NOTAS EM OFF:
*ESTE CAPÍTULO FOI FINALIZADO NO DIA 27/02/2014!
*ESTE CAPÍTULO AINDA NÃO FOI FINALIZADO. NO DIA 27/02/2014, ESTARÁ COMPLETO, NESTE MESMO POST. É SÓ ROLAR O CURSOR ATÉ O MEIO DO ARQUIVO.
*COMENTÁRIOS DE CADA CAPÍTULO ESTÃO SENDO POSTADOS PELA AUTORA ATRAVÉS DO SITE fan fiction PONTO com PONTO br /historia/586381/Memories_Truth_or_Dare/ (tudo junto, com ponto: .)
8. SURPRESAS (PARTE I)
Cheguei à cabana um pouco antes das seis da tarde. Estacionei perto do banheiro e lá estava ela. Na porta. Em um dos vestidos novos. Linda pra caralho. Hoje, uma princesa. Estampava um sorriso no rosto, com as mãos cruzadas no queixo, totalmente apreensiva.
–Pra que isso tudo?
–Entra! – me puxava pela mão para eu ver a surpresa na mesa.
Ela havia feito um bolo de banana com calda de chocolate e cheio de cerejas no topo. Ainda conseguiu desenhar a palavra "Parabéns!" com as frutas. Colocou vinte e dois palitos no lugar de velas. Tive que pegar meus óculos para observar aquilo tudo direito.
–Feliz aniversário, Edward! – ela sorria, toda linda.
–Eu não lembro nem de ter-lhe contado quando era meu aniversário? – mexi no cabelo, confuso.
–Não contou. Eu vi nos seus documentos quando você se apresentou e me provou que era médico.
–Está ficando espertinha, hein? – fiquei admirado de ver como ela se superou. Foi a primeira vez que cozinhou e fez um bolo sozinha ali, com direito a decoração.
–Não ia deixar passar em branco. Não gostou?
–Claro que sim. – dei um abraço sufocante nela, como o da Stephenie. Ela deixou e de fato me abraçou de volta. Que progresso, pensei. – Ninguém lembrou assim de mim.
–Não? – ela olhou para cima, surpresa.
–Não.
–Espero que esteja bom! – ela vibrava com o fruto do seu próprio esforço.
–Onde arrumou tantas cerejas?
–Usei sua bola. – ela apontou para fora, e vi vários galhos no chão. Sinal de que ainda não aprendeu a colher as frutas, ou não me levou nem um pouco a sério quando avisei para não destruir minha cabana. – Não são suas favoritas?
–Sim... – olhei para seus lábios, e acho que de propósito, só para me tentar o juízo, ela usava o batom rosado. – gosto demais. Acho que nunca vi desse bolo lá em casa.
–Claro que não. Eu inventei. – ela carregava um ar de esnobe, agora. Uma graça.
–Hum, que metida. – ameacei fazer cócegas, e ela se esquivou. E o otário perdeu o resto do abraço. - Vamos partir?
– Não! Primeiro vamos cantar.
– O que? Não.
–Vamos sim! E vai fazer os cinco pedidos.
–Cinco? O certo não é um... ou três?
–Não! Sempre foram cinco, seu chato.
–Tem certeza?
–Só lembro de serem cinco!
–Você... lembra?!
–É... tenho isso na memória. Tão certo como o céu ser azul e o sol, amarelo.
–Isso é ótimo. Significa que lembra de algum costume diferente, talvez.
– Pode ser.
–E está levando a prosa dos livros a sério. É quase uma filósofa. – encarnei.
Ela cantou para mim e até que sua voz era afinadinha. Soprei as "velas" e fiz os cinco pedidos.
Pedidos que nunca contaria, a menos que todos se realizassem. E ela me chamaria de psicopata se soubesse que pelo menos três desejos envolviam diretamente a sua pessoa.
–Não vai me contar? – ela questionou enquanto eu cortava o bolo, satisfeito com a surpresa.
–Deveria?
–Depende de você.
–Acho melhor não.
–Por quê?
–Porque não, ora. Não vai virar realidade se eu contar.
–Hum, que pena. Se eu acertasse um, ia deixar você fazer uma coisa.
–"Uma coisa"? – franzi a sobrancelha, parando o que estava fazendo. - Fala então, e eu te digo se faz parte da lista ou não.
–Você vai roubar! Conta você. Só um.
–Não conto, você vai me bater.
–Ah, já sei o que é. Está gostoso? – ela mudou bruscamente o assunto, assim que percebeu o que se tratava. Eu já deveria estar acostumado com suas voltas.
