TREINA COMIGO
Carlos Abraham Duarte
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Uma terrível explosão rasgou os céus dos arredores da Academia quando o monstro desceu como um meteoro no cemitério abandonado, fazendo a terra tremer sob suas patas. Tinha um corpo leonino que pesava uns 650 quilos, ostentando uma fantástica padronagem de pelo fulvo-avermelhado, um rosto humano de olhos e cabelos e barba negros como a noite, dois longos chifres purpúreos retorcidos, uma longa cauda segmentada terminada em ferrão venenoso como o de um escorpião, de cinquenta centímetros, eriçado de espinhos, e um par de asas coriáceas de dragão na cor cinza-chumbo, que, abertas, conferiam-lhe uma envergadura de oito metros. Media três metros de altura em postura ereta nas quatro patas. Não voava, mas dava saltos gigantescos!
Tanto Tsukune quanto Moka reconheceram aquele rosto, e estremeceram por dentro – era o do homem que ambos haviam visto, horas atrás, nos corredores da Youkai Gakuen.
E tinha um nome (Tsukune recordou-se): Khurshid Shersorkh!
"Ei, Omote", manifestou-se no cérebro de Moka, partindo das profundezas de seu subconsciente, a "voz" telepática de seu alterego lacrado, utilizando a cruz do rosário (que a olhos clarividentes refulgia em vermelho-rubi) como transponder. "É o amigo da Ishigami, o tal do Shersorkh. Eu te disse que o youki dele era poderoso. Esta é a verdadeira natureza dele, um mantícora."
Tsukune, Moka e Kokoa não desviavam a vista da asquerosa cauda escorpioide de colorido avermelhado escuro, com o aguilhão venenoso espinhudo de meio metro, que se curvava sobre o dorso leonino. Tsukune pensou: urgentemente preciso acessar o poder do sangue de vampiro... pra enfrentar e vencer esse cara!
Tsukune leu o youki monstruoso que emanava daquele mantícora e ficou assustado. Seu novo parassentido lhe permitia antecipar e prever basicamente todos os movimentos do antagonista que requeressem energia youkai para serem executados.
- Respondam-me, garotos, antes que eu os mate – falou o monstro quimérico, em tons suaves, mas eivados da mais pura e cruel zombaria. – Qual é a pior coisa do mundo?
Um mononoke charadista? Os três jovens se entreolharam confusos. Essa Coisa queria matá-los. E o que poderia ser "a pior coisa do mundo"? Havia tanta coisa...
- Não sabem a resposta? - questionou o monstro. Sua cabeça agora lembrava uma mistura bizarra e horrenda de traços humanoides e felinoides, um tanto mais larga e com o focinho menos projetado, tudo envolto pela enorme juba de cabelos cor de carvão. Abriu um largo sorriso, exibindo tripla fileira de afiadíssimos dentes triangulares, serrilhados, como os do tubarão-branco, que se encaixavam feito um pente. – Como o escritor inglês George Orwell colocou na boca do seu personagem O'Brien, em seu livro "1984", a pior coisa do mundo varia de indivíduo para indivíduo. Ratos, fogo, água etc. – O sorriso em sua face macabra se alargou ainda mais. – No caso de vocês, moleques, a pior coisa do mundo... sou eu!
As cores de seu campo áurico de tamanho descomunal – vermelho-púrpura raiado de veios negros reluzentes e um excesso de raios amarelo-ouro radiantes, tudo envolto por miríades de faíscas – denotavam a corrupção do poder absoluto, o Poder do Sol, a Magia do Fogo nuclear, e uma excepcional força mental, mas infelizmente desviada para o mal.
- Kokoa-chan, Moka-san, se abaixem! – gritou Tsukune, jogando-se rapidamente de bruços no chão e, simultaneamente, vendo que Kokoa (cujos dons de leitura de youki, como vampira de raça pura, eram imensamente superiores aos seus) puxara a irmã mais velha pelo braço e se atirara ao solo junto com ela, rolando para trás de um velhíssimo cruzeiro de granito cinzento erodido pelo tempo que mostrava a imagem semidestruída de Cristo crucificado (aquele sítio havia sido um cemitério cristão, "jesuíta", no final da época de Muromachi, quatrocentos anos antes). Um segundo e meio depois, sobreveio uma saraivada de espinhos venenosos de trinta centímetros e a espessura de caniços. Um dos dardos mortíferos passou zunindo a poucos centímetros à esquerda da cabeça de Tsukune. Este sabia por intuição que ser alvejado podia significar uma morte lenta e dolorosa.
