Professorinha

Vestido de veludo

Joshua chegou tarde naquela noite. Macey estava desesperada de preocupação. Assim que ele entrou pela porta ela o agarrou, verificando que nada lhe havia acontecido.

– Por onde andou? - falou gesticulando.

Ele respondeu que estava na casa de um amigo.

– E porque não me ligou? Você acha que eu tenho bola de cristal? - gesticulou.

Ele respondeu que perdera a noção do tempo; que o lugar era incrível; que tudo o que se pudesse imaginar havia naquela casa.

– Por Deus, Josh, você não tem sentimentos? - gesticulou ela jogando-se no sofá.

"Eu tenho 16 anos, mãe!" - ele gesticulou enquanto sentava no lado dela. - "E são apenas onze e meia!" - Ele cutucou a mãe porque ela não lhe dava atenção. Ela chacoalhava a cabeça negativamente, não acreditava que ele havia simplesmente perdido a noção do tempo. - "Eu sou quase um homem! Mãe! Olhe para mim!"

Macey fixou o olhar nele. Era verdade, ele era quase um homem. Não era mais um garotinho, aquele garotinho espevitado e risonho. Ele agora tinha a sua estatura, ombros largos, corpo forte. Os olhos dela marejaram. Ele a abraçou e chorou com ela. Depois a beijou no rosto e lhe deu boa noite. Quando estava na porta do quarto a chamou.

"Eu não estou aprontando nada, mãe. Não uso drogas e nem mesmo tenho uma namorada, se está preocupada que eu vá engravidar alguém. Seth é uma pessoa que gosta das mesmas coisas que eu. Só que tem mais dinheiro, claro!" - e riu sozinho, fazendo a mãe rir depois. A partir daquele dia Macey decidiu que ambos deveriam ter celulares de última geração, que funcionassem até debaixo d'água.

Macey e Joshua almoçaram no Valentina no dia seguinte. Estiveram a manhã toda preparando malas, pois a turma da escola sairia numa excursão, às seis horas da tarde, em direção à Washington, onde conheceriam a White House e o vice-presidente. Ele estava muito excitado. Não conseguia parar quieto no lugar. Assim que viu Leila, a filha do senhorio, Joshua correu a lhe contar a novidade, deixando Macey para trás. Ela analisava um mostruário de celulares, enquanto andava, queria comprar pelo menos um para que Joshua o levasse na viagem. Então, ela esbarrou numa pessoa, logo na saído do estabelecimento. Tudo o que Macey segurava se espalhou pelo chão. Sem olhar para a pessoa com a qual havia esbarrado, ela pediu desculpas e se abaixou para ajuntar seus pertences. A pessoa se abaixou também e assim que pegou o mostruário disse:

– Tenho um amigo que vende a preços bem melhores.

Macey levantou os olhos, estava diante de Anthony. Sorriu pedindo desculpas outra vez e ficaram frente a frente.

– Eu não olhei por aonde ia.

– Tudo bem. Tropeçar em você vai ser sempre um prazer.

Ela ficou envergonhada e baixou os olhos.

– Como eu lhe disse, tenho um amigo que pode conseguir o que você quiser por um preço justo.

– Pode me conseguir logo? Tipo... para hoje a tarde?

– Para agora se quiser - afirmou Anthony.

– Onde fica a loja dele? - quis saber ela. Anthony olhou em volta antes de falar.

– Ele só vai vender se você estiver comigo...

– Entendo. Tudo feito por baixo dos panos - ela ironizou.

Ele sorriu e estendeu a mão na direção do carro.

– Já que o senhor insiste - ela brincou, apertando os pertences contra o corpo. - Mas primeiro preciso avisar meu filho que vou dar uma saidinha se importa?

– Vou esperá-la no carro.

A loja do amigo de Anthony ficava a mais ou menos dez minutos do restaurante. E seria o tempo suficiente para que Macey esclarecesse o mal entendido ocorrido entre eles. No entanto, Anthony foi quem tomou a iniciativa na conversa.

– Acredito que esteja pensando sobre a noite em que... em que...

– Na verdade eu estava pensando sim, senhor Soprano. Acredito que foi um impulso. Talvez eu tenha lhe passado uma imagem errada...

– Não. Não passou - disse ele surpreendendo-a. - Eu quis beijá-la - disse em seco, fazendo Macey soltar uma breve exclamação. - Surpresa?

– Não.

Ele riu.

– Você é uma mulher muito bonita. Tenho certeza que não sou o único com a intenção de beijá-la.

– Ah, tem?

– Surpresa novamente? Por quê?

– Por várias razões, senhor Soprano. Mas a pior delas é que todos aqueles que por mim se interessam são casados.