–Hmmm está ótimo. Tem certeza que o livro de receitas não teve nada a ver com isso? – o bolo estava um pouco solado e com muito chocolate. Mas no geral, para quem nunca entrou numa cozinha tão vazia, estava excelente. Certamente iria querer que ela repetisse em outra ocasião.
–Bem, na verdade copiei as medidas e pensei em por as bananas no fundo e cerejas por cima da cobertura. – falava toda orgulhosa.
–Muito bom. – comi até a terceira fatia para agradá-la. No final, enchi a boca de cerejas. – Fiz bem em não almoçar hoje.
–Por isso está esfomeado.
–Sim, mas está bom mesmo. Meus parabéns. Vou trazer mais ingredientes pra você testar as outras páginas. – ri da cara de reprovação que ela fez.
–Eventualmente.
–"Eventualmente" – a imitei.
–Tenho lido vários livros. – ela falou com ar de superiodade.
– Posso saber quais anda lendo agora?
–Bem, estou terminando seus romances. Tentei um de Medicina, mas não entendi nada. Aí passei para os de Literatura e História.
–É? Gostou das figuras? – tive que desviar de um tapa.
– Sem graça. Confesso que senti que já tinha lido tudo aquilo antes... não vi novidades.
–Está falando sério? – analisava cada declaração sua, para registrar posteriormente.
–Sim.
–Isso é ótimo. – terminei a última garfada e fiquei admirando seus lábios.
–Gostou? – ela tentou buscar assunto.
–Muito. Não só do bolo, mas da lembrança. Obrigado.
–De nada. Verdade ou consequência?
–Não, não vou jogar isso. – enquanto eu falava, ela arrastou a cadeira antiga para perto da minha, que trouxe para a cabana em algum dia da semana passada.
– Por que não quer jogar? – ela me encarou.
–Nah... não quero falar sobre os meus podres hoje. –ri, sem graça.
Na verdade, não queria lembrar do clima que aquela brincadeira já havia causado.
– Humm, tá. Desculpe por ontem, não sabia que não gostava de falar...
–Tudo bem, foi bom. Te devia algumas justificativas mesmo.
–Não está lendo nada... por que usa eles agora? - Continuava me encarando e tirou meus óculos, deixando-os sobre a mesa.
Opa.
–Para te ver melhor... – eu fiquei desconfiado daquela proximidade toda. – Está bem bonita. – sorri.
– Edward, você é o melhor amigo que eu poderia ter. É o meu favorito e...
– Ah, não sabia que era o favorito. – ri sarcasticamente, afinal eu era o único.
– É.
–O que quer dizer, afinal? Desembucha. – estimulei aquela conversa mole dela.
– Que você... é um cara legal. – ela sorriu.
–Hum, que mais?
–Que eu desconfio o que você quer de mim hoje. – ela arqueou uma sobrancelha, me encarando.
–O que eu quero de você? – a olhei espantado.
–Você quer outro beijo meu.
–Está ficando um pouco convencida, não?
–Vai dizer que não? Você não sabe nem disfarçar, por mais que se esconda atrás dos óculos. Fica olhando o tempo todo pra minha boca.
–Certo.
–Então, acertei ou não?
–Sim e não. – ela me olhou confusa. – Na verdade, pedi em plural, e não especifiquei datas.
–Edward! – ela me olhou pasma, e colocou as mãos na boca, balançando a cabeça. – Essa merda não está certa.
–Por que não? - Tive que rir.
–Bem... você é um médico e eu, sua paciente debilitada.
–Em primeiro lugar, tecnicamente ainda sou estudante, logo, não houve ferimento do código de conduta. Em segundo lugar, você já não é mais minha paciente desde que sua ferida sarou. Agora é minha hóspede. Hóspede e amiga. – ela me olhava, quase sorrindo.
–Eu não sei por que, mas não consigo te ver além desta forma. Parece errado.
Toma, infeliz.
–Eu sei por quê.
–Diz então.
–Porque você faz pose, se mostra cheia de atitude, mas no fundo é só uma menina envergonhada, medrosa e birrenta. – devolvi com escárnio.
–É assim que você me vê?
–Sim.
Ela se aproximava mais com seus lábios, e eu tentava manter-me firme. Mas nem sob sacrifício conseguia mais tirar os olhos deles.
–E você é um médico teimoso, rabugento, arrogante e de boca suja. – ela já quase encostava em mim.
Por fim, o inesperado aconteceu novamente.