- Duas vampirinhas nobres e um servo carniçal não são páreo para mim – gargalhou a besta fabulosa com corpo de leão com pelo ruivo, asas de dragão e rabo de escorpião. – Eu sou Mantícora, o devorador de homens! Sou a última coisa que vocês verão nesta vida!
- Eu não sou servo de ninguém! – estrilou Tsukune. Aquela mania inexplicável de o tomarem por lacaio de vampiro já começava a irritá-lo.
- Tsukune! – gritou Moka, escondida com a irmã atrás da enorme cruz de pedra.
- Moka-san! – ele respondeu. – Eu tô bem!
Levantou-se rapidamente e correu para abrigar-se por trás de um pequeno cenotáfio.
- Não por muito tempo – rugiu o mantícora. No mesmo instante a cauda espinhenta disparou uma chuva de farpas envenenadas na direção do rapaz, que, recorrendo à vitae vampírica que corria em suas veias, apanhou uma pesada laje de granito para utilizar como escudo de proteção. Os espinhos bateram na pedra com um estrépito metálico.
"Preciso acabar logo com ele", pensou Tsukune, ofegante. Seus cabelos tornaram-se grisalhos, seus olhos exibiam as pupilas muito contraídas, quase como as de um gato, e as íris brilhando em vermelho sombrio. Estava na forma de ghoul, mas sob controle humano. "Pra proteger a Moka-san e a Kokoa-chan".
Valendo-se da habilidade de "ler" o fluxo de youki para prever os ataques inimigos ele arremeteu contra o mantícora Khurshid Shersorkh, lançando mão da laje de granito para aparar os venenosos espinhos ósseos que tinham a dureza do aço, habilmente bloqueando ou desviando-se deles. Foque-se no aqui-agora.Para sua surpresa, constatou que estava esgotando sua força depressa demais. Não experimentara tamanha fadiga ao surrar, no ano passado, Mizuki Ueshiba dos Antithesis, ou o troll Chopper Rikiishi, ou o demônio yakuza que tentara estuprar Moka durante o festival escolar. Eu me enfraqueci ao deixar a Kokoa-chan beber meu sangue... Tanto sangue... Seu vigor e reflexos sobre-humanos começavam a diminuir. Shersorkh não dava trégua, saltando e disparando a poderosa arma escorpioide cujos espinhos se regeneravam com uma velocidade amedrontadora. Tsukune o bloqueou repetidas vezes, mas não conseguia evadir-se, nem, tampouco, forçá-lo a abrir a guarda.
"Ele é tão veloz quanto um lobisomem em noite de Lua cheia", pensou o estudante, ofegando todo banhado de suor. "Mas eu não vou deixar ele se aproximar da Moka-san... de jeito nenhum!"
Arremessou a grande e pesada laje tumular contra Shersorkh, embora as chances de que a mesma pudesse causar algum mal ao imenso leão de semblante semi-humano e cabeça chifruda e cauda de escorpião fossem bastante reduzidas. Mas tinha a esperança de que, pelo menos, lograsse retardá-lo a fim de possibilitar a fuga de Moka e Kokoa para um lugar seguro. "Preciso manter a atenção dele presa em mim, e não nelas."
Uma bola ígnea do tamanho de uma cabeça humana fez explodir no ar a enorme laje de pedra. Tsukune, Moka e Kokoa ficaram estarrecidos. O monstro cuspia bolas de fogo!
- Mostre-me sua força, seu poder, Tsukune Aono – desafiou Shersorkh. Seus olhos, agora amarelo-âmbar, mais pareciam sóis em miniatura. Seus dentes ameaçadores projetavam-se para fora da bocarra que nem punhais alinhados, fileira após fileira. – Ou prefere que eu devore essas patricinhas sanguessugas bem na sua frente?
