There's Something About You

BEEEEP!

- Hmm... Que sono – dizia Marcus, zonzo. A noite havia sido agitada em seus sonhos – ou seriam pesadelos?

- É bom se arrumar ou vamos nos atrasar... Mesmo sendo reserva – começou Oliver, vestindo a camisa de futebol na cabeça e começando a colocar uma das mangas – Você ainda é parte importante do time.

Não durou muito para que Flint entrasse em choque com aquilo: Wood estava sendo gentil? Estava falando que sua presença era importante? Seria por conta do telefonema que atendera em seu lugar? Era um idiota mesmo, nojento.

- Não me venha com graça... Você tem me evitado a semana inteira.

Agora, o moreno já estava levantado, e começara a se despir de forma despreocupada, tirando a calça do pijama enquanto procurava suas roupas para o treino.

Oliver não pôde evitar e acabou por se perder naquelas coxas fartas que tanto adorou ver nas duchas. Todo o seu corpo era repleto de músculos bem trabalhados, sem exagero – uma verdadeira tentação encarnada. Ainda assim, não sabia se era a hora certa para pensar nesse tipo de coisa. Deveria ser compreensivo com Marcus, mostrar que existe o outro lado da moeda, que ele não precisava se preocupar com sua mãe. Mas acima de tudo, Oliver queria saber quem era o ele que a senhora Flint mencionara. Respirou fundo, calçou as chuteiras e ajeitou a janela para arejar o quarto. Virou-se então para um Marcus já quase vestido também e sorriu, desajeitado.

- Não teria porque te evitar, Marcus...

Flint revirou os olhos. Agora ele ainda queria dar uma de bicha desinformada? "Isso não existe", pensou, indo para a porta já pronto. Não se sentia confortável de seguir naquela linha de conversa: cedo ou tarde acabaria se irritando e comentaria que vira o goleiro com sua mãe ao telefone, e isso ele não queria – não agora. Antes, resolvera dar uma chance ao goleiro de comentar sobre o incidente.

- Vamos logo, vai. Ou você quer por grampos no cabelo, para não bagunçar?

Oliver riu falso, controlando-se sob qualquer graça que o moreno pudesse fazer. Deveria ser cordial com ele afinal, nem sua mãe o era.

Com isso, o caminho até o campo de futebol fora silencioso e vazio: foram os primeiros a lá chegarem, ansiosos que estavam. Começaram a se alongar calmamente, depois pegaram as bolas e coletes necessários para o treino e por fim, cada um em seu posto, deram início a seu próprio treino particular.

Marcus se limitava a chutar seco para o gol, onde Oliver agarrava as bolas curioso, pensando se o moreno estava sentindo falta de falar com a mãe. Mesmo achando essa possibilidade difícil, era de Flint que estava falando, e ele era louco. Continuaram por mais um tempo, até que todos do time estivessem lá – incluindo o instrutor.

Dividindo em dois grupos de alunos, o instrutor deu a cada um uma estratégia de jogadas para trabalharem, um contra o outro. Ao que parecia, eram táticas que outras escolas já utilizaram em jogos, e o intuito daquilo era ver como a equipe se saía para se desvencilhar destas.

Oliver e Marcus, para variar, caíram em times opostos. Contudo, o moreno, mesmo estando de cara fechada, não parecia querer competir – ao menos não como da última vez, o que colaborou para o andamento tranqüilo do jogo.

Aos dez minutos do segundo tempo, uma falta foi cometida – ou foi o que pareceu. Do ponto de vista da maioria dos jogadores, Marcus havia metido um carrinho em um garoto do time de Oliver. Este, porém, vira que não fora intenção do moreno: de onde estava, viu perfeitamente que ele tocara na bola antes de cometer a falta, tornando a jogada válida. Ainda assim, o restante não queria acreditar naquilo.

- Cavalo filho duma puta! – berrou um dos Weasley, integrante do time de Oliver – Sabe acertar a bola não?!

