Capítulo Oito
Lá estava eu, encostado em uma parede de tijolos vermelhos, na parte de trás da escola, minhas calças ao redor dos meu tornozelos. Estava escuro, apesar de que houvesse uma lâmpada sobre uma das portas de trás. O lugar estava quieto e deserto, e eu sabia que estaria em grandes problemas se alguém me encontrasse – especialmente meus pais, se eles percebessem que eu tinha, de fato, me esgueirado para fora de casa às onze e meia da noite.
O nome dele era Alex – provavelmente – e a única coisa que eu sabia sobre ele era que seu cabelo loiro era meio longo, o que eu só sabia por que seu cabelo batia em minha pele toda vez que ele mexia a cabeça. Eu também sabia que ele tinha um piercing na língua, que deve ter colocado apenas para que conseguisse transformar sua tentativa podre em algo um pouco agradável.
Meus dedos estavam pressionados contra a parede, olhos fechados e minha cabeça inclinada para trás, tentando não emitir nenhum som desnecessário. Eu não tinha nem idéia do por quê eu estava fazendo isso, mas estava acontecendo, e era bom, então eu não ia questionar. Minha consciência provavelmente estava prestes a se matar, por que eu não a estava ouvindo.
Enquanto esse garoto (ele provavelmente não tinha mais que dezesseis) continuava o que era um oral bastante medíocre, eu finalmente olhei para baixo pela segunda vez nos últimos minutos. E, então, seu cabelo loiro não era mais loiro. Ainda tinha o mesmo tamanho, mas agora era negro e eu sabia quem era imediatamente. David. Oh, porra.
Eu o observei, minha mente vendo um lindo artista ao invés de algum garoto que eu não conseguia sequer lembrar do nome. Isso fez do meio-decente oral, um maravilhoso, mesmo que isso fosse apenas o que eu queria ver e sentir. Eu pensei nos lábios de David, na língua de David, as mãos criativas de David em mim. Eu pensei em seus olhos marrons olhando para mim, enquanto meu pênis entrava e saia de sua boca aquecida.
Eu não tinha certeza do que, exatamente, aconteceu depois disso, mas minha mente tinha me feito acreditar que eu estava gozando na boca de David, o que fez o orgasmo ainda melhor do que teria sido de outra forma.
Um momento ou dois depois, quando eu lentamente me recuperava, o cara que estava comigo se levantou, ofegante, mas não tanto quanto eu. Nenhum de nós disse nada, enquanto eu colocava minha calça. É claro, por que era algo que eu não queria que acontecesse, ele quebrou o silêncio.
-Quem é David? – ele perguntou.
Minhas mãos congelaram no zíper da minha calça e eu olhei para ele inexpressivamente, tentando esconder o fato de que eu estava surpreso que ele tivesse perguntado isso do nada.
-O quê? – perguntei. Todos já sabiam de David e eu?
-Você me chamou de David quando você... – sua voz morreu, mas eu entendi. – Quem é ele?
Entretanto, eu não ia dizer educadamente para ele se foder, por que eu não tinha nenhum motivo para ser gentil com ele.
-Desculpe, não sabia que éramos amigos. – falei friamente.
Seu rosto endureceu por um momento, mas, então, estupidamente, ele se moveu para me beijar. Eu virei o rosto, impressionado que ele tivesse tentado. Mesmo que ele, claramente, fosse péssimo nisso, ele entendeu e se afastou: - Isso é tudo o que eu ganho? – perguntou, enquanto eu continuava a ajeitar minha calça. Do bolso de sua calça, ele tirou uma nota de cinqüenta dólares. – Por que você poderia me foder. – disse, balançando a nota perto do meu rosto.
-Vá se foder. – falei, afastando sua mão. – Eu não sou um prostituto. – eu terminei de arrumar minha calça e ajeitei minha camiseta. – Tenha uma boa noite. – com isso, eu me afastei nem me importando em olhar para ele, enquanto fazia meu caminho para fora da propriedade da escola e pela rua.
Respirando fundo, eu corri uma mão pelo meu cabelo. Eram em momentos como esse que eu considerava fumar, por que talvez isso ajudasse a acalmar meus nervos. Eu não sabia por que meus nervos estavam dessa forma, por que não era como se eu estivesse fazendo algo particularmente errado. Mas esse era o primeiro cara que eu ficava desde que David e eu fizemos nosso acordo, exatamente há três semanas. Em uma sexta-feira.
