7. A Cruz a Carregar

O dia não apresentava mais um sol brilhante e belo, como na manhã dele mesmo. Estava oculto atrás de nuvens que tingiam o céu de um branco sem vida. Ainda assim, aquele mesmo céu feio não conseguia diminuir a paz e o verde que emanava daquele lugar simples e belo.

Que Kibum sempre amou estar.

O menor parou de caminhar entre os bancos e fontes, para então encarar subitamente o mais velho ao seu lado.

Tal ato de Kibum que sequer fora notado por Jonghyun; ele mesmo estava tão disperso no interior da própria mente para notar qualquer coisa. Inspirava profundamente. Pairava no ar daquela grande e bela praça um aroma das flores que desabrocharam alguns meses antes, deixando com que o único defeito que não tornava o dia tão belo era a ausência do sol. Poucas pessoas faziam o mesmo que ambos, caminhando pelo lugar ou sentados nos bancos cor de mogno que estavam espalhados pelo lugar – na maior parte casais de mãos dadas e olhares apaixonados.

- Como você sabia que eu gostava desse lugar? – a pergunta descrente do menor fizera Jonghyun olhar para o mesmo.

O médico olhou para seu antigo paciente – Sério? - perguntou erguendo as sobrancelhas, realmente surpreso – Eu... Não sabia.

E, de certa forma, aquilo o havia deixado ainda mais animado com o dia que estava por vir. Ganhara um ponto positivo do menor sem saber, ao levá-lo a um lugar que o mesmo já gostava. Sorriu, espontâneo, para o outro.

- E você querendo ficar trancado dentro de casa! – Jonghyun acrescentou. Voltaram a caminhar, sem que o mais velho recebesse qualquer retruco do outro.

- Nós costumávamos fazer piqueniques por aqui nos finais de semana – Kibum comentou, como se Jonghyun nada tivesse dito, contemplando aquela parte da praça onde havia uma grande fonte ornamentada ao centro da mesma. – Eu e a Soo.

A expressão do menor era vaga, muito vaga. A ponto de Jonghyun não compreender se ele dizia aquilo com tristeza ou estranha indiferença. Decididamente apenas fez com ele o que o outro fez consigo; ignorar o comentário e seguir caminho.

- Na verdade eu fico bastante surpreso em saber que você frequentava esse lugar. – comentou o mais velho, enquanto caminhavam lado a lado, aparentemente sem um rumo definido.

- Por quê?

- Eu também costumava vir aqui nos finais de semana em que eu não tinha que ficar no hospital.

Kibum, que antes apenas observava o chão sob seus pés, erguera o rosto para o mais velho – Nunca te vi por aqui. – acusou.

Jonghyun apenas sorriu. No caminho diante deles, as árvores estavam começando a ficar um pouco mais próximas e em maior número. – Já foi para a parte que fica depois desse mini bosque? – perguntou a Kibum. Recebeu uma resposta negativa. Jonghyun, então, pegou o pulso do menor e começou a levá-lo por uma trilha menor entre as árvores – Eu sempre ficava por lá. É bastante... Divertido.

O menor apenas deixou-se levar pelo braço de Jonghyun, embora o tom de voz do mesmo tenha feito com que ele ficasse ansioso.

Não era uma quantidade suficiente de árvores e plantas para chamar o lugar onde caminhavam de matagal, mas as folhas que apontavam para todas as direções eram grandes o suficiente para fazer com que algumas partes do céu branco sumissem da vista de ambos. A pequena trilha, no chão, tinha algumas pedras e raízes que faziam com que Kibum, que nada dali conhecia, tropeçasse às vezes, praguejando quando Jonghyun esboçava risos nesses momentos.

Isentando esses momentos, os dois seguiram o curto caminho sem abrirem a boca para falar quaisquer coisas em hora alguma. Apenas seguiram por ali, cada um em seus próprios pensamentos – ou como Kibum, em sua consciência um pouco desconfiada e ansiosa para o que veria.

