CAPÍTULO VII

Bella ainda estava trêmula ao chegar à fábrica.

- Colocar-me entre Bree e James, pois sim - resmungou consigo mesma, a passos determinados rumo ao prédio principal. - Gostaria de ficar entre eles, sim, mas não como Edward Cullen imagina.

Ele honestamente acreditava que ela pensara naquele verme durante todos esses anos? Tratava-se do maior insulto que alguém já lhe fizera.

-Ugh.

Nem sabia por que se abalara com os comentários de Edward. Ou a razão daquela dor no peito e da vontade estúpida de chorar. Não era como se não tivesse lidado com aquele tipo de crítica injusta antes. No passado, ignorara, como água nas costas de um pato.

O problema era que, durante os últimos cinco anos, acostumara-se a ser tratada com respeito e admiração. Quase esquecera o flagelo de ter de se defender a cada instante. - Está enferrujada, Bells - resmungou. - Terá de se enrijecer novamente. E rápido.

O que esperava, afinal? Edward Cullen era o gerente geral nomeado por seu pai, e sabia a quem devia lealdade. Além disso, não podia contrariar sua lógica, já que concordava com ele. Charlie era um homem bom e decente, escrupulosamente honesto e justo... com todos, menos com a filha mais velha.

Ao menos, conseguira disfarçar a perturbação com mais uma observação impertinente:

- Não se preocupe, doçura, destruição de lares não está na minha agenda nesta viagem. Talvez na próxima vez... - disparara, sorrindo desdenhosa, embora não sentisse vontade alguma de sorrir.

Para seu alívio, minutos depois, separaram-se, e Edward entrou,ou na casa dele para trocar de roupa.

Até então, Bella não percebera que ele morava no alojamento do antigo gerente. O chalé vitoriano fora habitado por sua bisavó quando ela iniciara o negócio da família, e originalmente situava-se, no local da casa atual. Em 1927, com o início das obras da nova moradia para a família, transferiram o chalé para a clareira no centro do pomar, um trecho de solo alcalino demais para o cultivo de árvores frutíferas produtivas, a meio caminho entre a sede e a fábrica. Desde então, o chalé de três quartos servia de abrigo para o gerente da fábrica e sua família.

Ao longo dos anos, a casa ganhara reformas e mantinha-se em ótimas condições. Não obstante, Bella connsiderava surpreendente o fato de Edward optar por morar ali, por mais charmoso que fosse o chalé. Um solteiro tão bonitão deveria preferir a privacidade de um apartamento na cidade.

Mas que importava seu pensamento? Talvez Edward Cullen fosse daqueles homens que conduziam sua vida amorosa em outro lugar que não sua casa.

Bella adentrou no minúsculo saguão do predio principal da fábrica e subiu a escada para os escritórios no segundo andar. Ao chegar à recepção, no topo da escada, olhou ao redor com uma pontada de nostalgia.

O microcomputador que zunia baixinho na mesa era novo, assim como o carpete, mas o resto permanecia como antes... os mesmos móveis pesados de mogno, as mesmas telas nas paredes, o vaso de bambu de dois metros de altura no canto.

Uma forma geométrica mutante coloria a tela do monitor de vídeo do microcomputador, mas não havia ninguém à mesa da recepcionista.

O corredor à direita levava aos vários escritórios, e aos departamentos financeiro e de marketing. Sons fracos de vozes e atividade vinham daquela direção, mas Bella virou à esquerda, rumo à sala do pai.

Dar uma boa olhada nos livros contábeis era sua prioridade, mas ainda não estava pronta para mergulhar na tarefa. Naquele dia, executaria apenas um trabalho de base, após cumprimentar os funcionários conhecidos e se apresentar aos novos. Assim que todos se acostumassem com sua presença no escritório, talvez estudasse um levantamento das terras e recolhesse informações úteis. Para começar, nada melhor do que uma troca de idéias com a secretária de Charlie.

