8. The Black Emerald

They wait for me back home

They live with eyes turned away

They were the first ones to see

They are the last ones to bleed

- Nightwish

Sirius tinha esquecido muitas coisas ao longo dos anos. Esquecera da voz de algumas pessoas, das próprias pessoas, tinha esquecido de como era pisar nas folhas secas de outono que formavam um tapete ressecado vermelho e alaranjado no jardim atrás de sua casa, no Largo Grimmauld, do calor enlouquecedor que fazia nos corredores de Hogwarts no meio do verão, agora que morava numa cidadezinha em que a temperatura podia chegar no máximo a quinze graus, ao meio-dia. Tinha esquecido como costumava achar estranho, logo que se mudara para aquela casa, as sombras horríveis que as paredes projetavam umas nas outras. Era provável que fosse por ele ter a mente inventiva de um garoto de apenas dezessete anos, mas aquelas paredes vazias, brancas e invadidas de repente pelo negro da noite na verdade pareciam estar tentando lhe dizer: Está vendo? Não há ninguém atrás de nós, ninguém dormindo nos outros quartos e ninguém vai estar na cozinha quando você acordar. É somente o vazio, Sirius, essa é sua vida agora. Aceite isso.

Quando tentava lembrar do rosto de seu pai, via somente os olhos e as sobrancelhas, como se ele fosse um personagem num sonho esfumaçado que tivera durante o intervalo entre uma aula e outra e que fora interrompido bruscamente pela sineta.

Mas mesmo que tentasse – e Sirius de fato não preocupava-se nem um pouco tentando – não esquecia da horrível sensação que tivera naquela biblioteca escura de Hogwarts, há sete anos atrás. Há sete anos atrás, Belatriz perdera aquilo que as pessoas gostam de chamar de orgulho, sem se dar conta de que existem casos em que o orgulho é somente o nome mais suave que a gente dá para a indiferença.

Era o caso de Belatriz.

Desde que podia se lembrar, Sirius passara a vida imaginando como seria se Belatriz um dia o odiasse, ou amasse. Ou olhasse em sua direção e emboçasse alguma reação, ainda que fosse a de revirar os olhos para o teto, como Narcisa gostava de fazer quando alguém lhe perguntava algo que não sabia responder para que as pessoas se sentissem mais ridículas do que ela. Naquela noite, enquanto as mãos de Belatriz desciam pela sua virilha e apertavam suas coxas, enquanto ela lambia sua garganta, como se quisesse tranqüilizar o coração dele, que parecia ter subido um palmo no corpo; enquanto as pontas dos pés de Belatriz pressionavam o chão, impulsionando o corpo contra o dele tão cuidadosamente que doía, e Sirius respirava o cheiro do medo misturado ao suor dela, tão forte que o levava a creditar que estava ouvindo longe o estalo das estantes velhas e imaginar Argo Filch os espreitando na escuridão, ou a sombra de sua gata debaixo de uma mesa; enquanto ouvia o rumor da saia dela no seu jeans e o ranger da cadeira - enquanto tomava consciência de sua extraordinária façanha – uma agulha foi penetrando fundo em seu peito e fazendo um gosto ruim subir até sua boca.

Então, como se tivesse levado um baita soco no estômago, Sirius compreendeu a insignificância de suas vidas. Eles eram sozinhos, todos eles, e mesmo que essa solidão fosse invariavelmente abafada pela matéria no quadro, pelo vapor do leite quente no café da manhã e pelas conversas, pelos meses que tinham de férias, por algumas revistas e acontecimentos corriqueiros do dia-a-dia sem conflitos, tampouco paixão, ela vinha de vez em quando para os lembrar que, no fim das contas – ali mesmo, com Belatriz em seu colo –, eles eram sozinhos. Desolados.

Sirius estava deitado de costas na cama, vagamente acordado, olhando o céu escurecer cada vez mais até atingir um tom opaco de roxo, quando escutou a solidão deslizar ao seu lado e o cutucar. Ela o acordou mais ou menos umas nove horas, pediu para que vestisse uma camisa e saísse. Sirius obedeceu, porque quando ela aparecia, geralmente vinha junto com mais alguma coisa: raiva, desespero, ou simplesmente sede.

Ele foi ao único lugar em que tomar uma cerveja amanteigada ou um White Label dava no mesmo, porque se você pedisse eles podiam dar um jeito de fazer com que o teor de álcool de uma cerveja amanteigada chegasse a ser o mesmo de um White Label, sem que o preço sofresse alteração.

Cotswolds, a menor e nem por isso mais tranqüila vila de trouxas que Sirius já vira, costumava, àquela altura da noite, estar deserta. Entretanto, o jazz escapava docemente por algumas janelas protegidas por telas, as pessoas compravam coisas como vinho do Porto na Eagle Liquors e uma mulher fumava encostada no muro do canal, enquanto seu cãozinho ridículo corria na rua latindo para o paralelepípedo e um homem aparava seu minúsculo gramado com grande capricho. Ninguém duvidava que aquele homem não estava cortando a grama, ou que ele fosse na verdade um bruxo sacana metido com contrabando de bebidas trouxas e, muito menos, ninguém sonhava que aquele aparador de grama ruidoso cuja tinta descascava pudesse conter um detector de menores de idade. Twooney tentara confiscar dele aquele maldito cortador de grama depois da máquina ter disparado feitiços colantes na noite do festival que comemorava os seiscentos e setenta e dois anos da igreja local, quando um grupo de turistas irlandeses cheio de crianças passou pela rua, e o Ministério mandara quase todos os seus homens para apagar a memória da vila inteira e procurar o grupo de turistas que voltara para casa com suas bocas grudadas como se tivessem comido cola.

Sirius se perguntava onde iria morar se fizesse alguma besteira naquela vila e o Ministério o despachasse, quando a porta atrás do bruxo com o cortador de grama se abriu e Twooney meteu a cabeça para fora apenas um pouco, evitando exibir demais sua careta marcadas por meia dúzia de xis.

"Desencante essa coisa, Alísio," disse Twooney. "Hoje é noite de jogo, a casa deve encher de marmanjos."

"Minha função é evitar isso," replicou Alísio por cima do ombro, apoiando-se no cortador de grama como se quisesse abraçá-lo.

"Jogo?" Perguntou Sirius.

"Final," disse Twooney, encarando as costas de Alísio. "Bulgária e Noruega."

Sentado ao lado de Stanley, o Grandalhão, no ângulo do balcão, vendo os noruegueses jogarem fora de casa, Sirius desviava de vez em quando a atenção de seu copo e olhava ao redor. Não havia ali uma única criatura que não tivesse um copo com bebida dentro, não apenas porque quisesse por álcool no sangue, mas porque não queriam perder um só lance no líquido. Seria engraçadissimo para um trouxa entrar no Black Emerald naquele momento e ver um bando de panacas olhando para o copo enquanto uma musica latejava nas paredes e luzinhas coloridas cintilavam no teto. Mas o jogo passou a ficar realmente interessante e Sirius parou de virar para os lados. A Bulgária estava dando um banho na Noruega; rebatia a bola com tal força que ela tomava a forma de um comprimido de Advil. Aos trinta minutos, os batedores da Noruega estavam desarvorados; nos quarenta, estavam loucos para voltar para casa e fazer planos para a noite. Quando Garret Anderson rebateu, sem muito esforço, uma bola alta, e acertou a ponta da vassoura de Martinez, tirando dele a possibilidade de apanhar o pomo e ganhar o jogo sem que a equipe fizesse ao menos um ponto, acabou-se o pouco de excitação que havia nas arquibancadas, motivada por um escore de cento e dez a zero, e Sirius se surpreendeu prestando mais atenção às luzes e aos torcedores do estádio que ao próprio jogo.

Ele observava principalmente os rostos nas arquibancadas – a decepção e o cansaço resignado que se liam em suas fisionomias davam a impressão de que os torcedores sofriam mais com a derrota do que os próprios jogadores. E talvez fosse. Sirius imaginou que para algum deles aquele fosse o único jogo que assistiriam naquele ano. Tinham trazido os filhos, a mulher, tinham saído de suas casas, internando-se na noite, carregados de caixas de isopor para o piquenique na fila. Tinham comprado cinco ingressos baratos que, embora não garantissem uma boa visão do jogo, pelo menos lhes poupavam dinheiro para dar às crianças broches de quatro sicles, comer sanduíches de seis sicles e caramelos de três sicles e trinta nuques, tomar refrescos aguados e picolés grudentos que se derretiam e lhes sujavam os pêlos dos punhos. Tinham vindo para se sentir animados, exaltados, para se sentirem transportados para fora de suas existências com a vitória. Razão pela qual as arenas e os campos de quadribol sempre lembravam catedrais feericamente iluminadas, preces murmuradas e o batimento cardíaco de quarenta mil corações unidos pela mesma esperança coletiva.