Seus braços abraçaram meu pescoço, e ela colou os lábios nos meus. Seu batom era forte, mas misturou-se perfeitamente com o gosto do bolo e das cerejas. Estava uma delícia, assim como da primeira vez. Ela me pegou desprevenido e começou a chupar meu lábio superior, o que me deu total acesso para retribuir ao seu inferior. Pelo menos dessa vez não fui otário. Agora, ela parecia um pouco mais desinibida do que no primeiro beijo. Já deixava eu brincar com sua língua, e ela da mesma forma retribuiu.
Algo me dizia que aquilo ia longe...
No calor do momento, não sei se ela quis levantar ou se foram minhas mãos na sua cintura, mas ela sentou na minha perna e não parava de beijar. Minha hóspede estava decidida e com desejo. E gostosa. Estava sendo longo, se comparado ao primeiro. Eu também dei uma canseira nela. Não queria terminar, estava muito gostoso.
Seu pé, de propósito ou não, encostou no meu e o atrito dos nossos corpos deixou ela arrepiada e corada.
Pena que logo terminou. Senti pela minha calça, agora apertada, que eu estava gostandodemais.
–O que me diz agora? – ela me encarava, olhos nos olhos, boca na boca.
Eu fiquei tipo um babaca. Sem reação com uma mulher, pela segunda vez na vida. A primeira foi quando eu quis o primeiro beijo seu. Pensei em agarrá-la de jeito ali mesmo, na cadeira, mas é claro que não faria isso. Iria colocar tudo a perder. Com ela, as coisas tinham que ser diferentes. Eu queria tratá-la diferente. Porque ela definitivamente não era como as outras garotas vadias da cidade.
–Não brinque com fogo se não quiser sair queimada. – sussurrei quando terminamos.
Ela voltou para a cadeira, e riu, recuperando o fôlego. Usou sua língua para tirar o gosto dos meus lábios dos seus, só pra me torturar mais um pouco. Já eu, disfarcei minha situação levantando para lavar nossos pratos. Precisava mesmo me recompor. Entrei no banho e demorei, enquanto ela se trocou ali mesmo, na entrada da cabana. Quando voltei, já estava sentada na cama.
–Já vai dormir? – ela nem esperou eu sair direito.
–Não.
Claro, estava perturbado demais para isso.
–Vai fazer o que? – perguntava, me encarando curiosa.
–Vou estudar, tenho prova.
–Hmm, que chato.
–É, são as penúltimas, se tudo der certo.
–O que vai cair? – ela levantou e veio bisbilhotar meus livros. Fechei rápido o que estava aberto, e parti para outro.
–Tudo.
–Tudo? E você está nesta tranquilidade? Que merda, Edward.
–Eu sei, não lembre. Não preciso de mais pressão. – cocei a cabeça, bagunçando meu cabelo todo.
–Bem, eu vou dormir então. Feliz aniversário de novo. Edward.
–Boa noite. E obrigado pelas surpresas. –a olhei por cima dos óculos, ainda sem digerir o acontecimento.
Ela beijou minha cabeça, pela primeira vez, e eu a dela, como de costume. Curto e grosso. Fiquei tão cabreiro que não consegui comentar mais nada sobre o beijo naquela noite. Nem ela perguntou, deve ter percebido que fiquei confuso.
Estudei, enrolei, escrevi no relatório e aquele beijo não saía da minha cabeça, que agora explodia de tanta dor. Rabisquei no livro alguma palavra impronunciável, e fui arrumar meu canto para dormir. Ela já estava toda esparramada na cama, no milésimo sono. Eu demorei para pregar os olhos, mas fui vencido pelo cansaço do dia.
Foi outra uma noite atípica.
Outro susto. Agora, com maior intensidade.
Às cinco da manhã em ponto, ela acordou.
Pelo reflexo da claridade da lagoa vi que estava pálida, gelada, ofegante, e mal conseguia respirar. Tinha dificuldade para puxar o ar e nem podia beber água. Tremia sem parar. Aquela cena me deixou transtornado. Ela estava no auge de uma crise, e não havia muito que fazer.
–Primeira coisa, fique calma. Sente frio?
Ela continuava tremendo, sem respirar direito, e balançou a cabeça.
Era o momento mais impróprio para uma queda de energia, mas aconteceu. A luz não funcionou, e não consegui achar o lençol a golpe de vista para cobri-la.
–Não tenha medo. Faça o que eu mandar. – Sem pensar muito, tirei minha camisa e sentei com ela na cama. – está tudo bem, só precisa imitar a minha respiração, ok?
Ela balançou a cabeça e eu a sentei entre minhas pernas, a segurando por trás. – Pega o ar pelo nariz e solta pela boca. – encostei seu corpo no meu para que ela repetisse a frequência.