Jane Talmadge trabalhava nas empresas Swan havia vinte e dois anos, os treze últimos como secretária da diretoria. Ela não apenas conhecia a organização por dentro, como se mantinha a par das fofocas. Sabia de todas as rivalidades, do ciúme, e entendia a política no escritório. Jane era extremamente leal ao patrão, protegendo as transações comerciais com a ferocidade de um cão de ferro-velho. Entretanto, a senhora formal sempre tivera um fraco pela garotas Swan. Bella calculava que, se agisse habilmente, poderia ter em Jane uma boa fonte de informação. Sem dúvida, a experiente secretária lhe seria de imensa ajuda nas próximas semanas.

Bella conhecia a hierarquia burocrática. Edward Cullen podia ser o braço direito do pai na produção, e James provavelmente se achava o segundo no comando, mas era Jane quem de fato conduzia a empresa.

A secretária não estava na saleta externa à diretoria quando Bella espiou por uma fresta da porta. Se não soubesse que a mulher era "maníaca por organização", acreditaria que ela não estava lá. Não havia pedaço de papel ou lápis na mesa, nem mesma um clipe, só um bloco bem alinhado e um calendário de mesa. Até o monitor do microcomputador estava coberto.

Bella cruzou a sala e foi para o escritório do pai, mas Jane não se encontrava, de fato.

- Talvez tenha ido almoçar tarde – murmurou consigo mesma, verificando o relógio de pulso. Nesse caso, estaria de volta logo.

Decidiu esperar e começou a vagar sem objetivo pela sala.

Nenhum móvel moderno ou carpete ali. Aquele escritório mantinha o estilo elegante do velho mundo que Isabella Swan imprimira setenta anos antes ... lambris de nogueira até o meio das paredes, tinta marfim sobre massa corrida, assoalhos de carvalho escuro com acabamento sedoso e um enorme tapete oriental em tons de vinho, azul e marfim sob os móveis clássicos.

Sorrindo, passou os dedos na beirada da mesa de nogueira maciça e na poltrona executiva de Charlie. Fechou os olhos e sorveu os aromas que sempre associara àquele escritório... óleo de limão, couro e charutos finos. O último vinha da caixa de charutos que o pai conservava sobre a mesa, embora tivesse parado de fumar anos antes.

Um ruído distante chamou-lhe a atenção. Foi à parede de vidro atrás da mesa, que dava para a fábrica. Era possível bloquear o som com as cortinas grossas, mas seu pai, a exemplo de seus avós antes dele, gostava de se sentir ligado ao trabalho que se realizava na fábrica.

Não eram visíveis dali as salas de preparação, onde as máquinas faziam o trabalho de lavagem, descascamento, raspagem, fatiamento e picagem, nem as "cozinhas", onde as frutas e legumes eram cozidos em tonéis enormes. Do escritório de Charlie, viam-se os alimentos sendo enlatados ou engarrafados, e então lacrados, rotulados e embalados para transporte.

Bella observava os funcionários e as máquinas, todos parecendo em movimento perpétuo. Já se postara ali centenas de vezes, mas nunca se cansava de acompanhar o processo.

Fitou a linha de latas vazias e garrafas tilintando ao longo de metros de esteiras rolantes em vários níveis. A máquina de precisão preenchia um recipiente após o outro, lacrava-os e os remetia à máquina seguinte, que, num piscar de olhos, aplicava o rótulo e lançava os produtos em outra esteira, para serem cuidadosamente alojados em caixas.

Com o olhar, acompanhou a trajetória das caixas de latas e garrafas a caminho da área de estocagem, nos fundos do prédio. Lá, eram dispostas em estrados e transferidas por empilhadeiras aos vários galpões nos arredores.

Como sempre, estava encantada com o processo, mas saiu do transe quando viu a porta da gerência geral se abrir, no paredão oposto, e Edward adentrar o piso da fábrica.

Bella sentiu o corpo tenso e um arrepio na pele. Irritada, cerrou os dentes, mas a sensação não se dissipou.

Edward estava vestido como no dia anterior, de calça jeans e camisa decambraia. De longe, parecia grande e muito masculino, até um pouco perigoso. Ao recordar seus olhos cinza perspicazes, Bella estremeceu.

Assim que chegou, Edward viu-se rodeado por funcionários querendo lhe falar.

Bella observou-o conversando apressado com os três homens e as duas mulheres. Todos tinham de trotar para acompanhá-lo, enquanto ele se movia em meio às máquinas e funcionários. Ele parava a todo instante para dar instruções ou inspecionar o maquinário, mas não perdia tempo.