- Deixa elas em paz, que a sua briga é comigo! - Com o rosto congestionado pelo esforço sobre-humano, Tsukune levantou uma grande lápide de granito negro por cima da cabeça e arremessou-a contra o medonho oponente. Outra bola de fogo, outra explosão. Faça-o gastar bastante youki, assim poderá antecipar seus movimentos, e rebatê-los.
O mantícora deu um salto na sua direção a uma tal velocidade que quase não seria possível ao olho humano acompanhar, mas Tsukune, lendo o fluxo de energia youkai do antagonista como quem lê um livro aberto, já se preparara para o ataque, e, reunindo suas forças, lançou-se sobre a criatura antes de receber o golpe fatal que o reduziria a uma posta de carne sangrenta, pronta para ser devorada. Shersorkh ficou sem reação para contra-atacar e foi violentamente atingido no rosto por um par de punhos com o impacto de marretas. Por um instante a besta vacilou, surpreendida e desconcertada, mas logo em seguida golpeou o rapaz com a cauda espinhosa como se fosse uma imensa clava, jogando-o por terra. Tsukune, debilitado pela sangria de Kokoa, não conseguiu reagir a tempo, baqueou e ficou prostrado, mas com a mente lúcida. Eu vou proteger a Moka-san a qualquer preço.
Não satisfeita, a diabólica criatura abocanhou forte o ombro direito de Tsukune, sadicamente cravando-lhe os dentes férreos, quebrando-lhe os ossos da espádua, dilacerando-lhe músculos e tendões e fazendo-o gritar de dor atroz, e logo depois o suspendeu a três metros do chão, sacudindo-o várias vezes no ar, apenas para atirá-lo de costas no solo árido e pedregoso com o máximo de brutalidade.
Moka soltou um grito de horror.
Tsukune fez menção de levantar-se, a despeito do ombro quebrado queria continuar a lutar, porém as portentosas patas dianteiras de Shersorkh sobre seu tórax o impediram. As demoníacas garras cortantes do impiedoso ser místico rasgaram a camisa e a pele morena do garoto, fazendo o sangue jorrar rubro por todo o seu peito arquejante.
- Estou decepcionado – disse mansamente o mantícora, a suavidade na voz argêntea dissimulando a perversa crueldade que, todos sabiam, era o apanágio da sua raça diabólica, aliada às forças do Mal. – Não posso acreditar que seja você o Tsukune Aono que derrotou o Kuyou, chefe do Comitê de Segurança, surrou o Rikiishi do Clube de Luta Livre e o "Monstro Solitário" Kusabi Midou, e, de quebra, mandou o Kotsubo-sensei pro hospital. Ou você ficou fraco porque deixou a ruivinha pirralha sugá-lo até não aguentar mais? Hum! Que ironia do destino! Você queria proteger suas amigas, mas vai morrer por ter tido um gesto de compaixão para com uma delas.
Tsukune soltou um suspiro longo e raivoso. – O que tem contra mim?
- Digamos que estou prestando um favor a uma velha amiga – respondeu Shersorkh. – Ninguém senão você, Aono, é capaz de remover o rosário do pescoço de Moka Akashiya. Com você morto, portanto, o poder vampiro dela nunca mais despertará. Simples, não?
- É, mas você se esqueceu de MEincluir nos seus cálculos, gatão! – berrou uma voz de gasguita que Tsukune conhecia bem. Com um salto espetacular Kokoa colocou-se nas costas do mantícora e, levantando a jumonji-yari – uma lança japonesa de dois metros que outra coisa não era senão uma transformação do Kou-chan - que empunhava com as mãos delicadas, afundou violentamente a haste longa na vasta juba negra do monstro-leão grego. A ponta perfurante da lâmina reta (cruzada por outra, perpendicular, ou seja, as "asas" de Kou-chan) fincou-se certeira na nuca de Shersorkh e dela arrancou um esguicho escarlate. O demônio urrou de dor e fúria e tentou cravar em Kokoa o perigosíssimo ferrão caudal. Livre do peso das patas bestiais, Tsukune aproveitou a brecha para, concentrando todo seu youki no braço esquerdo, incólume, desferir uma série de socos violentos, um após outro, na cara animaloide da fera maligna extraplanar, que errou o alvo por alguns centímetros.