Jonghyun estava tranquilo, andando à frente, como um guia. Aos poucos via as folhas densas diminuírem de número, os troncos retos e grossos cada vez mais afastados até se abrirem clareiras gigantescas. Saiu definitivamente da pequena e simples trilha, pisando nos caminhos de pedra que também existiam naquele lado do enorme parque; estavam no lugar que ele havia dito!

O mais novo esgueirou-se para fora da trilha logo atrás dele. Tinha, à sua frente e aos seus lados, uma grande e bela visão. Algumas árvores mais amistosas do que as da trilha se espalhavam pelo manto de grama verde. Arbustos e outras plantas predominavam às voltas do caminho de pedra. E, tudo isso, circundando um lago extenso e de forma meio irregular, onde dentro do mesmo relaxava um bando de...

- Patos... – Kibum pensou alto. Ergueu as sobrancelhas e olhou para o mais velho – Você vem aqui para ficar na companhia dos patos?

O tom de voz do jovem não tinha descrença ou ironia; era apenas uma pergunta surpresa. Jonghyun sorriu ternamente para o outro – Patos, tartarugas, pombos e às vezes aparece um cachorro que vive por aqui... Mas não só para ficar na companhia deles! – disse, e então passou a mexer nos próprios bolsos do casaco preto que usava. Tirou, então, um saco plástico com pães caseiros. – Eles adoram comer isso também. Vamos chegar mais perto?

Foram em direção à beira do lago, onde havia um banco simples e branco, feito de pedra, envolto pela sombra de uma árvore que havia ao lado do mesmo. Sentaram lá, de início observando as aves brancas flutuando calmamente na água.

O mais velho tirou dois dos pãezinhos que estavam no saco, e entregou um para Kibum. Tirou um pequeno pedaço do seu próprio e jogou à superfície da água, logo sendo imitado pelo mais novo. Sorriu ao perceber que haviam despertado o interesse de alguns patos, que se aproximavam para buscar as migalhas deixadas por Kibum e Jonghyun.

O silêncio entre eles estava começando a parecer um tanto desconfortável.

- Quer me contar como foi sua manhã? – perguntou o médico a seu ex-paciente.

Kibum fechou a cara.

- Eu não via a hora daquele sinal tocar e eu poder ir embora. – respondeu rudemente.

- O que aconteceu?

Jonghyun deixou os pães que jogava para os patos e virou o rosto para o menor. Kibum não respondera à sua última pergunta – sequer retribuía o olhar incitante que lançava a ele. Continuava jogando migalhas aos animais que flutuavam nas águas do lago, e observando quando bicavam a comida.

Até que uma hora o próprio garoto pareceu perder o interesse na tarefa, e passou a simplesmente observar os animais. Suspirou cansado, com o olhar de Jonghyun ainda estudando suas próprias reações. Mordeu o lábio. – Já teve a sensação de que você está numa estrada no deserto, morrendo de sede, cansado e com calor, mas todos continuam seguindo o caminho sem se importar se você cair morto a qualquer segundo? – disse depois de um tempo. Finalmente encarou o rosto do mais velho. – Eu me senti assim.

Jonghyun sentiu ganas de perguntar ao outro quanto tempo perdera pensando naquela comparação.

- Parece que eu não era a mesma pessoa – prosseguiu. – As coisas... Eu também estava vendo as coisas de um jeito diferente. Tudo o que antes não me incomodava parecia me incomodar. Tudo o que antes era bom, comecei a achar abominável, eu não sei. Só queria sair de lá.

"Eu não estava apenas me sentindo sozinho, também estava me sentindo sufocado. É meio estranho e pode até soar contraditório, mas é verdade. Eu me senti abandonado, deixado pra trás. Acho que foi isso mesmo.

Jonghyun hesitou. Não tinha certeza sobre falar o que havia pensado. Sobre falar a respeito do que estava vendo naquele momento, na face do outro. Sem contar que aquilo tudo parecia remeter à sua própria vida...

- Kibum – resolveu se pronunciar – Às vezes não é culpa somente das outras pessoas.

- O que quer dizer com isso?