Mesmo visto de cima e daquela distância, Edward Cullen destacava-se. Havia algo nele, um ar inato de confiança e autoridade que o marcava como homem no comando.

De repente, ele ergueu o olhar direto para Bella, que sentiu o coração se sobressaltar. Num reflexo de pânico, ela deu meio passo atrás, antes de perceber o que fazia e abortar a retirada. Daquela distância, não podia distinguir claramente a expressão dele, mas sentia os olhos claros avaliando-a. Controlando a vontade de fugir daquele olhar, sorriu e acenou.

De início, Edward não retribuiu. Então, moveu a cabeça discretamente e retomou a inspeção. Quando ele passou à área das cozinhas, desaparecendo de vista, Bella soltou o ar dos pulmões, que estivera retendo sem perceber. a que havia naquele homem que a perturbava tanto? Desanimada consigo mesma, afastou a questão e voltou-se para a sala.

Todos os pensamentos em Edward Cullen esvaíram-se quando olhou para o retrato enorme da bisavó que dominava a parede oposta à mesa de -se para ficar bem diante da pintura e sorriu afetuosa.

Isabella Marie Swan, o motivo de seu nome e ídolo.

O retrato fora feito quando a bisavó contava quarenta e poucos anos. Na juventude, Isabella Marie fora uma beldade e, mesmo mais velha, era descrita naqueles dias como uma "beldade", mas Bella sempre se sentira mais fascinada pela força, inteligência e determinação que a matriarca transmitia pelo olhar.

Enquanto crescia, Bella se surpreendia com as histórias sobre Isabella Marie, desejando fervorosamente ser como a bisavó e um dia seguir seus passos como presidente da empresa.

Viúva e sem dinheiro, com um filhinho para criar, ela fizera o que poucas mulheres naqueles dias teriam ousado. A jovem Isabella Swan iniciara um pequeno neegócio caseiro, que cresceu e se transformou no que hoje eram as empresas Swan.

- Devemos tudo isso a você, bisavó - murmurou Bella. - E juro que farei tudo o que puder para ver este negócio prosperar e permanecer na família.

- O que faz aqui?

Bella assustou-se com a pergunta impertinente e olhou para a porta. Uma mulher pequena e bem arrumada de uns trinta e cinco anos parecia pensar que flagrara uma ladra com a mão no cofre.

A mulher usava os cabelos castanhos num corte reto na altura do queixo, moda corrente, mas o estilo severo não amenizava seus traços angulosos. Com os lábios finos numa linha de desgosto, mantinha-se tão ereta que teria servido a uma propaganda de cinta modeladora.

- Oi – cumprimentou Bella. - Não ouvi você chegar. A mulher não se alterou.

- Temo que terá de sair.

Bella riu.

- Deve ser nova aqui. Sou Bella Swan. Esta é a sala de meu pai.

- Sei quem é, srta. Swan - esclareceu a mulher, em tom insolente, e Bella juraria que sua expressão era de desdém. - Só que não esperávamos que viesse aqui. O sr. Carter telefonou do hospital esta manhã, e seu pai disse que a senhorita partiria hoje.

Então, James telefonara para assegurar que a ovelha negra da família fosse banida novamente. Típico dele. Devia ter telefonado antes de a mãe e Edward chegarem ao hospital, apavorado com a possibilidade de a cunhada impertinente permanecer. Mas por quê?

Bella quase riu alto.

- Acontece que... meus planos mudaram.

- Entendo. Mesmo assim, terá de sair.

- Como?

- O sr. James ocupa esta sala, pois está no comando agora. Tenho instruções para impedir a entrada de quem quer que seja quando ele não se encontra.

- É mesmo?

Veremos, pensou Bella. De forma alguma admitiria James na sala de seu pai. Ou comandando a empresa. - E onde está James? Quero falar com ele.

- O sr. James está a caminho do aeroporto de Dallas. Vai se encontrar com o comprador da rede de supermercados Thrifty Pantry.

- Numa sexta-feira à tarde? Não é meio estranho?

Quando ele chegar lá, o escritório já estará fechado.

A mulher ergueu o queixo, superior.

