Capítulo VIII
Ele levantou-se de um sobressalto, como quando se acorda de um pesadelo. Percebeu-se despido e apenas coberto pelos lençóis. Olhou ao redor, mas estava sozinho na cama. Parecia tão claro lá fora e ele não sabia dizer que horas seriam. Ouviu um barulho e olhou para o chão.
Lá estava Kanon, espreguiçando-se e abrindo os olhos devagar. Diferente dele próprio, parecia vestido, ainda que também estivesse coberto pelo lençol. O que acontecera? Sua cabeça latejava como se a tivesse batido repetidas vezes contra a parede. Tentou evocar as lembranças daquela madrugada, mas era como se isso só fizesse a dor aumentar. Seria seguro acreditar que nada acontecera, apenas porque Kanon estava inocentemente deitado longe de sua cama?
Enrolado no lençol e sem dizer palavra ao irmão, Saga saiu da cama e se trancou no banheiro, recostando-se à porta que fechara atrás de si. De olhos fechados, tentou reorganizar os fatos devagar.
Kanon apoiado sobre ele, ambos sustentados pelo pilar. A proximidade, o cheiro entorpecente de álcool. A respiração tão próxima, roçando em seus lábios como a carícia suave da brisa. Os lábios nos seus.
O beijo irrecusável, a língua voraz, o desejo incontrolável.
Que diabos acontecera? Como ele ficara sem chão daquela maneira?
Largou o lençol no chão e enfiou-se debaixo da ducha, deixando que a água gelada acalmasse os primeiros sintomas de sentimentos proibidos.
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Olhando-se no reflexo que o elmo da armadura espelhava, Kanon contemplava seu sorriso e o condenava.
A sensação era incrível, mas não se dera da maneira que ele planejara. Até mesmo desejara parar, quando já era tarde demais, quando seu corpo estava com o controle e a razão, turvada pela bebida e pela ânsia de ter o gêmeo.
Largou o elmo onde estava e jogou-se na cama, fitando o teto sem realmente vê-lo, voltando a mente para as lembranças extasiantes. Como negar que o desejo aumentara? Agora sóbreo, percebia que repetiria cada segundo sem hesitar, sabia mais do que nunca que nada mudara de fato ou que se mudara, o que nascera parecia ainda mais indomável.
Sua mente girava com as memórias tão novas e reais.
O cheiro, o gosto, o calor, a voz, o toque. Tão irresistíveis que faziam daquele pecado algo inegável.
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Saga sabia que se depararia com aquela expressão no rosto do aquariano antes mesmo de pisar no escritório. O relógio só confirmava que estava extremamente atrasado, mas não devia satisfações ao amigo, tampouco desejava dar alguma. Sentou-se em sua mesa após um aceno formal com a cabeça para o Cavaleiro de Aquário e após uns segundos em silêncio perguntou o que havia a ser feito.
Enquanto lidava com as maçantes papeladas, sua cabeça latejava. A maldita ressaca o tomara como nunca antes e sendo ele diferente das pessoas comuns, com seu físico de Cavaleiro de Ouro, não deveria sentir tais efeitos quando não bebera o bastante para tê-los. Entretanto, quase sentia a saleta rodopiar ao seu redor. Tentou focar-se nos papéis, respirando fundo e sabendo que encontrava-se naquele estado pois sua mente se tornava a cada minuto mais clara.
Sabia exatamente o que acontecera naquela noite.
O que sua mãe diria? O que pensaria? Como se sentiria? Ela, segundo sua própria crença, o observava de algum lugar. Como pudera causar-lhe tamanha vergonha? Sentia pontadas insuportáveis nas têmporas ao pensar que não renunciara ao irmão, que o quisera e desfrutara daquelas sensações insanas. Quase podia sentir a boca devorando-lhe o pescoço e as mãos fortes contornando sua cintura, apalpando-lhe as nádegas com pressa, desnudando-lhe como se disputasse com o tecido que ele vestia. E sentia-se estremecer ao lembrar das próprias mãos explorando o corpo igual ao seu, igual em tantas maneiras. Os músculos tentadores eram rijos sob seu toque enquanto a boca dele era macia, úmida e inebriante. Quase podia sentir o corpo do irmão contra o seu e aquele clima enlouquecedor que pairava entre ambos, tornando o não uma palavra impossível.
Camus pigarreou e o trouxe à realidade. Sentiu que o rosto estava quente e voltou a atenção para a pilha de documentos, tentando com todas as forças enxergá-la.
- Saga, não é da minha conta, mas tem certeza de que está bem?
- Eu... estou. Não se preocupe, é só uma ressaca.
- Ah.... oui. – murmurou distraído, como se a resposta do amigo significasse que ele devia voltar ao seu trabalho.
Seguiram com suas tarefas em silêncio, numa ausência de sons e palavras quase fúnebre. Na mente de Saga era como se uma centena de sons reverberasse simultaneamente.
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Sentindo-se ocioso, Kanon decidira treinar. Suas energias estavam incontroláveis e em função disso ele percebera o quanto sua vida no Santuário estava tediosa. Precisava aliviar as tensões de alguma maneira e a melhor que conhecia era treinando. Poderia desenhar depois.
O coliseu agora era um lugar estranhamente vazio. Enquanto se exercitava, lembrou-se dos árduos treinos com os Cavaleiros de Prata. Tudo teria sido diferente se o destino houvesse sido diferente. Por que ele e Saga tinham de ser irmãos? Por que isso tinha de ser algo errado?
Sentou-se na arquibancada e recostou-se, pensando que o prazer que sentira não podia ser errado. Cada milímetro do corpo do gêmeo era perfeito, tão perfeito quanto o seu próprio. A boca dele, cheia daquele gosto alcoólico era viciante. Como renunciar àquilo? Mas Saga o faria. Ele sabia que os dogmas do irmão eram mais fortes que tudo. Não haviam trocado palavra naquela manhã e ele temia que tampouco se falassem a noite.