Ficamos assim por longos minutos. Certificava-me a todo momento se estava acompanhando.
–Feche os olhos e relaxe comigo. – sussurrava em seu ouvido, respirando sempre juntos. – isso, não para.
– Minha cabeça dói. – ela disparou depois de algum tempo, quando parecia mais controlada e já solta dos meus braços.
–Calma. – ainda segurava sua mão enquanto o dia amanhecia – vai passar, estou contigo.
–Edward! Eu lembrei! – Ela falava entre suspiros, como se tivesse visto uma luz.
–Lembrou de que?
–Meu nome, Edward! É Isabella!
Isabella.
Ela começou a chorar, e eu a puxei em um novo abraço, de frente, confortando minha hóspede, que agora tinha um nome.
–Não consigo lembrar de mais nada! – ela me olhava murcha, decepcionada consigo mesma.
–Já é um grande avanço... Isabella. –fazia carinho em suas costas.
–É Bella.
–Olha, eu tenho uma coisa pra te contar. – continuei falando, enquanto ela chorava encostada em mim. Sabe-se lá se por susto, medo, alívio, ou tudo junto. – Eu tenho uma pessoa de confiança, já comentei contigo sobre ele. O Dr. Carlisle. É um médico por quem colocaria as mãos no fogo, e amigo pessoal. Contei sobre você e ele disse que vai te ajudar. A partir da semana que vem você vai pra vila comigo, está bem?
–Pensei que não tinha mais jeito, que eu era um caso perdido. – ela afogava o rosto no meu ombro.
–Você acha que eu menti pra você? É claro que tem jeito... só precisava da hora certa para falar, e foi agora. Ele só não sabe onde nós estamos.
–Minha cabeça... ainda está doendo.
–Deita aqui. – tive que ficar apertado com ela na cama de solteiro. – Vamos fazer aquele exercício que lhe ensinei? Feche os olhos e pense no nada.
–Edward... não dá, não sei pensar no "nada".
–Pense somente em coisas positivas. Memórias boas.
–Mas todas são recentes, e contigo.
Aquilo me fez sorrir em silêncio.
–Não tem problema.
–Não sei qual escolher.
Eu sorri novamente, lisonjeado.
Então imagine que estamos sentados na Twilight de novo, olhando a paisagem. Não deixe as memórias ruins, como a briga, atrapalharem. Veja tudo como um filme, em silêncio. Daqui a pouco eu te aviso para parar. Só pense nisso, tá?
–Tá bom...
O que deveria ser um exercício para relaxar acabou servindo como atalho para ela conseguir pegar no sono novamente. Chamei mais de uma vez e Isabella não respondeu. Eu não podia levantar ou ela iria acordar, então ficamos ali, deitados, ela abraçada comigo, até a manhã clarear de vez.
Foi a primeira vez que na prática dormimos juntos.
A circunstância podia até não ser boa, mas ficar junto dela sempre trazia uma sensação enorme de paz.
Isabella definitivamente despertava um lado desconhecido em mim. Nunca poderia imaginar que um dia pudesse vir a gostar de confortar uma garota e de senti-la dormir em meus braços, sem segundas intenções. Talvez por isso goste tanto sua companhia. Não serei hipócrita de negar que sua beleza natural e óbvia também ajudavam a chamar a atenção. Mas o que realmente me cativou foi seu coração. Puro, honesto e único.
Ela acordou antes de mim, às nove e trinta da manhã. Olhou-me enquanto acordava, e resolveu me chamar também.
–Edward... acorda, sua hora. – ela olhava para cima, na direção do meu rosto, e me cutucava sem parar. – Edward... anda, vai se atrasar.
–Que horas são?
–Nove e meia, levanta logo.
–Primeiro você, está em cima de mim. – falei ainda rouco, sonolento, e ela deslizou para as almofadas no chão.
Acabou minha felicidade.
–Levanta. – ela foi preparar o café, vendo que eu estava mole para acordar.
–Já vou... – levantei logo em seguida, e fui direto para o banho frio. Tinha que acordar antes de pegar a Harley.
Ao terminar, ela já havia colocado o café. Peguei o pão dormido e sentei ao seu lado.
–Melhor?
–Sim.
–Isa...bella. Seu nome não podia ser mais apropriado. – sorri para ela, mexendo com seu joelho.
–Já estava acostumada com "Mary". – ela confessou, enquanto as bochechas coravam.
– Bem, continuará como Mary fora daqui. É mais seguro, por enquanto. – sugeri.