- Nem sempre os executivos tratam de negócios na sede das empresas. O sr. James participará de um torneio de golfe beneficente no domingo, patrocinado pela Thrifty Pantry. Há meses, comprometeu-se a comparecer. Claro, se soubesse que a senhorita estaria aqui, teria cancelado.

Oh, tenho certeza disso, pensou Bella. James não deixaria a cunhada bisbilhoteira sozinha naquele que ele considerava seu campo.

- Ora, não é uma sorte ele não estar sabendo? Eu teria odiado interferir na agenda de trabalho dele. Considerando-se golfe um tipo de trabalho. Quando é que ele volta, srta...

- Victória. O sr. James só estará de volta ao escritório no próximo fim de semana. Anda tão ocupado dirigindo a empresa pelo sr. Swan que negligenciou a própria função, de modo que planejou visitar nossos maiores clientes, em cinco Estados próximos.

- Entendo. E exatamente o que faz aqui, srta Victória? - Eu gerencio o departamento de finanças.

- Mesmo? O que aconteceu à srta. Zafrina? Ela estava no cargo há anos, mas não acredito que tenha atingido a idade de se aposentar.

- Sim, bem... A srta. Zafrina não se atualizou. A mulher nunca conseguiu largar os livros anotados a mão e usar o computador. Há um ano, seu pai lhe concedeu uma pensão de aposentadoria precoce bastante generosa. Fui promovida para assumir seu lugar.

- Entendo. Houve mais mudanças no escritório desde que parti?

- Realmente, não sei. Agora, devo insistir para que sala.

Bella fez um gesto vão.

- Oh, não se preocupe. Tenho certeza de que James não vai se importar com minha presença aqui. Só estou esperando Jane voltar do almoço.

- Jane não trabalha mais aqui.

- Como? Não me diga que meu pai a aposentou também. Não acredito. Ele ficaria perdido sem ela.

- Na verdade, o sr. James dispensou-a ontem. Já que passaria a comandar a empresa, achou que devia escolher sua própria secretária.

Bella estreitou o olhar.

- Ele a dispensou? Está dizendo que Jane ganhou uma pensão, como a srta. Zafrina?

- Bem... - Victória entrelaçou as mãos e desviou o rosto.

- Espere um pouco... Está dizendo que James despediu Jane? Após vinte e dois anos na empresa? Meu pai sabe disso? Não, claro que não - adiantou-se, antes que a mulher respondesse. - Ele nunca teria aprovado essa atitude.

- Como presidente interino, o sr. James tem autoridade para tomar tais decisões. E devo dizer que ele estava certo em livrar-se dela. A mulher era muito arrogante. Ora, a forma como agia levava a crer que dirigia a empresa.

Jane provavelmente assumira boa parte do controle, quando a doença de Charlie começara a se agravar, pensou Bella. E sem dúvida fazia um trabalho muito melhor do que James em seu melhor dia.

Bella estava tão furiosa que estremecia por dentro.

James estava no comando havia poucos dias e já causava devastação. Se ele estivesse ali, seria capaz de esganá-lo!

Foi cuidadosa, entretanto, em não demonstrar a raiva, certa de que a ória relataria em detalhes aquele encontro. Ainda não estava pronta para abrir o jogo com James.

- Bem, se Jane não vai voltar, acho que vou indo. Mas primeiro vou dar uma volta e dizer olá ao resto da equipe.

- Oh, francamente, não acho uma boa idéia... - resmungou Victória, mas Bella já a ultrapassava com suas pernas longas, cruzando a saleta externa rumo ao estreito corredor.

A mulher apressou-se, alcançando-a na recepção.

- Srta. Swan, acho que o sr. James não aprovaria que ocupasse o tempo da equipe no horário de trabalho.

A paciência de Bella se esgotou. Era sua intenção deixar que todos pensassem que não tinha interesse na empresa, que meramente passara para uma visita amiigável, mas estava farta de Victória.

Estacando, voltou-se tão de repente que a mulher quase colidiu com ela.

- Srta. Victória, esta é uma empresa familiar - observou Bella, em tom de cautela, mas com voz tão sedosa que a mulher se admirou. - Devia ter em mente que não sou apenas um membro da família, mas também acionista. O sr. James é meramente um empregado.

