Capítulo 8
PRIDE & PREJUDICE
14 de fevereiro de 2009
Meses se passaram até que Bella tivesse notícias de Edward novamente e sua ausência estava deixando a garota cismada.
Os dois só se encontraram novamente no dia dos namorados. Dia esse que já estava tirando a paciência de Bella.
A escola tinha a estúpida tradição de brincar de cupido e alguns comparsas dessa idéia ficavam enviando bilhetinhos e presentes para seus amores, deixando a mesa de Bella atolada de papezinhos que ela nem se dera ao trabalho de ler. Isso sem contar as duas caixas de chocolate que iriam para o lixo na primeira oportunidade.
- O que você está fazendo? – um de seus amigos, Eric, perguntara quando a vira pronta para jogar tudo na lixeira grande do corredor.
- O que você acha que eu estou fazendo?
- Não joga. – ele pedira apressado. – Isso foi caro.
Bella interrompeu o movimento de jogar as coisas fora e o encarara sem acreditar no que ele tinha acabado de falar.
- Você me deu essas coisas?
- Não tudo. Só isso. – ele falara pegando uma das caixas de bombons de chocolate em formato de coração. – E isso. – ele completara apontando para um dos recadinhos amorosos.
- É muita ingratidão sua jogar tudo no lixo, Bella. – Jessica falara aparecendo de repente pendurada no braço de Mike.
Mal sabia Jessica que "seu" Mike tinha sido um dos que presentearam Bella com chocolates.
- Cupido para Isabella Swan! – uma voz anunciara em voz alta, vindo pelo corredor com um buquê de flores acenando no alto. – Cupido para Isabella Swan!
Bella ainda tentara se esconder, mas o aluno do segundo ano já tinha encontrado com ela mais de quatro vezes aquele dia para entregar presentes e facilmente a enxergara no meio de todos aqueles alunos que sorriam divertidos com a cena, enquanto outros – "outras" para ser mais específica – se roíam de inveja.
- Você está arrasando esse ano, hein Bella?! – o "cupido" brincara, totalmente alheio ao desgosto de Bella. – Aqui está: um buquê de rosas vermelhas de um admirador secreto.
Bella estava tão envergonhada por ter boa parte do corredor apinhando olhando na sua direção que sua mão se estendeu involuntariamente para pegar as rosas, ansiosa para se livrar daquela atenção. Mas antes que seus dedos conseguissem envolver o buquê, outra mão puxou as rosas da mão do cupido e as jogou na lixeira.
Bella estava prestes a agradecer quando levantou os olhos para o dono da mão e se viu frente a Edward Cullen.
- O que...? – nem conseguira completar a pergunta e ele tirava todas as coisas dos seus braços e dera o mesmo destino do buquê, jogando tudo fora.
Era óbvio que Eric e Mike, e até mesmo o cupido que pouco tinha a ver com aquela situação, queriam brigar com o homem pálido a sua frente, mas algo na expressão dele os fez recuar temerosos. Definitivamente eles sabiam que aquele não era alguém para se comprar briga.
Jessica, no entanto, parecia querer pular no pescoço do vampiro, mas para outros fins bem diferentes de uma briga.
Bella resolveu fingir que aquele ser não estava ali e rumou apressada para o pátio, querendo sair daquele corredor cheio de coraçõezinhos e chegar logo no seu carro velho e seguro. Mas assim que saiu do prédio, uma mão fria a deteve e ela imediatamente se esquivou do contato, voltando a andar até o carro.
- Isabella, espere.
- Me deixe em paz. – ela resmungou sem parar de andar.
- Me desculpe por jogar aquelas coisas no lixo. – ele pediu, apressando o passo para acompanhá-la. – Pensei que não estava gostando de recebê-las.
- E não estava mesmo. Mas isso não é da sua conta.
- Trouxe algo para você. – ele anunciou um tanto incerto, segurando a porta do motorista para que Bella não a fechasse depois de entrar no seu carro.
