Acordei com uma enorme dor de cabeça.

Emmet me olhava preocupado, mais com jeito de irmão mais velho, do que de médico.

- O que aconteceu cara? – tentei lembrar, mas estava tudo embaralhado na minha mente.

- Você está em melhores condições de responder do que eu. – falei.

- Você desmaiou na frente do prédio. Bella nos chamou, desesperada.

Bella, claro! Agora me lembrava o motivo do desmaio.

Só então percebi que estava deitado em uma cama, no que parecia ser o quarto de Emmet, e que uma verdadeira junta médica familiar me observava.

- Pai, mãe, não se preocupem, não foi nada. Foi só uma queda de pressão. Deve ter sido a agitação da festa.

Não poderia lhes dizer o verdadeiro motivo, mas o rosto sério do meu pai me dizia que ele desconfiava do que se tratava. Ele sabia que minha batalha era árdua.

- CADÊ A BELLA? – Oh céus! Ela não poderia ter ido embora!

- Estou aqui Edward. Você quase me matou de susto – disse com uma voz doce, aproximando-se da cama, sorrindo.

- Desculpa, não foi minha intenção Bella. A última coisa no mundo que eu desejo é ´te ver morta. –foi um desabafo sem propósito, mas sofrido. Saiu sem que eu notasse. Eu estava tão desesperado e cansado daquilo tudo, que não tinha nem controle sobre o que eu falava.

Nossos olhares se cruzaram. Ficamos nos olhando por um longo tempo. Minhas palavras mexeram com ela. Seu rosto estava branco como cera.

- Faltou a aula sobre figuras de linguagem Edward? – Bella perguntou, sorrindo sem graça.

- Eu falei que ele não está bem pai. – Emmet comentou.

- É.. acho que fui muito literal mesmo. Esquece o que falei. Ainda sei reconhecer uma hipérbole Bella. Sempre fui excelente aluno. – eu estava estafado, mas com uma forcinha, meu cérebro ainda funcionava.

Ela riu baixinho.

- Por que está rindo? – perguntei.

- Nem tão bom aluno assim... não acho que saiba bem matemática, afinal queria trocar uma caneta Montblanc por um isqueiro de plástico!

Cai na risada. Ela tinha razão.

- Agora sei que está bem. Vou indo Edward. Foi um prazer passar a tarde com vocês. – meu peito se encolheu. Seria sempre assim angustiante, toda vez que ela se afastasse de mim?

- Eu te levo Bella. – Alice ofereceu.

- Pode deixar que eu levo, Alice. Só me empreste o seu carro, pois estou sem o meu. – não ia perder a oportunidade de ficar ao lado dela mais um pouco.

- Nem que eu tenha que te amarrar, mas não vou deixar que se levante dessa cama maninho. Ainda não me convenceu que esteja normal. – Emmet disse, incorporando o médico.

- Eu a levo Edward. Fique ai e descanse. Eu e Bella ainda temos muito que conversar. – Alice insistiu.

- Não precisa Alice. Não moro muito longe. Vou andando mesmo.

- De jeito nenhum. Acabou de salvar o meu irmão. É o mínimo que posso fazer para agradecer, e não aceito não como resposta.

- Acho melhor aceitar Bella. Alice não vai desistir – minha mãe falou rindo.

Ela tinha razão. Alice era a pessoa mais insistente que eu conhecia.

— Tudo bem então. Eu aceito a carona — Bella se rendeu.

— Vou pegar minha bolsa e já vamos. Vou pegar mais docinhos pra gente comer no carro. Sobrou um monte. Sinto que seremos grandes amigas Bella.

— Essas duas vão ter hiperglicemia! — Emmet brincou.

Pior é que ele tinha razão.

Todos aproveitaram e saíram juntos com Alice, menos Bella.

Levantei-me lentamente para não ficar tonto outra vez.