- Desde que te conheci, nunca vi um sorriso forte no seu rosto – disse o mais velho – E seus olhos dizem muito mais do que você imagina. Foi só você lembrar-se da escola que começou a fazer essa cara horrível. Se você apareceu na escola com esse jeito tão pessimista, deve ter afastado todo mundo de você.

Kibum não respondeu. Sentia um misto de mágoa, ao mesmo tempo em que aquela carapuça parecia ser feita para ele.

Jonghyun abriu um sorriso triste, baixando o olhar para os patos novamente. Jogou mais uma migalha sobre a superfície do lago – Você não tem culpa, e as pessoas precisam ser mais compreensivas. – continuou o mais velho. Jogou mais uma migalha – Você mesmo tinha me dito ontem, não tinha? O tapa na cara que a realidade tinha te dado. Sobre a vida não esperar por você. As pessoas não conseguem imaginar o que você sente, nem mesmo eu. A compreensão precisa vir delas, mas você também precisa entender. E aparecer assim, depois de um acidente grave que já é preocupante, apenas piora a sua própria situação. Por isso que eu digo. Você precisa sorrir mais. E eu quero te ajudar.

Então fora a vez de Kibum baixar o olhar para as aves novamente, sem resposta ao mais velho. Jogava migalhas, assim como o outro também voltara a fazer enquanto conversavam. Como já era crível, que o mais velho lhe diria a verdade de seu próprio coração.

Por um lado, tamanha compreensão era uma válvula de escape para o mais novo; podia ser sincero com o médico. Mas ao mesmo tempo, o outro lhe dava chapéus e carapuças que serviam, e acabavam por fazer Kibum descobrir defeitos e erros dentro de seu próprio ser.

E isso feria seu orgulho, de certa forma.

- Você é tão... – Kibum comentou vagamente depois de um tempo. Franziu o cenho, pensando na descrição certa, que lhe fugia da cabeça. - ...Compreensivo? Sei lá.

- A questão não é que eu seja uma pessoa amável e compreensiva – Jonghyun respondera ao outro. Mais migalhas foram de encontro à superfície do lago, para o qual ambos olhavam. – Eu sou um médico. Muito já vi e muitos já tive que ajudar. Conheço a dor, sou íntimo dela, de várias formas.

- Entendo.

O mais novo passou a observar o outro ao seu lado, que não ergueu o rosto para encarar de volta. Sua expressão parecia diferente. Jonghyun, de repente, parecia não um menino de dezessete anos – como sempre aparentava – mas também não estava aparentando seus vinte e quatro anos; na verdade, a expressão carregada no rosto do outro fazia com que Kibum pensasse nele como um velho, já muito vivido.

Conheço a dor, sou íntimo dela, de várias formas. Seria essa dor que estava deixando aqueles olhos vívidos tão carregados, repentinamente?

Aliás, desde quando era Kibum quem se preocupava?

- Eu não conseguiria ser um médico – disse o mais novo. O olhar de Jonghyun se voltou para a expressão pensativa de Kibum. – Eu não conseguiria... "Carregar as cruzes" das outras pessoas.

Os olhos do mais velho não mais pareciam tão carregados de sofrimento, assim que seus lábios esboçaram um sorriso e uma risadinha divertida escapou entre eles.

- Um médico não carrega a cruz de ninguém. – explicou para o outro. – Um médico apenas ajuda seu paciente a abandonar essa cruz no lugar certo.

- E isso me torna, para você, uma pessoa que precisa de ajuda para largar essa cruz? – Kibum perguntou ao outro.

Aquela conversa estava se tornando até mesmo bizarra, mas era interessante.

- Também. – respondeu Jonghyun. Ainda observando o rosto de Kibum, voltou a sorrir descontraído – Mas isso não é apenas pela minha profissão. Eu quero te ajudar.

- Por quê? – Kibum agora perguntava com ar incitante. O que ele tinha de especial?