- Mas ele... é o vice-presidente! E marido de sua irmã - protestou Victória.

-É verdade. Mas não é o dono. O que significa que se não tomar cuidado poderá ser demitido. Assim como a senhorita. - Bella ergueu o queixo, desafiando a mulher. - Fui clara?

Bella passou o resto da tarde no escritório. Deliberadamente, levou o tempo necessário, parando em cada mesa e estendendo as conversas só para irritar a srta. Victória. A mulher fingia trabalhar, mas permanecia atenta, com aquela cara de quem chupara limão.

Percebendo que o moral no ambiente de trabalho não era dos mais altos, Bella imaginou quanto do desânimo podia ser atribuído à gerente de finanças.

No passado, a Swan fora um lugar alegre e relaxado no qual se trabalhar, mas os olhares nervosos que os funcionários do departamento lançavam a Victória deixavam claro que a mulher administrava com mão de ferro. Mesmo funcionários de outros departamentos pareciam tensos junto dela.

Aquele gerenciamento tipo "chicote" não se adequava a cidades pequenas como Ruby Falls, onde todos se conheciam, e nunca fora a política na Swan. Bella estava surpresa com o fato de Charlie ter permitido que uma atmosfera de trabalho tão desconfortável se desenvolvesse.

No encerramento do expediente, deixou o escritório com a equipe. Uma tempestade chegava do sul. Relâmpagos rasgavam o céu nublado. A cada instante, os trovões soavam mais estrondosos, e o cheiro da chuva pairava no ar.

Ansiosa para chegar em casa antes da tempestade, Bella apressava-se pelo pomar, pensando em tudo o que constatara. Se ela e o pai se entendessem melhor, poderia procurá-lo para discutir a situação, mas enquanto não tivesse algo concreto para relatar, ele com certeza dispensaria suas preocupações com desdém.

Quando chegou ao portão do jardim, as primeiras gotas de chuva começaram a cair, gotas grandes, do tamanho de uvas, que mais pareciam granizo. Quando um trovão mais forte troou, Bella correu para casa.

Entrou pela porta da cozinha, ofegante e risonha, a blusa colada à pele. Siobhan afligiu-se.

- Céus, criança, está ensopada! Tome, enxugue-se anntes que pegue um resfriado. Passou-lhe uma toalha.

- Obrigada. - Bella enxugou os braços e o rosto.

Então, secando os cabelos, prestou atenção ao cheiro bom de comida - Hummm ... Algo está cheirando bem. E estou faminta.

- É rosbife, mas não está pronto ainda, e não adianta ficar à espreita por um pedacinho. O jantar estará pronto às cinco, como sempre. Sendo assim, circulando!

- Nem mesmo uma boquinha? Por favor... - bajulou Bella, expressando miséria.

- Não. Aqueles que perdem uma refeição devem passar fome até a seguinte - castigou a governanta, passando a abanar o avental. - Agora, xô! Saia da minha cozinha, está molhando todo o piso.

- Estou indo, estou indo. - Rindo, Bella empurrou as portas de vaivém.

Encontrou as irmãs na saleta íntima, com seus pais.

Ninguém reparou nela à porta, ao que sentiu o mesmo isolamento que experimentara ao crescer.

Bree acarinhava o pai no sofá, e Alice, sentada no chão, mantinha a cabeça pousada nos joelhos dele. Charlie acariciava distraído os cabelos castanho-escuros da caçula, mas fitava a filha do meio, que falava:

- Aquele médico de Houston disse que pode incluir você no grupo experimental. Esse novo medicamento que estão testando pode ser a resposta para o seu caso, papai. Se concordar, podemos levá-lo a Houston na segundar pela manhã. Farão uma série de testes, e você entra no programa. Claro, terá de ficar no hospital lá, mas...

- Acho que não, meu bem.

- Papai, por favor...

- Não, Bree. Sei que tem boa intenção, mas precisamos aceitar que é tarde demais para mim. Prefiro passar o resto de meus dias em casa, com minha família, e não num hospital sendo espetado, cutucado e estudado como um rato de laboratório.

- Mas é uma esperança, papai.

