CAPÍTULO OITO

Não fora uma das idéias mais brilhantes de James. Levar Lily para a suíte principal e propor-lhe que passassem a noite juntos.

Na verdade, era uma idéia bem estúpida.

Talvez pudesse atribuí-la à champanhe que seu tio Lloyd andara distribuindo como se fosse água. Ou aos risinhos e rubores das tias solteiras. Ou às piscadelas e sinais de "po­sitivo" de Dumbledore e Hagrid. Ou às lágrimas que sua mãe vertera ao felicitá-los.

Ou talvez tivesse sido a própria visão de Lily, sorrindo corajosa e permanecendo firme, mesmo quando ele via que ela estava a ponto de cair, enfraquecida.

Sentiu uma necessidade desesperada de tomá-la nos braços e protegê-la, de pegá-la e carregá-la consigo.

Então, fez isso mesmo.

E assim que se viu no quarto com ela, assim que fechou a porta deixando para trás o barulho e a alegria, assim que viu as pernas longas de Lily sob o vestido de cetim marfim, suas faces ruborizadas e seu olhar misterioso, não quis mais deixá-la.

Recostou-se contra a porta e rezou para que ela não o enxotasse dali.

Lily olhou para ele, ansiosa.

Viu-a engolir em seco.

— Vai me levar para a cama? — perguntou ela, cautelosa, após alguns instantes.

— Por que não? Estamos casados — lembrou James. — Não posso ir embora, posso? O que as pessoas iam pensar? O noivo não pode deixar a noiva dormindo sozinha na noite de núpcias.

— Não? — Lily pareceu avaliar a situação. Então, en­colheu os ombros e ergueu o olhar. Um leve sorriso adornava seus lábios. — É, acho que não.

James respirou fundo.

Mas então Lily se movimentou, levantando a saia mais um pouco, e ele voltou a ficar sem fôlego. Deu um passo na direção dela.

— Então... uma vez que devo ficar, deixe-me ajudá-la... a tirar o vestido.

Lily olhou para ele, piscou, e avaliou o vestido. Ficou rubra até o pescoço.

James começou a se justificar:

— Não é como se eu... nunca tivesse visto você antes... sem...

— É... acho que não.

Lily estendeu os braços para ele.

Ele passou a língua nos lábios secos, tomou-lhe as mãos e ajudou-a a ficar de joelhos sobre a cama. A suas costas, desenganchou o fecho do vestido junto à nuca. Ao roçar-lhe a pele delicada, sentiu o arrepio que tomava conta dela. Ele também se arrepiou. De desejo. De necessidade. Mas tinha que suprimi-lo.

Abriu o zíper todo, expondo as costas de Lily. Então, foi puxando o vestido por sobre seus ombros, expondo os braços. Estava tão próximo dela que sentia seu perfume. Respirou e lembrou-se de como era mergulhar naquela mas­sa de cabelos ruivos e sentir o aroma invadir os pulmões. Inclinou-se para absorver melhor.

Lily estremeceu e deu uma risadinha.

— Isso... faz cócegas.

— O quê?

— Você... respirando perto de mim.

Ela se voltou e fitou-o. Sorria levemente, como se ela te­messe sorrir de verdade, como se não soubesse se devia ousar.

James conseguira arrancar-lhe um sorriso ao colocar-lhe no dedo a aliança que fora da tia Hattie. Queria vê-la sor­rindo de novo. Inclinou a cabeça e mordiscou-lhe a orelha.

— James! — Ela encolheu o pescoço e tentou se soltar.

Ele a pegou pela cintura e continuou provocando gentil­mente. Ela se desvencilhou, riu e tombou na cama. Ele a acompanhou, trazendo-a mais para perto. Respirou fundo junto a seu pescoço e passou a beijá-la.

Ela emitia sons que lhe ativavam os hormônios mascu­linos, por isso pressionou o corpo contra o dela. Ao segurá-la pela cintura, sentiu um movimento. Uma contração.

Lily ficou quieta. Ele também, mantendo a mão na região onde acabara de sentir algo estranho. Finalmente, começa­ram a relaxar. Ela se ergueu e virou-se um pouco para ele, mas não se afastou completamente.

