Cap. 8 – Quando as coisas ficam mais estranhas

As investigações do roubo do vaso não estavam indo muito bem. Porém a intuição de Leon dizia que a melhor área pra buscar pistas seria em Chinatown. Leon não era detetive, muito menos agente de FBI. O trabalho dele era patrulhar, prender bandidos, enfrentar tiroteio... Talvez se ele fosse promovido, talvez pudesse participar de investigações. Mas isso não iria impedir o que iria fazer.

Quando Leon resolveu visitar Ada às 20h em seu apartamento em Chinatown, avistou um homem filipino batendo na porta dela. Resolveu subir meio lance de escada, de certa forma que ficasse escondido para que ela não o visse.

Ada abriu a porta e disse

- o que foi?

- Han e um amigo dele chamado Yuri querem te ver agora. Te levo de carro.

- Já volto.

Ada pegou um casaco, saiu de casa, trancou a porta e foi descendo as escadas do seu prédio.

Leon desceu as escadas e fez o máximo de esforço para não ser visto. Ali, naquele prédio de esquina de Ada, entre as ruas Bayard e Mulberry, estava parado um carro azul claro, quase cinza, um Ford Crown Victoria 1980.

Memorizou a placa do carro. Quando o carro partiu, procurou um táxi o mais rápido possível. Ali em Chinatown era difícil aparecer um táxi. As ruas estão sempre cheias de carros normais e carros de carga para os pequenos mercados que haviam no bairro todo.

Quando milagrosamente apareceu um táxi, pediu o motorista para fazer o caminho do carro e quando o achou, pediu pro motorista seguir o carro que apontara. A distância não era muito longe. O carro parou na rua Grand Street, em Lower East Side. Leon forçou o motorista parar o carro uns 15m do carro do filipino gordinho. O motorista ficou irritado e começou a fazer perguntas de porque Leon estava fazendo aquilo. Leon apenas pegou o distintivo, mostrou pro motorista e disse "não pergunte".

O motorista entendeu logo e ficou quieto. Ada e o filipino entraram num prédio, enquanto Leon procurava por um lugar onde poderia se esconder e esperar o momento que Ada descesse pra ele saber o quanto ela iria demorar. Havia um mercadinho perto e ele entrou ali mesmo. Na seção de revistas, pegou uma sobre viagens e tentou ler.

Meia hora depois, Leon já não agüentava mais ler sobre a Espanha, Portugal, Grécia, Turquia... Até que Ada e o filipino apareceram para entrar no carro de novo. Infelizmente, não havia um táxi por perto, e Leon teve que andar a uma rua próxima até pegar um táxi, fazendo-o perder o carro de vista. Maldita falta de vontade de usar seu carro. E malditas broncas que levava sempre do pai por perder pontos na carteira. Leon tinha aquela carteira de motorista por sorte, pois estava sempre perdendo pontos na carteira.

Conseguiu pegar um taxi e deu o endereço de Ada pro taxista.

O taxista dirigiu o carro até o endereço. Neste momento, Leon já estava achando que Ada já estaria dentro de seu apartamento.

Ele subiu, bateu na porta de Ada e ela apareceu. Porem, ele não sabia o que pensar. Será que Ada tem um amante? Será que Ada é uma prostituta com um cafetão? Quem era aquele cara? Tantas possibilidades...

- Oi, amor - ele disse. Tentou parecer o mais normal possível.

- Leon - Ada disse um pouco em choque - não esperava você por aqui.

- Eu sei. Eu vim te visitar, fazer uma surpresa... Fiquei com saudades de você. – Leon colocou as mãos na cintura de Ada, sorrindo mais que o normal. – Você ia sair por acaso? Está de casaco, tênis... – Leon torcia para que Ada não desconfiasse de nada, apesar da necessidade dele de arrancar respostas dela.

- Ah, sim... Na verdade, eu voltei da rua tem poucos minutos. Ainda não tive tempo de tirar o sapato – Ada disse um pouco nervosa. – Tinha ido visitar uma amiga – ela disse tentando parecer calma, assim como Leon estava tentando fazer. Ada fechou a porta principal do apartamento logo atrás de Leon e apontou o sofá para ele se sentar.

Leon se sentou no sofá e esperou Ada dizer alguma coisa. Estava muito preocupado em querer descobrir onde ela tinha ido e, por isso, não estava aparentando ser um namorado, mas uma visita estranha que sorria o tempo todo e olhava para Ada o tempo todo, como esperando uma reação.