- Querida, sabemos que a chance de cura neste estágio vai de zero a nenhuma. Não, meu bem - decidiu Charlie, acariciando-lhe a mão. - Obrigado pela preocupação, mas não.

Bella sentiu uma pontada no coração ao ver o olhar de amor absoluto do pai sobre o rosto angustiado de Bree. Sem fazer ruído, tomou a escada e subiu ao quarto.

A tempestade estabilizara-se numa chuva constante quando Bella desceu novamente ao térreo. Na sala de jantar, surpreendeu-se ao ver Edward. Superada a surpresa, sorriu e provocou:

- Olá, doçura! Não sabia que viria.

- O nome dele é Edward Masen Cullen, Isabella - repreendeu o pai.

- Sim, papai, eu sei. E o meu é Bella - rebateu ela, ocupando a cadeira à direita da mãe, numa das cabeceiras da mesa, ficando de frente para Edward. O pai comprimiu os lábios, mas ela fingiu não notar.

Como sempre, Bree e Alice ladeavam Charlie na outra cabeceira.

Durante a refeição, Bella permaneceu em silêncio, exceto quando alguém lhe dirigiu a palavra, principalmente Alice, sempre irônica, enquanto Rennee se esforçava para acalmar os ânimos. Uma ou duas vezes, Edward fez algum comentário educado, uma pergunta. Bella respondeu com desembaraço, mas, fora disso, manteve o olhar no prato e não incentivou a conversa.

Nem o pai, nem Bree dirigiram~lhe a palavra. Várias vezes, Bella ergueu o olhar e flagrou Edward fitando-a, mas ignorou-o solenemente, concentrada na refeição deliciosa.

Siobhan se superara e, tendo dispensado o almoço, Bella estava faminta. Serviu-se duas vezes de uma boa porção de rosbife, molho, batatas, molho de amêndoas e beterrabas em picles, e só então fechou a refeição com uma fatia de torta de limão.

Ao saborear a última garfada, ergueu o olhar e viu Edward observando-a espantado.

- Pensei que modelos só comessem salada... Bella riu e bateu no estômago.

- Não eu. Preciso de mais que comida de coelho para satisfazer meu apetite. Além disso, fico mal-humorada quando não mato a fome.

- Oh, querida, não queremos que isso aconteça - provocou Alice. - A srta. Rainha Glamour tem de estar sempre de ótimo humor.

- Alice - alertou Rennee, mas o tom enfraquecera após repreensões sucessivas.

Edward lançou apenas um olhar confuso à adolescente, e continuou: - Acho que não há perigo de isso acontecer esta noite.

- Papai, você está bem? O tom preocupado de Bree chamou a atenção de todos. Bella angustiou-se ao ver Charlie esgotado após uma mera refeição. Recostado na cadeira, parecia mais velho, pálido e exausto. Rennee levantou-se e apressou-se para o lado do marido.

Bella e Edward seguiram-na.

- Hora de levá-lo para a cama, querido - decidiu Rennee, gentil. - Foi um longo dia, e você está cansado.

- Não vou discutir. Lamento ter de falhar com você, Edward. Talvez possamos ver aqueles relatórios no café da manhã.

- Sem problemas. Não há nada que não possa esperar.

- Vou chamar Siobhan - prontificou-se Bree, mas, assim que acabou de falar, a governanta surgiu à porta. - O que foi agora? Está cansado? Bem, vamos levá-lo para cima.

- Eu o levo. - Edward tomou Charlie no colo, como se ele não pesasse mais do que um saco de farinha, e saiu da sala de jantar.

Bella observou-os e mordiscou o lábio.

- Fico com o coração despedaçado de vê-lo tão doente e fraco.

- Como se se importasse mesmo - desdenhou Alice.- Se fosse verdade, teria voltado antes.

Bella suspirou.

- Sabe, maninha, começo a me enjoar das suas provocações. Acha mesmo que eu não queria voltar para casa? Que não tinha saudade da minha família? Quase morri ficando longe. Mas não tinha escolha. A esta altura, deve saber que papai me expulsou, há cinco anos, e nunca me chamou de volta. Ele só tolera minha presença aqui agora por causa da mamãe.