- Cala boca, você viu que eu...

- Tá louco? Mandou meu irmão calar a boca? – berrou o outro ruivo, indo para cima de Flint. Junto com ele, alguns outros jogadores cercaram o moreno, que parecia estar pronto para espancar todos eles.

De longe, Oliver começou a se perguntar se deveria fazer algo ou não. Olhou ao redor, procurando pelo instrutor. Onde fora parar aquele homem quando se precisava dele? Teria ido anotar coisas negativas sobre aquela jogada?

No ponto de conflito, jogadores do time de Flint pareciam chateados com este, e ele só ouvia milhares de vozes em cima dele:

- Você é um merda aqui, Flint! Só está no time porque o instrutor quis...

- Quem quer saber da tua petulância? Aqui não tem lugar pra falta de coleguismo!
- É! Idiota!

Wood, vendo a coisa piorar, correu para perto da roda em torno de Flint, que gritava com eles:

- Coleguismo pra puta que pariu! Vocês são cegos?! Eu não dei aquele carrinho de propósito, e chutei a bola antes de derrubar esse imbecil!

- Imbecil?! Você quase arrancou minha perna!

O circulo se fechava, e Oliver lutava para entrar antes que algo desastroso acontecesse.

- Calma, gente! Chega disso! – ele gritava, empurrando os Weasley e se metendo na frente de Flint – Ele tá falando a verdade... Eu vi a jogada, e ele só chutou a bola!

Os gêmeos se entreolharam, desgostosos. Os garotos se afastaram um pouco do moreno, mas os ruivos continuaram a encará-los friamente, inquisidores:

- Porque isso, Oliver? Sinceramente, até você queria bater nele uns dias atrás...

- É! Deixa a gente resolver a folga desse cara agora!

- Não! – exclamou o goleiro, furioso – Alguém mesmo gritou que precisamos de coleguismo! Vocês não acreditarem nele também é falta de...

- Me poupe. Quer defender ele? – Fred o cortou – Tá bom.

- Mas não vem falar lição de mamãe pra gente – completou George – Já lemos muitos livrinhos assim quando crianças...

Percebendo a volta do instrutor, os jogadores trataram de se dispersar no campo, ainda olhando torto para Marcus. Alguns poucos que não se colocaram a pressionar o moreno olharam torto para os demais, mas logo o jogo recomeçou e ninguém mais tocou no assunto. Um ou outro cochichou sobre a atitude de Oliver, mas só no vestiário e nada mais. Nem o próprio Flint.


- Você é idiota?! – gritou o moreno quando ele e Oliver entraram no quarto. Estivera em silêncio o caminho todo, só esperando para deixar escapar toda a raiva que se apoderara dele na quadra.

- Eu? Por quê? – Oliver também não tinha falado nada, mas por se sentir sem graça.

- Porque você foi me defender lá? Estava com pena, é isso? – Marcus parecia indignado, e partiu direto para cima de Oliver.

Então era assim que o moreno respondia ao seu favor? Ele fora bondoso por conta da injustiça que este sofrera e nem uma recompensa digna por isso recebeu. Talvez não fosse a família, mas seu próprio temperamento o responsável por seus atos estúpidos e inescrupulosos.

- Pena? E de onde você tirou que eu tenho-

- Eu vi você atendendo o telefonema, Woody. Acha que sou trouxa? Você tem pena porque acha minha mãe um monstro, não é? – Flint ergueu Oliver pela gola da camisa, os olhos faiscando – Acha que ela me maltrata e me deixou assim? Que eu sou um pobre coitado?

- Ah, Marcus... – o goleiro desviava o olhar, desconcertado – Entenda, eu me coloco no seu lugar e...

- Cala boca! – ele largou Oliver bruscamente, fazendo este cair em sua cama, sentado – Eu não preciso da sua pena! Sentimento nojento.