Rugindo de ira vã, Shersorkh cambaleou sob seu peso. O sangue vazava de sua nuca e manchava de vermelho-ferrugem ou ruivo sujo a magnífica juba de cor azeviche.
Tsukune rolou pela terra apodrecida e se pôs momentaneamente a salvo das garras e presas assassinas. Sua cabeleira, antes grisalha, enegreceu de novo e, concomitantemente, seus orbes amendoados retornaram ao castanho-médio próprio de um ser humano. Tinha o uniforme escolar esfarrapado, o úmero direito fraturado, os tendões dos músculos do manguito rotador rompidos, horríveis lacerações sangrentas no tórax e uma dor excruciante por todo o corpo.
Pensou: "Fui salvo pela Kokoa-chan."
Com um pulo a vampira ruiva saiu das costas do monstro, deu uma cambalhota em pleno ar e caiu em pé do lado de Tsukune, com a yari (Kou-chan) em suas mãos. As íris de seus olhos refulgiam vermelhas como um par de luzes de alerta, e uma densa aura negra de energia youkai misturada de vermelho fluía em torno dela, irradiando em todas as direções, tornando o ar mais pesado e sufocante. Tsukune nunca tinha visto Kokoa desse jeito senão uma única vez, quando, por ocasião de sua chegada à Academia, ela se confrontara com a Ura-Moka desselada naquele mesmo tétrico cemitério e fora golpeada pela irmã mais velha, mas se levantara logo a seguir, exsudando energia sinistra por todos os poros de seu corpo.
- Anda, vem! – ela falou imperiosamente, pegando Tsukune pelo braço esquerdo e o ajudando a se levantar. – Se segura – disse ela depressa, e passou um braço em volta da cintura do rapaz, que ficou estupefato. – E lá vamos nós! – Com um salto espetacular Kokoa se colocou, juntamente com Tsukune, fora do alcance de Shersorkh. E bem a tempo, pois uma bola de fogo branco-azulada cuspida pelo mantícora explodiu no lugar em que naquele momento estiveram o rapaz híbrido e a moça vampira, transformando o solo árido coberto de capim rasteiro numa grande cratera fumegante. Tsukune e Kokoa pousaram bem do lado do cenotáfio de granito que servia de abrigo a Moka, e correram para junto dela.
- Tsukune...! – Moka abraçou o rapaz com força, quase chorando de alegria, ignorando a dor que ele sentia pelo ombro quebrado e ensanguentado, o que o fez soltar um gemido baixo e curto. Ela, sobressaltada, o largou, e disse: - Tsukune... Você tá bem, né?
- É... Eu tô bem... – ele respondeu, fazendo uma ligeira careta de dor. Virou-se para a ruiva, e disse: - Domo arigato, Kokoa-chan. Obrigado por me salvar.
A vampira teen fez um gesto de pouco caso. – Eu te devia uma e agora não devo mais nada. Estamos quites.
Nisso, os três ouviram um rugido alto e delongado se aproximando. Mantícora!
- Vocês vão implorar por uma morte rápida! – bradou a fera vermelha com uma voz altiva e majestosa que soava como uma mistura de trombeta com flauta de Pã. Sua cauda se agitava assustadora e freneticamente expelindo espinhos em todas as direções.
- Moka-san... Kokoa-chan... Eu protejo vocês! – Tsukune quis levantar-se, de úmero quebrado e tudo, para enfrentar peito a peito o mononoke de mais de meia tonelada, mas Moka gentilmente empurrou-o para trás, de volta ao seu lugar.
- Nem pensar, Tsukune – disse ela, sua voz gentil, porém firme, suave e autoritária, como se ralhasse com uma criança marrenta a quem tivesse de desencorajar. – Trate de ficar sentadinho aí, usando o que aprendeu "comigo", digo, com a "outra eu", pra se curar. Nósprotegemos você. – Virou-se para a irmã. - Certo, Kokoa?