Uma vez Tiago lhe contara como se sentira ao presenciar a vitória do Chudley Cannons, depois de mais de cinqüenta minutos de agonia num estádio apinhado e fervente, em que dera a desgraça de ir parar num lugar perto dos refletores e ter passado o tempo todo se esquivando da luz para enxergar o que acontecia no campo, com Lílian se assustando cada vez que o Chudley marcava um ponto e a arquibancada pulava e gritava alucinada.

"Tinha um garoto segurando um sorvete na minha frente," Tiago dissera, "e quando o jogo terminou, o sorvete dele caiu, e eu acho que tive a maior crise de riso da minha vida. Mas eu teria rido mesmo se os refletores do meu lado tivessem explodido, porque é assim que você se sente depois de um jogo em que seu time ganha."

Ganhem por mim. Ganhem. Ganhem. Ganhem.

"Você viu aquelas meninas?" Disse de repente Stanley. Sirius levantou os olhos e viu duas moças de pé no balcão do bar, dançando, enquanto uma terceira cantava, desafinado, "Let me Bleed" – as duas do balcão rebolando e balançando os quadris. A da direita era carnuda e tinha olhos cinza-brilhantes que pareciam pedir que a arrebatassem logo para cama, e Sirius imaginou que ela continuaria bonita por mais uns seis meses. Mas dali a dois anos – era só reparar no nariz – ela estaria gorda e flácida, usando roupas caseiras, e ninguém seria capaz de imaginar que tão pouco tempo antes ela fora capaz de causar tanto desejo.

A outra, em compensação...

Sirius a conhecia desde o sexto ano em Hogwarts – Jamie Parkers, ex-aluna da Lufa-lufa, irmã se Smith Parkers e uma das estudantes mais inteligentes que já passara por Hogwarts, a garota que ele beijara há muito tempo atrás e ainda se lembrava da forma desastrada como a língua dela entrara na sua boca, esbarrando nos dentes e recuando ao tocar na ponta da língua dele como se tivesse recebido uma descarga elétrica, mas já parecendo totalmente adulta, cada centímetro de seu corpo firme e fresco desafiando as leis da gravidade. Observando-a dançar, empinar-se, girar e sorrir, os cabelos longos caindo-lhe sobre as faces como um véu e depois voando para trás quando ela sacudia a cabeça e mostrava a pele leitosa do colo, Sirius sentia um leve desejo ardendo feito uma pequena chama, que brotava dentro dele e não surgia do nada. O desejo emanava de Jamie. Ele circulava entre o corpo dela e o seu, alimentado pela súbita expressão de sua figura suada mostrando que o tinha reconhecido, quando seus olhos de íris azul e prata se cruzaram, quando ela sorriu e acenou com a mão, molhando os lábios como se tivesse ficado com a boca seca de uma hora para a outra.

Ele lançou um olhar às pessoas no bar, os olhos esgazeados enquanto olhavam as moças dançarem como se fossem dádivas enviadas por Deus. Sirius percebia em seus rostos o mesmo anseio que vira nos torcedores da Noruega no fim do jogo, um desejo triste, mesclado à conformação do fato de que iriam para casa sem ter seus desejos satisfeitos.

Jamie passou por cima dos copos e das garrafas para chegar até ele, arrancando exclamações excitadas dos caras no balcão.

"Olá," ela disse animada, a voz tentando se sobrepor à musica.

Sirius tirou as mãos do balcão e as abaixou, afastando-se para trás enquanto Jamie descia para o chão. Ele estava olhando para o rosto de uma jovem de sorriso vago, hesitante. Estava com a mão levantada, protegendo os olhos de uma luz forte que vinha de fora e que Sirius até então não notara. Jamie. Incrivelmente diferente, embora continuasse leve, aérea, dando a impressão de que iria desvanecer-se no vento, sem dar tempo para as palavras se formarem.

"Oi, Jamie. Quando você voltou?"

Ela deu de ombros. "Faz um tempinho. Como vai, Sirius?"

"Bem."

Quando Jamie virou para o olhar, o sorriso iluminando o lado esquerdo do rosto, logo lhe pareceu familiar novamente.

Ela fora uma garota legal, mas solitária. Passava as horas vagas manejando livros e rabiscando em pergaminhos enquanto ele e os outros jogavam nos jardins, molhavam os pés no lago e riam de qualquer bobagem. Depois, na adolescência, passou a freqüentar o mesmo lugar que eles haviam ido alguns anos atrás, um local com vista para as colinas, em Hogsmeade. Ficava geralmente recostada nas grades ou na coluna de uma varanda, esperando o sol se por. Não obstante, não era desprezada, nem considerada esquisita, porque era bonita – agora duas vezes mais bonita do que qualquer mulher no Black Emerald; ora, naquele bar se dava muito maior valor à verdadeira beleza que a qualquer outra coisa, por ser considerada mais improvável que a inesperada entrada de uma freira pela porta.

Após o sexto ano em Hogwarts – mais precisamente depois que ela tivera a coragem de o beijar sem saber como se fazia isso – Sirius passou a ver Jamie com menor freqüência. Um ano depois de ter terminado os estudos, ouviu Lupin comentar que ela havia se mudado para a Irlanda com o irmão. E lá estava ela de volta, os cabelos compridos e mal cortados nas pontas, seguindo alguma moda louca em que se você tentasse manter a aparência mais ou menos descente, era tachado de ridículo, a pele branca feito cal. A luz lá fora, provavelmente o farol de um carro, entrava pela vidraça e se insinuava por sua franja, acendendo seus olhos.

"Quem é sua amiga?" Perguntou Sirius, dando uma olhada no copo. A Noruega tinha conseguido marcar vinte pontos desde que Jamie descera do balcão. Hum.

"Não conheço," Jamie disse. "Só estávamos dançando juntas."

Sirius notou que cada frase sua era pontuada pela respiração ofegante, que soava como um soluço. Ele ergueu o copo e deu um gole. Quando o baixou, a retrospectiva de Martinez marcando o segundo gol estremecia.

Jamie molhou os lábios novamente, deu um risinho, balançou a cabeça e olhou para suas botas gastas. "Minha nossa. Você continua sendo o cara mais bonito que eu já conheci."

"Porque você voltou, Jamie?" Perguntou Sirius.

"Não tinha mais o que fazer lá. Minha mãe conseguiu um espaço para mim no Profeta Diário, não é muita coisa..."

"É mesmo? Puxa, meus parab..."

"É só uma coluna," ela o interrompeu balançando a cabeça. "Não é muita coisa."

"Já é um começo," Sirius comentou.

"Vou escrever sobre os trouxas. Convivi com eles quando estive na Irlanda. As pessoas têm desejado saber mais sobre eles de uns tempos para cá."

Um homem pôs a cabeça para fora do corredor atrás do balcão, olhou para a direita, depois para a esquerda, fitou os dois com os olhos turvos. Sirius o reconheceu como sendo Mulciber, ex-contador em Gringotes. Levara um pé na bunda quando tentara burlar a inteligência violenta dos duendes ao extraviar uma boa bolada para outro cofre. Com seus vinte e oito anos, Mulciber lembrava um andarilho, trajando sempre uma capa preta com um capuz que lhe cobria o rosto moreno e mal barbeado. Entretanto, naquela noite ele estava com o capuz puxado para trás e Sirius achou que descobrira a razão pela qual ele sempre escondia o rosto. Ele passava a horrível sensação de alguém que tinha muito pouco na vida.

Os ombros de Jamie se crisparam, como se ela tivesse adivinhado a presença do outro. Quando se inclinou na direção de Sirius, ele sentiu o cheiro acre da bebida em seu hálito.

"Que mundo louco, hein?" Suas pupilas brilharam como navalhas.

"Pois é..." murmurou Sirius. "Você precisa de ajuda?"

Ela riu novamente, depois soluçou.

"Não, não. Não, eu só queria... você foi muito legal comigo, Sirius," ela inclinou a cabeça em direção ao banheiro, sorriu, e por mais que Sirius tivesse consciência de que só fora realmente legal com poucas pessoas, retribuiu o sorriso. "Só queria dar um oi."

Sirius girou o copo distraidamente no balcão, percebendo os leves temores que percorriam a pele dos braços dela. Ela continuou olhando para o rosto dele como se fosse descobrir alguma coisa nele; nada tendo descoberto, desviou os olhos e voltou a olhar para Sirius daí a um segundo. Ela lembrava uma criança pobre no meio de outras com dinheiro de sobra junto do carrinho de sorvete, vendo casquinhas e guloseimas passarem por cima de sua cabeça e indo para outras mãos, dividida entre a certeza de que jamais ganharia nada daquilo e a esperança de que o homem do sorvete lhe desse um por engano ou por dó. Consumindo-se por dentro, presa naquele desejo.