- Alguns motivos mais. – Jonghyun deixou de fitar o outro, voltando sua atenção novamente para os patos. Mas não tirou o sorriso jovial do rosto em momento algum – Você é como um espelho do meu passado. Eu consigo me ver com dezessete anos quando olho para você. Não me olhe com essa cara! Os motivos não importam tanto, não agora. Na verdade, não mais.

Kibum não entendera realmente o que o outro quis dizer com aquilo. O ar divertido e o sorriso que manteve enquanto falava – e continuava em sua face depois que terminou de falar – fazia com que parecesse que Jonghyun estava falando de algo comum. Talvez, fosse mesmo.

O outro sequer desviou sua atenção dos patos depois de dizer tal frase. Apenas continuou alimentando os animais, e ignorando o constante olhar confuso do mais novo sobre si. Sorria por fora; mas por dentro, pensava se não tinha dito mais do que pretendia dizer para Kibum.

Todavia, um movimento sob a superfície das águas do lago chamou sua atenção. Uma das migalhas que havia jogado aos patos, simplesmente fora puxada para o fundo. Quando entendeu o que era, sorriu mais largamente e se aproximou da superfície.

- As tartarugas! Venha ver, Kibum! – exclamou tão alegremente como uma criança.

O mais novo se aproximou, com empolgação notavelmente menor do que a do médico. Enxergou, nadando um pouco abaixo da superfície, a carapaça verde com desenhos em um tom mais claro de uma daquelas criaturas. Apenas com curiosidade, jogou uma migalha, esperando que ela pegasse, e não os patos. O animal ergueu a cabeça e capturou a pequena porção. Engraçadinho.

- Isso é... Interessante – Kibum disse a Jonghyun, que observava as tartarugas recém chegadas com o mesmo sorriso infantil.

- Dá uma sensação de paz até estranha, ver isso – confessou o mais velho, em resposta.

Olhou para o mais novo, que estava novamente com uma expressão séria e inclusive pesarosa, os olhos fixos nas tartarugas. Fez uma careta de desgosto – Kibum, olhe para mim! – chamou.

O mais novo, confuso, obedeceu. Jonghyun estava sério enquanto examinava a face do menor; que diabos era aquilo?

Jonghyun, então, ergueu as mãos em direção ao rosto do mais novo. Ao ver o que ele tencionava fazer, Kibum enrijeceu e corou, mas de alguma forma não se afastou. A seriedade continuava presente no rosto do mais velho. Os indicadores as mãos de Jonghyun se aproximaram dos cantos dos lábios do outro, que corara mais fortemente.

Até que os dedos tocaram a pele macia de Kibum, e puxaram os cantos dos lábios para cima de forma a criar um sorriso tosco na face do mais novo. Jonghyun sorriu de repente, como uma criança – Bem melhor assim! – brincou.

- Pare com isso! – reclamou o outro, enquanto afastava as mãos de Jonghyun de seu rosto.

- Então pare de fazer essa cara e sorria. – Jonghyun respondeu, calmo.

O resto do dia, nada tivera de assuntos relevantes entre eles. Apenas faziam observações sobre os animais no lago, ou conversavam assuntos banais entre si. Ambos percebiam que nada sabiam de tão relevante um sobre o outro; afinal, apesar de se tornarem próximos, antes eram apenas médico e paciente.

Cada vez mais, para Kibum, entender a pessoa que tinha diante de si era algo bastante bizarro. Jonghyun podia agir como uma criança e mostrar a sabedoria de um velho, se quisesse.

Às vezes, seus olhos lhe davam vestígios de tristeza, mas na maior parte do tempo eram brilhantes. Uma personalidade estranha, mas interessante. A resposta que Jonghyun havia dado à sua pergunta também fazia com que nós se formassem nos pensamentos do mais novo. A única conclusão a qual Kibum chegava era que ele simplesmente tinha, diante de si, alguém que sorria para ele em um momento crítico e nada mais representava do que isso.

De qualquer forma, uma sensação nova começou a querer fazer parte da nova vida que Kibum estaria para levar.

A sensação de leveza. É, ele estava começando a se sentir leve.

Talvez fosse por causa da cruz que ele estava carregando.