— Bella, poderíamos nos ver pelo menos mais uma vez, antes de viajar? Eu adoraria.- Não custava nada tentar.

— Pode ser — falou, mordendo os lábios.

— Promete? - Havia tanta angústia em minha pergunta que duvidei que ela não desconfiasse que eu soubesse de tudo.

— Pro... prometo — falou olhando pro chão.

— Não imagina como estou feliz. Gostei muito de te conhecer Bella.

— Também gostei de te conhecer. Te acho legal Edward. Você é a forma humana do

Prozac.

— Como? — Perguntei interessado em sua resposta.

Ela riu de novo.

— Você me deixa feliz! — Agora ela já olhava pra mim.

Movido pele alegria que me dominou, fui para seu lado com os braços abertos, querendo abraçá-la.

Por alguns segundos pareceu que seus braços se abriram para mim também, mas logo em seguida ela se afastou e me lembrei que não podia tocá-la.

— Desculpe-me, Bella. Eu só fiquei contente pelo que disse e por ter aceitado me encontrar de novo.

Ela sorriu e fez uma expressão de quem pedia desculpas por algo que não controlava.

Anotei seu telefone e fiquei de ligar para marcarmos algo.

— Trabalho amanhã o dia todo. Vou te ligar à noite tudo bem?

— Sem problemas.

— Você é médico como o resto de sua familia? — Mudou logo de assunto.

Gostei que se interessasse em saber da minha vida.

— Eu estava estudando para ser, mas resolvi parar e me tomei paramédico. Trabalho em uma ambulância. — Ela ficou pensativa, provavelmente se lembrando das vezes em que foi salva por profissionais como eu, sem nem imaginar que um deles era eu mesmo.

— Ah... É um belo trabalho, na maioria das vezes.

— Como assim. 'na maioria das vezes'? — Perguntei.

— Ah Deixa pra lá, coisa da minha cabeça. É que nem todos querem ser salvos. Mas não vamos mais falar disso, por favor.

— Claro, como quiser.

Era óbvio, ela devia odiar o paramédico que a ressuscitou no dia em que cortou os pulsos.

Mal sabia ela que estava diante dele.

Alice a chamou e elas se foram. Pelo menos ficaria sabendo onde ela morava. Por que será que tinha se mudado para Chicago de novo? Ou será que estava aqui só a passeio? Tomara que Alice conseguisse algumas informações sobre Bella.

Joguei uma água no rosto e fui embora também.

Morava na suíte presidencial de um hotel em Magnificent Mile, na Michigan Avenue. Um dos melhores e mais caros endereços da cidade. Era uma das mordomias que meu dinheiro proporcionava.

No início, meus colegas ficaram arredios comigo. Achando que eu era um riquinho
inconsequente que estava querendo brincar de fazer salvamentos e que logo me enjoaria e voltaria para minha vidinha de príncipe. Foi difícil conquistar a confiança deles, mas depois que viram minha dedicação e empenho no trabalho, me aceitaram e passaram a me respeitar, tratando-me como o líder deles. Fiz muitos amigos na corporação e formávamos uma grande família.

Meu dia de trabalho foi pesado. Acidentes de moto, um incêndio, facadas, tiros e para

finalizar o turno, um parto. Trazer uma criança ao mundo era uma experiência que nos deixava apreensivos, já que sempre acontecia sem as condições ideais de assepsia e sem os instrumentos necessários, no caso de uma emergência. Mas quando corria tudo bem, e o chorinho do bebé ecoava em nossos ouvidos, uma alegria sem precedente nos invadia. Era uma das poucas vezes em que ousava acreditar na crença da minha mãe. Aquilo era muito sublime para ser oriundo apenas de uma explosão cósmica.

A mãe da menininha que acabara de nascer por minhas mãos, agradecida pela ajuda, olhou profundamente em meus olhos e disse que a filha se chamaria "Angela" em minha homenagem.