Aquilo foi um tiro certeiro. Foi o fim da conversa, e um minuto depois estavam entrando numa casa luxuosa, onde um homem de meia-idade os recebeu calorosamente. Macey saiu de lá com dois telefones da Sony, aos quais pagou um terço do valor pedido numa loja convencional. O caminho de volta foi feito em completo silêncio, apenas um blues tocava no rádio. Ao entrar na reta que desembocava no restaurante, Anthony reduziu a marcha e parou o carro no acostamento.

Eles se observaram por segundos.

– Eu beijei você naquela noite... e você correspondeu - foi direto ao ponto.

– Eu sinto muito. Não devia ter deixado o senhor me beijar.

Ele respirou fundo. Olhou para frente e apertou o volante com as mãos. Macey percebeu o nervosismo.

– O senhor pode ter qualquer mulher que desejar. É só estalar os dedos. Seu dinheiro vale muito. Não estou bancando a difícil, esteja certo disso. É que eu preciso do emprego, senhor. Não posso arriscar perdê-lo. - Macey o tocou na mão agradecendo pela ajuda e saiu do carro.

– Pela primeira vez na vida fui rejeitado por uma mulher que não é a minha esposa.

Anabeth foi obrigada a rir. Anthony a fulminou com o olhar.

– Desculpe, Anthony. Mas me diga, porque acha que essa moça o rejeitou?

– Não sei. Talvez eu não seja o tipo dela - disse aquilo por dizer. A terapeuta silenciou. - Não. Não é isso não. Ela é que é diferente.

– Diferente?

– Sim. Ela pertence a outro mundo. Todas aquelas mulheres com quem saí... ou estavam interessadas no dinheiro. E Macey é diferente. Ela precisa do dinheiro, mas não está disposta a fazer qualquer coisa por ele.

– Hum. E o que acha que a levou a lhe dizer um não?

Ele se sentou no divã. Olhou para a janela e fitou o nada.

– Você está mudado - disse Anabeth.

– Estou é?

– Sim. Onde estão os seus problemas conjugais? E os problemas com seus negócios? Ou resolveu tudo num passe de mágica?

– Bem, estão lá onde sempre estiveram, mas já não me incomodo tanto com eles.

– E acha que isso pode ser considerado bom? E sua esposa? Lembra que fez uma promessa?

– Lembro. E não a quebrei.

– Ainda.

– Você é otimista mesmo - respondeu ele grosseiro, levantando e indo até a janela.

Fez silêncio novamente.

– Macey me disse não porque tem certeza de que vou ser algo passageiro na vida dela. E talvez ela não precise de aventura. Talvez não queira.

– Concordo. Ela tem responsabilidades.

– Desde cedo as teve - ele murmurou. - O filho com problema, o marido a deixou... meu tio Jay me contou isso tudo.

– Você já havia me dito isso. E sua relação com Carm?

– Nada. Parecemos apenas amigos. Eu a procuro, mas ela nunca está lá. Não quero mais correr atrás.

– E o que você quer, Anthony?

– Eu quero ver a senhorita Giardino cantando num vestido de veludo hoje à noite.

– Como?

– Às sextas-feiras ela costuma vir com o melhor vestido que tem. Eu espero que este não tenha mangas.

A terapeuta escondeu o rosto entre as mãos e balançou a cabeça negativamente, mas internamente estava curiosa para saber mais sobre a mulher que enfeitiçara o coração de um violento mafioso transformando-o num homem de meia-idade perdido num amor platônico.

O Ristorante Valentina estava cheio. Toda vez que Macey Ann apresentava canções antigas como as de Dean Martin, Frank Sinatra e Tony Benett, entre outros, havia uma lista de espera de duas horas. Naquela noite não era diferente.

Anthony estava sentado no bar. Havia muitos conhecidos, mas também uma grande quantidade de pessoas das quais nem fazia idéia de quem seriam. Anabeth e o marido o cumprimentaram havia meia hora e Anthony conseguira para elas uma mesa próxima ao palco. Sabia que a terapeuta só viera até ali para ver quem era a senhorita Giardino. Era até engraçado, ela demonstrava ter ciúmes. Foi um pensamento bobo, mas que não parava de lhe atormentar.

Quando Vito subiu ao palco, Anthony apagou o charuto e virou naquela direção. Esfregou os lábios um no outro e sua expectativa quanto à roupa da cantora se avivou. Macey Ann entrou sorrindo e cumprimentando a casa cheia. Perguntou ao público se já haviam jantado, porque não queria ninguém reclamando que sua voz prendera tanto a atenção deles que até a comida esfriara no prato. Tirou muitas gargalhadas com isso. E então começou a cantar "Return To Me".