–Pode ser... droga, eu só queria lembrar. Queria ter lembrado mais. – ela apertava a cabeça entre as mãos.
–Dê tempo ao tempo. Nem começou as consultas com o Dr. Masen e já lembrou de algo importante... então relaxa, você vai lembrar do resto.
–O que eu vou fazer no seu trabalho?
–Nada demais. Vai conversar com ele algumas horas por semana, fazer alguns exames de novo na sexta. – pisquei.
–Eu não quero ninguém me furando. – ela balançou a cabeça.
–Ainda tem medo?
– Não me importo em ver meu sangue. Mas odeio seringas. – ela fez uma careta.
–Como assim? Até entendo o lance da seringa, mas seu sangue você vê todo mês... – ri sarcasticamente.
–É diferente. – ela virou os olhos.
–Ok. Se quiser, eu mesmo repito seus exames lá.
–Tá. – a tensão deixou seu corpo, o que me fez curioso.
–Não tem medo comigo?
–Não.
– Então você confia em mim. – falei em vez de perguntar.
– A esta altura, acho que sim. Não conheço mais ninguém pra confiar mesmo.
–Combinado então. – eu ri. –Eu mesmo vou te furar. Bom, tenho que ir. Vá ouvir uma música, ler um livro... mantenha a mente trabalhando enquanto estou fora. Volto de tarde.
–Tudo bem, eu vou fazer isso. Obrigada por tudo, Edward.
–De nada, Isabella. – me aproximei para beijar seu rosto, mas ela se precipitou e beijou o canto da minha boca. Novamente. Um beijo rápido e confuso, pra variar. Já não sabia se ela era ruim de direção ou se fazia intencionalmente, e porque, já que deu para trás quando eu a beijei. Seja como for, eu já estava gostando do seu jogo. – Adoro você. Hoje te levo para almoçar, tá?
–Tá. Boa prova.
E assim se arrastava a manhã. Eu, terminando a prova, indo à Clinica e atendendo um adulto que enfartou. Sem mortes, pelo menos naquele dia, comentei com o Dr. Masen. Quando ficamos a sós, comentei do progresso que Isabella teve naquela noite, lembrando-se do nome. Ele ficou esperançoso de que ela teria uma boa recuperação caso tivesse o tratamento adequado, e chamou minha atenção novamente por não ter contado antes. Concordamos que seria menos arriscado nos referirmos a ela por seu falso nome ainda.
8. SURPRESAS (PARTE II)
No meu retorno, Isabella estava desanimada. Fomos comer algo mais caseiro em outro restaurante isolado na serra, e ela mal tocou na comida. Pedimos para trazer pra casa. Voltamos logo para a cabana, onde nos trocamos e acabamos de comer.
A tarde parecia ter esfriado um pouco.
–Tenho uma pergunta.
–Sim? – ela brincava com seu macarrão no prato, enrolando para comer.
–Quando você recuperar tudo... vai me deixar fazer parte?
–Que raio de pergunta é essa?
–Continuaremos amigos?
–Edward, já falamos sobre isso. Você salvou minha vida. Acha isso pouco? Sempre serei grata a você, seremos eternos amigos. – ela reforçou a palavra. Não foi exatamente o que eu queria ouvir, nem exatamente o que eu queria perguntar. Ao menos tive uma ponta de esperança renovada. Ela não iria se afastar.
– Acho bom. – sorri, percebendo que ela ainda estava desanimada.
– Isabella. – falei algo em francês que já ouvi em uma música, "Ne Me Quitte Pas". Ela franziu a testa, sem entender. Eu continuei, cantando.
Jusqu'aprè ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
–Por um acaso está me xingando?
–Não, isso eu faço na nossa própria língua. – tentei rir, mas fiquei foi incomodado com sua apatia. Foi então que propus algo que deveria agradá-la.
– Agora que sabe seu nome, por que não jogamos alguma coisa?
–"Verdade ou Consequência?"
–Está bem, vamos... – ela me olhou com certo interesse e surpresa por eu ter topado.
–Sério? Ótimo! –do nada parecia outra pessoa. Sentou no chão de pernas cruzadas e eu também, de frente para ela.
De repente, vacilou.
–Mas espera... não podemos jogar isso mais.
–Por quê?
–Você não terá o que me perguntar. Eu não tenho respostas... – olhava com tristeza para os pés.
–Você nem sabe o que vou perguntar, boboca. Você primeiro. Verdade ou Desafio?
–Verdade.
–O que você mais gosta de fazer?