— Uma contração — disse James.

Lily assentiu.

Logo em seguida, James sentiu algo diferente sob a mão e franziu o cenho.

— O que foi isso?

— O bebê. — Havia um toque de alegria na voz dela.

James engoliu em seco. O bebê? O bebê deles? O bebê estava chutando? Não sabia por que estava tão atónito. Claro que sabia que os bebês se mexiam. Chutavam. Mas... chutavam o pai?

— Veja só — murmurou.

Lily olhou-o sorridente.

— Surpreso? - Ele assentiu.

— Eu nunca... não achava... — Sentia-se um idiota. — Nunca tinha pensado nisso antes. O bebê... chuta com frequência?

— Tem dia que ele fica chutando o tempo todo. — Ela encolheu os ombros de leve. — Às vezes, só à noite.

— Como consegue dormir? — Ele pressionou a palma da mão contra a barriga e sentiu as batidas leves.

— As vezes, não consigo.

Ela contou como se fosse um fato. Não uma lamentação. Nunca ouvira Lily se lamentando. Nem por ele tê-la en­gravidado, nem por Hattie não lhe ter deixado a pousada, nem sobre nada.

Puxou-a para perto e beijou-lhe o ombro. A pele era tão macia e lisa. Queria... queria... Gemeu e se afastou.

— Deixe-me ajudá-la a tirar o vestido — sugeriu, man­tendo o olhar distante.

Não importava o que queria. Não poderia ter. Desajeitada, Lily levantou-se da cama e James ajudou-a a despir o vestido. Tomou cuidado para que seus movimentos fossem funcionais. Não tocou na pele macia nem uma vez, não passou a mão pelas costas até o bumbum. Tentou não tocar mais do que o necessário. Tentou até parar de respirar.

Lily com certeza fez a parte dela. Manteve-se de costas durante todo o tempo, vestiu o robe que ele oferecia e foi para o banheiro sem olhar para trás.

— Posso me arranjar sozinha agora — avisou.

James tentou se convencer de que era melhor assim. Res­pirou fundo novamente, lembrando-se de que desejar Lily era um exercício de frustração. Não poderia tê-la. Não de­veria desejá-la, portanto.

Improvisou uma cama no chão e deu-se por satisfeito... até Lily voltar do banheiro.

Já na cama, debaixo das cobertas, ela declarou:

— Obrigada, James. Por tudo.

Nele, o desejo aflorou intenso mais uma vez.

— Você não tem muito a agradecer a mim — replicou, rouco.

— Por hoje — especificou ela.

James fechou os olhos. Aquele dia ainda não se encerrara.

Fora, apesar de tudo, um dos momentos mais memoráveis na vida de Lily. Diante do pastor, da mãe, de amigos e de parentes, trocara votos com ela. Não dera nenhuma in­dicação de que a verdade era outra. Todos achavam que eles estavam na suíte principal fazendo valer a noite de núpcias nos braços um do outro.

Ninguém sabia que o noivo estava dormindo no chão.

Lily ficou de lado para poder vê-lo. Ele estava de costas, os braços sob a cabeça. Sabia que ele não estava dormindo. Provavelmente, esperava que ela estivesse.

Viu-o flexionar os ombros, talvez tentando achar a posição mais confortável.

— James?

— O que foi? — Ele se sentou no colchonete e olhou-a sob o luar. — As contrações pioraram?

Lily balançou a cabeça.

— Não. Pararam. É que... fiquei pensando se você gostaria de dividir a cama.

O quê?

Ela se intimidou com a aspereza na voz dele.

— Esqueça.

Lily acomodou-se sob as cobertas, de costas para James. Ouviu-o levantar-se e achou que ele ia embora. Então, sentiu a mão forte sobre o ombro. O toque era tão leve que, por um segundo, pensou que estivesse imaginando a cena. En­tão, ele pressionou mais um pouco, e ela se voltou para ele.

— Você quer...?

Ele deixou a frase morrer.