- Está tirando sarro comigo. – ela deduziu, só então olhando de verdade para o vampiro.
Por seu carro ser uma caminhonete, quando ela estava sentada seu rosto ficava exatamente na altura do dele que estava em pé ao lado do veículo. Não que eles estivessem perto um do outro, mas ela tinha a visão muito boa para perceber que havia algo estranho nele.
A primeira coisa que achou diferente foi a ausência dos óculos escuros que ele normalmente usava para esconder os olhos vermelhos. Ele só poderia ficar sem óculos se estivesse com sede e, nesse caso, seus olhos estariam negros. Mas a cor dos olhos que ela encarava agora não era nem vermelho nem preto. Parecia um tom de castanho, quase dourado, um pouco mais escuros que whisky.
- Seus olhos... – ela murmurou sem entender o motivo daquela mudança.
- Trouxe algo para você. – ele repetiu ignorando suas palavras, mas não de uma forma rude. Aquele simplesmente não era o assunto para ser mencionado agora. – Não é presente para o dia dos namorados, caso você pense isso. Ia te entregar no natal passado, mas você viajou, então...
- Como você sabe que eu viajei? – ela perguntou, voltando a ficar na defensiva. – Está me seguindo de novo?
- Não, Isabella. Apenas fui a sua casa e não havia ninguém.
- Não quero nada de você!
- Não é obrigada a aceitar. – ele respondeu enquanto praticamente jogava no seu colo uma caixa simples branca com um pequeno símbolo de yin-yang no centro.
Bella ficou encarando a caixa por alguns segundos e quando voltou a erguer o rosto Edward já estava do outro lado do estacionamento, entrando em um Volvo prateado.
O primeiro impulso dela foi jogar aquilo fora sem nem ver o que era, mas a curiosidade falou mais alto e ela abriu a caixa, vendo apenas um livro de aparência muito antiga dentro.
- Pride & Prejudice? – perguntou para si mesma, sem entender o motivo do vampiro ter lhe dado um livro de romance.
Ainda assim Bella retirou o livro da caixa com cuidado, olhando atentamente para a capa e quando viu a data do livro, sua boca abriu de espanto. Bella nunca tinha lido aquele livro, mas pela data da publicação daquela edição, aquela certamente era a primeira edição de todas.
Ainda curiosa, a primeira coisa que fez quando chegou em casa foi pesquisar sobre aquilo na Internet e descobriu que tinha se enganado. Aquela não era a primeira edição de todas. Era apenas a primeira edição com capa ilustrada.
- Legal. – ela sussurrara ainda sentada em frente ao computador.
Mas o orgulho falara mais alto e ela passara quase um mês sem tocar naquele livro novamente, só pegando-o num dia em que pegara um resfriado e a febre a obrigara a permanecer na cama por quase uma semana. Então usara esse tempo para ler, mesmo se recusando a admitir que tinha gostado do presente.
De início, tentara entender o motivo do presente, associando a figura de Mr. Darcy com o vampiro, onde ele claramente seria o causador de todo sofrimento de Lizzie, além de arruinar a felicidade de toda família Bennet. Era óbvio que toda a vida de Isabella estava voltada para Edward Cullen, e se não fosse por ele, ela teria uma vida normal, uma família normal.
Mas no decorrer da leitura, já bem depois que Mr. Darcy se declara e é pomposamente rejeitado pela amada, Bella começou a perceber que a história não era assim tão simples. Durante todo o livro, ela imaginara ser ele o orgulhoso e preconceituoso, quando Lizzie na verdade fora ofuscada pelo próprio orgulho que a impedira de ver a verdadeira face dele. O verdadeiro homem por trás daquela postura austera.