Infelizmente, David e eu não tínhamos tido nenhum 'encontro'. Eu freqüentemente lembrava do nosso passeio ao shopping, e isso sempre me fazia sorrir. Claro, David não segurava minha mão ou fazia algo muito afetivo, mas ele sorriu e riu. Parecia que o único momento que ele não o fazia era quando eu perguntava coisas pessoais, ou se eu agisse como mais que um amigo.
Foi assim que ele continuou agindo. Eu me perguntava que segredos ele escondia de mim, e por que ele não se abria completamente. As pessoas usualmente se abriam comigo. Chuck uma vez me disse que era meu sorriso, que fazia as pessoas confiarem em mim, e eu sorria freqüentemente para David, então por que não estava funcionando?
Eu trouxe isso à tona com Chuck quando nós estávamos em sua casa, semana passada, e ele tinha dito: - David provavelmente se magoou no passado. Um ex-namorado, sem dúvida. Ou talvez ele tenha uma vida fodida em casa. Você não sabe, por que ele não diz uma maldita coisa sobre si mesmo, ou sequer te deixa entrar na casa.
-Então, o que eu faço? – perguntei.
Chuck deu de ombros: - Só espere. Ele ainda não vai confiar em você; ele meio que acabou de te conhecer. Ele precisa de uma chance de se sentir confortável, antes de revelar algo muito pessoal. – ele, então, começou a falar de Dean e ele.
Suspirando, meus pés continuaram através do asfalto da calçada. Eu coloquei a toca do meu agasalho, e olhei ao redor freqüentemente, desde que era quase meia noite e eu estava sozinho. E era bonito.
Apesar de David ter dito que não teria problema, eu ainda me sentia estranho de ficar com outra pessoa quando eu estava 'vendo' David (eu tinha que usar aspas com quase tudo relacionado a David). Talvez fosse por que eu não tinha feito isso antes. Em todos meus outros relacionamentos, era preto no branco, onde ou éramos namorados ou não – usualmente não éramos. Não havia nunca áreas cinzentas.
Então, quando eu cheguei em casa, eu decidi tomar banho. Eu usei o banheiro recentemente reformado no porão, para que ninguém me ouvisse e acordasse. Eu não me sentia sujo propriamente, mas eu queria lavar qualquer pensamento negativo que eu tivesse sobre o que eu tinha feito. Quando eu deitei na minha cama e fechei meus olhos, eu cheguei à conclusão que eu estava fazendo exatamente o que nosso acordo dizia que podíamos, então por que eu devia me sentir mal sobre isso? Eu não devia, e não me sentia.
David estava fora por todo o fim de semana por motivos que ele não me disse, então eu não consegui passar nenhum tempo com ele. Eu não falei com ele pelo telefone, por que ele ainda não tinha me dado seu número, e o carro de seus pais não estavam na garagem, quando eu passei por lá.
Na segunda-feira, eu só acordei para ir à escola, por que eu sabia que teria a chance de ver David. Minha missão por toda a manhã foi encontrar David e beijá-lo, para compensar todo o fim de semana. Dispensando Chuck e meus outros amigos, eu fiz meu caminho para dentro da escola, procurando pelo armário no qual passei bastante tempo na semana passada.
Ele não estava lá, mas ainda era um pouco cedo, de todo modo, então ele provavelmente nem sequer estava perto do prédio ainda. Eu me escorei contra o armário, sorrindo educadamente para cada cara bonito que passasse e torcendo para que nenhum deles fosse o que eu fiquei na sexta-feira. Eu não conseguia lembrar como ele era, e eu sequer tive a chance de dar uma olhada nele, por que estava escuro.
David apareceu alguns momentos mais tarde: - Ei, Pierre. – falou, soando raramente feliz.
Eu sorri, saindo de seu caminho para mexer em seu armário.
-O quê? Transou noite passada? – perguntei.
Ele balançou a cabeça: - Não, só tive um bom final de semana. – respondeu. – Como foi o seu? – era isso que David fazia. Falava pouco sobre ele mesmo, mas aí ele fazia virar ser sobre mim. Ele claramente sabia o quanto eu gostava de falar de mim mesmo.
