-Lua Cheia-
Não dormi tão bem, desta vez... mas dormi tempo suficiente. Era sexta-feira e Alice já tinha desaparecido, provavelmente tomaria café com Frank.
Novamente, Rachel ainda estava dormindo quando Marlene terminou de se arrumar... Tentamos acordá-la com palavras, sem sucesso. Lene então deu um tapa nas costas da garota. Rachel gritou e começou a xingar, enterrando o rosto no travesseiro, com uma das mãos no local da pancada.
Olhei para Marlene com uma expressão séria. Ela murmurou um "não bati forte" e eu bufei, enquanto ouvia Rachel respirar pesado.
-Rachel...? Tudo bem? Desculpa, acho que exagerei... – Lene parecia não entender o que estava acontecendo e, embora eu achasse que ela realmente tinha batido forte, estranhava a reação da outra amiga... não era algo típico dela.
-Eu te mato, Lene... – a voz de Rachel estava abafada pelo travesseiro, até que, relutantemente, ela pôs-se sentada na cama. – Só... só me ajudem a trocar de roupa e a descer, por favor...
Toda minha confusão foi substituída por preocupação. Quando ajudamos Rachel a se trocar, foi inevitável notar a enorme marca roxa na lateral de seu tronco... perto das costelas. A marca era tamanha que perguntei-me se havia algo quebrado ali...
-Rachel, o que...
-Não pergunte, Lils.
-Não vá me dizer que foi um balaço! Você mentiu para mim ontem, não foi, Leans?
Ela desviou o olhar.
-Depois... depois eu explico. Preciso ir até a Ala Hospitalar... Tentei arrumar isso ontem, mas acho que faltou alguma coisa.
-Rachel Leans! – Marlene parecia tão espantada e confusa quanto eu. – Você dormiu com isso? E ainda tentou consertar sozinha! Vamos imediatamente pra lá, Lily.
Eu concordei e, junto com Marlene, ajudei a garota descer. Para minha surpresa, Tiago e Sirius estavam acordados, exaustos, ao pé da escada.
-Deixa que a gente leva ela – Tiago deu um passo a frente e catou a mochila de Rachel, enquanto Sirius a pegava no colo.
-Vocês... sabem? – Uma certa irritação passou por mim... eles sabiam, mas eu e Lene não... Rachel era uma traíra mesmo. Para a nossa sorte, a Sala Comunal estava quase vazia... provavelmente obra de Sirius e Tiago, o que evitou olhares e explicações. Na verdade, os poucos olhares foram diretamente para Sirius... meninas com ciúme, humpf.
-Juro solenemente não fazer nada de bom – Tiago dissera, apontando uma varinha para um pedaço de pergaminho dobrado, logo que atravessamos a Mulher Gorda. Algo apareceu, mas, antes que eu pudesse ler, ele abriu o pergaminho e, de dentro, surgiu um mapa de... Hogwarts? Mas o que era aquilo? E por que Tiago precisava de um mapa? Não consegui olhar direito, já que ele estava um pouco apressado.
Sei que tomamos um caminho diferente... não era o mais curto, mas não encontramos ninguém.
-Malfeito feito – e tudo o que estava no pergaminho se apagou.
-Mas o que está acontecendo aqui? – Madame Pomfrey aparecera na porta da Ala Hostitalar. O local estava vazio, exceto pela presença de Remus deitado em uma das camas, dormindo.
-Madame Pomfrey, Rachel... – comecei, mas fui interrompida.
-Eu levantei bem cedo e, bom, fui ver como Remus estava, se é que me entende... o Salgueiro Lutador me pegou.
Então Madame Pomfrey sabia de Remus... bom, ela ajudava a cuidar dele, não é? Claro que sabia. Ela olhou torto. Eu também duvidava da versão de Rachel... Ainda assim, a menina recebeu uma poção anestésica e teve os ossos colocados no lugar.
-Pronto, Srta. Leans, agora é só passar essa poção aqui a cada doze horas e essas marcas logo sairão. Meu estoque de pasta removedora de hematomas acabou, então terá de se contentar com isso... mas trate de não arrumar mais confusão, ou terei de chamar o Prof. Dumbledore.
Rachel olhou para o frasco cilíndrico com um sorriso. Ele continha um líquido azul escuro bem pastoso. Madame Pomfrey retirou-se da área para deixar-nos a sós.
-Eu bem que estava sentindo falta de um desses – e ela o guardou na mochila.
-...Rachel? - Virei-me para ver Remus, que parecia ter acordado antes. – O que... o que eu fiz com você?
Troquei olhares com Marlene por alguns segundos... ela tinha empalidecido. Também senti o calor em meu rosto se esvair... Rachel tinha encontrado com Remus? Durante a lua cheia?
-Não, Remus, não foi você... você nunca faria isso... – ao que ele manifestou abrir a boca, Rachel completou - ...eu sei que não faria. Foi o Salgueiro Lutador.