- Você quer café? Tem na garrafa. Acho que ainda está quente – Ada disse enquanto estava parada entre a TV e a mesinha de centro na frente de Leon.

- Quero! Quer que eu vá na cozinha ou fico aqui? – perguntou.

- Pode ficar aí.

- Ok. Café com açúcar, por favor – ele sorriu.

Ada foi para a cozinha e preparou o café de Leon, enquanto ele pensava num modo de falar sobre o filipino. Ada voltou e deu uma caneca marrom de cerâmica para Leon. Ele pegou a caneca, deu um gole no café quente e doce, e disse:

- Você mora num apartamento cheio de vizinhos estrangeiros. Quando eu estava subindo as escadas, vi cara gordo que não parecia ser chinês, nem americano. Acho que ele era indiano, indonésio, alguma coisa assim... Não tinha cara de chinês. – ele sorriu e bebeu um grande gole do café.

Ada gelou por dentro. Não queria dizer nada sobre P.J.

- Ah, foi? Bom, eu acho que ele não mora aqui nesse prédio. Ou então, deve ser morador novo, ou amigo, sei lá. Pra falar a verdade, eu não conheço muito bem os vizinhos dos andares mais de cima, Leon.

Leon disse um "hum" e voltou a beber o café. Porém Ada não queria que Leon percebesse seu nervoso então resolveu distraí-lo com algo que distrai muito os homens: sedução. Ela sentou ao lado direito dele (no caso, no esquerdo olhando pelo ponto de vista dela), pegou a caneca da mão dele enquanto ele dizia um "hey, por que você ta fazendo isso?", colocou a caneca na mesinha de centro, segurou o rosto dele e o beijou. Rapidamente, colocou a mão na coxa esquerda de Leon e escorregou a mão na parte mais interna. Por impulso, o corpo de Leon meio que deu um "pulo" enquanto a beijava.

- Ada...

- Seu hálito ta com gosto de café – ela o interrompeu. – Mas eu agüento. – Ela sorriu enquanto fazia carinho no rosto dele – Também senti sua falta – voltou a beijá-lo.

Leon pensou em dizer algo, mas já estava muito envolvido ali.

- Lembrei de uma coisa – ela disse assim que parou de beijá-lo bruscamente.

- O quê?

- Leon...Você vai ter que me prometer que não vai vir me visitar sem me avisar antes.

- Por que não?!

- Leon! – ela levantou a palma da mão para cima e mostrou a sala. – A casa está uma bagunça! Eu não quero que você veja essa bagunça mais uma vez!

Leon sentiu que aquilo era uma desculpa bem disfarçada sobre Ada ter saído com aquele filipino.

- Então quer dizer que você esconde dos outros suas coisas sujas? Que você tem preguiça de arrumar o apartamento?

- É mais ou menos isso. Leon, eu sou meio americana, meio chinesa. Não posso ficar recebendo você nessa bagunça toda!

Leon ficou sério, pensativo. Ada estava séria, torcendo para que Leon fosse compreensivo.

- Tudo bem. – ele disse.

Ela sorriu. Abraçou-o e começou a beijar o pescoço dele.

- Posso te pedir uma coisa? – Ada disse

- O que?

- Vamos jantar fora? Por favor! Eu to com muita vontade de ir num restaurante japonês. Mas você vai ter que pagar, porque to sem dinheiro.

- Ok, qual é o restaurante japonês que te agrada nesse bairro chinês? – ele disse.

- Nenhum. Quero ir no Kamisama, que nem fica em Chinatown. Por favor – ela mordeu de leve o pescoço de Leon – às vezes eu me sinto muito sozinha aqui. E esse bairro só é bonitinho e alegre durante o dia. À noite – ela disse bem baixo – é deprimente – ela encostou a cabeça no ombro de Leon.

Ele fechou os olhos e jogou todos seus pensamentos para o fundo do pensamento, se é que esse termo existe. Beijou a testa de Ada e disse:

- Seu pedido é uma ordem. Mas se isso for castigo porque eu vi seu apartamento bagunçado, também vou te castigar se você chegar de repente no meu apartamento – ele disse num tom de brincadeira.

- Só se você me castigar do jeito que eu quero – ela sorriu de forma debochada e foi trocar de roupa.


Leon e Ada foram no tal restaurante que ela havia pedido. Era um desses restaurantes onde vendiam comida japonesa e chinesa e, apesar de não ser em Chinatown, tinha uma decoração mais cara e mais típica do que algum em Chinatown. Talvez o dinheiro bem gasto numa decoração, realmente, modifica todo o conforto do lugar. Era bem iluminado, tinha uma fonte de vidro na entrada, lanternas de papel, iluminação amarelada... Naquela hora, Leon até havia esquecido que estava desconfiado de Ada por alguns motivos. Apenas aproveitou o momento com a namorada enquanto comiam sushis, sashimis e outras comidas.

