APENAS AMIGOS?

por Nina Neviani

Capítulo VIII

Sinto muita raiva. De mim mesma.

O motivo?

Um beijo. Ou melhor, o beijo.

Se bem que... na verdade mesmo, eu estou sentindo mais raiva do Amamiya do que de mim. Óbvio. Afinal, eu fui a pobre garota comprometida que foi assediada pelo Lobo Mau, sem que ele desse tempo para ela pensar.

Sim! Foi exatamente isso!

Eu não tenho culpa se correspondi ao beijo...

Droga! A quem eu quero enganar?

É melhor aceitar os fatos: por um momento durante o beijo, que não foi curto, eu esqueci até que conhecia uma pessoa chamada Aiolos Priamos, quanto mais que ele, por acaso, era o meu namorado.

Abstinência.

Não a alcoólica. A outra. Tanto que para compensar essa abstinência, estou bebendo.

Detalhe: Estou bebendo, sozinha, às três horas da tarde de um domingo. Não que eu esteja bêbada. Pelo contrário, estou completamente lúcida. O que, talvez, não seja tão bom, porque cada vez que eu me lembro do beijo da noite anterior sinto a minha consciência pesar. O lado bom de tudo isso é constatar que, pelo menos, ainda tenho consciência.

Sim, com certeza tenho! Tanto que me sinto muito mal cada vez que penso que o Aiolos não merecia a... Não posso chamar de traição... enfim, seja lá como se chame o que eu fiz, o Aiolos não merecia.

Entretanto... o que os olhos não vêem, o coração não sente!

Perfeito!

E só eu não pensar mais no beijo e nem no Ikki que tudo terminará bem.

Com essa decisão tomada, ia tomar o resto do líquido que ainda estava na minha taça para comemorar a minha brilhante saída, quando o telefone tocou:

– Alô?

– Alô. Eu poderia falar com a srta. Setsuna? – Uma voz masculina que eu nunca tinha escutado antes perguntou.

– Sou eu mesma.

– Ah, sim. Boa tarde, srta. Setsuna. Estou ligando para avisar que nós iremos fazer os consertos necessários no seu carro o mais rápido possível.

– Uma coisa por vez, por favor. Você é...?

– Sou o mecânico que cuidou o seu carro da outra vez. – O homem falava como se estivesse se desculpando.

– Ah...

– Sim. E o sr. Amamiya nos alertou que o serviço não foi muito bem feito. Por isso vamos fazê-lo corretamente dessa vez e sem custo algum. Até o final da semana a srta. estará com o seu carro.

– Então eu não preciso fazer mais nada, pois o Shun já cuidou de tudo.

– Quem?

– Shun Amamiya. Não era dele que você falou?

– Não. Eu me referia ao sr. Ikki Amamiya, foi ele que trouxe o seu carro até aqui.

– O Ikki?

– Sim. Bom, era esse o comunicado, breve entraremos e contato. Tenha um bom domingo.

– Você também. – respondi automaticamente ainda chocada com a revelação, antes de desligar.

Será que o Lobo Mau não é tão mau assim?

Impossível.

Olhei novamente para o copo que estava na minha mão. Eu só tinha tomado meio copo, e geralmente eu preciso de muito mais do que isso para ficar bêbada. Porém...

Eu definitivamente preciso de ajuda. Deixei o copo de lado e liguei para a minha melhor amiga.

– Eire?

– Oi, Minu! Tudo bom?

– Não! Preciso conversar com você. Pessoalmente. Você pode vir pra cá?

– Posso. Eu tô vendo o jogo dos meninos, mas posso sim. Pra variar eles tão ganhando. O Hyoga já fez dois gols, e o Seiya...

– EIRE! Eu não quero saber do jogo! Venha pra cá, sim?

– Tá bom! Tá bom! Vai fazendo o bolo de chocolate que eu já estou indo.

E desligou.


Meia hora mais tarde...

– Cheguei, Minu!

– Ótimo!

– Cadê o bolo?

– Eire, eu serei madrinha de um casamento em menos de um mês e eu tenho que entrar no vestido. Em outras palavras: sem bolo de chocolate.

– Ok. – Ela disse enquanto se sentava – Conte-me o que está te deixando tão irritada.

E eu contei tudo, com a maior quantidade de detalhes possíveis.

– Nossa! O Ikki resolveu acordar!

– Eire, tenho que te contar uma coisa: eu tenho um namorado. Um namorado perfeito, diga-se de passagem.

– Esse é o problema.

– O quê?

– Ah, Minu. Com todo o respeito e carinho que eu sinto por você, mas o Aiolos é perfeito demais.

– Sim! E isso é maravilhoso!