"Se você precisar de ajuda..."

"Eu estou bem, Sirius," ela não deixou que ele terminasse de falar.

"Você está com medo," disse Sirius.

Mulciber pôs a cabeça na porta novamente. Ele olhou diretamente para Sirius e seus olhos não estavam mais turvos.

"O que está acontecendo?" Perguntou Sirius para Jamie sem desviar os olhos de Mulciber. "O que ele quer com você?"

"Ele quem?" Ela fez um pequeno movimento de ombros, e o suor de sua mão umedeceu um pouco a bancada quando ela a tirou de cima do balcão. Parecia prestes a dizer mais alguma coisa, mas apenas coçou o pescoço e fez um sinal para Sirius em direção ao banheiro. "Até qualquer dia, Sirius. A gente se vê por aí. Tenha cuidado, certo?"

"Cuidado com o quê?"

"Com tudo, Sirius. Tudo."

Sirius deu-lhe um sorriso interrogativo. Ela balançou a cabeça como se partilhassem um segredo, então entrou no banheiro e demorou tanto tempo que Sirius suspeitou estar acontecendo uma coisa muito estranha naquele maldito bar.

Belatriz só se convenceu de que Sirius não estava realmente em casa quando subiu até o quarto, após ter caminhado lentamente por toda a casa, e viu a cama vazia e os lençóis vincados escorrendo para o chão. Gostava daquela casa, embora tivesse estado lá uma única vez, logo que Sirius se mudara. Ele tinha dezessete anos na época, e comprara a casa com o dinheiro que Alfardo lhe deixara. A casa era justamente o que o dinheiro podia pagar. Portanto, com um adolescente de dezessete anos morando num espaço minguado, o resultado foi desastroso. Em pouco tempo o cheiro dele havia entranhado de tal modo pelos sofás, toalhas, lençóis e cortinas que dava para sentir de fora da casa. Era o tipo de lugar que você nunca se acostumava; nunca iria achar a garrafa de leite na geladeira, porque ela podia estar em qualquer lugar, quem sabe você devesse olhar debaixo da mesinha de centro, na sala, e os travesseiros estavam sempre espalhados, uns no sofá, no chão ou pela escada, mas nunca na cama. A geladeira cheirava a maçã o tempo todo, porque era a única coisa que havia em abundância na casa, uma montanha de camisas, casacos e calças revertiam o caldeirão de estanho a condição de cesta de roupas, e seria realmente estranho o dia em que você enxergasse o tapete da sala, porque ele vivia coberto de fotos, como se Sirius tivesse aberto um baú cheio delas, o virado no chão e recebido um chamado urgente, as deixando ali, espalhadas.

Eu gostaria de poder passar mais tempo com você, pensou Belatriz enquanto olhava a pequena sala de cima da escada, as figuras nas fotos no chão não passando de reflexos luminosos na superfície das fotos, porque Belatriz não se dera ao trabalho de acender as velas.

Ao acordar no dia seguinte, Belatriz pensaria nos bebês recém-nascidos, no trajeto que eles faziam até a luz, e na duração daquele momento na memória deles. Nas pessoas que eles viam, todas diferentes umas das outras, e nas duas pessoas que eles tinham de fixar na memória e que estariam sempre com eles, os nomes que aprendiam e não esqueciam, a combinação da cores, o caminho de casa, um verso que liam, as letras e os números. Aos cinco anos de idade uma criança já tinha tanta coisa na cabeça que era quase impossível lembrar de tudo. Mas ela lembrava. Aos doze ela se lembraria com dificuldade das roupas que usava aos três. Tanta coisa, tanta coisa para registrar, era comum esquecer de molhar as plantas, de ler a correspondência, todo mundo já esquecera uma vez na vida de entregar um trabalho. Os peixes tinham uma memória que durava cinco segundos, o que há de errado nisso? Mas dificilmente alguém esquece quando mata uma pessoa.

Na noite passada ela estava no escuro – tentando não dormir - sentada sobre a tampa fechada do vaso sanitário e escutando o ruído da água sair pela torneira da banheira enquanto subia lentamente pelas paredes dela, quando Sirius surgiu na porta do banheiro, mais magro do que ela se lembrava, coberto de sangue.

Ele ficou perturbado ao encontrá-la ali e saltou para trás quando ela se levantou.

"O que aconteceu?" Perguntou ela, sem saber o que pensar, dizer ou fazer.

Ele saltou para trás novamente e seu pé bateu na soleira da porta. "Não sei."

"O quê?"

"Não sei."

"Você se... machucou?"

Ele levantou a camisa e Belatriz viu um comprido corte no abdômen, vertendo sangue.

"Alguém tem que ver isso," disse ela, levemente zonza. "Parece sério."

"Não, não," disse ele. "Não é tão profundo. Só que está sangrando muito."

Era verdade. Ela olhou novamente e viu que o ferimento não tinha mais do que dois ou três milímetros de profundidade. Mas era extenso. E sangrava, embora não tanto que pudesse explicar o sangue em sua camisa e em seu pescoço.

"Quem fez isso?"

"Eu não sei," repetiu ele, segurando-se na pia. Olhou para ela, olhos inquietos.

"Onde você estava?"

"Black Emerald."

"Você se meteu em briga?"

"Eu não sei!"

"Você tem sangue por todo o corpo e não sabe como isso aconteceu?"

Ele balançou a cabeça. Abriu a torneira e enfiou a cabeça na pia, bebeu tanta água que levou bastante tempo para que recuperasse o fôlego. "Eu estava lá, assistindo ao jogo, então encontrei uma garota que eu conheci em Hogwarts, nós conversamos um pouco e depois ela foi embora, então eu não lembro de mais nada, apenas de ter entrado pela cozinha e... você aqui."

Sirius estremeceu, baixou a cabeça e Belatriz viu suas costas arqueando enquanto ele vomitava, a camisa molhada de suor marcando cada músculo rígido de tensão.

Era uma das coisas mais estranhas que ela já presenciara. Tinham o machucado – não o matado, apenas ferido –, apagado sua memória e o deixado na porta de casa. Que tipo de gente faria uma coisa tão sem nexo? Talvez quisessem matá-lo, mas Sirius reagira. Era uma hipótese, ainda que mal formulada.

Ele ergueu a cabeça e a fitou, e por um átimo de segundo, olhando para o rosto dele, ela viu o desespero e o medo em seus olhos, misturado ao desamparo da confusão e da dúvida.

Ou então ele tinha matado uma pessoa.

Sirius ficou parado segurando o batente da porta como se este fosse se soltar e cair em sua cabeça, então virou-se e saiu. Belatriz foi atrás. Ele tirou a camisa no corredor e a jogou na pia da cozinha, ficou a olhando, depois a pegou novamente e a atirou sobre a mesa. A apanhou uma outra vez e começou a rasgá-la. Quando soltou a camisa, ela estava em fiapos, um ensangüentado pedaço de pano. Olhou novamente para Belatriz, quase furiosamente, como se ela soubesse de tudo o que tinha acontecido e não quisesse dizer.

Ela olhou nos olhos dele e disse: "Acho que você matou uma pessoa."

Sirius estava com um ar juvenil. Olhos arregalados, rosto pálido como o papel e suado, cabelo molhado despenteado e pingando água e – aquilo era sangue? – sim, sangue.

Onde mais ele estava machucado? O que ele fizera? O que tinham feito com ele?

Sirius precisava dela. Em geral não era assim. E foi então que ela entendeu por que a incomodava o fato de ele nunca se queixar de nada. Quando você se queixa para alguém, você de certa forma está pedindo ajuda, pedindo que a pessoa resolva o que a está incomodando. Mas Sirius nunca precisava de ninguém, por isso ele nunca reclamara, nem depois de ter perdido a família. Mas agora, depois de seis anos sem o ver, ele estava parado a sua frente, cheio de sangue e cheirando a alguma coisa forte como álcool, pedindo em silêncio, desesperadamente, que alguém, por favor, esclarecesse as coisas, ou ao menos mentisse e dissesse que estava tudo bem. Ela não conseguia. Sentia uma vontade danada de passar a mão no cabelo dele, mas não conseguia.

Ele voltou para o banheiro e Belatriz escutou o barulho da torneira girando e da água batendo no chão da banheira. Ela apanhou os destroços da blusa e osarrumou na mesa, os observando, como se eles pudesses lhe dar as respostas. Aspirou impacientemente, atirou os panos na pia da cozinha, abriu a torneira e viu a água tingir-se de vermelho cada vez mais.