–Acho que é de ouvir música. – ela disse, reflexiva. Agora começava a mudar de humor, mais uma vez. – Você. Verdade ou consequência?
–Verdade.
–Já ficou sem reação na frente de alguma mulher? – ela sorria enquanto perguntava, balançando as pernas no chão como se estivesse se aquecendo para algum exercício de ginástica.
–Muito pessoal, passo.
–Você não disse que tinha regras. Responda! – ela me cortou.
– Já fiquei. Verdade ou desafio?
–Verdade. –ela levantou a mão na frente da boca para sorrir.
–Já ficou confusa em relação aos seus sentimentos? – porque eu era gentil, mas sabia muitobem como retribuir na mesma moeda.
–Eu não lembro...
–Lembra sim, estou falando da atualidade. Responda! – imitei seu tom de interlocutora mandona.
– Já. –ela franziu os olhos. Estava um pouco sem graça, reparando no rumo pessoal que a brincadeira tomou. – Verdade ou consequência?
–Verdade.
–Está namorando alguém? – ela pensou tolamente que, com esta pergunta, estaria se desviando do lado pessoal. Pobre Isabella.
–Não sei – dei de ombros, e ela balançou a cabeça, virando os olhos com cara de nojo. – Verdade? Ou desafio.
–Tá. É... verdade.
–Está namorando alguém?
Strike. Ela corou.
–Não. – hesitou em responder, mas falou toda séria. – Ok, na segunda rodada precisamos de consequências.
–De acordo. Mas prefiro chamar de "desafio".
–Não dá no mesmo?
–Dá, mas a conotação da palavra... é mais radical. Eu gosto assim, um jogo sério. De adultos. – pisquei.
–Que seja... -revirou os olhos - Verdade ou desafio?
–Verdade.
–Já teve um caso com alguma paciente?
–Além de você? Nenhuma. – strike duplo – Meus pacientes são na maioria crianças e idosos. – ri tragicamente.
–Nós não temos porra de caso nenhum. – começou a fazer bico.
–Certo. Erro meu. – levantei as mãos em sinal de redenção, como se ela fosse uma ladra tentando arrancar minha retratação. - Uma pergunta por vez, agora é você. Verdade ou desafio?
–Verdade.
–O que deu em você para me beijar ontem daquele jeito? Quando eu quero, você sempre sai pela tangente.
–Ok, o jogo acaba aqui. – ela já estava prestes a levantar, sem graça.
–Não! – a puxei de volta para o chão. - Não acaba não. Vai ter que falar.
–Bem, eu... eu queria experimentar.
–Hum, prossiga. – cruzei os braços, ouvindo.
–Na primeira vez que você me beijou... – ela corou terrivelmente, tão bonitinha - eu estava surpresa, e acho que não me permiti experimentar a mesma sensação, não da maneira como eu queria. Digo, como eu podia – ela se consertou rápido demais. – Você sempre me surpreende... e eu queria te surpreender também.
–E achou que só poderia fazer isso se me beijasse assim? – me engana que eu gosto, pensei comigo em silêncio.
–Quis fazer assim porque era seu aniversário. Foi a única surpresa que eu poderia dar. Achei que te chocaria. – ela ria, cuidadosamente escolhendo as palavras para não se trair ou entregar que ela beijou porque queria e ponto final. – Verdade ou desafio? Depois dessa, não vale mais repetir. – sua face queimava.
– Verdade.
– Por que você não... – ela desistiu da pergunta, e soltou uma risadinha debochada. – Já nadou pelado ali? – apontou com a cabeça para a lagoa.
– Já, quando era mais novo... que pergunta é essa? – ri da sua falta de criatividade e aleatoriedade. – Última vez. Verdade ou desafio?
–Verdade.
–Você se imagina entretendo crianças ou mesmo trabalhando com elas?
–Crianças são legais. Sei lá. Por que essa pergunta? – seu rosto formava um grande ponto de interrogação.
–Nada, você se comporta como uma. Às vezes.
–Cala a boca... – ela virava os olhos.
–Então, desafio.
–Aceito.
Foi exatamente quando nos perdemos no jogo.
–Quero te beijar, em retribuição a ontem.
–Não aceito!
–Não vale mais, minha cara. Jogo é jogo, e não tínhamos regras. – pisquei para ela, maliciosamente.
Pronto.
Era melhor deixar tudo em pratos limpos, como diria Dona Stephenie.
Ninguém mandou me provocar.
Estava mesmo passando da hora de saber qual era a daquela garota.
–Isso é abuso. –seus olhos ardiam de raiva e me xingavam pelo desafio audacioso. - Desafio.