- Sim, e sei por que ele a expulsou! - gritou Alice, levantando-se tão bruscamente que a cadeira caiu. Trêmula de fúria, encarou Bella demonstrando mágoa e confusão: - Todo o mundo na cidade sabe. É tão humilhante... Não sei como Bree suporta ficar perto de você. Eu com certeza não agüento!

Com isso, saiu correndo, da sala, que mergulhara em em silêncio.

As duas irmãs permaneceram imóveis, ouvindo os passos de Alice na escada e, então, mais fracos, no correedor. Segundos depois, a porta do quarto se fechava com violência.

Bella suspirou, olhou para a irmã e franziu o cenho. - Lamento, mana. Não queria que isso acontecesse. Bree permanecia tensa, o rosto transtornado. Então, meneou a cabeça. - Tudo bem.

- Se fosse verdade, não estaria assim, como se a tivessem esbofeteado. Bree, não acha que é hora de conversarmos sobre isso? Nunca conversamos, sabe...

Bree a fitou de olhos arregalados, a expressão puro terror.

- Não! - Meneou a cabeça novamente, tão tensa que a presilha dos cabelos se soltou. - Não temos nada sobre o que conversar.

- Nada sobre o que conversar? Bree, aquela noite muudou a minha vida. Mudou as nossas vidas. Eu diria que temos muito sobre o que conversar. E com muito atraso.

- Não. Está acabado e enterrado, e quero esquecer que aconteceu.

- Bree...

- Já vou. Diga boa noite a mamãe por mim. E que telefono amanhã.

Bella foi atrás da irmã através da sala de estar. - Bree, espere!

A irmã empurrou a porta de tela da entrada. Bella fez o mesmo, seguindo Bree pela varanda. A porta bateu, mas o estrondo foi abafado pelos trovões da tempestade.

A chuva caía forte, formando poças de água no passeio, chocando-se contra o corrimão, originando uma névoa sobre o telhado.

Bella estacou sob a faixa retangular de luz amarelada que vinha da casa e olhou ao redor. Como Bree desaparecera tão rápido? Então, quando um relâmpago cortou o céu, vislumbrou a irmã procurando seu guardava na escuridão, onde devia tê-Io deixado.

Bree localizou o objeto primeiro, pegou-o e se postou no topo dos degraus da varanda, bloqueando a passagem. Os trovões ribombavam tão fortes que o chão chegava a estremecer.

- Bree, ouça. Não tentei seduzir James naquela noite. Eu juro. Céus, Bree, éramos tão chegadas na época. Como pôde acreditar que eu faria aquilo?

- James disse que você queria adiar ó casamento e tentou levá-Io para a cama. Pouco antes, você tinha tentado me convencer a adiar.

- Bree, eu te amo e não há nada que não faria por você, mas dormir com James estaria fora de cogitação. - Bella estremecia só de pensar.

- James disse...

- James mentiu. Bree, ele tentou me violentar! Teria conseguido, se papai não tivesse chegado. Então, o patife deturpou tudo e disse que eu tentei atacá-lo!

Bree ergueu o queixo. - papai acreditou nele.

- Porque quis acreditar nele. Sempre pensou o pior de mim, você sabe disso.

O queixo de Bree começou a tremer e, mesmo sob a iluminação fraca, Bella via o brilho das lágrimas em seus olhos. Mas a irmã não lhe acreditava.

- Não. Ele não faria isso...

Com movimentos desajeitados, abriu o guarda-chuva e saiu à tempestade.

- Bree, escute! - Bella agarrou o braço da irmã para detê-la, mas soltou-a quando Bree gritou. - O que foi? Machuquei você?

Cenho franzido, a irmã massageava o braço no ponto em que Bella o segurara.

- Não, claro que não. Eu... só levei uma batida aqui.

- Deixe-me ver.

- Não precisa, estou bem...

Bella agarrou-lhe o pulso e puxou a manga. Atônita, apesar da iluminação imprópria, viu manchas roxas na pele da irmã, indo do antebraço até o ombro e além.

- Bem que estranhei o fato de você usar mangas compridas numa noite tão quente. James fez isso?

- Claro que não! - Bree desvencilhou o pulso e baixou a manga. - Eu... sofri um pequeno acidente.

- Que tipo de acidente? Por que não contou a ninguém sobre isso?