Remus olhou para Tiago e Sirius e, quando acompanhei o olhar, vi que eles assentiam com a cabeça. Só então Remus pareceu mais tranqüilo. Mas que diabos tinha acontecido?
-Será que dá pra vocês explicarem? – Marlene indagou.
Remus empalideceu quando viu que eu e ela estávamos ali.
-Tudo bem, Aluado, elas sabem – Tiago colocou a mão no ombro do amigo. Remus olhava repetidas vezes para mim e então para Marlene.
-E não vemos nada de mal nisso, Remus – afirmei, ao notar que era esse o motivo de tanta preocupação. Ele pareceu mais aliviado.
-Não quero que você me veja mais, Rachel... – e eu sabia que Remus se referia aos períodos de lua cheia.
-Mas eu vou continuar indo, você sabe disso.
-Não, não vai, já bastou por hoje – Tiago estava sério.
-Eu aprendi a lição – Rachel sorriu. – Sirius?
-Você é uma companhia divertida, Leans.
-Padfoot! – Remus estava com uma expressão de urgência.
-Não vou errar de novo, Remus, prometo. Aconteceu só porque eu não estava acostumada com isso... mas estou pronta, agora – ela ficou encarando Lupin até que ele desviasse o olhar.
-Eu não apoio essa idéia...
-Eu sei que não... mas não minta dizendo que lhe faz mal, porque eu sei que não faz... e eu... eu me sinto bem, Remus – quando ele esboçou um meio-sorriso, Rachel virou-se para o lado feminino da reunião – Prometo explicar tudo no final da tarde.
Rapidamente, tivemos de ir para a aula... Não deu tempo de comer nada, mas toda aquela manhã incomum tinha me deixado sem fome. O que Rachel tinha ido fazer na Casa dos Gritos? Como Tiago e Sirius permitiram? Eu sei que ela é persistente e cabeça-dura, mas... isso? Não fazia sentido.
Tanto Rachel quanto Tiago e Sirius mal prestaram atenção na aula... sono pós-aventura. Eu prestava atenção, mas, assim que alguns minutos pareciam mais tediosos, minha mente voava. Marlene também não parecia muito interessada na aula.
-Então, Leans, vai nos contar ou não? – Marlene sentou-se na mesa, encarando Rachel de braços cruzados.
-Que parte do "final da tarde" você não entendeu, Lene?
Só que Rachel comeu apenas um pouco de torta de carne e logo desapareceu, alegando precisar de um banho, já que não tinha conseguido de manhã.
Tivemos aula de Defesa Contra as Artes das Trevas e eu segui para Runas Antigas. Tiago e Sirius foram fazer companhia para Remus e disseram que iriam dormir, depois. Mais tarde, eu e Lene tratamos de levar Rachel para a Sala Precisa, onde ela não teria mais desculpas.
Estávamos em uma sala ampla, arejada, com piso de madeira e algumas almofadas, além de um sofá com três lugares. Mas não nos sentamos, ficamos em pé mesmo, de braços cruzados, encarando a Leans.
-E então...? – perguntei, ainda chateada por ela ter confidenciado coisas aos marotos e não a nós.
Rachel coçou um pouco a cabeça, deu uma volta olhando para o chão e então retornou a seu lugar inicial.
-Vocês sabem que eu sempre quis ajudar o Remus...
-Todas nós, Rachel – eu a interrompi.
-É, todas nós... só que eu fiquei sabendo de tudo antes... dele e do que Tiago e Sirius faziam... Eu tive vontade de estar junto deles.
-E teve a brilhante idéia de se enfiar lá no meio, né, sua inconseqüente? – Lene apresentou um ar de reprovação, mas Rachel apenas riu.
-Sim, tive... mas não tão inconseqüente. Observem.
Rachel deu alguns passos para trás, então fechou os olhos. De início, não percebi nada, mas, no piscar de olhos seguinte, ela havia sumido. Em minha frente, estava uma raposa fêmea de pequeno porte, tronco esguio e pernas finas, apresentando uma graciosidade felina. A barriga e a porção inferior da face eram creme claro e as patas e a parte de trás das orelhas eram pretas, porém, a cor predominante do corpo e da cauda era castanho-avermelhado.
Apesar de tradicional, aquela raposa tinha algumas particularidades. Seus pêlos pareciam lisos, brilhantes e bem cuidados, assemelhando-se a um animal doméstico, sem aquela agressividade selvagem. Possuía olhos cor-de-mel sem nenhuma inocência presente e eu podia jurar que ela estava sorrindo.
O que acharam de Rachel ser animaga? Interessante, sem-noção, cliché? Perdoem-me por isso, mas foi uma vontade de muitos anos atrás que não pôde ser afastada e, quando eu vi, a Rachel já era animaga e tirar isso dela seria mudar sua personalidade. Bom, essa fic é uma coisa viva dentro de mim, tem vontades próprias xD