-Nada demais. – respondi. – Nós fomos ao cinema. Não foi ótimo. Você devia ter ido ao churrasco que fizemos ontem à noite, você podia ter conhecido minha família. – ele apenas assentiu, enquanto folheava um de seus livros.
Então, eu decidi ir direto ao que eu quis por todo o final de semana. Uma vez que ele colocou seu livro de lado, eu o girei e o pressionei contra a porta do armário ao lado do seu, minhas mãos em seu quadril. Antes que ele conseguisse falar algo, eu comecei a beijá-lo. Ele estava surpreso no começo, mas aí suas mãos pousaram nos meus ombros e ele beijou de volta.
Quando nós paramos, David suspirou: - Pierre, você sabe que eu não gosto de demonstrar afeição em público, especialmente na frente de adolescentes barulhentos. – falou.
-Bem, eu acho que isso é idiota. – falei, beijando-o novamente. – Explique de novo, caso eu esteja entendo errado. – eu o beijei de novo, dificultando para que ele respondesse imediatamente.
Afastando-me levemente, ele disse: - Por que todos vão chegar à conclusão errada.
Meus lábios pressionaram os dele mais uma vez.
-Honestamente, qual a pior conclusão que eles poderiam chegar? Que você está namorado o cara mais gostoso da escola? Que você, possivelmente, está transando o melhor de cama, menor de vinte e um?
-Que nós somos namorados. – David disse, pousando uma mão em meu peito e me empurrando levemente. – E aí você vai começar a acreditar no que estão dizendo. Eu prefiro evitar isso.
Ignorando isso, eu o beijei longamente.
-Você não sabe se eu faria isso. – eu sorri maliciosamente, enquanto o puxava para mim. – Além do mais, me ter como seu namorado, não seria nada além de benéfico para você.
David girou os olhos e, nesse momento, o sinal tocou. Ele me beijou brevemente, então se virou para seu armário. – Vá para sua aula, Pierre. – falou, enquanto terminava de pegar seus livros.
Suspirando, eu concordei, então apertei sua bunda, antes de me afastar. Eu olhei para ele com olhos largos e inocentes, e ele apenas balançou a cabeça, sorrindo, enquanto fechava seu armário e começando a andar para o outro lado do corredor. Com um sorriso largo em meu rosto, eu fui para minha sala.
As coisas entre David e eu tinham mudado na forma que ele agia em relação a mim. Apenas recentemente, David vinha usando de inteligência e sagacidade para responder as minhas perguntas, o que era bem mais divertido do que só tê-lo me chamando de idiota.
Mas parecia que todos estavam cientes agora. Pelos próximos dias, várias pessoas observavam sempre que eu me aproximava de David, especialmente quando eu o beijava. Eu mal notava isso, entretanto, por que David estava, lentamente, ficando bem com mostrar afeição em público, e ele estava querendo passar tempo comigo. Entretanto, ele não era muito pessoal comigo, então eu ainda não tinha ido muito longe.
Não foi antes de quinta-feira, quando eu estava na sala de aula com Chuck, que eu compreendi completamente que as pessoas sabiam de David e eu.
-Estão falando de você, sabe? – Chuck disse.
Um suspiro escapou por minha boca, enquanto eu relaxava sobre a cadeira: - Oh, eles sempre falam. – respondi. – Mas sobre o que, especificamente?
-Você e David. – Chuck explicou. – Eles estão se perguntando por que você escolheu um perdedor ao invés de alguma das maravilhas em potencial.
Dando de ombros, eu falei: - Eu não tenho que me provar, ou o meu relacionamento, para ninguém.
-Exatamente o que eu sabia que você diria. – ele assentiu. – E eles todos estão pensando que vocês são namorados. Eu não os corrigi, por que eu acho que é idiota, então eu não apoiar isso.
-O que você acha idiota? – perguntei.
-O acordo que você e David fizeram. – ele respondeu e eu apenas balancei minha cabeça, olhando para minha mesa. – Ele devia parar de ser tão covarde e simplesmente te namorar. Está fadado a acontecer. Todos querem sair com você.