Foi a vez de Flint bater a porta, zangado. Não via uma razão para aturar o comportamento irritante do garoto de cabelos castanhos que abandonara no quarto. Sinceramente, desde quando Oliver achou que poderia fingir não ter atendido o telefonema agindo daquela forma? E porque ele não gritou com o goleiro ali mesmo, no campo, só para humilhá-lo na frente de todos? Era uma bicha mesmo.

O moreno agora tocara o gramado da escola, os passos marcando nitidamente por onde passava. Precisava trocar o ar, pensar no significado de tudo aquilo. O motivo de se importar com a pena de Wood não era claro, e ele começou a perguntar até quando se deixaria incomodar por cada pequeno detalhe do goleiro. Já havia possuído este, e sabia que o tinha a sua mercê, então... Porque essa preocupação em continuar cativando-o? Algo o forçava a desejar Oliver para si, guardá-lo numa caixa e subordiná-lo para sempre. Sem pena, sem medo de magoá-lo, sem a sensação de dever explicações a ele.

Socou uma das árvores próximas, fora de si. Tantas idéias, tantos sentimentos. Uma tormenta de vontades transpassava seu eu, e tudo o que ele conseguia verbalizar era o quanto odiava toda essa situação. Se ao menos tivesse nascido normal...


Ainda no quarto, Oliver olhava para suas mãos, um estranho aperto lhe corroendo por dentro. Realmente, fora um insensível por tratar o moreno com pena. Pena... Era como acreditar que ele era incapaz de se desvencilhar de seus problemas, colocá-lo como um debilitado. Não, não podia ser pena.

Em seu primeiro dia de aula, se lembrava muito bem do ódio que sentira por Flint e seu nariz empinado, o ego inflado tentando esmagar a todos. Aquele jeito, por mais irritante que fosse, chamou a atenção de Oliver, tanto que se importou com o fato de estarem no mesmo quarto, ficou encabulado de vê-lo se tocando e... Ele corava só de lembrar seus momentos com Marcus nas duchas, quando tudo o que importava era sua pele na dele, a troca de carícias e a cumplicidade de estarem ali, correndo o risco de serem expulsos da escola.

Não demorou para querer, cada vez mais, que o moreno lhe desse atenção, se dedicasse tanto quanto ele a aparecer em seu mundo. Aliás, ele queria mesmo era entender o mundo de Marcus, partilhar de seus segredos e se interar de seu caráter.

Assim, Oliver se levantou da cama do moreno e foi tomar um banho. Parte de si gostaria de encontrar Flint, mas ele sabia que este não costumava se banhar àquela hora. Juntou as roupas que usaria e logo partiu para as duchas.

Estava cansado do ritmo de estudo que adotara nos últimos dias, e tudo o que queria era esfriar as idéias, colocar uma roupa limpa e dormir. Mesmo não tendo almoçado, estava tão cansado que mal via espaço para ter fome.

Os passos arrastados, ele começou a ouvir vozes que pareceram silenciar ao pressentir sua chegada. Conhecia aquelas vozes e, por algum motivo, já se arrependia de ter ido tomar banho naquele momento.

- Oliver... – disseram os gêmeos, o tom de voz não tão empolgado quanto nos outros dias.

- Ah, olá, Weasley – Wood não queria prolongar aquele breve contato com os dois, temendo que uma discussão estourasse por conta do jogo – Se não se importam, estou indo para o banheiro...

- Ah, dá um tempo, Oliver!

- Que palhaçada foi aquela?

-... Palhaçada? – perguntou Oliver, indignado. Ele foi justo, e nada mais.

- É! Defendendo aquele viado do Marcus! Quer evitar problemas no quarto? Já oferecemos o nosso!

- E, se você quiser, a gente pode bater nele sem problemas!

- Claro! O time inteiro se habilitaria pra isso...

