COM CALMA?!?! – disse ela, alto – Por acaso não ouviu o que Kalos disse?!
- Claro que sim – disse com toda a calma do mundo – Mas jamais ficarei sentada nessa cama esperando que minha perna se cure sozinha. Quero voltar o quanto antes ao Kaleido.
- Layla, eu te imploro – começou Kate, desesperada – pare com essa insistência!
- Kate, eu já disse para não se preocupar e...
- Olha, vamos fazer o seguinte então – Kate interrompeu – Eu voltarei a ajudá-la, com fisioterapia e alongamentos, assim não se desgastará tanto... Mas, por favor, não treine demais!
Layla não resistiu ao pedido de Kate. Seria melhor ter ajuda da médica do que acabar não conseguindo realizar a técnica por puro desgaste.
- Tudo bem, Kate, eu vou com calma... Mas não quero qualquer pessoa nos atrapalhando mais. Não quero que dêem notícias minhas de hoje em diante, nem mesmo ao Kalos ou ao Yuri.
- Ok, ok... Amanhã de manhã começaremos com a fisioterapia. – disse Kate saindo da sala.
- Certo.
- Vou trazer o seu jantar.
Sora voltou logo em seguida.
- Srta. Layla, eu voltei só para lhe desejar boa noite. É que já está tarde e eu...
- Sora...? – Layla interrompeu.
- S-sim?
- Não é mais necessário que você venha para cá. – disse Layla, em um tom mais autoritário.
- Como assim? – disse Sora, confusa – Por que não?
- Você já fez o que eu te pedi e estou muito agradecida por ter me apoiado até agora. Sua confiança me ajudou muito e agora eu já estou de pé. O resto será apenas conseqüência. E você também tem que ir treinar.
- Sim, Srta. Layla, mas... Tem certeza que não precisa mais de ajuda? – disse Sora, preocupada em como Layla ficaria treinando sozinha.
- Tenho sim, Sora. Neste momento, eu preciso me concentrar totalmente e só conseguirei isso estando sozinha. Não se preocupe, fiz um acordo com Kate.
- A... cordo? – indagou Sora.
- Sim. – confirmou Layla.
- Ok... Então virei aqui só de vez em quando.
- Só gostaria de lhe pedi mais uma coisa... – Layla continuou.
- Pode pedir, Srta. Layla! Qualquer coisa.
- Quando perguntarem de mim... Não diga absolutamente nada, Sora.
- Tudo bem... – disse Sora, estranhando um pouco.
- De vez em quando, você poderá vir me visitar. Mas será a única que poderá fazer isso e terá de ser raramente.
- Por que diz isso?
- Porque eu não quero que ninguém mais me atrapalhe como Kalos e Yuri fizeram. Sem contar na mídia... – disse em tom de desgosto – a cada dia, mais pessoas da imprensa tentam falar comigo e Kate tem de impedi-los da porta.
- Sim, Kalos me disse...
- Então já sabe. Não responda quando perguntarem sobre mim.
- Está bem. Boa noite! – disse Sora, saindo da sala.
- Boa noite... Sora – disse Layla – Esta será a última semana aqui...
Layla passou os últimos três dias treinando e passando manhãs tediosas embaixo de máquinas e lâmpadas na sala de terapia. Apesar de não receber ajuda no treinamento em si, Kate a tratava com a Fisioterapia, para que o seu desgaste não fosse tão grande durante os exercícios.
Layla proibiu todos, assim como disse que faria, de visitá-la, exceto Sora. Kate e todos os funcionários do hospital também foram proibidos de dar qualquer notícia de Layla. Yuri e Kalos estavam perdendo a paciência porque não conseguiam de jeito algum falar com Layla.
Ao se passarem mais dois dias, Layla estava 90 curada e Kate pôde autorizá-la a sair do hospital naquela mesma tarde. Saiu sem que ninguém percebesse, pegou um táxi e foi para o Kaleido Star.
Coincidentemente, Yuri estava a caminho do hospital à toda velocidade, furioso e preocupado, por não ter tido notícia alguma da Layla na última semana, e também, por conta dos boatos que estavam se espalhando pela cidade de sua possível morte, já que não se tinha notícia dela há um bom tempo, sendo que antes, a cada dia havia algo nos jornais sobre ela.
Layla chegou ao Kaleido Star pelos fundos. Sora a esperava. Ela ainda fingia usar a cadeira de rodas; nem Sora sabia que ela não precisava mais delas.
Kalos chegou ao seu escritório e deu de cara com Layla, sentada na cadeira de rodas, olhando a janela em formato redondo de sua sala. Assustou-se ao vê-la, mas, segundos depois, já retomara sua expressão normal e dirigiu-se a ela.
- Layla. Finalmente apareceu.
- Olá, Kalos – disse Layla, na sua forma mais sutil, virando a cadeira e ficando de frente para Kalos.
- Posso saber qual o motivo de tanto mistério? A cidade toda pensa que morreu.
- Sim, eu sei exatamente o que pensam de mim, mas você está comprovando que não é a verdade.
- Estou mesmo. Pelo menos alguém você ouviu, não é? – disse ele, irônico.
Layla se levantou da cadeira e andou calmamente até Kalos, que apenas não se mostrou pasmo porque escondeu seus olhos com ajuda do reflexo de seus óculos.
- Você está...?
- Sim, estou perfeitamente bem. Voltarei a treinar amanhã e deverei estar boa para a peça do próximo final de semana.
Ao dizer isso, Kalos ficou mais quieto que o de costume, voltando a falar alguns segundos depois.
- Layla... Por mais que esteja em pé... Tem certeza de que quer apresentar este final de semana? Não precisa de mais tempo?
- Não, Kalos. Eu sei que o meu ombro nunca mais será 100 curado... Mas... Exceto por esse pequeno detalhe, eu pensarei em algo para que esse problema não volte a me incomodar. O que eu não posso é ficar sem subir no trapézio por mais tempo.
- Uma vez Layla... – disse Kalos, subentendendo o final e sorrindo. Layla sorriu de volta.