Respirando fundo, eu tentei prestar atenção ao professor: - Deixa pra lá, Chuck. – falei. – Eu vou dar um jeito, eventualmente. – Chuck tinha a mentalidade preto no branco sobre relacionamentos, que eu já não mais tinha. Ele provavelmente teria sido o último a entrar em relacionamento de amigos com beneficio.
Na hora do almoço, eu me afastei dos meus amigos e me sentei de frente para David. Ele estava sentado sozinho, como sempre, mas tinha um livro dessa vez. Ele revezava entre livros e observar as pessoas no refeitório, e eu o peguei num dia que ele estava com o livro.
-O que você está lendo hoje? – perguntei, enquanto me sentava na cadeira.
-Homem aranha. – respondeu.
Eu sorri largamente: - Oh, então, você gosta de nerds? Diga-me, quantas vezes Peter Parker esteve em suas fantasias?
David riu, tomando uma colher cheia da sua sopa de brócolis.
-Mais vezes do que você esteve. – respondeu. Ele tinha um sorriso afetado em seu rosto e eu ergui minhas sobrancelhas, altamente divertido com isso.
-Ohh. – falei. – Eu gosto de você, Desrosiers.
-Julgando pela freqüência que você me beija, eu já tinha percebido isso. – respondeu. Eu sorri para ele, e ele sorriu de volta. Nossos olhos se prenderam por vários momentos, então o sorriso sumiu e ele olhou para sua sopa, tomando mais um pouco.
Eu comecei a comer meu próprio almoço, dando uma mordida no sanduíche de peru que eu tinha escolhido hoje. Eu não estava preocupado em começar uma conversa, por que nós sempre encontrávamos um jeito de conversar. Usualmente, era bastante aleatório.
David virou a página do seu livro, os olhos ainda colados nele, enquanto ele tomava um gole de sua bebida.
-Então, você vai ficar me olhando o almoço todo ou você vai dizer algo idiota ou sexual?
-Quer ir dar uns amassos na van da Anna? Ela não vai se importar; ela só tem problemas com sexo hétero. – falei.
-Ela tem uma dessas vans hippys, não tem? – David perguntou.
-Você tem problemas com hippies, Senhor Tofú? – eu sorri afetadamente e ele sorriu um pouco, balançando a cabeça, continuando a comer. – Bom, então depois nós vamos lá. Ela provavelmente tem um pouco de erva lá, também, se você gostar desse tipo de coisa.
Ele bufou: - Eu não preciso de drogas para ficar alto.
Eu assenti, admirado por sua opinião. Então, eu decidi mudar de assunto.
-Então, o que seu pai faz? – perguntei pela segunda vez, na história de nossas conversas.
-Não é da sua conta. – respondeu. – O que o seu pai faz?
-Ele vende carros usados. Sua vez.
Ele me olhou e estava claramente tentando achar uma forma de sair dessa. Eu apenas o olhei, inocentemente, a boca curvada em um pequeno sorriso, enquanto eu esperava a resposta. Finalmente, ele disse: - Ele é ator de filmes gays pornôs.
Eu ri.
-Mesmo? – meu tom era incrédulo, desde que eu sabia que isso era muito improvável.
-Não, não realmente. – ele falou. – Mas você não disse que eu tinha que ser honesto. – eu, de algum modo, sabia que ele tinha encontrado uma brecha. Meu rosto estava alegre, embora eu me sentisse maravilhado por essa brincadeira.
Nós continuamos a comer em silêncio por um tempo e eu o observei ler. Eu queria dizer algo, mas o silêncio não era embaraçoso ou desconfortável, então não havia a necessidade de manter algum papo furado. Meus olhos correram para várias mesas depois da nossa, onde Chuck estava sentado com Patrick, Lou e duas outras amigas nossas, Amélie e Julien.
Chuck estava olhando para mim e ele disse algo sobre 'namorado' apenas com o movimento dos lábios. Ou ele estava me encorajando a contar para David – nas palavras de Chuck – 'parar de ser um covarde' e ser meu namorado, ou ele estava me encorajando a perguntar sobre os ex-namorados de David. Eu apenas balancei minha cabeça e voltei a olhar para David. Eu não estava com vontade de fazer David agir todo distante e evasivo.
-O que Chuck tinha a dizer? – David perguntou, olhando um pouco pra mim.