O vestido dela era negro, feito de veludo. Não possuía ombro nem mangas. Deixava à mostra a pele branca e sedosa que ela tinha. Anabeth olhou para o balcão onde estava Anthony, este lhe ergueu o copo de vinho efetivando um brinde. Ela sorriu e voltou a atenção para a cantora.

Quando a apresentação terminou, Vito pediu a Macey que se dirigisse ao bar, onde o dono e amigos a esperavam. Ela chegou sorrindo, estendendo a mão primeiramente ao patrão. Anthony tomou a mão dela, beijou-a suavemente enquanto observava sua reação. Macey apenas sorriu e piscou lentamente. Depois esperou que Anthony apresentasse o casal de amigos. Eram Claude e Anabeth McMillan, ele, empresário, ela, psicanalista. Os quatro conversaram por algum tempo sobre banalidades da vida cotidiana e sobre o seqüestro de um rico fazendeiro ocorrido no dia anterior. Foi Macey quem saiu da conversa primeiro. Estava cansada, afinal, trabalhara o dia todo, e voltou ao camarim, sentando-se defronte ao espelho. Bebeu alguns goles de água e massageou o pescoço.

Uma batida na porta a despertou dos pensamentos.

– Vim lhe trazer pessoalmente. - Era Anthony Soprano carregando um gigantesco ramalhete de rosas vermelhas.

– São suas?

A pergunta dela o esmoreceu. Ele abriu a boca para responder, balbuciou inaudíveis palavras e ergueu as sobrancelhas. Macey ficou sem graça por supor que provinha dele o presente, mas então pegou as flores, deitou-as sobre a mesinha e leu o cartão.

– São de John Jay - disse ela sorrindo enquanto continuava fitando o cartão.

– Eu não lhe trouxe flores porque... bem...

– Não importa.

– Achei que não quisesse nada vindo de mim - finalmente falou. Ela o fitou. Os dois se mediram por longos segundos, até que Anthony disse: - Você está muito bonita nesse vestido - e apontou com o dedo. Macey sorriu.

– Obrigada. Mas estou um caco. Preciso ir descansar.

– Claro. Vou deixá-la... quer que alguém a acompanhe até sua casa?

– Não. Não é preciso. Obrigada - disse voltando-se para o espelho. Através dele viu os olhos de Anthony baixarem e pousarem no chão. Ele abriu a porta, mas não saiu. Parou e continuou olhando para o chão. Provavelmente pensando em algo para dizer. Ele realmente era persistente. Será que sempre conseguia tudo o que desejava? Novamente Macey mergulhava em pensamentos, e quando finalmente olhou para a porta pelo espelho, Anthony já não estava mais lá.

Não sentia pena dele, era outro sentimento, porém não conseguia distinguir. Imaginava como deveria ser o patrão quando ele estivesse sozinho. Parecia não ser a mesma pessoa que comandava aquele lugar. Ali ele era durão, firme, sempre impondo respeito a tudo e a todos. E, no entanto, todas as vezes que ficaram a sós, ele lhe pareceu mais suave, mas podado, demonstrando gentilezas. Talvez fosse um joguete que ele aplicava nas mulheres com as quais queria sair. Ou talvez ele simplesmente precisasse de atenção. Mas como poderia? Um homem daquela importância, temido e destemido... Era bobagem pensar naquele assunto. Não estava disposta a perder o emprego para uma aventura daquelas. Ou será que deveria arriscar? Sempre fora uma pessoa correta, os amigos inúmeras vezes lhe afirmaram tal fato. Ou será que, pelo menos uma vez na vida, deveria deixar seu mundinho protegido e viver uma breve loucura?

Apagou a luz do camarim, fechou a porta atrás de si e saiu pelos fundos do restaurante. A noite estava amena, não havia necessidade de colocar o casaco que levava nos braços, mas sentia-se estranhamente desprotegida sem ele. O estacionamento não estava vazio. Havia pelo menos três carros estacionados lá. No portão havia um grupo de pessoas. Reconheceu-os, eram os homens de Anthony. Provavelmente compactuando sobre mais um "negócio" lucrativo. Aproximou-se deles e viu Anthony, perto dos arbustos, conversando com um rapaz de estatura baixa, o abraçava como se fossem amigos, dizendo-lhe que não dormiria naquele dia, iria esperá-lo, no entanto, Anthony parecia muito zangado. Quando estava para passar pelo portão, Anthony empurrou o rapaz e este caiu bem aos pés de Macey. Ela parou instantaneamente e todos a encararam. Sil, sobrinho de Anthony, foi até o rapaz e o ajudou a se levantar dizendo:

– Você tem que se ajeitar, Fred. Não é nada fácil, viu? - e se afastaram.

