Capítulo 8 – O Resgate
A espada do homem de negro tinha um intenso brilho da mesma cor. Havia apenas algumas manchas vermelhas na arma. Eram do sangue que brotava das feridas do receptáculo de Rafael, que já fora atingido por duas vezes, ainda que sem maior gravidade.
– Essa luta não é sua, verme! – bradou, em um tom agressivo, o Arcanjo.
– Veja bem como fala comigo; posso ficar ofendido – respondeu, após encurralá-lo a uma parede. – Agora o solte.
– Seu rebelde sem propósitos, oportunista desgraçado, anjo filha da...
– Onde aprendeu essas palavras carinhosas, irmão? – debochou o outro, interrompendo-o. – Sempre achei que você fosse casto o bastante, até porque não fica bem para o cargo que exerce – ele fez uma curta pausa e tornou a falar: – Vamos, sem me enrolar, espertinho; entregue-me o anjo.
Os Winchester's se entreolharam curiosos, mas sequer ousavam intervir na batalha. Dean não tinha idéia alguma de quem era o homem de postura rígida. Sam, por outro lado, conhecia aquela energia, só não a identificava com exatidão. Azrael, por sua vez, tentava compreender por que o ser em questão lutava por seu irmão. Sim, para o mais novo companheiro dos Winchester's, os guerreiros falavam a respeito de Castiel.
– Não farei o que me diz – comentou Rafael, tentando manter a calma. – Não tenho por que entregar um irmão meu a um ser insano como você.
– Ah sim, você se considera o anjo mais certinho do Universo – tornou a debochar. – Eu não pretendo levar essa conversa por muito mais – continuou, o tom visivelmente irritado.
– Então me mate se puder! – bradou o Arcanjo, enquanto ria. – Seu idiota... Isso não vai adiantar, porque não entregarei Castiel, e você terá cometido mais um grave crime contra a Criação, Samael Estrela da Manhã.
Os irmãos tornaram a se entreolhar, ao mesmo tempo em que Azrael dava um passo à frente. Dean, então, resolveu interromper aquele diálogo e perguntar ao homem de negro:
– Afinal, quem é você? Onde está o Cass?
– Se não fosse tão inconseqüente, Dean Winchester, ele estaria com vocês, na casa de Robert Singer. Mas é claro que agir de maneira razoável não é uma característica marcante na sua personalidade, não é? – comentou, o sorriso sarcástico nos lábios. – Meu maninho aqui já contou quem sou eu – apontou para Rafael. – Vocês querem saber da história toda?
Sam o olhou demoradamente. Agora tinha certeza de que o conhecia. Mas ainda não queria crer no que a infalível intuição lhe gritava. Ele não conseguia tirar os olhos do homem imponente, que ainda mantinha o Arcanjo preso a uma parede.
– Bem, quem cala consente. Sou Lúcifer, muito prazer, ou será que devo dizer ... Nem tanto?
O loiro observou o irmão. Agora entendia por que o mais novo analisava o homem com tamanha atenção. Dean não sabia o que pensar, o que dizer. Ele estava atônito frente ao anjo rebelde.
– Mas por que você está...
– Quer saber por que os ajudo? Bem, é uma longa história. Só que não há tempo para isso, rapazes. Precisamos achar Castiel.
– Essa é uma parte do assunto que me interessa e muito – comentou Azrael. – Onde ele está?
– Não sei ao certo. Esse maldito casarão tem vários cômodos. Seu irmão pode estar em qualquer um deles – falou Samael.
– Que ótimo! – exclamou, o tom impaciente.
– Calma, Azrael. Meu irmão vai desembuchar tal informação agora mesmo... – ao ver que o Arcanjo se distraíra com o tom ameaçador que fora empregado, Lúcifer fez um sinal aos Winchester's, que lhes indicava para ir em frente; deviam procurar o amigo em outros pontos da enorme residência.
(...).