–Aceito.
–Vai nadar agora na lagoa, para apagar esse fogo. – ela falava em tom de repreensão.
–Deve estar um gelo, não vou.
–Bem, então não vou te beijar! – ela anunciou.
–Peraí... está dizendo que se eu entrar ali, você me beija?
–Beijo. – ela bufou antes de concordar.
–Ok, trato. Vem aqui que depois eu entro na água. – cheguei mais perto dela, rindo.
–Não! – ela se afastou para trás. - Primeiro você entra, e depois eu te beijo.
–Ah, Isabella! Deixa de ser cínica! Vai me enrolar que eu sei. Então vamos fazer um trato. Você fica ali perto e nos beijamos ali fora. Pode ser?
–Ok, assim pode. – ela balançou a cabeça freneticamente.
Dois ansiosos, mas eu já sabia o que ia fazer.
Levantamos e saímos para perto da lagoa. Fui na frente, e Isabella atrás. Ela parecia animadinha demais para me ver tomando um banho de água fria. Sentei na beira da lagoa e percebi que ela se afastava.
–Vai aonde, moça?
–Vou ver dali, não quero me molhar.
–Vai fugir, é? - Então toma essa!
–Não! – peguei-a pela perna e ela caiu quase no meu colo, mas ainda estava ao meu lado.
Nos encaramos por alguns segundos e a puxei para a água comigo. Entramos juntos, e ela estava com aquele biquinho lindo de zangada.
–Está f-f-frio. – ela tremia arrepiada na minha frente.
–Você que inventou.–a olhei e ri. – Vai esquentar.
–N-não vale assim. –ela falava baixo e tremendo, me olhando bem de perto, enquanto eu andava com ela para trás, a pressionando levemente contra uma parede de pedras.
Ela não disse absolutamente mais nada. Me olhava sem piscar, querendo se esquivar das minhas mãos, que estavam acima dos seus ombros, na parede, sem deixar espaço para ela escapar.
– Agora estou com medo.
–De que? Não precisa fugir. Desafio.
– Aceito.
E porque eu estava totalmente sem vergonha naquele fim de tarde, não iria frear.
–Me abraça para nosso frio passar.
–Só um pouco.
Ela me abraçou. Eu a abracei pela cintura. Ficamos ali. Sem falar nada. A água estava realmente gelada, mas tolerável. Ela colocou a cabeça sobre meu ombro, e eu fiz o mesmo no dela. Não era um simples abraço, também não era nada ousado. Ela simplesmente sentia a minha presença, e eu, a dela. Não era mais preciso pedir desculpas, ela me entendia e eu a entendia.
Em todo caso, ainda havia uma barreira entre a gente. Além das roupas, é claro. Era sua constante hesitação em se envolver. No início achava que era medo de mim, depois, por não saber quem ela mesma era. Agora já não sabia mais nada.
No fundo, ela não queria se machucar. Eu era seu único e fiel amigo.
–Tá passando. – eu disse, depois de alguns minutos.
–Um pouco.
–Isabella – ela me olhou quando a chamei. –eu só quero te ver feliz. Seja feliz.
– Edward, eu... – seus olhos ainda eram apertados, de frio.
E assim aconteceu novamente. Interrompi sua fala ou nunca mais sairíamos daquela água gelada. Isabella me permitiu trazer seu corpo junto ao meu e, novamente, unimos nossos lábios. Puxava seu lábio inferior com insistência. Ela fechou seus braços no meu ombro e me abraçou o tempo inteiro. Inclinei meu rosto para encostar na sua face, e foi o suficiente para ela abrir os lábios, deixando eu guiar nosso beijo. Sua língua se uniu à minha, e em certo momento começou a massageá-la. Sua respiração saiu levemente do controle, então ela mudou o rosto de lado comigo. Senti que seu corpo foi logo aquecido pelo meu. E vice-versa.
Tão fácil, e tão difícil.
–Isabella. – parei nos seus lábios para falar.
Mantive a testa colada na dela, e os olhos na sua boca, em forma de coração. O coração gelado mais gostoso da minha existência.
– Eu preciso confessar uma coisa.
–O que?
–Eu adoro seus lábios. – revelei, acariciando seu pescoço com meu nariz.
– Por favor, não torne as coisas piores pra mim... – ela olhava para o lado, soltando uma risada triste.
–Como assim? – continuamos abraçados.
–Estou ridiculamente confusa contigo. Me sinto uma idiota.
–Você realmente é confusa. E está me deixando confuso com sua confusão. Por que se sente idiota?- ri junto com ela, aproximando meus lábios do seu.