O rosto mongólico da caçula Shuzen, agora tingido pelas cores da vida, crispou-se num sorriso sardônico. - Quer lutar, onee-chan? Com rosário e tudo? Outro dia a Kurumu-chan me falou que vocês duas juntas já mataram dois ciclopes, e você tava selada.
- É verdade – confirmou Moka, recordando-se da refrega contra os gigantescos capangas de um olho só e patas de bode do antiescola Kiriya Yoshii, no ano passado.
- O quê? - Tsukune exclamou, incrédulo. - Mataram dois ciclopes? Você e a Kurumu-chan nunca me falaram disso!
- Depois explico – retrucou Moka laconicamente. Não obstante ter suas capacidades e habilidades restringidas pelo selamento mágico ela continuava a ser uma fêmea da espécie Homo vampiricus e não Homo sapiens. – Não saia daqui, hein Tsukune!
- Corre, Moka! – gritaram Kokoa e Tsukune a um só tempo. No instante seguinte ela estava sendo puxada pelos braços, enquanto uma bola de fogo branca muito quente e chamejante cuspida pelo monstro greco-indo-irânico precipitava-se contra o cenotáfio à velocidade de uma bala de fuzil AK-47. O sentido de "radar de youki" de sua irmã caçula e de seu amigo foi sua salvação. Tudo isto se passou num abrir e fechar de olhos, e o granítico monumento sepulcral que lhes servira de abrigo explodiu, transformou-se numa enorme pilha de escombros donde uma grossa coluna de fumaça se elevava para o céu.
A famosa velocidade sobre-humana dos vampiros e ghouls!
- Uh-huh-huh-huh – riu Shersorkh, dando um grande salto sustentado por suas asas draconianas cor de chumbo e pousando com um forte estrondo do lado do montão de destroços que havia sido o monumento funerário. – Sofram mais um pouquinho, ralé!
- Quem você tá chamando de ralé, animal? – gritou Kokoa furiosa, ferida em seu orgulho de vampira. – Cê tá com um rombo na nuca maior que o da camada de ozônio graças a mim!
As mãos de Moka rapidamente puxaram a irmãzinha geniosa para dentro de um imenso túmulo de mármore destampado que servia de refúgio a ela e a Tsukune.
- Mas que fedentina insuportável tá aqui dentro! – protestou Kokoa em altos brados. – Kou-chan, cadê você?
Por um instante os orbes de Shersorkh pareceram coruscar, para, em seguida, emitir feixes de raios luminosos similares a lasers de alta potência quentes como o Sol, perfurando as paredes de mármore da sepultura descoberta, pulverizando as rochas e fundindo os ossos em seu interior. Visão de calor com a intensidade de 5.000 sóis!
Entretanto, Kokoa, Tsukune e Moka lograram evadir-se a tempo. A habilidade de sensoriamento youki que lhes permitia sentir os movimentos e o fluxo da energia youkai de Shersorkh, antecipando seus ataques, somada à supervelocidade de vampiro mais uma vez salvara as vidas do trio de estudantes. Eles correram como loucos pelo terreno plano coberto de relva festuca, por entre lápides tumulares cinzentas e retorcidas árvores mortas, perseguidos pelos incandescentes feixes de raios de luz emanados das retinas de Shersorkh que derretiam o solo, queimavam e destruíam tudo que obstruísse seu caminho.
- Kou-chan! – O berro estridente de Kokoa reboou nas ruínas sepulcrais.
- Esse cara tá brincando de gato e rato com a gente – bufou Tsukune, enquanto ele e as irmãs kyuuketsuki se escondiam atrás do colossal "escudo" circular que outra coisa não era senão o corpo transmórfico de Kou-chan, monstruosamente esticado e achatado, dotado de resistência preternatural a ataques mágicos. As rajadas de raios térmicos vermelhos que saíam dos olhos do mantícora em linha reta eram aparadas com a maior facilidade.