— Eu disse para esquecer — repetiu Lily.

E ficou de costas para ele outra vez. No instante seguinte, sentiu que ele afastava as cobertas e se alojava na cama. Não ocupou só um lado, mas estendeu, o corpo junto ao seu e envolveu-a com os braços.

Como amantes.

Lily ficou contente... e triste ao mesmo tempo. Aquilo significava que o desejo dele não era algo pontual.

Mas a satisfação do desejo podia ser.

— Eu não posso... — sussurrou, angustiada. - O médico disse...

— Eu sei. — Ele entrelaçou seus dedos. A voz saiu rouca, entrecortada. — Eu sei.

— Eu posso... poderia... se você quiser... se você precisar... — A voz dela sumiu.

Lily sentiu calor no rosto. Não sabia como dizer que faria qualquer coisa que ele quisesse.

— Está tudo bem. Durma.

Ela olhou para James interrogativa.

— Tem certeza?

— Tenho.

James tinha certeza de que ia morrer de frustração.

Tinha certeza de que sofria de um caso terminal de ex­citação sexual e que a exposição a Lily Evans, ou melhor, Lily Potter, só agravava o quadro.

Deveria ficar longe dela!

Não podia fazer isso.

Mesmo após os parentes terem partido e a mãe estar a caminho de Nova York, não poderia voltar para o próprio quarto e deixá-la sozinha na biblioteca.

Tentara se convencer de que era porque ficaria longe demais, caso ela precisasse de alguma coisa durante a noite. Se ela começasse a ter contrações de verdade, ele precisaria estar lá. Convenceu-se de que era porque os hóspedes po­deriam achar estranho ele ocupar um quarto enquanto sua esposa permanecia na biblioteca. Recém-casados não dor­miam em andares diferentes.

Convenceu-se de que seria bom passar as noites com Lily. Seria um modo de expurgar seus pecados.

Além disso, perversamente, adoraria cada minuto do castigo.

Mantinha-se perto dela durante o dia também. Per­manecia no escritório apenas pelo tempo necessário para resolver problemas que surgiam em seu escritório em Nova York. Mas, assim que podia, levava o telefone sem fio e a papelada para o andar térreo, a fim de "ficar de olho" em Lily.

Os motivos eram os mesmos, claro. Como ela queria se livrar dele se precisava de sua ajuda?

— Compre um pager — sugerira Dumbledore .

— Não — respondera James.

E ponto final. Além disso, ele precisava ter certeza de que Lily não faria muito esforço. Ela era bem capaz de achar que podia fazer tudo o que fazia antes de ficar grávida. Ela ainda tentava fazer toda a limpeza do andar térreo. E teria tentado fazer todo o resto, inclusive a lavanderia, se ele não houvesse insistido em contratar duas estudantes para arrumar os cómodos e lavar a roupa todos os dias.

— Como vou saber se estão trabalhando direito? — re­clamou Lily, no primeiro dia. —Não posso nem supervi­sionar o serviço.

— Eu vou cuidar para que elas façam tudo direitinho.

— Como vou saber se você sabe o que é um bom serviço?

Ele a olhou de cima.

— Posso dizer o que é um bom serviço, pois sou o segundo no comando.

Lily revirou os olhos.

— Era exatamente o que eu temia.

— Conheceu a minha mãe. Você acha que ela admitia algo menos do que padrão hospital para os lençóis?

— Bem, está certo. — Lily desistiu. — Mas precisa verificar debaixo das camas também. Nada de poeira por ali. E certifique-se de que as toalhas fiquem retas e que todo o quarto tenha um arranjo de flores novo todo dia. Dois sabonetes. Uma loção. Um xampu. Um lustrador de sapatos...

James mostrou-lhe a lista de checagem.

Então, quando ele já ia sair da sala, ela o chamou.

— E quanto ao seu trabalho? Como arranja tempo para fazer o meu? Você com certeza tem muita coisa para fazer.

— Estou me virando.

— Posso ajudar?

Ele hesitou. Mas ela parecia tão esperançosa, tão ansiosa, que ele encolheu os ombros.

— Talvez.