Não acreditava que o corpo humano pudesse sangrar tanto. Diziam que ele podia conter de cinco a seis litros de sangue, mas para Belatriz devia ser muito mais. Certa vez, Andrômeda, ainda com cinco anos de idade, estava correndo no parque com outras crianças e tropeçou. Tentando amortecer a queda, apoiou a mão num caco de garrafa que estava na grama. O corte atingiu todas as grandes artérias e veias da mão, e elas só puderam se reconstituir ao longo da década seguinte, porque ela era ainda muito jovem. Quando Andrômeda levantou a mão da grama, o sangue jorrava para o alto e as crianças ao redor gritavam. Em casa ela encheu a pia de sangue enquanto sua mãe chamava alguém do St. Mungus. No St. Mungus, envolveram o corte com uma atadura grossa embebida em um líquido que estancava, e as camadas de tecido ficaram vermelhas em dois minutos. Quando trocaram a atadura, Belatriz ficava observando o sangue da irmã escorrer entre as dobras do lençol. Quando a padiola encheu, o sangue pingando no chão, formando poças, sua mãe começou a gritar tanto que um dos residentes do hospital decidiu passar Andrômeda para o começo da fila. Todo aquele sangue de uma mão.

E agora todo aquele sangue de uma pessoa. Se não fosse de Sirius, então ele tinha de fato matado alguém, porque ela não conseguia ver como uma pessoa podia sobreviver depois de ter perdido aquela quantidade tão imensa de sangue. Belatriz tirou a camisa da pia, esperou a água escoar, afundou-a na água de novo, repetiu o mesmo processo três vezes e em todas as três vezes a água desceu vermelha como o vinho. Na quarta vez desceu rosa, e àquela altura Sirius já saíra do banho e estava em pé escorado ao lado da geladeira, com uma toalha em volta da cintura, olhando para ela já tão calmo que parecia apático.

"O que você está fazendo?"

Belatriz olhou para ele e notou que o corte estava todo branco depois do banho. "Tentando não deixar vestígios."

"Largue isso. Dane-se."

"Eu não sei o que fazer."

Sirius riu. Ele estava rindo. Era espetacular a capacidade que ele tinha de mudar de humor com tanta rapidez. Ele se irritava e você se preparava para acalmá-lo, e então ele ria, como se fosse praxe voltar para casa completamente ensangüentado sem saber porquê, e aí você ficava sem ação, até achando que talvez fosse normal mesmo esse tipo de coisa acontecer, porque ele estava rindo e aquele sorriso era fantástico.

Eram quatro da manhã, e ambos estavam mais despertos que uma criança de oito anos à véspera da manhã de Natal. Belatriz sentia como se seu sangue fosse cafeína.

"O que você está sentindo?" Ela perguntou, se aproximando dele.

"Um puta medo," disse ele, sorrindo.

"Vai tudo se resolver."

"Não," Sirius balançou a cabeça, voltando a ficar sério. Sua pele estava branca e lisa como se não houvesse sangue em seu corpo, ele parecia mais jovem do que realmente era. "Não sei o que fiz, Belatriz. Me sinto um estranho."

Então ela se ajoelhou e beijou a carne em volta do ferimento dele, sentiu o gosto da adrenalina e do medo nos poros de Sirius, e todo o receio de tocar nele foi vencido por aquela subida necessidade de desfrutá-lo, de apertar o corpo contra o dele, o mais estreitamente possível. Ela desabotoou a própria blusa, a língua ainda deslizando pela sua pele. O medo e o álcool tornaram a pele de Sirius meio doce e meio amarga, e ela roçou a língua desde a região ferida no abdômen até a garganta, e pôs a mão em forma de concha entre suas coxas, ouvindo sua respiração acelerar, sentindo o frio da noite que se insinuava por sob a porta de entrada e lhe gelava as costas, levantava seus pêlos e tornava o contato com o corpo dele tão quente que doía encostar. Ela queria que aquilo durasse o máximo possível, o gosto dele, a vontade que de repente ela sentia no próprio corpo e então apertou os cabelos dele com os dedos, colocando a boca no pescoço dele, imaginando que estava sugando, diretamente dele para ela, a dor daquele acidente no Black Emerald. Segurou sua cabeça, apertando o corpo contra o dele, e então ele arrancou sua calça, pôs a boca em um dos seios enquanto ela beijava e acariciava seus cabelos, ouvindo-o gemer. Ela queria que Sirius entendesse que ela sentia um monte de coisas por ele, indefinidas, e que eles eram aquilo, carne contra carne, cheiro, desejo, ódio e amor, sim, amor, porque ela o amava demais agora que sabia que todos os dias, desde que ele nascera, ela corria o risco de o perder.

Ele mordia-lhe o seio, causando dor. Não se importava se ele lhe tirasse sangue, porque ele a estava sugando, precisando dela, os dedos deslizando em suas costas, transfundindo o medo para ela, para dentro dela. Tudo bem se ele lhe machucasse.

Quando começou a freqüentar a casa dele, sua vida sexual foi ficando marcada pelos excessos; ela voltava para Hogwarts coberta de hematomas, de marcas de dentes e dores pelo corpo, literalmente sem forças, num estado de exaustão que imaginava ser o de um viciado entre duas picadas.

Mas a noite anterior – a noite anterior fora, definitivamente, uma verdadeira explosão de paixão, que a deixara extenuada até aquele momento, estendida na cama.

Foi quando ela ouviu a voz de Sirius lá em baixo, e o som da porta fechando, que ela lembrou do que a estava incomodando antes – antes da memória das crianças, antes da lembrança do sexo na cozinha, talvez antes mesmo de ir para a cama quase de manhã: Sirius sabia o que tinha acontecido.

Ela percebeu ainda no banheiro, logo que ele chegou em casa, mas decidiu ignorar. Depois, deitada no chão da cozinha, quando ergueu as costas e as nádegas do chão para que ele pudesse penetrá-la, novamente foi tomada da mesma certeza. Olhou os olhos dele, ligeiramente esgazeados por trás dos cabelos, quando ele a penetrou, levantando os tornozelos dela à altura dos próprios quadris, e ela recebeu suas primeiras investidas com a certeza cada vez maior de que ele sabia exatamente tudo o que acontecera no Black Emerald.

Leu a mente de Sirius enquanto ele movia-se sobre seu corpo com o mesmo vigor que um cavalo de corrida, os músculos rijos e macios ondulando debaixo da pele brilhante de suor, embora os olhos parecessem estar confusos com a repentina presença dela e os acontecimentos daquela noite. Era muito mais fácil vasculhar a mente de alguém quando a pessoa estava com os nervos equilibrados, mas tentar compreender o que se passava na cabeça de Sirius foi quase tão exaustivo quanto fazer amor com ele. Havia um bar, pessoas falando sobre um jogo, luzes fortes, ofuscantes, refletindo em olhos hesitantes e perdidos, uma musica ao fundo, estantes carregadas de garrafas cujo vidro estava coberto por poeira e teias de aranha, e então surgia um corredor, o vulto de pessoas e um galpão escuro. Depois disso apenas fogo e sangue. Belatriz não conseguiu ir mais além disso.

"Estou com fome," disse Tonks enquanto subia na cadeira com dificuldade e apoiava os cotovelos na mesa.

"Apple Jacks ou Sugar Pops?" Perguntou Sirius, meio aéreo.

Tonks era pequena para os seus quatro anos, e crédula demais para este mundo. Dava para perceber isso em sua fisionomia aberta, no brilho de esperança em seus olhos, uma das poucas coisas que herdara de Andrômeda.

"Sugar Pops."

"Saindo um Sugar Pops para a senhorita."

Quando Tonks o viu abrir o armário sobre a pia e tirar, dentre barras de chocolate e outras tantas embalagens coloridas, uma grande caixa laranja de cereal, ficou de boca aberta. "Quantos anos você tem?" Perguntou.

Sirius a olhou enquanto abria a garrafa de leite e o derramava na tigela.

"Você come muita besteira," comentou Tonks.

Alguma coisa estalou lá em cima.

"Escute," disse Sirius, pondo a tigela de cereal e leite na frente dela. "Tem uma pessoa lá em cima, mas ninguém pode saber disso."

Todas as vezes que Sirius tentara conversar com crianças, elas o olhavam com uma seriedade que beirava o medo. Não sabia se estava usando a psicologia certa com Tonks, mas de qualquer forma Belatriz ia acabar descendo e as duas iam se ver. Ao menos era Tonks, e não Andrômeda.

"Por que não?" Perguntou Tonks.

"Porque têm pessoas que não gostam dela."

"Não gostam? Ela é má?"

Sirius sorriu. "Só um pouquinho."

"Foi ela quem fez isso?" Tonks apontou o corte de Sirius, ligeiramente vermelho e esbranquiçado ao redor.

"Não."

Tonks o mirou enquanto mastigava o cereal. "Você gosta dela?"