-Oh, ele... Ele apenas queria saber se eu ia com ele e os caras... À l... Loja. – eu nunca tinha mentido tão terrivelmente em toda minha vida.
Ele sorriu, terminando seu livro e o fechando.
-E você recusou uma oferta dessa? – perguntou e só pelo olhar em seu rosto, eu soube que ele sabia que eu estava mentindo.
-Nós já temos planos, lembra? – falei. Eu terminei o que pude das fritas que tinha pegado, mas eu não estava mais com fome. Eu me levantei: - Se você ainda estiver a fim, me encontre no estacionamento quando terminar.
Antes de me afastar, eu me inclinei para depositar um beijo em seus lábios. Ele apenas assentiu, sorrindo um pouco, enquanto eu ia embora. Eu notei algumas pessoas desviando o olhar, e eu me perguntei o que eles estariam falando de nós. Mas, ao mesmo tempo, eu não me importava, por que ninguém sabia minhas intenções.
[...]
Uma semana se passou com flertes, brincadeiras geniais, longas sessões de amasso e respostas humoradas às minhas pergunta. Eu ainda não sabia nada sobre sua vida em casa, seus pais, seus ex-namorados ou seu passado, mas eu consegui vê-lo sorrir freqüentemente, então eu ainda não estava reclamando.
David e eu tínhamos, finalmente, trocado números de telefone. Eu o acompanhei até em casa outro dia (sem seu consentimento, é claro) e, enquanto estávamos parados na calçada em frente à sua casa, ele concordou em me dar seu número, tanto de casa quanto do celular. Eu ligava para ele todas as noites desde então, só para bater papo sobre nada em particular.
David não tinha vindo à escola hoje – sexta. Eu liguei para sua casa, mas ninguém atendeu, então eu decidi ir até lá. Chuck tinha ido embora com Dean e ninguém me esperou. Eu fui sozinho, curioso sobre o por quê de David não ter respondido, quando eu lhe mandei uma mensagem de texto no celular, há dez minutos.
Eu vi David na varanda, antes mesmo de virar a esquina. Ele estava sentado em uma das cadeiras em sua varanda, sua prancheta apoiada em seus joelhos.
Eu o observei, enquanto andava, impressionado com sua concentração, sua atenção séria, sua óbvia paixão pelo que estava fazendo. Ele ergueu sua cabeça várias vezes, olhando para seu alvo, que era algo do outro lado da rua, bem longe de onde eu estava andando. Era maravilhoso. Ele mesmo era seu próprio trabalho de arte.
De repente, eu senti meu pé acertar algo e eu tropecei. Aconteceu de ser uma lixeira de recicláveis, e as latas e garrafas fizeram barulho, enquanto eu tentava me estabilizar. Eu as chutei para fora do meu caminho e me virei para David. Ele tinha me notado, e deu um meio sorriso, antes de voltar a olhar para sua prancheta.
Quando eu consegui passar por todos os recicláveis, eu andei até a varanda.
-Hey, David. – falei, me sentando ao seu lado.
Ele assentiu.
-Eu vou terminar em um minuto, só espere um pouco. – falou, seus olhos voltando para o local onde seu alvo estava. Eu esperei pacientemente. Ele terminou, então colocou seu lápis dentro de livro e o fechou. – Pronto.
-Posso ver? – perguntei. David apenas balançou a cabeça, então eu mudei de assunto. – Onde você esteve hoje? Você não parece doente, então nem tente essa.
-Eu só não estava com vontade de ir, certo? E nem sequer tente dizer que nunca fez isso. – falou.
Dando de ombros, eu concordei que eu tinha feito isso antes.
-O que mais? – perguntei.
David respirou fundo e relaxou em sua cadeira.
-Fiquei aqui o dia todo, vendo televisão e comendo sobras. – falou. – De todo modo, por que você decidiu agraciar essa casa com sua presença?
-Só estava de passagem, pensei em parar na casa do meu não-namorado. – respondi. Ele não sorriu, entretanto, observando enquanto um carro passava. – Certo, eu tive segundas intenções. – o que era, honestamente, sempre segundas intenções com David.
Ele me olhou: - É claro que teve. – falou.
-O que você vai fazer amanhã? Ou depois de amanhã? – perguntei.
David afastou o cabelo do rosto.