– Será que é maravilhoso mesmo? Olha, eu amo o Hyoga, mas sei que ele não é perfeito. E fico feliz por isso. Agora, me diga: que emoção eu teria se o Hyoga fosse perfeito?

Ótimo. Agora eu estava sem palavras. Por isso, Eire continuou.

– O que o Aiolos teria feito a respeito do seu carro? Caso estivesse aqui.

Nem precisei pensar antes de responder.

– Teria esperado até amanhã, teria levado o carro para alguma mecânica, provavelmente ele teria pagado, e me daria carona durante o tempo que o meu carro estivesse no conserto.

– Viu. Caso ele fizesse isso não teria sido surpresa alguma. Agora o que você não esperava era que o Ikki, em pleno domingo, desse uma dura no mecânico, e fizesse o mecânico, em pleno domingo, ligar pra você para pedir desculpas e consertar o seu carro novamente, sem cobrar nada dessa vez.

Novamente, eu estava sem palavras.

– Entende o que eu quero dizer, Minu?

– Mas o Aiolos é o homem certo pra mim. – Teimei.

– Pode até ser, mas a vida não é certa, Minu. Então é provável que o homem realmente certo pra gente, seja aquele que parece ser o errado.

– Não acho que o seu raciocínio faça sentido. – Menti.

– Ah, não? Me responda uma coisa, então: Se o Aiolos fosse mesmo o homem certo pra você, você acha que corresponderia ao beijo do Ikki?

Suspirei.

– Desisto: você tem razão.

Então, fiquei muito triste. Ikki Amamiya era uma doença. Uma doença sem cura. Por mais que eu namorasse o cara mais perfeito, eu jamais me curaria do Amamiya.

Uma tola lágrima.

A Eire me abraçou.

– Não chora, Minu. Tudo vai dar certo. Só que você tem duas coisas a fazer: agradecer ao Ikki e pensar em como terminar com o Aiolos.

– Eu não vou terminar com o Aiolos antes do casamento do Seiya. Ele foi convidado também.

– Tudo bem, mas o Ikki você tem que agradecer logo. – Ela olhou no relógio. – Já deve ter terminado o jogo deles, por que você não liga pra ele?

– Não... Queria algo mais impessoal. Acho que mais tarde mandarei um e-mail.

– Eu não acho que seja a alternativa mais correta, mas é você quem sabe.

– Eu ainda tenho namorado.

Ao me lembrar do Aiolos, voltei a chorar.

E se eu terminasse com o Aiolos e o Ikki não me quisesse?

Vou passar o resto da minha vida sozinha?

A Eire tentava me consolar quando o celular dela tocou.

Minutos depois ela desligou.

– Era o Hyoga. – Ela disse. – Falei pra ele que não podia sair, e ele e os meninos vão pra casa do Ikki assistir a um jogo pela tv, já que a Shunrei, a Saori e a June saíram.

Os meninos de quase trinta anos tinham um time de futebol de salão desde a época do colégio. É fato também que sempre jogaram muito bem.

– Eles ganharam? – Perguntei.

– Sim. O Shun estava incrível no gol. O Hyoga fez dois golaços, o Seiya e o Shiryu também jogaram muito bem. O único que, hoje, não estava jogando tão bem era o Ikki. E algo me diz que era por sua culpa.

– Não seja ridícula, Eire! Você sabe que ele não gosta de mim.

Mais algumas lágrimas.

– Oh, dane-se o vestido! Eu vou fazer um bolo de chocolate, sim! Vamos pra cozinha.

Eire era adepta da seguinte filosofia: chocolate resolve tudo. Eu nunca acreditei muito, entretanto horas mais tarde, eu me sentia melhor. Tanto que tive coragem para mandar o e-mail pro Ikki. Certo. Coragem eu tinha, mas não sabia o que escrever. Depois de vários minutos, resolvi que a única coisa que eu conseguira era:

Obrigada, Ikki.

Tenha uma boa semana.

Minu.

E foi apenas isso que eu mandei. Se a Eire visse essas poucas palavras me esganaria, ou me mataria de uma forma mais dolorosa. Onde já se viu uma jornalista não conseguir escrever! Porém o assunto em questão é Ikki Amamiya...

Poucos minutos depois me assustei com o aviso de um novo e-mail. Sentindo a tal emoção que a Eire falara, abri o e-mail.

De nada, Minu. Amigos são para essas coisas.

Uma ótima semana pra você também.

Ikki.

Amigos. Como uma palavra pode ser tão linda e frustrante ao mesmo tempo? Não me dei ao trabalho de pensar mais no assunto. Já tinha chorado muito por um dia só. E como já tinha comido chocolate por uma semana inteira. Assim, só me restava a cama.

Sozinha.

Sim, uma boa noite de sono. Era disso que eu precisava.

Continua...


Revisado em 27/01/2010.