Belatriz entrou na cozinha enquanto Sirius bebia leite quente e observava Tonks pela borda da xícara. Estava mais branca do que de costume e o sol da manhã fazia seu rosto e pescoço brilharem, cabelos embolados caindo por cima dos ombros, descalça, usando uma camisa de Sirius por cima da calça jeans desbotada.

"Os cabelos dela são bonitos," murmurou Tonks inclinando-se na direção de Sirius como se estivesse lhe contando um segredo.

"É verdade," respondeu ele, agora olhando Belatriz.

"São pretos, enormes, brilhantes. E eu gosto deles."

"Acho que ela está ouvindo isso," ele sussurrou, quando Belatriz abraçou o próprio corpo, embora já não estivesse tão frio.

Tonks mordeu o lábio, parecendo ansiosa e preocupada.

"O que mais você gosta nela?" Perguntou Sirius.

"Os olhos," respondeu a garota tão depressa que dava a impressão de já estar esperando a pergunta. "São calmos."

Sirius descansou a xícara na mesa. "Esta é Ninfadora Tonks," disse a Belatriz, que fitou a garota momentaneamente. "Andrômeda precisava falar com Bubba e a deixou aqui por algumas horas."

Qualquer pessoa que conhecesse Bubba sabia que ele era o tipo de sujeito que quanto mais longe você estivesse dele, mais seguro estaria. Bubba tinha jardins de granada no pátio. Ninguém entrava ali se ele não desse as coordenadas antes. Só os loucos tentavam – porque na casa de Bubba não havia nada que pudesse interessar a pessoas normais.

"Andrômeda esteve aqui?" Perguntou Belatriz. Os olhos dela subiram desde a cicatriz de Sirius até a parte superior do tórax nu. Franziu a testa.

"Você conhece minha mãe?" Disse Tonks.

"Hum," fez Belatriz, olhando para a tigela de Tonks. "Vou querer um pouco disso também."

"Ele tem o armário cheio dessas coisas"

Sirius foi até o armário e pegou uma barra de chocolates. "Sua mãe não lhe dá doces?" Tonks fez que não, e ele entregou o chocolate a ela. "Aposto como também não deixa você comer em cima da cama," disse ele, fazendo um gesto em direção ao teto quando ela negou de novo e vendo-a descer da cadeira, passar correndo por Belatriz, chegando às escadas em disparada, como se temesse que elas desaparecessem caso não subisse depressa.

No terceiro degrau ela parou. Voltou-se para ele depressa e perguntou receosa: "Mas e se eu sujar os lençóis?"

"Se você não sujá-los ficarei desapontado."

Tonks desapareceu tão rápido que o som de sua risada não conseguiu acompanhá-la e ficou ressonando nas escadas.

"Dormindo até o meio-dia, Belatriz?"

"São dez e meia," disse Belatriz, e Sirius sentiu se esfumar toda a camaradagem que voltara ao 'relacionamento' deles com as loucuras que tinham feito na cozinha na noite anterior. Ele sentia que os olhos dela o observavam, mesmo quando estava olhando para Tonks. Observando, esperando e querendo lhe perguntar alguma coisa. Ele se lembrou de sua voz rouca em seu ouvido, quando ela se levantou do chão, agarrou-lhe os cabelos da nuca e murmurou alguma coisa que para ele não passou de um trovejar quente em seu ouvido. Não entendeu bulhufas do que ela tinha dito, mas gostou de ouvir aquela voz rouca que o levou ao orgasmo.

Ele forçou um sorriso. "Você quer comer alguma coisa?"

Belatriz desencostou-se do batente da porta, os pés claros destacando-se no piso escuro. "O que aconteceu de verdade?"

"O quê?"

"A última pessoa que você gostaria de ter visto ontem à noite quando entrou em casa era eu."

Sirius passou a mão pelos cabelos e coçou a parte de trás da cabeça. "Não é questão de gostar ou não de ter visto você. Tem noção de há quanto tempo não nos vemos? Eu estava vivendo a minha vida, Belatriz, só isso. Mas então alguma merda acontece, eu chego em casa e encontro você, depois de seis anos, sentada no meu banheiro, e você me vê encharcado de sangue, sangue que eu não sei de quem é e nem como veio parar em mim."

"Você sabe."

"Como assim?" Ele franziu as sobrancelhas e olhou para a lata de lixo. "Merda, Belatriz, explique-se."

"Por que é que você está tão nervoso?" Disse Belatriz com aquela voz tranqüila que às vezes dava nos nervos de Sirius. "Onde é que você estava ontem à noite?"

"No Black Emerald."

"Tem certeza?"

Sirius tinha certeza. Ele sorriu e olhou-a nos olhos. "Toda a certeza."

"Mas na sua mente havia outro lugar. Uma espécie de garagem ou galpão. Você foi apenas ao Black Emerald?"

Sirius não sabia o que responder a essa pergunta, por isso simplesmente olhou para Belatriz esperando que ela mudasse de assunto.

"Você deu uma olhada no jornal hoje de manhã?"

"Claro," disse ele.

"Você viu alguma coisa?"

"Sobre o quê?"

Belatriz murmurou entre dentes: "Sobre o quê?"

"Ah... ah. Sim," Sirius se virou e apanhou uma maçã na geladeira. "Tinha alguma coisa. Eu posso ter participado de uma decapitação em massa de gnomos promovida pelo povoado de Dartmoor. Já era bem tarde, Belatriz."

"Era. Mas nós sabemos que o caderno dos aurores é o último a ser fechado, porque todo mundo fica esperando as notícias melhores."

Sirius jogou a maçã para cima e a aparou atrás das costas. "Agora você trabalha na imprensa?"

"Isso não é brincadeira, Sirius."

"Esse tipo de atitude não combina com você, Belatriz. Você é uma Comensal da Morte."

Então ocorreu-lhe uma coisa – um detalhe que tinha quase escapado em meio aos acontecimentos: Mulciber. Sirius não sabia porque, mas ao lembrar do rosto daquele homem, sentiu náuseas e largou a maçã na pia. Quando se voltou novamente para a porta da cozinha, Belatriz já não estava lá.

"Sirius, por que você parou?" Perguntou Tonks.

Estavam na esquina da Dorchester com a Hower Street. Olhando-se para o outro lado da rua, via-se o Black Emerald. Olhando-se para o outro lado da Hower Street, via-se viaturas da polícia trouxa com suas luzes no teto ligadas e girando, homens andando de um lado para o outro cercando o bar, que àquela hora do dia parecia apenas uma casa inocente. E na frente da casa, Twooney conversando com um policial, parecendo constrangido.

"Isso está uma confusão, Tonks," disse Sirius, dando meia volta com a garota. "Podemos ir ao lago uma outra hora."

"Ei, Almofadinhas!"

Sirius se virou. Apertou a mão de Tonks com o alívio de ver Lupin e Tiago se aproximando, mesmo que soubesse o que aquilo significava. Eles iam sempre visitá-lo, mas quando faziam isso geralmente iam até sua casa, e não ao Black Emerald. Em primeiro lugar, suas caras estavam tensas e meio pálidas, como se tivessem levado um susto e tentassem se recompor, em segundo, Lílian não estava com Tiago, o que indicava que não se tratava de uma visita e em terceiro, eles haviam acabado de sair dos fundos do Black Emerald sem que a polícia os abordasse e os mandassem ficar do lado de fora das fitas amarelas.

Eles atravessaram a rua e caminharam até a esquina. Como sempre, Lupin estava vestido demais, com um suéter azul escuro por baixo da jaqueta de lona e do casaco comprido marrom que ia até a metade das pernas. Em contrapartida, Tiago vinha com uma blusa de mangas enroladas nos punhos e uma calça jeans escura, as faces tão coradas que pareciam ter sido esfregadas com força. Ele tinha vinte e três anos e podia ser confundido com um colegial.

"Olá, Pontas," disse Sirius. "Aluado."

Tiago parou no meio fio e levou a mão ao peito. A primeira coisa que observou foi Tonks. Agachou-se ao lado dela e Tonks abriu um grande sorriso.

"Eu sou Tonks," disse ela devagar.

"Prazer em conhecê-la, Tonks," disse ele apertando-lhe a mão formalmente. "Aposto como você transforma sapos em príncipes nas horas vagas. É uma menina linda."

Ela olhou para Sirius curiosa e um tanto confusa, mas, ao ver seu rostinho afogueado e o brilho de seus olhos ele percebeu que o encanto de Tiago já estava fazendo efeito.

"Eu sou Tonks," ela repetiu.

"E eu sou Tiago," disse ele. "Esse cara está cuidando bem de você?"

"Ele é meu amigo," disse Tonks. "Deixou que eu sujasse sua cama de chocolate. E não fez questão que eu tirasse os sapatos."

"Não existe melhor amigo que ele."