Mesmo já passando da meia noite e estando com bastante febre, Bella prontamente ficou de pé e vestiu um casaco pesado, saindo às escondidas para a noite de Portland, pensando em ir para o mesmo prédio de onde tinha caído no ano passado, com a intenção de chamar a atenção do vampiro. Mas ela nem sequer tinha conseguido virar a esquina da sua rua quando ele aparecera atrás dela.
- O que pensa que está fazendo? – ele perguntara furioso. – Volte para casa. Está doente.
- O que você queria com esse presente, Cullen? – Isabella perguntara, ignorando a rispidez dele, se voltando rapidamente para ficar frente a frente com ele.
Bella ainda estava com o livro na mão e Edward simplesmente dera de ombros diante da sua pergunta.
- É só um livro.
- Não é só um livro. – ela retrucara – Sei que você estava tentando passar algum recado com isso.
- Talvez.
- Talvez? Talvez?! Você queria que eu visse o quanto Elizabeth estava enganada a respeito de Darcy. Que, na verdade, Darcy sempre fora um homem de princípios por mais que aparentasse ser esnobe. – ela respirou fundo depois de ficar com um pouco de falta de ar por conta do cansaço provocado pela gripe, para só então continuar falando. – Você acha mesmo que eu vou acreditar que eu sou a errada dessa história, Cullen? Acha mesmo que você é quem tem princípios aqui e eu sou apenas preconceituosa demais para enxergar isso?
Uma tosse forte interrompeu o monólogo e a fez se curvar com dor no peito de tanto que já tinha tossido nos últimos dias e Edward rapidamente estava a seu lado, segurando-a nos braços e a levava de volta para casa. Bella estava pronta para empurrá-lo e pular dos seus braços quando uma onda de tontura a abateu e ela mal percebeu quando ele pulou a janela do primeiro andar e a colocou na cama novamente, cobrindo-a com a colcha grossa depois de tirar os seus tênis.
- Você não é preconceituosa, Isabella. – ele sussurrara retirando uma mecha da testa suada por conta da febre e do esforço excessivo dela. – É teimosa, mas não preconceituosa.
Bella ergueu uma mão para afastar a dele do seu rosto, mas Edward se afastara antes que ela pudesse completar o movimento, e logo estava ao lado da janela novamente.
- Você leu o livro na defensiva. – ele falou num tom baixo para que os pais de Bella não acordassem – Por isso tirou esse tipo de conclusão. Talvez se ler novamente, vai entender que na verdade os dois são preconceituosos e orgulhosos. Só porque Miss. Bennet percebeu que tinha sido preconceituosa a respeito de Mr. Darcy, não quer dizer que ela tenha errado no seu julgamento inicial. Darcy era tanto ou mais orgulhoso e preconceituoso que Elizabeth. A diferença foi que ele mudou seu comportamento quando viu que se não o fizesse, findaria por perdê-la para sempre. Corrigiu os erros do passado, mesmo sabendo que os novos acertos não apagariam tudo de perverso que ele tinha feito.
Bella, apesar de estar de olhos fechados, ouvia atentamente cada palavra de Edward, mas se recusou a falar alguma coisa. Ouviu quando ele foi embora e continuou deitada na cama, as palavras dele ainda ecoando na sua mente, quando um novo sentido começou a se formar.
- E Elizabeth aprendeu a perdoar. – ela completou para si mesma, caindo no sono instantes depois.
Bella achara que passaria mais vários meses sem encontrar o vampiro novamente, mas assim que voltou às aulas depois de se recuperar do resfriado, Edward foi a primeira pessoa que ela encontrou, encostado ao lado do seu carro perfeito, braços cruzados sobre o peito e agasalhado com um pesado sobretudo cinza escuro e um cachecol cinza claro, conferindo-lhe uma aparência ainda mais perfeita em contraste com sua pele muito branca.
Assim que a viu, um sorriso surgiu no rosto dele, deixando-o ainda mais belo e Isabella quase sorriu de volta, mas se controlou. Ainda não tinha chegado ao nível de querer sorrir para ele. Mas ainda assim andou até ele, aproveitando que tinha chegado cedo à escola e não teria que correr para a sala.