Enquanto comiam, um dos fotógrafos do restaurante perguntou se podia tirar uma foto do casal. Ada tentou negar a foto, mas Leon insistiu muito. Leon, que estava sentado de frente para Ada, puxou uma cadeira vazia de uma mesa vazia e colocou ao lado de Ada. Sentou-se e abraçou ela pela cintura. Como resultado, o fotografo tirou a foto dos dois.


Alguns dias depois, houve uma denúncia à policia de que um quadro de U$30.000 que foi furtado de um leilão. Leon já sabia disso tanto pela policia, tanto pela reportagem no New York Times escrita por Alyssa Ashcroft. A polícia estava de olhos bem abertos para os roubos de peças de arte.

Voltando do cinema, Leon e Ada andavam por uma rua vazia quando Leon perguntou:

- Ada... – fez uma pausa - Você já conhece meu pai. Quando eu vou conhecer seus pais?

Ada ficou séria.

- Bom, talvez um dia quando formos à Xangai, aí você os conhecerá. Se tiver paciência, quem sabe um dia?

- Tudo bem. É que eu fico imaginando se seu pai é um daqueles pais rígidos, se ele vai me ameaçar de alguma coisa – ele deu um sorriso tímido.

- Own – ela deu um sorriso debochado – se você quiser, eu digo que eu sou o homem da relação. Aí você já pode pular a conversa pra família, filhos, essas coisas que você gosta

Leon parou de andar e ficou olhando para Ada. Ela não agüentou ficar séria então passou a rir da cara de Leon.

- Desculpa, mas na hora de matar uma barata, uma lacraia, parece que você não pensa o mesmo. Ou quando você fica me implorando algumas coisas... – Leon riu.

Ada ficou resignada com a resposta; apesar de ficar rindo de forma debochado, o momento descontraído não durou muito, e em pouco tempo um bandido armado apareceu pra assaltar Leon e Ada. Ele estava logo atrás deles e começou a pedir rapidamente para eles levantarem as mãos e ficarem parados o máximo possível.

Leon sabia que sua arma estava escondida nas suas costas, porém aquela era uma situação onde não daria para sacar a arma e apontar para o bandido. Teria que reagir e desarmar o bandido.

- Me passa o dinheiro! Me passa o dinheiro! – o bandido, que usava um casaco moletom cinza, balançava o revolver toda vez que pedia alguma coisa.

- Calma, calma! Eu vou pegar a minha carteira, ok? Por favor... – Leon dizia – Por favor, não atire.

- Anda logo! Você ta pensando o que? Que eu tenho todo o tempo do mundo, filho da puta? Passa logo o dinheiro! Passa logo antes que...

E nessa hora, o ladrão puxou o braço de Ada para usá-la como refém. Porém, Ada reagiu ao bandido e deu um soco na cara dele. Quando foi puxar a arma, o ladrão segurou a mão de Ada, de um modo que faltava pouco para apertar o gatilho contra ela. Leon, sem reação, não sabia o que fazer e então puxou a arma que estava na cintura.

- Larga a arma agora! Você está preso! – Leon gritava.

Porém, isso não foi o suficiente para fazer o ladrão largar a arma. Ada tentou dar uma cabeçada na cara do ladrão, tentou torcer o pulso dele, mas o ladrão era mais forte que pensava. E, infelizmente, em todo aquele movimento rápido, o ladrão atirou e esse atirou acertou Leon Kennedy.

- Leon! – Ada gritou ao ver Leon caindo no chão, sem perceber onde o tiro acertava. Já não se preocupava mais em deter o ladrão.

O bandido começou a correr, já que dar um tiro ali naquela rua de Nova York faria todas as pessoas da rua acordarem para saber do tiro que ouviriam. Ele correu até sumir de vista, em direção à entrada do metrô.

Ada se ajoelhou às pressas na rua, já chorando bastante, e virou o corpo de Leon de um jeito que ficasse de barriga para cima. Muito sangue saía. Felizmente, a bala acertou de raspão o ombro de Leon. Mas a dor e a ardência que ele sentia era o suficiente para deixá-lo fazendo qualquer careta de dor. Além disso, Leon se sentia tão impossibilitado de levantar devido ao choque do tiro. Ele sentiu o tiro acertando o ombro, mas só de ouvir o barulho do tiro e ver uma arma apontada para ele, era como se ele tivesse levado um tiro que fosse levá-lo para a morte.