Não era preciso conhecer Tiago desde quando ele era mais jovem para reconhecer sua capacidade de se comunicar com as pessoas, não importa a idade delas. Desde que saíra do berço, Tiago sempre tivera esse dom. Não se tratava de mesquinharia, fingimento, nem desejo de manipulação. Era uma capacidade simples, mas muito rara, de fazer com que o interlocutor se sentisse como a única pessoa no mundo digna de atenção. Era como se seus ouvidos estivessem em sua cabeça exclusivamente para ouvir o que você tinha a dizer, e como se seus olhos existissem apenas para você, como se a única razão da vida dele fosse o encontro – qualquer que fosse sua natureza – com você.

Sirius às vezes se esquecia disso, até o ver com Tonks. Era muito mais comum lembrar dele como o garoto agitado que não conseguia ficar mais de um minuto inteiro sem mexer no cabelo, um cara descontraído e distraído que dava a entender aos outros que raiva e irritação eram sentimentos que ele conhecia muito bem, mas só os demonstrava em caso de extrema necessidade. Mas Lílian iria se casar com ele. E havia uma razão para isso.

Foi aquele Tiago que sorriu para Sirius quando Lupin disse: "Como vai, menina bonita?"

"Muito bem," Tonks levantou a mão para tocar nos cabelos de Tiago.

"Ela gosta do cabelo das pessoas," falou Sirius.

"Você gosta dessa bagunça?"

"Ora, é só arrumar," disse Tonks.

"É o que as pessoas sempre dizem."

"Como vai?" Perguntou Lupin, parecendo preocupado.

"Bem," Sirius se aproximou de Lupin o suficiente para poder inclinar a cabeça perto da dele e falar sem que as pessoas ao redor ouvissem. "Lupin, o que aconteceu aí?"

"Acharam uma pessoa morta," disse Lupin. "A coisa mais horrível que já vi. Aconteceu entre a uma e quatro horas da manhã. Estão tentando identificar o corpo, parece ser uma mulher. Twooney comunicou ao Ministério, estão todos lá, invisíveis, trabalhando entre a polícia trouxa."

"Mas o que você e Tiago estão fazendo aqui?"

Lupin se afastou um pouco e ergueu os olhos. Sirius achou ter visto pingos negros dentro da íris castanha. Somente então lembrou-se que perdera uma incrível quantidade de sangue na noite passada e as conseqüências estavam surgindo aos poucos.

"Viemos porque você vai precisar de nós."

Sirius balançou a cabeça lentamente e riu. Ele olhou para Tiago e para Tonks, muito entretida em brincar com os cabelos dele.

"Seu nome está na vítima," murmurou Lupin.

"O quê?"

"O seu nome está escrito no corpo da vítima. Com pregos."

O Ministério foi mais rápido que a polícia trouxa. Sirius entrou em casa com Tiago, Lupin e Tonks e deu de cara com uma equipe de aurores sentados ao redor de sua mesa, parecendo tão à vontade que ele teve duvidas se tinha entrado na casa certa. Eram nove pessoas, e Sirius se perguntou se havia de fato necessidade de tudo aquilo, enquanto fechava a porta e mantinha Tonks atrás de si, tentando, mas não conseguindo, evitar que ela se assustasse com aquele bando de gente usando botas de solado grosso, casacos pretos e olhando para eles com caras perigosas e irônicas, olhos vorazes, como se já os condenassem pelo simples fato de terem sido postos no mundo.

Um homem grande e corpulento amassou o charuto que fumava em cima da mesa e soltou a fumaça pelo canto da boca torcida.

"Qual desses é Sirius?" Disse, e Sirius estava se perguntando com quem ele falava quando viu a figura abalada de Andrômeda no canto da cozinha, um punho tapando a boca, os olhos vermelhos.

Ela o fitava como se jamais tivesse visto coisa mais extraordinária na vida. Mas em seguida procurou Tonks com o olhar e metade de sua tensão pareceu escoar de seu corpo.

"Qual o problema?" Sirius adiantou-se, puxado uma cadeira e sentando na mesa, num espaço entre uma mulher e um homem que possivelmente era a criatura mais alta que Sirius já vira.

"Você é Sirius Black?" Perguntou o homem, cuja pele morena e lisa ganhava tons de dourado com a luminosidade da manhã, esta causando um bonito efeito nos olhos esverdeados.

"Era isso que estava escrito no corpo da vítima?"

Os nove se entreolharam. Andrômeda soltou um suspiro exasperado e pegou Tonks no colo. Sirius sentiu a mão dela em suas costas quando ela passou por trás, e depois escutou o barulho da porta abrindo e fechando em seguida. Ninguém deu muita importância a isso.

"Você conhecia Jamie Parkers, Sr. Black?" O homem que queimara o tampo de sua mesa com o charuto perguntou.

"Quem é você?" Disse Sirius com formalidade, virando-se para ele.

Não foi o homem quem respondeu. Foi a mulher que estava sentada do seu lado esquerdo. "Ele se chama Gideão Prewett," ela esticou o braço, indicando o outro auror de pele dourada, e ao fazer isso seu pulso ficou a menos de dois centímetros do nariz de Sirius. "Beijo Fenwick. E por enquanto é só o que você precisa saber."

"Você conhecia Jamie Parkers, Sr. Black?" Repetiu Gideão, meio impaciente e mordendo a ponta de outro charuto.

"Sim."

"Há quanto tempo?"

"Não sei," disse Sirius. "Desde que tinha dezesseis anos."

"Sete anos então," disse a mulher de imediato. Sirius percebeu que ela estava com um copo de água entre as mãos, sobre a mesa."Você a conhecia há sete anos?"

"Ela estudou em Hogwarts e fazia o mesmo ano que eu."

"Hum," fez Gideão, parecendo ter soluçado.

Uma chuva fina começou a cair. Sirius ouviu as janelas da cozinha sendo fechadas. Seus olhos não tinham se desviado de Gideão.

"Nestes sete anos, alguma vez você notou algo de errado com ela?"

"Eu disse que a conheço desde os dezesseis," replicou Sirius, "isso não significa que eu tenha convivido com ela desde esse tempo. Para falar a verdade eu só tornei a vê-la ontem, no Black Emerald, depois de muito tempo."

"Certo. Você só a viu ontem."

"Ela estava morando na Irlanda com o irmão."

"Ela estava morando na Irlanda."

Gideão mascou o charuto. "Sr. Black," ele se empertigou na cadeira, falando como se somente agora fosse fazer a pergunta que realmente importava. "O que vocês conversaram ontem à noite?"

"Espere," murmurou Sirius. "Agora que você falou... ela estava estranha. Quero dizer, parecia não ser ela."

"Você disse que não a via há bastante tempo," disse a mulher. "Ela podia ter mudado, não podia? Aliás, é muito natural, você a conheceu com dezesseis e ontem a viu com vinte e três anos."

"Jamie estava nervosa," replicou Sirius, ficando muito quieto de repente. "Tão nervosa que as pessoas ao redor podiam sentir."

Sirius ergueu os olhos e viu um homenzinho fazendo anotações, a ponta da língua entre os lábios enquanto sua pena deslizava furiosamente pela superfície do pergaminho. Ele estava perdido. Talvez tivesse mesmo matado Jamie, aqueles caras iriam investigar e descobrir tudo. A incerteza disso colocava por água abaixo toda a esperança que ele tinha em não ter relação alguma com a morte de Jamie cada vez que eles lhe faziam uma pergunta. Cada vez que lembrava do sangue em suas roupas.

"Eu estava assistindo ao jogo," Sirius começou a falar sem que tivessem lhe perguntado. "Estava assistindo ao jogo, então Stanley – ele estava do meu lado – me mostrou duas garotas que tinham subido no balcão e estavam dançando. Eu reconheci Jamie, ela me reconheceu, e nós começamos a conversar. Ela contou que havia voltado porque não tinha mais o que fazer na Irlanda, contou que havia arrumado um emprego no Profeta Diário – ela estava nervosa, no começo parecia querer falar comigo, mas depois ficou incomodada com algo e foi para o banheiro. Não saiu mais."

"E então...?"

"Eu voltei para casa."

"A que horas você saiu do Black Emerald?"

"Sirius."

Sirius virou-se. Lupin o fitava, encostado à parede. "Conte tudo que você conseguir se lembrar."

"Eu não lembro," disse Sirius, sentindo como se estivesse acorrentado no centro de uma arena, com milhões de pessoas o olhando na esperança de que ele se soltasse antes que libertassem as feras. "Esse é o problema. Francamente, a última vez que olhei o relógio era uma e quinze. Cheguei em casa três e quarenta da manhã e não lembro o que fiz nesse meio tempo."

Ninguém, exceto Tiago e Lupin, pareceu surpreso com a confissão.

"Você não se lembra," disse a mulher em voz baixa, e Sirius já estava doido para que ela parasse de repetir o que ele afirmava. "Tudo bem. Além do que já falou, tem mais alguma coisa que Jamie tenha lhe dito ontem?"