- Agora chega de brincadeira! – rosnou o monstruoso parente arcadiano da críptica Esfinge do Egito. Por sua vontade, aumentou ao máximo a intensidade do raio avermelhado de energia solar concentrada e volitivamente controlada, provocando uma grande explosão que varreu aquele trecho do cemitério, arrancou do solo pedras tumulares, troncos rugosos de carvalhos, olmos, álamos. Só o deslocamento de ar quente atirou Tsukune, Moka, Kokoa e Kou-chan a dezenas de metros de distância. A aura violeta criada pelo quiróptero formara um escudo esférico de ki em torno deles que os protegera da explosão, mas não da chuva de terra e galhos e folhas agudas e negras arrancados dos ciprestes altaneiros, num canto mais recuado do cemitério.
- Essa foi por pouco...! Chu! – guinchava Kou-chan em tom lamentoso.
- Grrrr! Chega! – Moka se levantou, emputecida, coberta da cabeça aos pés de terra e folhas de cipreste, longas e finas como agulhas. – Chega de ser achincalhada, de ser a "irmãzinha" selada, frágil, vulnerável, a mascote da turma, que precisa ser salva dos vilões!
- Moka-san...? – tartamudeou Tsukune, esfarrapado e sujo de terra e poeira e folhas.
- Onee-chan...? – balbuciou Kokoa, tão marrom de terra e sujeira quanto os colegas.
Ignorando a irmã e o amigo, e com uma audácia bem pouco usual, Moka deu um passo à frente, respirou fundo e encarou o antagonista extraplanar (que era 1,40m mais alto que ela), os orbes esmeraldinos dela, eivados de mudas acusações, presos aos dele, gélidos a despeito de sua luz alaranjada de lava candente. Em seguida, ela suspendeu a minissaia e, sem se importar com a expressão estupefata do rosto do pobre Tsukune (que teve uma pequena epistaxe ao ver a calcinha e a coxa nua de Moka), agarrou um objeto redondo e chato, atado a uma cinta-liga na coxa direita (desde quando a Moka usa isto?), e o tirou com ímpeto. Tratava-se de um pentáculo feito de cobre com o pentagrama dourado inscrito num círculo, irradiando luz num fundo azul, um amuleto protetor associado a Vênus que lhe fora presenteado por Yukari.
- Academia Youkai. Akashiya Moka. Segundo ano, classe 1 – disse ela, a título de apresentação, quase como se entoasse um mantra sagrado. Na sua mão brilhava o pentáculo de cobre polido, com o pentalfa dourado sobre fundo azul.
- A princesinha sanguessuga pensa que pode derrotar o deus Mantícora? - zombou Shersorkh. – Vá tomar uma boa ducha e depois a gente conversa... Ooops! Pardon, os vampiros de sua estirpe em particular não se dão muito bem com água pura! Uma pena, realmente...
Moka fitou com desdém o pretenso deus maligno. – Cê se acha "o cara", "o tal", o Bam-bam-bam do mundo dos monstros, né? Nos ameaçando com seus espinhos venenosos, seu raio solar da morte e suas bolas de fogo, machucando quem eu amo – ela dedicou um breve olhar a Tsukune – e ainda se intitula um deus! No fundo, cê não passa de um valentão cheio de empáfia, igual aos outros que a gente já derrotou. Reconheça o seu lugar!
Até parecia que era a Ura-Moka quem falava pela boca de seu alterego "suave"!
Usando de agilidade e força sobre-humana que não se esperaria de uma youkai com poderes selados, Moka lançou o amuleto contra o mantícora, que foi violentamente atingido num dos olhos. Shersorkh soltou um grito. Tendo ricocheteado no olho do monstro, e girando velozmente no ar, o pentáculo voltou à mão de sua dona, tal qual um bumerangue. Kokoa e Tsukune ficaram embasbacados.
- Sonhei com algo parecido há alguns dias – Moka explicou laconicamente. – No sonho, eu lançava um amuleto pra golpear um cara que usava uma máscara de Tengu e tinha sequestrado o Tsukune. (Na realidade a mente de Moka inconscientemente abriu uma "porta psíquica" enquanto ela dormia e conectou-se à Moka de um universo paralelo, a qual realmente afrontou um dos "Quatro Reis" do crime para ajudar a salvar o Tsukune de lá. Chu!)