- Só caí da escada. Não foi nada. E não mencionei porque não queria preocupar papai e mamãe. Eles já têm, muito em que pensar.

- Bree, você me diria se...

- Não há nada a contar. Sofri um acidente, só isso. Agora, tenho mesmo de ir.

Ela desceu a escada e apressou-se até o carro. Bella não ousou detê-la, temerosa de machucá-la novamente.

Sentia-se frustrada e perturbada. A névoa lhe umedeecia a pele, e o ar pareceu gelado de repente. Distraída, esfregou os braços e observou as lanternas do carro da irmã desaparecerem na chuva e na distância.

- Está preocupada, não está?

Bella sentiu o coração na boca. Voltou a cabeça na direção da voz grave, enquanto Edward avançava na varanda. Ainda sentia o coração pulsando forte, mas, com esforço, engoliu a sensação de medo e ergueu o sobrolho.

- Espionando, é? Ora, doçura, você me surpreende. Nunca o tomaria como bisbilhoteiro.

- Foi sem querer.

- Então, o que estava fazendo escondido nas sombras?

- Eu não estava escondido. Simplesmente deixei Charlie no quarto e desci em seguida, para que Rennee pudesse cuidar dele. Ia passar na sala de jantar para me despedir, nisso ouvi você e Bree discutindo e achei melhor ir embora. Estava aqui, esperando a chuva amainar um pouco, quando as duas saíram.

- Podia ter avisado que estava aí.

- É verdade, mas não quis deixar sua irmã constrangida.

Bella afastou os cabelos e riu sarcástica. - Mas não se importa de deixar a mim constrangida, certo?

- Duvido que fique constrangida facilmente.

Edward adiantou-se um passo e a fitou detidamente com seus olhos cinza-claros.

- Acha que James está abusando dela?

Suspirando, Bella abraçou-se, deixando cair a máscara de descontração. Estava cansada emocionalmente, exausta demais para se importar.

- Não me surpreenderia. Mas não posso provar. É possível que ela tenha caído da escada, acho.

Edward cruzou os braços.

- James tentou de fato violentar você? - especulou, sério. - Ou é verdade que você tentou se colocar entre ele e Bree?

Bella estreitou o olhar.

- Se tem de perguntar, não adianta responder, certo? - Desviou o olhar e, deu de ombros. - Acredite no que quiser. Não faz diferença para mim.

- Boa tentativa, mas não vai funcionar desta vez. Você mentiu para mim, ruiva.

- Como?

Edward aproximou-se mais.

- Tentou me convencer de que não se importava com o que as pessoas achavam, mas não foi essa a impressão que tive de sua conversa com Bree.

Ele estava tão perto que Bella tinha dificuldade em se concentrar nas palavras. Com a percepção ativada, deevido à chuva ao redor, tinha ciência de vários fatores... como o calor do corpo de Edward, seu cheiro limpo e másculo, a água-de-colônia de aroma amadeirado, os pêlos do peito visíveis pelo decote da camisa esportiva. Tratava-se de um homem grande e poderoso, extremamente viril, e algo nele a atraía. Era quase como se uma forte corrente maggnética surgisse entre ambos.

Céus, Bells, controle-se! Está cansada, e o estresse dos últimos dias está cobrando seu preço, convenceu-se, mas não adiantou. Arrepiava-se coma proximidade de Edward, o corpo todo trêmulo.

Ele também sentia a atração, podia ver em seus olhos prateados. O desejo emanava dele, assim como o pesar, por conta da própria fraqueza.

Edward a fitava desconfiado, como sempre, mas isso não parecia mais importante. Parte dela... a jovem faminta por amor, sem dúvida, desdenhou... ansiava em recostar a cabeça naquele tórax amplo e sentir os braços fortes protegendo-a.

Voltou a cabeça rápido, inquieta com a ansiedade tola. - Não me importo com o que a maioria das pessoas pensa.

Por algum tempo, fitou as lanternas vermelhas dos veículos distantes desaparecendo na curva da estrada.

- Só com aqueles que quero bem.

Suspirando, relaxou para colocar mais espaço entre eles.

- Não que isso importe ou mude algo. Bree acredita em mim tanto quanto meu pai. Encarou Edward. - Ou você.


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