Sirius achou estranho que ela estivesse preocupada na conversa entre ele e Jamie quando acabara de relatar uma misteriosa amnésia ocorrida entre uma e quinze e três e meia da manhã, horário em que Jamie fora morta. "Ela ia escrever sobre os trouxas," disse ele vagamente.

"Filhos-da-puta!" Gritou Gideão, cuspindo o charuto e levantando-se tão bruscamente que quase virou a mesa. "Dédalo, vá até Dumbledore e diga que descobrimos o que faltava."

"Dumbledore?" Perguntou Lupin, franzindo a testa. "Pensei que tivessem sido mandados pelo Ministério."

"O que está acontecendo?" Disse Sirius, no momento em que Dédalo desaparatou com um estalo forte e a cozinha ficou tão agitada quanto um porto em dia de descarregamento.

"Você está machucado?" Perguntou a mulher de repente, o avaliando com os olhos.

Sirius estava tão confuso que não pode responder. Levantou. "Quem são vocês?"

"Sr. Black, o senhor está machucado?" Insistiu a mulher.

"Estou, pombas," ele ergueu a blusa.

Uma sombra pesada passou pelos olhos da mulher, como se ela tivesse recebido a notícia que um parente querido se fora. Ela disse para os outros companheiros: "É ele mesmo," e olhou para Sirius da forma mais complacente, triste e sincera que alguém já o olhara desde a morte de seu tio preferido, Alfardo.

Beijo Fenwick tomou todas as providências para que a casa de Sirius ficasse oculta por um bom tempo para os trouxas. Enquanto eles conversavam, o ruído das sirenes pela rua foi tornando-se comum, e se Sirius não estivesse tão perturbado teria achado engraçado ver o carro da polícia subindo e descendo a rua de sua casa inúmeras vezes, a patrulha lá dentro atordoada e aborrecida por estar conferindo o tempo todo o endereço e não conseguindo achar a maldita casa do tal Sirius.

Estava começando a simpatizar com aqueles caras. Quando Gideão lhe dissera que ele não matara Jamie, de repente usando um tom mais suave e amistoso, foi como se as cores de sua cozinha tivessem subitamente ressaltado aos olhos.

"Há exatamente sete anos o Profeta Diário publicou uma matéria sobre a morte da família Riddle," disse Dorcas Meadowes, colocando uma edição antiga e amarelada do Profeta Diário sobre a mesa, que nem Tiago, Lupin ou Sirius se interessaram em apanhar, porque já tinham lido aquele jornal há sete anos atrás e lembravam perfeitamente o que tinha nele. Dorcas prosseguiu. "Tom Riddle tinha dezenove anos na época, um histórico escolar exemplar e, segundo os vizinhos, era a criatura mais dedicada e doce que Deus já havia posto para caminhar sobre a terra."

Beijo ergueu uma sobrancelha para ela.

"Foram as palavras deles," disse Dorcas. "E é o que você acharia se visse Tom Riddle. Era o que qualquer um acharia. Embora ele não fosse de falar muito, era o tipo de sujeito que não incomodava ninguém." Ela parou para ler a carta que Dédalo acabara de trazer, dizendo ser de Dumbledore. Depois a dobrou e enfiou debaixo do copo. "A polícia trouxa investigou a morte dos Riddle e não descobriu nada," continuou ela no mesmo tom. "Para eles o caso foi deixado em aberto e continua em aberto até hoje. Mas o Ministério encontrou muitas pistas interessantes que de fato os trouxas não deram muita atenção. Beijo, você tem aquela pérola aí?"

Beijo meteu a mão no bolso interno do casaco e retirou um envelope pardo lacrado e o colocou na mesa, em cima do jornal. Dorcas abriu o envelope, retirou dele duas folhas de papel e as ofereceu para Sirius, apesar de Lupin e Tiago terem se inclinado curiosamente na cadeira.

Aquela carta também era familiar para Sirius, mas ele achou melhor lê-la novamente, porque não queria chamar a atenção para o fato de que, há sete anos atrás, ele entrara na casa dos Riddle e mexera em várias coisas lá, inclusive naquela horrível carta.

Tom,

O que importa é o sofrimento. Entenda isso.

A princípio, não havia nenhum grande plano. Matei uma pessoa por acidente, para falar a verdade, e senti tudo o que se espera que uma pessoa sinta nessa circunstância: culpa, repulsa, medo, vergonha, raiva de mim mesmo. Tomei um banho para me lavar do sangue dela. Sentado na banheira, vomitei, mas permaneci imóvel. Continuei na banheira sentindo o cheiro forte de seu sangue e de minha vergonha, o fedor de meu pecado mortal.

Então eu deixei a água da banheira escoar, tomei uma ducha e... fui em frente. O que é que os seres humanos fazem, afinal de contas, depois de praticar uma coisa imoral ou inconcebível? Eles vão em frente. Não há outra escolha, quando se conseguiu escapar das garras da lei.

Continuei, então, minha vida e então os sentimentos de vergonha e culpa sumiram. Achei que iam durar para sempre, mas não duraram.

Lembro-me de que pensei: a coisa não pode ser tão simples. Mas era. E pouco tempo depois, mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa, matei outra pessoa. E aquilo me foi... bem, agradável. Calmante. Senti a agradável sensação que sente um alcoólatra ao tomar um copo de cerveja gelada depois de uma longa abstinência. O que os amantes sentem na primeira noite de gozo sexual, depois de uma longa separação.

Na verdade, tirar a vida de alguém é muito parecido com sexo. Às vezes é um ato transcendente, orgástico. Outras vezes, bem, é uma coisinha mediana. Tudo bem, não foi lá grande coisa, mas o que se pode fazer? Uma espécie de sensação, mas nunca deixa de ser interessante. É algo que fica em sua memória.

Nem sei bem porque lhe escrevo, Tom. A pessoa que lhe escreve esta carta não é a mesma que sou em meu dia-a-dia. Nem a pessoa que sou quando mato. Tenho muitas caras, e algumas você nunca vai ver, outras você nunca iria querer ver. Vi algumas de suas caras – uma bonita, outra violenta, outra reflexiva e mais algumas – e me pergunto qual delas você vai mostrar se um dia nos encontrarmos, tendo um cadáver em decomposição entre nós.

Ouvi dizer que todos os inocentes são expostos à censura. Talvez sim. E que assim seja. Na verdade, não estou bem certo de que as vítimas são dignas de toda essa trabalheira.

Certa vez sonhei que fui parar num planeta de areia branquíssima, e o céu era branco. Só havia isto – eu, longas extensões de areia branca, vastas como oceanos, e um céu branco e causticante. Eu estava sozinho. E muito pequeno. Depois de vagar durante dias, sentia minha própria podridão, sentia que ia morrer naquela vastidão branca sob o céu causticante, e apelei para as trevas. E elas finalmente chegaram, escuras e diminuindo toda aquela luz dolorosa. E tinham uma voz e um nome. "Vem," disseram as trevas, "vem conosco". Mas eu era fraco. Eu estava apodrecendo. Eu não conseguia ficar de pé. "Trevas," disse eu, "tomai a minha mão... tirai-me deste lugar." E as Trevas o fizeram.

Agora você entendeu o que eu quis lhe ensinar, Tom?

Todo seu,

O Pai.

Sirius leu pulando várias linhas. Ler aquela carta era exaustivo, acima de tudo, por tudo o que tinha de sórdido. Quando a leu pela primeira vez, sentiu um vazio tão profundo que quis se isolar num canto e ficar ali para morrer. Porque sentia que aquela era a mais pura realidade humana. E saber disso era como negar uma colher cheia de remédio que tentavam lhe enfiar pela boca.

Passou a carta a Lupin.

"Meu Deus," murmurou ele depois de a ler, entregando-a a Tiago. Diferente de Sirius, eles jamais tinha tomado conhecimento daquela carta.

"O Pai de Tom tinha uma doença rara. Ele achava que era Deus," explicou Beijo sem necessidade. "Não sabemos quem são essas pessoas que ele diz ter matado, porque não foram achados os corpos."

"Isto é bom," disse Tiago, jogando a carta na mesa. "O cara parece normal," ele lançou um olhar raivoso à carta. "Deus do céu."

"Acharam também o diário de Tom, com todas as anotações que ele fazia, uma lista com o nome de trinta e oito pessoas dentro, e mais uma pilha de fichas de alunos de Hogwarts. Vários nomes de parentes dos alunos estavam na lista. Deu para perceber que Tom tinha uma grande repulsa pelos trouxas ou pelos bruxos que não tinham a prole pura, depois que o diário dele passou por várias mãos no Ministério. Chegaram à conclusão de que ele havia usado o histórico dos alunos de Hogwarts para fazer sua listinha, e é aí que entra Dumbledore. O Ministério ameaçou de tirá-lo do cargo de diretor se alguma coisa acontecesse com aquelas pessoas."