O goleiro franziu o cenho, abismado com tudo aquilo que estava ouvindo. Endireitou as costas, impondo sua figura para os dois:

- Olha, eu não sei o que você ou o time pensam, mas ele não fez aquilo de propósito – ele gesticulava furioso, explícito – Não tenho porque ter medo dele, e falei o que aconteceu, oras! Ele pode ter sido um cretino... Nem por isso eu vou-

- Tudo bem então.

- Se é assim...

Os gêmeos se riram e saíram andando, como se estivessem tramando algo.

Oliver, sozinho no corredor, se esqueceu por um momento do caminho que estava fazendo e estacou ali, a conversa que acabara de ter atordoando-lhe os pensamentos. Será que estava com medo de alguma coisa? De ser mais um peso para Marcus, talvez. Ele queria muito defender o moreno, mostrar às pessoas o outro lado da coisa, mas... Não via motivo naquilo.

Voltou-se para a direção de onde tinha vindo por um segundo, imaginando se Flint queria que ele fosse procurá-lo, mas achou melhor não. Se o encontrasse, não saberia o que falar para desfazer o mal-entendido, muito menos se fora um mal-entendido ou se ele realmente sentia pena do garoto.

Quando chegou no banheiro, ouviu um outro cochicho sobre o treino, junto a alguns olhares ressabiados, mas nada que não tivesse lidado antes. Ligou o chuveiro e se esqueceu ali, as gotas d'água limpando seu interior.

Mais de uma vez, quando só, ele se via analisando o comportamento dos gêmeos, suas frases ambíguas e gestos particulares. Era incrível a facilidade que os ruivos tinham de interferir e até guiar suas idéias para um rumo totalmente diferente do que deviam. Naquele momento, por exemplo, o que mais o chateou foi ter de ouvir os dois chamando Marcus de viado e não poder nem falar um "E daí que ele é gay? Eu pego numa boa".

As vozes aumentando, ele ouvia seu nome freqüentemente, provavelmente seguido de críticas sobre sua conduta para com Flint. Se ele estivesse com pena, teria de coagir esse tipo de sentimento. Acabaria por interferir em seu julgamento das ações do outro, além de subestimar este. E pensar em subestimá-lo era... Não tinha como pensar algo assim. Depois da figura que Marcus se mostrou, e como sua imponência se destacara perante as ameaças de sua mãe, era imperdoável que Oliver o enxergasse como indefeso e coitado.

Marcus era tão cativante e forte que Oliver nem sabia por onde começar a listar as qualidades que o faziam se destacar, na verdade. A forma como se insinuava, seu jeito controverso e a dificuldade que tinha com as palavras eram características infantis aos outros, mas a ele, que prestava atenção, estavam mais para pontos marcantes. O moreno era franco e espontâneo, coisa que não via nos gêmeos, nem em uma série de moleques daquele colégio. Era alguém autêntico.

Corando, terminou seu banho e foi para o quarto, ainda vazio. Deitou-se na cama, pensativo, e dormiu, a fome parecendo pequena diante daquele dilema que era conhecer Flint.

Cada um em seu canto, os dois foram relembrando como as coisas se desenrolaram rápido desde que se conheceram, como pareciam conhecidos de anos pela forma como lidavam um com o outro. Parte deles queria se encontrar, ver como reagiriam um ao outro perante aquele impasse, mas um dia inteiro se passou e nada.

Quando Marcus voltou para seu quarto, tudo o que viu foi um Oliver deitado, já babando, desta vez na cama certa. Sem muitas delongas, se arrumou e deitou também, o consolo de que adormecer o faria esquecer tudo o fazendo fechar os olhos de imediato.


N/A: Caso alguém não saiba, "carrinho" é quando o jogador joga toda a força do corpo numa perna só, esticada, e desliza com esta, de forma a impulsioná-la para alcançar a bola antes de outro jogador; resumindo, é uma rasteira. Se torna falta quando o realizador da manobra atinge outro jogador antes de (ou sem) acertar a bola com o corpo.