Os outros olharam de Macey para Anthony, que fez um breve sinal e todos se dispersaram.

– Achei que já estivesse em casa - ele falou em seco, arrumando as mangas do paletó.

– Eu... - ela não terminou a frase, olhou para frente e viu três homens sentando num dos bancos da praça. Anthony os observava. - O senhor pode me acompanhar... até a esquina?

– Claro - afirmou dando uma última tragada no charuto já pequeno e jogando-o a um canto. - Vamos? - e lhe estendeu o braço. Macey tomou o braço dele e deram início a uma curta caminhada até a quadra seguinte.

Pararam diante da porta, seis degraus acima do nível da calçada.

– A senhorita está entregue - falou sério, porém seus olhos pareciam contentes.

– Obrigada mais uma vez, senhor.

Os dois se encararam. Anthony não conteve seus olhos que pousaram nos ombros desnudos dela, no colo e depois novamente naqueles brilhantes olhos castanhos. Levantou uma das mãos e acariciou o rosto dela. Macey respirou fundo. Ele percebeu e então a puxou para perto, beijando-a com fervor. Assim que se afastaram, ouviu a frase que tanto queria ouvir:

– O senhor quer subir?

Ele a beijou novamente e depois a encarou.

– Tem certeza?

– Tenho.

– Ou quer que eu a leve a outro lugar?

– Não. Estou sozinha - respondeu dando as costas a ele para abrir a porta.

Subiram lentamente. Anthony admirava cada passo que ela dava e a segurava pela mão, temia perdê-la de vista. Como se tal coisa pudesse acontecer num apartamento pequeno como aquele. Contudo, o lugar era muito bem ajeitado e limpo. Macey não o levou até o quarto. Pararam logo no primeiro aposento: a sala de estar. Era grande, com sofás extremamente confortáveis. Ela lhe deu as costas e pediu para que Anthony abrisse o fecho do vestido. Assim que tocou no corpo dela, ouviu-a suspirar. Então, enquanto desabotoava os botões de sua camisa, tocou o pescoço macio dela com os lábios, fazendo-a se arrepiar. O vestido logo caiu ao chão, as mãos de Anthony tocaram o quadril e a cintura nus dela. Sentiu sua camisa ser retirada, enquanto seus lábios estavam unidos. Depois, por um breve momento, pensou em pôr um fim naquilo, antes que o arrependimento da traição lhe atacasse a alma, entretanto, o tempo em que estivera sem sexo somado àquela mulher em seus braços fizera com que seus pensamentos se baseassem apenas em gozo e prazer.

Então, de súbito, ela parou ofegando.

– O que foi? - quis saber segurando-a pelo queixo.

– Senhor Soprano...

– Tony, por favor.

Ela baixou a cabeça, mas ele a ergueu. Indagando outra vez.

– O que foi?

– Bem... eu não quero que pense mal de mim pelo que estamos preste a fazer.

Ele sorriu.

– Mas... eu... eu só estive com um homem... na minha vida.

Aquilo o fez acordar. De início quis rir, mas recordando-se do nervosismo dela ficou atônito. O que estava preste a fazer teria muito sentido. Levantou o rosto dela e a beijou suavemente.

– Você quer mesmo fazer isso?

– Quero - respondeu quase de imediato.

– Então não se preocupe, vou cuidar bem de você! - Ele a apertou contra o corpo, mostrando o que Macey já sabia: o quão forte e decidido era, e a beijou intensamente.

Eram três horas da manhã quando finalmente pararam para descansar. Macey o convidou para tomar um banho. Anthony respondeu afirmativamente. Ela abriu as torneiras da banheira, espalhou alguma espuma de banho e se voltou para Anthony, que a observava atentamente. Sentaram-se na banheira em lados opostos, mas Anthony imediatamente a puxou para perto, encostando-a em seu peito.

– Devo admitir, estou surpreso com você.

– E por quê? - ela quis saber sorrindo.

– Não achei que fosse me convidar para subir... nunca.

– Eu também - murmurou olhando para a janelinha do banheiro.

– Mas estou muito contente que o tenha feito.

– Imagino que sim - ela alfinetou, mas sem querer.

– Não, você não imagina - respondeu beijando-a de leve.

Permaneceram alguns minutos se banhando, até ela o convidar para outro "round". A cama era muito mais confortável que o sofá e muito mais espaçosa. Anthony se deleitou e a fez chegar ao auge por duas vezes. Por fim, completamente saciados e exaustos, adormeceram abraçados. Havia tempos que Anthony não se sentia tão à vontade. Havia muito tempo que Macey não era tão feliz.