Beijo murmurou alguma coisa que se parecia muito com um palavrão.

"Dumbledore passou a investigar o caso mais de perto, mas não podia fazer isso sozinho. Eram muitas lacunas na história toda, e o principal de tudo: Tom tinha morrido."

"Mas Dumbledore sabia que isso não era verdade," disse um outro auror, que parecia deslocado entre os outros por ser tão novo – a pele do rosto tão lisa que se poderia pensar que pulara a puberdade. E no momento em que ele falou, a voz baixa como se tivesse medo de se manifestar, Sirius o achou mais jovem ainda, como se tivesse acabado de sair das entranhas da mãe, "porque, algum tempo depois, um seguidor dele conseguiu escapar Deus sabe como, e contou tudo a Dumbledore, tentando se redimir."

"O puto do Snape," disse Gideão, no que Sirius, Tiago e Lupin o olharam em conjunto. "Foi pedir proteção a Dumbledore porque estava se acabando de medo que Tom o matasse, e se Dumbledore não o tivesse acolhido em Hogwarts, dando a ele um emprego de professor, com certeza ele teria acabado em pedacinhos."

"Snape era um seguidor de Tom Riddle?" Disse Tiago, depois deu uma risada que mais parecia um urro de raiva abafado. "Eu sabia que devia tê-lo deixado morrer quando tive a chance."

Dorcas balançou a cabeça. "Não, não devia. Dumbledore confia nele. E ele tem ajudado bastante," ela parou de falar, parecendo não querer entrar em detalhes.

"E quanto a Jamie?" Disse Sirius, recostando-se na cadeira. "Onde ela entra nisso tudo?"

"Conseguimos entrar em contato com a companheira de quarto de Jamie Parkers na Irlanda."

"Ela não estava com o irmão?"

"Há três meses," Dorcas continuou, "a senhorita Parkers conhecera um rapaz no teatro. Ele dizia que era da Inglaterra e ia à Irlanda uma vez por semana para assistir aos espetáculos teatrais." Ela olhou para Sirius. "E adivinhe uma coisa."

"Ele estava mentindo."

"O nome dele é Tom Riddle. Que tal? A companheira de quarto da senhorita Parkers disse também o seguinte – e aqui repito suas próprias palavras: 'Era o cara mais sensual do mundo'."

"Sensual," disse Sirius.

Dorcas fez uma careta. "Sabe, ela é um pouco dramática."

"O que mais ela disse?"

"Que Parkers também costumava andar com um sujeito 'bizarro' que usava sempre roupas pretas e gostava de se esconder nas sombras. Esse sujeito estava no Black Emerald ontem à noite."

"Mulciber."

Dorcas fez que sim. "Parkers conheceu Mulciber muito antes de ver Tom no teatro. Ela o conheceu muito antes de ir para a Irlanda. Ela tinha dezoito anos quando foi a Gringotes com o pai e topou com Mulciber nos subterrâneos do banco. Provavelmente ela contou a ele o que ia publicar toda semana no Profeta Diário, e seu nome passou para o começo da lista de Tom Riddle."

Sirius gostaria de fechar os ouvidos, mas acabou por desviar os olhos para as janelas.

"Se você está achando tudo isso incômodo..." disse Dorcas com a voz baixa, e de repente não conseguiu continuar.

"Quem matou Jamie?"

"Tom Riddle deu as ordens, Mulciber as executou."

"Mas temos um problema aí," disse Beijo. "Mulciber é grande, mas sozinho ele não conseguiria torturar a garota enquanto atacava você e o amarrava numa cadeira."

"Vai com calma, Beijo," disse Dorcas, o lançando um olhar de advertência.

"Me amarrar?" Perguntou Sirius, olhando de Dorcas para Beijo, e como eles hesitaram, olhou para os outros aurores.

Beijo inclinou-se em sua direção, a profusão de cabelos castanhos espalhando-se pela mesa como cobras queimadas, enrolando-se ao redor de seus punhos e dos de Sirius. "Você viu tudo, filho, não porque estivessem deixando você na fila enquanto matavam Jamie, mas porque eles gostam. Eles gostam de chocar, queriam que você nunca mais esquecesse do que viu. Eles seriam capazes de cortar a cabeça dela, girar num ângulo de cento e oitenta graus e colar de novo, deixar o corpo dela numa cadeira na sala da casa dela, de frente para a porta, só para o irmão ver quando chegasse em casa."

"Pare com isso," mandou Dorcas.

"Os cretinos só não contavam com o Mecanismo de Defesa," Beijo disse, depois se afastou de Sirius com um risinho de camaradagem.

"Por que você não tenta primeiro mostrar a ele o que aconteceu?" Disse Dorcas. A chuva já era tão forte que abafou sua voz.

Beijo fez um gesto cortês com a mão que parecia significar "Vá em frente."

Era uma hora e vinte da manhã, mais ou menos, quando ele olhara para a porta do banheiro e vira Jamie saindo por ela. Estava com a cabeça baixa e a franja cobria seus olhos, quando Mulciber a puxou para os fundos do bar. Então ele seguira ambos por um corredor escuro, recebera um golpe no lado direito das costelas que o fizera colidir com a parede com o lado esquerdo do corpo. Ele escutou o som de uma porta batendo atrás de si, olhou para frente e viu Jamie sendo arrastada para um lugar mais escuro que aquele corredor.

Teve tempo de lançar um ou dois feitiços que acertaram o alvo, derrubando Mulciber no chão, então sentiu um frio espalhar-se por seu ventre, aumentando tanto que ele pensou que aquilo só podia ser fome, pois suas entranhas não trabalhavam devia fazer umas onze ou doze horas. Mas era um frio diferente de qualquer outro que sentira até então. Um frio que gelava. Tão frio que era quase quente. Não, era calor mesmo. Era uma verdadeira onda de fogo que subia do abdômen até o peito, tirando-lhe o ar dos pulmões.

Pelo canto do olho, ele viu um movimento ondulante e em seguida escutou uma voz perto de seu ouvido. "É aqui que os inocentes são expostos à censura."

Sirius baixara a cabeça vendo o sangue escorrer de seu corpo e empapar suas calças. Quando ele pôs a mão no abdômen, os dedos tocaram um corte que ia de um lado e quase chegava do outro.

Depois disso, ele revidara com o mesmo feitiço, alucinado de ódio e dor, sentindo o sangue quente da pessoa que o machucara jorrar em seu rosto e pescoço, mas então foi imobilizado por no mínimo umas oito mãos e tudo ficou escuro, tão escuro que ele achou ter uma venda nos olhos.

Jamie estava ajoelhada no chão de um galpão com caixas de bebida empilhadas para todos os lados. A cabeça dela estava encostada na coxa de Mulciber, e seus olhos eram um misto de susto e curiosidade. Eles colocaram Sirius sentado, amarrado e amordaçado numa cadeira, bem perto de Jamie, e fizeram a festa. Começaram pelos tornozelos, queimando cada centímetro com a ponta da varinha em chamas, muito devagar e tendo cuidado para não deixar um só milímetro de pele incólume. Todas as vezes que Sirius tentara fechar os olhos, sentia uma ardência nas pálpebras e era obrigado a abri-los novamente, para ver Jamie gritando, pedindo para morrer, enquanto Mulciber o encarava meio que rindo.

Um homem de cavanhaque transfigurou as bebidas dentro de uma caixa em pregos compridos e grossos, e os atirou nos pés de Mulciber.

"Qual o seu nome, cara?" Perguntou Mulciber, que só conseguiu obter a resposta depois de ter lançando uma Maldição Imperius em Sirius. "Certo," disse ele, tomando o pulso de Jamie, esticando seu braço e o avaliando, como se estranhasse as veias que corriam por ele. "Ela era tarada por você, Black. Eu me lembro, falava de você o tempo todo, até dormindo. Depois passou. Mas e então, acha que ela gostaria de morrer com seu nome no corpo dela?"

"Já é o suficiente," disse Dorcas, e Sirius sentiu a mão dela deslizar de suas costas, onde estivera o tempo todo enquanto ele vomitava e deixava as memórias que tinham ficado escondidas em sua cabeça com o choque fluírem para a Penseira sobre a mesa. O vômito era puro líquido. Não havia mais nada dentro dele.

"Você está verde," disse Beijo, olhando para Tiago da cabeceira da mesa.

Quase toda a equipe havia ido embora, apenas Gideão, Dorcas e Beijo tinham ficado para fazer o trabalho sujo. Sirius levantou a cabeça e viu Lupin a sua frente, olhando as próprias mãos como se não soubesse como elas haviam ido parar ali e nem o que fazer com elas.