Logo estabeleceram um esquema de trabalho e Lily mos­trou-se muito interessada e capaz. James desejou poder mos­trar a ela as aldeias e artesãos cujos trabalhos comerciali­zava. Mas sabia que não podia, pois nunca a levaria a lugar algum.

O casamento deles duraria meses, não anos. Era um casamento de conveniência, não de amor. Ele daria um nome à criança. Daria apoio moral e financeiro a Lily.

Não lhe daria o amanhã.

Era só uma questão de tempo, Lily sabia. Tinha semanas com James. Meses, talvez. E era tudo. Sabia disso.

Só gostaria que seu coração também entendesse.

Era fácil racionalizar, dizer a si mesma que o casamento deles não era de verdade, que acabaria em poucos meses, ou semanas. Que chegaria o dia em que James seria o pai do bebê, mas não seu marido. Era até fácil acreditar. Mas não era fácil aceitar com o coração.

Se ele não se importava com ela, por que ficara tão per­turbado ao encontrá-la na cozinha tomando o desjejum com Amos naquela manhã?

Ele estacara na porta, a saudação normalmente alegre entalada na garganta, ao mesmo tempo que olhava para Amos com uma carranca.

— O que você está fazendo aqui? — questionara, raivoso. Lily, que ainda se divertia com mais uma história atrapalhada de um dos paroquianos de Amos, olhara-o interrogativa.

— Ele só está de passagem — explicou.

— Vim pedir para Lily datilografar algumas páginas para mim — detalhou Amos, sempre honesto e, ao que pa­recia, imune à tensão no ambiente.

— Ela não pode.

Amos olhara-o curioso.

— Mas... ela acabou de dizer que pode.

— Ela não pode mais.

— Mas...

James apontou para o manuscrito sobre a mesa à frente de Lily.

— Devolva a papelada — avisou.

— Não vai me ocupar muito — protestou ela.

Não estava ansiosa para datilografar, mas fazia um mês que não via o ex-noivo, desde a última vez que lhe datilografara algo. Começara até a pensar que passava bem sem ele, mas havia algo no tom de James que a deixou com vontade de desafiá-lo.

Ou de entendê-lo.

Ele estava com ciúme? Claro que não. Mas então...

— Devolva — repetiu James, cerrando os dentes.

Ela recolheu os papéis e devolveu-os a Amos.

— Desculpe-me — murmurou. — Acho que não terei tem­po desta vez.

Amos olhou para os dois, intrigado com aquela relação.

— Mas você só está descansando — comentou, confuso.

Não era a coisa certa para se dizer.

James já estava no meio da cozinha antes que Lily con­seguisse sair da cadeira. Ela conseguiu, precariamente, ficar entre ele e o ainda atónito Amos.

— James deve estar precisando de mim — comentou, es­perando que o ex-noivo fosse embora. — Sabe, como eu lhe disse, ando ajudando com os telefonemas e faxes.

— Sim, mas...

— E a sua visita foi ótima, mas precisamos pegar no batente.

— Mas acabei de chegar — protestou Amos.

— Só que estamos ocupados — finalizou Lily, categórica.

Lançou-lhe um olhar suplicante.

Se valoriza sua vida, vá embora já.

Finalmente, ele pareceu entender.

— Está bem, não vou mais atrapalhar.

— Não se esqueça dos manuscritos — avisou Lily.

— Não, não se esqueça — reforçou James.

Amos olhou para os dois e, então, sorriu esperançoso para Lily.

— Volto outra hora.

— Claro. — Ela abriu a porta e praticamente empurrou-o para fora.

James ameaçou:

— Se eu fosse você, manteria distância.

James saiu nervoso e foi até a beira da encosta apreciar a cidade. Não sabia o que o levara a quase agredir Amos. Claro que entre eles não havia mais nada além de amizade, após o rompimento do noivado. Provavelmente, a frustração o impelira a avançar sobre Amos Diggory.

Frustração sexual.

Precisava de uma mulher.

E tinha uma mulher.

Aliás, tinha uma esposa.

Talvez esse fosse o problema.