Tsukune sorriu discretamente. Já testemunhara mais de uma vez a força vampiresca de Moka vir à tona, mesmo com a personalidade meiga e gentil no comando do corpo e os poderes lacrados pelo rosário, sobretudo em situações de grande estresse envolvendo ambos – ela e Tsukune, juntos.
- Sua vadiazinha! – ululou um enfurecido mantícora caolho. Pelo menos, com aquele orbe esquerdo danificado não seria capaz de disparar raios letais por um bom tempo.
- Mostre pra ele, minha irmã! – exclamou Kokoa com um ar triunfal. – Kou-chan! - Apanhou o pequeno morcego pardacento, que, no mesmo instante, esticou-se e transformou-se em uma plúmbea morning star de dois metros de comprimento por metro e meio de diâmetro na pesada esfera cravejada de pontas de 30cm e aparência assustadora. (Este mononoke tem a capacidade de formar fortes ligações mentais com sua dona, assim captando seu pensamento, seu desejo, e obedecendo-lhe instantaneamente.)
- Academia Youkai. Shuzen Kokoa. Primeiro ano, classe 3 – disse ela, imitando a irmã mais velha, sorriso sardônico a crispar-lhe a face juvenil.
Ao ver Kokoa empunhar a "arma" viva com as duas mãos, tão marcial, Moka teve um arrepio. Conhecia a verdadeira natureza do youkai de nome Nazo Komori, na realidade uma besta-fera que pesava mais de cem quilos e possuía um aspecto medonho, com garras e presas descomunais, mas que, para disfarçar, na presença de todos, Kokoa inclusa, assumia a forma "compacta" de morceguinho. E pensar que a Kokoa-chan quis dá-lo de presente pra mim, no meu aniversário de dez anos. Todavia, como a pequena Moka, aos dez anos de idade, ainda não possuía superforça para manejá-lo, ao contrário de Kokoa, o "presente" acabou ficando com a meia-irmã caçula mesmo.
- Academia Youkai. Aono Tsukune. Segundo ano, classe 1 – adiantou-se o rapaz, batendo com o punho esquerdo sobre seu coração, esforçando-se por disfarçar a dor que sentia com uma expressão feroz em sua face. (Entrementes, o sangue vampiro de Moka que corria em seu sistema circulatório misturado ao seu sangue mortal, com um incrível poder de regeneração celular espontânea, paulatinamente ia restaurando os tecidos lesionados, cem vezes mais rápido que o ritmo natural de um ser humano. Chu!)
- Escória juvenil! – rugiu o mantícora, mostrando o máximo de desprezo apesar do olho esquerdo ferido. – Acham que podem comigo? Com o caçador de homens, o terror da Nova Arcádia? Eu sou indestrutível, sou um deus solar!
Foi quando Tsukune rastreou quatro youkis se aproximando em alta velocidade. São elas! Eu posso senti-las, cada uma delas!
- Nesse caso é melhor nosincluir também na briga, "Sr. Deus" – interveio uma nova voz feminina, em tom irônico. Esta vinha de cima, das alturas.
Todos se voltaram na direção da voz e puderam ver Kurumu e Ruby voando muito próximas uma da outra – a súcubo, com suas longas asas quirópteras e a cauda que lhe dava estabilidade no voo, e a karasu onna, com as seis asas largas de corvo, negras como a noite. Cada uma delas transportava nos braços uma amiga incapaz de voar: Kurumu trazia Mizore e Ruby trazia Yukari.
- A Kurumu-chan e as outras! – exclamou Tsukune alegremente. Reconhecera cada uma das meninas por sua energia espiritual youkai bem antes de chegar a visualizá-las.
- Pessoal...! – gritaram Moka e Kokoa a um só tempo.
- Quem são essas pivetes e como ousam...? - indignou-se Shersorkh.
- Nós somos do Clube de Jornalismo da Academia Youkai – respondeu Kurumu.
- Mexer com um dos nossos... – começou Mizore.
- ... é puxar briga com TODAS nós, desu! – concluiu Yukari.