-Uh, eu não sei. – respondeu. – Mas, usualmente, eu não planejo com antecedência. Algo pode aparecer. – ele deu de ombros.
-Bem, você quer ir fazer algo? Só nós dois?
É claro, seus olhos foram para algo do outro lado da rua.
-Acho que não, Pierre. – disse. – Eu realmente não sou alguém para ir em um encontro. Toda aquela coisa sem sentido de te-acompanho-até-em-casa, te-beijo-na-varanda. – ele balançou a cabeça. – Não é como eu gosto das coisas.
-Como você gosta, então? – perguntei, um sorriso sabichão em meu rosto. – A coisa de te-levo-a-um-show-de-rock, te-fodo-no-banco-de-trás-do-meu-carro?
Ele riu e olhou para mim.
-Não. – respondeu. – Tente o passar-o-tempo-no-porão, assistindo-o-DVD-do-Six-Feet-Under e comer-todos-os-sabores-de-doritos.
Enquanto eu o olhava com um sorriso suave, eu pensei nas várias formas que eu podia fazer isso virar realidade. Ao invés de verbalizar isso, eu me levantei, suspirando.
-Bem, não pode me culpar por tentar. – falei. Eu parei perto da escada, me virando para ele. – Você podia passar lá em casa, se quiser. Eu tenho uma cama bastante confortável.
David rolou seus olhos e se levantou também.
-Talvez outra hora. – falou e andou até mim. Eu me escorei contra a grade, enquanto ele se movia para mais perto para me beijar. Eu ergui minha mão, como sempre, para correr meus dedos pelo cabelo que eu amava tocar. Suas mãos descansaram no meu quadril, sem se moverem ou se fazerem presentes. Eu desejei que ele as mexesse, por que seus dedos causavam um formigamento onde quer que tocassem.
Nosso beijo se aprofundou, no mesmo instante em que ouvimos a porta da casa se abrir.
-David, - a voz de um homem chamou. David se afastou e se virou para ele, e eu percebi que era o homem maior, que eu tinha visto com David no funeral. – O jantar está pronto. – David assentiu, mas o homem não entrou na casa, ao invés olhando para mim amigavelmente, mas ao mesmo tempo curioso. – Quem é esse, David?
David olhou para mim, então de volta para o homem: - Esse é o Pierre. – ele me apresentou, gesticulando com sua mão. – Pierre, esse é meu pai.
Eu abri o sorriso conhecendo-os-pais.
-Prazer te conhecer, senhor Desrosiers. – falei, andando até ele e oferecendo minha mão. Metade de mim queria ser legal, mas a outra metade sabia que David ia gostar disso.
Ele apertou minha mão.
-É maravilhoso finalmente lhe conhecer, Pierre. – ele falou. – Pode me chamar de Noah. – eu assenti, sorrindo educadamente, enquanto voltava para onde David estava. – Então, há quanto tempo você e David têm se visto?
Eu abri minha boca para responder, mas David me interrompeu: - Pai, você pode nos dar um minuto?
Eles dividiram um olhar cheio de significado, então Noah falou comigo: - Bem, nos falamos outra hora, Pierre. – falou. Eu assenti, sorrindo, e ele entrou na casa.
David se virou para mim. Eu sorri afetadamente: - Eu acho que seu pai me adora. – falei.
Ele apenas deu um meio sorriso e se inclinou para me beijar de novo.
-Eu tenho que ir jantar. – falou. Ele correu uma mão pelo cabelo. – Uh... Eu te ligo mais tarde. E... Desculpe por recusar sua oferta. Só não estou interessado em encontros no momento.
Eu assenti, tirando um fio da sua camiseta.
-Sem problemas, David. – falei e o beijei, antes de ele entrar.
Eu sentia uma sensação rara e confusa dentro de mim, do tipo que você sente quando abraça um ursinho de pelúcia gigante ou dorme em uma cama muito, muito confortável. David nunca tinha se desculpado por dizer 'não' para mim. Ele sempre tinha apenas me rejeitado, sem nenhum pensamento ou empatia por como isso me faria sentir.
Eu não sorri, enquanto ia para casa, mas eu não tinha que sorrir, por que eu sabia como eu estava me sentindo e, até onde eu sabia, era a melhor coisa no mundo todo.