–Você é um insistente do cacete... – ela afastou mais o rosto do meu. – Eu não sei o porquê.
–Bom, não tenha pressa para entender. Como já mencionei, eu geralmente consigo o que quero. De um jeito ou de outro. – olhava fixamente em seus olhos. – E eu vou te esperar, porque não quero mais ninguém.
-Isso é uma droga.
-Por quê?
-Porque acho que é a coisa mais profunda que alguém já deve ter me falado. – ela riu e suspirou novamente. – então te peço uma coisa.
–O que quiser.
–Não quero correr com as coisas. Pega leve comigo. Eu sinto como se isso fosse algo totalmente novo para mim... estar com alguém. Não sei se já estive tão próxima de alguém antes.
–Ok, entendo. – sorri para dar segurança a ela. Eu sempre tive a impressão de que ela nunca havia ficado com nenhum cara antes. – Isabella, eu não vou mais te beijar, a não ser que você queira. Isso é uma promessa.
–Não, ok, tudo bem. Por enquanto podemos ficar apenas como... dois bons amigos que eventualmente se beijam?
–Podemos, Isabella. "Eventualmente". – eu ri com sua proposta, e pelo fato de que nós já estávamos nesta situação há alguns dias e só agora ela dizia isso. – Contanto que você não fuja de todos os meus beijos...
–Não vou fugir de todos. Só de alguns. – ela olhava para mim como se estivesse prometendo algo fatal.
–"Só de alguns". – eu ri - Vou esperar as coisas ficarem mais claras para você. – me aproximei novamente. – Desejando que esse "eventualmente" de repente vire um "frequentemente". – fiz uma careta, e ela sorriu.
–Tá bom. – ela balançava a cabeça concordando.
E deixou acontecer... de novo.
Encostei nos lábios entreabertos de frio, e beijei aquela boca com mais calma do que da última vez. Ela parecia mais confortável agora. Seus olhos passivos ainda me encaravam no silêncio, e tudo que eu sabia era que ela estava gostando, pois sua pele estava arrepiada novamente e ela... suspirou?
Foi quase um gemido.
Logo relaxou e se deixou perder pelo momento. Ela colocou suas mãos nos meus cabelos, brincando com os fios molhados como se estivesse descobrindo uma nova textura qualquer, enquanto me beijava. Seus lábios eram tão macios que não tinha vontade de correr. Concedi-lhe o beijo mais carinhoso e gostoso que já tive, em troca do mais puro e sincero que ela poderia me dar. Isso nunca teria funcionado com outra mulher. Só com ela. Qualquer uma já teria dado o que eu queria, e eu já teria trepado nas chances há séculos.
Mas Isabella era diferente.
E eu precisava ser diferente para ela, também.
Só ela me trazia calma e paz de espírito.
–Edward... – ouvir meu nome sair dos seus lábios assim, ao meu ouvido, me deixou completamente atordoado.
Interrompemos o beijo novamente para ela falar. Eu a olhei, perdido na profundidade dos seus olhos.
–Que foi?
–Se eu descobrir algo ruim nas próximas semanas... não me deixe... – seus olhos estavam úmidos, e não era pela água. Senti que ela queria chorar, e brigava com as lágrimas. – por favor. – ela sussurrou.
–Não vou te deixar, Isabella. Não precisa pedir. Nem quando minha família voltar. Já te disse que não sairei daqui.
Instintivamente, abracei-lhe mais forte do que nunca. Queria que ela tivesse certeza que estava pisando em solo seguro ao meu lado. Acima de tudo, fiel.
–Serei o que chamam de "seu amigo para a vida toda". – eu sorri.
Ela sorriu como só fizera uma vez. Vi vários dentes seus de uma só vez e aprovei, dando mais um selinho demorado nela.
Antes, eu tinha receio de não vê-la mais quando recuperasse a memória. Agora, ela que pedia para não deixa-la. Parece que o jogo virou.
–Podemos... – ela interrompeu mais um beijo.
–Que foi?
–Quero sair, está ficando frio de novo.
–Tá...vamos lá. –a soltei e saímos da lagoa.
Como se nada tivesse acontecido.
Fizemos nosso caminho para a cabana, calados. Ela entrou logo no banho, quieta, culpada, olhando para baixo. Não engoli aquela história, e acabei ficando com a ligeira impressão que o problema não era somente o frio.
Ela estava era gostando do beijo.
Sua respiração excitada e carinho na minha nuca assim me disseram.
Gostou demais, eu diria.
E eu, queria mais ainda.