Queria ter perguntado por que mas ela acabou adormecendo de cansaço.

Na hora de deixar o turno, nem bem tinha tirado meu uniforme e já telefonava para Bella.

Não via a hora de vê-la outra vez. Adorava sua companhia.

A voz gravada dizendo que se tratava de um número inexistente me deixou intrigado.

Tentei novamente e ouvi a mesma mensagem.

Não era possível que tinha gravado errado. Mas como tinha sido logo após meu desmaio, poderia até ser. O jeito seria pegar o endereço com a Alice e ir ver Bella pessoalmente. A Ideia me agradava muito.

Ela me explicou direitinho como chegar lá. Não era dificil. Parei na frente da casa com o coração acelerado. Não era a mesma de quando a salvei. Toquei a campanhia com as mãos tremulas e suadas.

— Pois não? — Uma senhora de meia idade atendeu a porta.

— Boa noite senhora. Sou Edward Cullen. Eu poderia falar com a Bella? — Perguntei

gentilmente.

— Com quem?

— Com Isabella — respondi. Era melhor não demonstrar muita intimidade.

— Não tem nenhuma moradora com esse nome aqui meu filho. Moramos somente eu e meu esposo aqui.

— Desculpe-me então, devo ter anotado o endereço errado. Boa Noite — falei sem graça

— Não tem problema. Boa Noite.

A mulher fechou a porta e tratei de ligar para Alice. Aquela desmiolada tinha me feito ir ao lugar errado.

— Mas Edward, o endereço é esse. Deixei Bella ai na porta. Não é uma casa pintada de anil com floreiras nas janelas e um balanço na frente?

— Sim. Alice, é essa mesmo...

Comecei a perceber o que tinha acontecido. Desliguei o telefone sem nem me despedir de minha irmã.

Bella tinha feito propositalmente. O telefone e o endereço errados era a dica de que não queria mais me ver, nem ser encontrada.

Abri a porta do carro e me joguei no banco completamente transtornado. Meu peito parecia que ia explodir. Quando vi, estava chorando. Chorava de decepção. De mágoa. De desespero e de raiva.

Fui até sua antiga casa, mas também não a encontrei.

Os dias seguintes foram terríveis. A dor que levava comigo era tão forte que me fazia

entender a Bella. Não que me passasse pela minha cabeça me matar, mas a possibilidade de a morte fazer-me parar de sofrer, era reconfortante.

Evitava ler jornais e assistir televisão. Sentia um medo terrível de encontrar uma nota ou manchete sobre seu suicídio.

Minhas olheiras e abatimento já eram notadas por meus colegas e familiares. Mesmo com a ajuda do meus pais e irmãos, que agora já sabiam quem ela era, estava difícil suportar. Minha vida tinha se tomado um inferno. Acho que se não fosse meu trabalho, surtaria de vez.

Passava as noites com seu isqueiro na mão, me lembrando de seu sorriso e sua risada

gostosa. Não entendia os sentimentos que me ligavam a Bella. Estava tudo confuso... Nada do que estava acontecendo parecia racional. Como alguém conseguiria sair de uma festa onde se divertiu e brincou com crianças, e se matar no momento seguinte? Tinha tantas coisas que eu não entendia...

Bella havia me prometido que nos veríamos novamente... Por que tinha mentido para mim?

Por que não quis me ver só mais uma vez? O que custava?

Meu sofrimento só aumentava com o passar dos dias. Já não sabia mais o que fazer para aguentar o vazio e o tormento que me consumiam. Ninguém podia fazer nada por mim, eu estava sozinho.

Pensando bem, pode ser que ainda restasse alguém que poderia me ajudar. Mas mesmo que o encontrasse em sua casa, o que não acreditava muito, duvidava que ele abrisse a porta para mim.

As portas estavam abertas quando cheguei.

Fiquei de pé na frente daquele altar e implorei:

— Deus, me ajude!