Tentou afastar tais pensamentos da mente e fechou os olhos, vendo apenas o corpo forte e desnudo contra o seu e rememorando o prazer daquele contato. Sentir a pele em seus lábios, o membro forte e rijo em suas mãos e ouvir os sons fracos que saiam deliciosamente dos lábios molhados do irmão. Que doce pecado!
Mesmo sua fértil imaginação não poderia jamais criar algo tão perfeito como fora. Sentia os hormônios agitados pelas lembranças.
- Aqui não é lugar para ficar ligado, Kanon.
Quase dando um salto, abriu os olhos e deu de cara com o dono daquele sorriso malicioso, que o fitava com os olhos cintilando de divertimento.
- Ordens de Athena, Milo de Escorpião?
- Quem sabe... – o escorpiano riu e sentou-se ao lado de Kanon. – E então, meu caro amigo traidor? Que te faz ficar neste estado aqui sozinho?
- Estava tendo sonhos eróticos com o Cavaleiro de Aquário, só para matar o tempo. – sorriu, provocante.
- Ora, seu! – retrucou Milo, sem agressividade real.
Ficaram calados um instante, olhando para o longe. Os dois pouco se conheciam e não fazia tanto tempo desde que Milo realmente acreditara que aquele ao seu lado era um traidor. Após a batalha, aprendera a respeitar o gêmeo de Saga e até simpatizava com ele. Mas Kanon certamente sabia mais a respeito de Milo pelo que o irmão lhe contara do que o escorpiano a seu respeito.
- Alguma vez você teve problemas com... o Aquário por ele achar que isso era errado?
Milo sorriu imediatamente à menção de Camus.
- Eu sempre tenho problemas com o Camus. – riu. – E sim, já agüentei muito o papo furado de "isso não está certo, Escorpião". Mas no fim das contas ele não resiste ao meu veneno.
- Mesmo, peçonhento? – Kanon riu e olhou-o com desdém, provocando.
- Ninguém resiste, meu caro Kanon.
- Oras, não me faça testar isso.
Ambos desataram a rir.
- Que tal um pouco de treino? Preciso continuar sarado e gostoso para não perder o francês.
- Como quiser, peçonhento.
Enquanto o árduo treino dos dois cavaleiros durou, não houve espaço para pensamentos sobre o que quer que houvesse acontecido, recentemente ou no passado. Concentraram-se estritamente na luta, como se se preparassem para uma batalha. Milo sentia que Kanon precisava fugir de algo dentro de sua mente. E talvez ele também precisasse fugir da vontade que tinha de interromper o trabalho de seu adorado aquariano – o que certamente não seria bem vindo pelo rígido Camus.
Quando finalmente caíram exaustos, o pôr-do-sol já era visível no horizonte.
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A catedral parecia vazia, a despeito de uma senhora que rezava diante da imagem de uma santa e de uma pessoa ou outra, sentadas nos bancos que se estendiam ao longo da nave. Ele manteve-se afastado, sentando-se num banco mais ao fundo. Lançou um breve olhar ao confessionário, sabendo que não conseguiria admitir tamanho pecado a outro ser humano. Não a um humano santificado. Não a alguém cujas crenças eram as mesmas nas quais havia sido criado. Sentia-se imaculado e tinha a sensação de não pertencer ao silencioso e sagrado ambiente.
Como pudera deixar tudo aquilo acontecer? Ao longo do dia a confusão em sua mente tomara uma enorme proporção. Se não houvesse se deixado levar, não sentiria aquelas sensações que o assustavam. A dúvida que seu irmão alimentara era uma certeza que ele não queria ter.
E que tinha agora. Que o apavorava.
Não podia imaginar como seria retornar ao templo e encarar o gêmeo. Tinha a certeza de que Kanon seria perfeitamente capaz de agir como se nada tivesse acontecido – ou pior, como se estivessem prontos para um outro tipo de relacionamento. E ele já não confiava na própria capacidade de dissimular. Já não confiava na capacidade de agir corretamente.
"Perdão, mamãe. Eu pequei."
Que sentido havia em ter uma nova vida?
Sentado dentro da igreja que tomava lugar onde um dia um templo dedicado à Athena existira, Saga buscava entender a ironia do presente que a deusa concedera a eles todos. Podia ser um presente aos outros, que realmente podiam viver suas vidas em paz agora. Mas onde estava sua paz?
Levou as mãos à cabeça, enroscando os dedos pelos fios de cabelo e puxando um tufo até sentir o couro cabeludo latejar.
- Mamãe, não posso ir treinar, tenho que cuidar de ti.
- Saga, se você for ao Santuário, ficará forte e assim, terá mais chances de cuidar de mim.
E não muito tempo depois, ele tivera aquela péssima sensação, a certeza deprimente de que a vida de sua mãe se extinguira. Não fora capaz de cuidar dela.
E agora, não era capaz de honrar sua memória.
Maculado pelo toque irresistível de Kanon. De seu próprio irmão.
"Qual o sentido de viver essa nova vida, Athena?"
O conflito de sentimentos o deixava com um nó na garganta. Sentia-se sem rumo.
Saiu da igreja de Panaghia Kapnikarea decidido a dar um fim àquilo tudo.
O Cabo Sunion ficava a duas horas dali. O fim seria breve.
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N/A: 9 meses depois e mais um capitulo nasceu. xD Espero que não tenham desistido da fic, estamos nos aproximando do desfecho. Não posso prometer uma atualização rápida, mas prometo me esforçar. Obrigada por lerem e pelas reviews! Beijos, Feliz Natal.