- Leon, você está bem? – Ada estava preocupada e suas mãos estavam tremendo.

- Sim... - e então, Leon desmaiou.


Já no hospital de Lower Manhattan, um médico já estava terminado de cuidar do ombro de Leon. Sua blusa e seu casaco estavam rasgados na altura do ombro. Apesar de ter lavado a mão e os braços no hospital, seu casaco e sua blusa interna tinham sangue. E ele não tinha outra opção até voltar para casa e trocar de roupa. Ada aguardava no corredor em que a sala do Leon ficava. Estava pensativa, quase chorando.

O médico havia dito que por pouco o tiro não atingiu as interseções do úmero e da escápula. Leon deu um sorriso de alívio, mas não conseguia tirar do pensamento uma coisa: o quanto ele teve medo de perder Ada naquele momento. Ele é um policial e quase sempre não tem medo de situações assim em seu trabalho, mas ver Ada numa situação dessa fez ele entrar quase em pânico. O susto que tomou com o tiro e o desmaio foram resultados da possibilidade de perder Ada, sendo a morte dela, ou a morte dele.

Mas uma coisa Leon não conseguia parar de pensar: como Ada sabia lutar daquele jeito?

Quando Leon saiu da sala que estava, foi até Ada. Ele estava com o ombro enfaixado.

- E então? Vamos para sua casa? – ela perguntou.

- Não, Ada. Eu quero ir direto pra delegacia. Eu preciso procurar esse ladrão nas fichas da polícia, eu preciso alertar sobre o assalto... Eu tenho que fazer alguma coisa! Mas antes eu posso te levar em casa, eu só...

- Não, Leon. Não precisa. Eu vou pra casa sozinha. Vai pra delegacia, faz o que você tem que fazer. – ela disse um pouco triste.

- Hum... ok. Ah, lembrei de te perguntar uma coisa. Como você sabia lutar daquele jeito? – ele perguntou surpreso.

- Ah, Leon... – Ada deu um pequeno sorriso – é que eu sou filha de oriental, né? Aprendi pra sobreviver no mundo

- Hum... – Leon fez aquela cara de "então ta, né?".


Depois de uns dias, houve um progresso sobre o roubo do quadro do leilão. Havia uma ligação com um homem chinês chamado Han Yang. Ele residia na cobertura de um prédio em Grand Street, no Lower East Side. Quando Kevin contou para Leon, o belo policial loiro não sabia como agir. Era exatamente o prédio que viu Ada entrar no dia que a seguiu com aquele filipino gordinho. E juntando com o retrato falado do roubo do vaso, as coisas ficavam mais estranhas ainda. Uma parte de seu cérebro dizia que Ada estava por trás disso tudo, mas uma parte do seu cérebro achava que Ada não era capaz de fazer essas coisas.

A polícia mandou o detetive Sommers junto com o tenente Richard Woods para interrogar Han. O detetive Sommers é muito amigo de Leon, e sempre deixava ele e Kevin por dentro das investigações.

Quando o detetive Sommers e o tenente Woods foram até a cobertura do prédio de Han, eles foram bem recebidos. A cobertura era enorme e na parte acima do apartamento, havia um "pequeno andar" totalmente reservado só para uma estufa bem grande. O apartamento até tinha seu luxo. Era fácil perceber a paixão de Han por artes. O tenente e o detetive perceberam o tom de escárnio que Han tinha, como ser interrogado pela polícia fosse algo que estivesse irritando-o profundamente.

Depois de Sommers ter passado todas as informações do caso e da visita à Han para Leon, e de como estavam ligando chineses por trás de tudo, Leon sentiu uma onda de preocupação e decepção. Por que Ada?

E agora tinha que se preocupar se as pessoas iriam descobrir que foi ela. E se descobrissem? Leon seria acusado de cumplicidade? Isso custaria seu emprego?


Leon evitava falar no telefone com Ada. E ela preferia visitar Leon, do que Leon visitá-la. Leon chegou a comentar sobre o caso. Comentava de forma triste e séria. Quase como um aviso disfarçado. E então, Ada dava desculpas de que tinha pego mais um turno no cinema. Aos poucos, um estava evitando o outro.

Apesar de parecer idiota, Leon se sentia como se fosse o Batman namorando a mulher-gato e só descobrir isso num ponto crítico. O policial e a ladra.

Apesar de tudo, não queria jogar na cara de Ada que ela era a ladra.