- Por que seus olhos mudaram de cor? – ela perguntou assim que estava perto o bastante para não ter que aumentar a voz.
- Bom dia para você também, Isabella. – ele a cumprimentou, ignorando o fato de que ela não parecia estar tendo um bom dia. – Não está com frio?
Para a temperatura de 13ºC daquela manhã, Bella certamente não estava vestida apropriadamente. Usava apenas um único casaco de lã por cima da blusa de algodão, jeans e tênis.
- Você com certeza não está. – ela retrucara sem se preocupar com o frio que pudesse estar sentindo. Ela jamais admitiria ao vampiro que esquecera de colocar as roupas para lavar e que estava sem nenhum casaco limpo em casa. – Não que você precise de roupas para não sentir frio.
- Eu não preciso, mas você precisa. – ele falou enquanto retirava o cachecol do seu pescoço e estendia para Bella. Mas é claro que ela não aceitou. – Deixe de ser teimosa, ok? Acabou de se recuperar de uma gripe. Não vai querer ter uma recaída, não é?
Os dois continuaram se encarando por alguns segundos, Bella de braços cruzados numa atitude desafiadora e Edward ainda com o cachecol estendido na sua direção, até que ele percebeu que ela não iria se render assim tão fácil.
- Se eu responder a sua pergunta, você usa? – ele tentou.
- Talvez.
O vampiro queria vê-la bem e nada mais. E para isso engoliu o orgulho que aquela resposta poderia destruir.
- Meus olhos estão dourados porque não me alimento de sangue humano. Não mais. – ele respondeu e continuou encarando-a enquanto esperava pela reação dela.
Bella apenas franziu o cenho, enquanto muitas outras perguntas surgiam na sua mente.
- Se você não está se alimentando, então eles não deveriam estar negros?
- Não disse que não estou me alimentando. Disse que não estou bebendo sangue humano. É diferente.
- E está bebendo sangue de onde? Da Cruz Vermelha?
- O sangue de lá é sangue humano, Isabella. Pode ser congelado, mas continua sendo sangue humano. – Edward respirou fundo mais uma vez antes de continuar. – Me alimento de sangue animal agora.
- Sa-Sangue anima-mal? – Bella gaguejou com os olhos arregalados. – Que tipo de... de animal?
- Cervo, na maioria das vezes. – ele respondeu simplesmente – Há muitos por aqui. E leões da montanha quando me afasto mais para caçar.
- Isso é...
- Nojento? – ele completou quando Bella continuou em silêncio.
- Sim.
- Eu sei. – Edward deu de ombros simplesmente, ainda encarando-a firmemente – Mas com o tempo acostuma.
- Por que você resolveu mudar de uma hora para outra? – Bella perguntou, mas se arrependeu no mesmo instante. Sabia a resposta daquela pergunta.
"Darcy mudou seu comportamento quando viu que se não o fizesse, perderia Lizzie para sempre."
- Você sabe bem, Isabella.
- Bella. – ela o corrigira automaticamente, ainda perplexa com a revelação.
- Bella. – ele repetiu, mais feliz do que poderia imaginar se sentir, apenas por ela ter permitido que ele a chamasse pelo seu apelido favorito.
- Eu... Eu preciso ir. – Bella balbuciou depois de algum tempo. – Tenho aula agora.
Edward apenas assentiu, lhe entregando o cachecol que ela ainda um pouco desnorteada pegou e enrolou no pescoço, sentindo o perfume e a gelidez dele impregnados no tecido, mas ainda assim se sentiu confortável e aquecida.
Sem mais uma palavra ela rumou para dentro do prédio onde teria a primeira aula e Edward entrou no carro, saindo de lá mais feliz do que tinha se sentido em muitos séculos.