Em outro cômodo – no segundo piso –, distante da sala onde a luta era travada, Castiel estava deitado em uma cama. Um símbolo tinha sido desenhado na volta do móvel, para que o ser celeste não escapasse e para que não usasse seus poderes angelicais. Ao lado dele, Uriel e Ierathel se divertiam com a cena de vê-lo impotente. Não era necessário empregar tortura física; a psíquica já lhes bastava para obter o que desejavam: o desespero nos olhos do anjo.
Os dois o encaravam com desprezo e raiva. Não compreendiam, inicialmente, por que ele era tão especial para Deus, a ponto de ser ressuscitado por duas vezes. Mas passaram a considerar possível que fosse pela inegável relevância de Jimmy. E eles, por outro lado, tiveram de sair do passado para o futuro; Kasbeel lhes dera, assim, a tão aguardada chance de vingança. Por isso aproveitavam cada momento para apreciar a expressão de tristeza nos olhos azuis de Castiel.
– Você o escutou... Não faz parte da família dele, não tem de se meter nas questões que discutem, então por que continua ao lado do rapaz e do irmão caçula dele? – perguntou Ierathel. O silêncio se fez presente. Cass não tinha forças para responder absolutamente nada, devido à intensa dor; apenas queria ficar calado e de olhos semicerrados.
– Ei! – Uriel encostou uma barra de ferro incandescente no peito do ser celeste, que se viu forçado a abrir os olhos, tamanho foi o susto que levou. – Se não quer responder, ao menos fique acordado, ser inútil. Acha que fazemos isso só por que você não quis nos ajudar a destruir a Terra? Engana-se; queremos o receptáculo, entende? – Cass compreendeu que ele se referia a Jimmy.
– O que? – questionou, erguendo uma sobrancelha.
– Ah, agora você fala, é, monte de merda? – Uriel tornou a encostar o objeto quente em seu peito. – Assim que o tirarmos dessa casca, nós teremos poder suficiente para acabar com o mundo. Você escolheu tão bem quem veste, irmão. Tenho de admitir... Jimmy Novak é um receptáculo raro, bem como os Winchester's. Kasbeel precisa dele para comandar a legião dos Céus que destruirá a Terra.
– Não – balbuciou. – Deus não permitirá que isso aconteça...
– Ele não está nem aí, criatura ingênua! – bradou Ierathel. – Você talvez tenha alguma chance de escapar desse casarão e de salvar o mundo, se pedir o auxílio dos Winchester's.
– Não – tornou a repetir.
– Por que? Será que é porque Dean não o considera parte da família?
– Os garotos precisam ter uma vida normal...
– Ah sim, certamente terão – uriel tornou a queimá-lo. – Não há volta, e você sabe; Kasbeel destruirá a Terra; construiremos o novo paraíso aqui.
– Não vou pedir nada a Dean e Sam – disse, após gemer de dor.
– Claro! Você sente vergonha por não estar próximo a eles como gostaria, por não poder ser o irmão que gostaria, não é? Você se sente constrangido por aparecer quando há algo a ser solucionado, e não quando há algo a ser comemorado... Estou equivocado? Acho que não – Castiel fechou os olhos novamente.
Ele não queria admitir, porém o anjo estava certo. Cass sempre protegeu os Winchester's, mas nunca pôde fazer parte da família de um modo mais efetivo. Como era um anjo do Senhor, tinha uma casa: o Céu. Lá, entretanto, jamais tinha sido feliz; os irmãos pareciam máquinas, robôs controlados por uma força bem maior. Ele, contudo, se mostrava diferente; era sensível a pedidos de socorro, gostava de ajudar os humanos quando conseguia dispor de tempo para tal, se sentia contente por trazer alegria a qualquer habitante, seja ele anjo, humano ou até mesmo algum demônio. Quando, porém, foi convocado a tirar Dean do Inferno, sua mente foi reprogramada. Séculos e séculos de um sentimento que denominavam fraqueza se perderam na imensidão da cruel tortura e do horripilante processo de restabelecimento angelical. Mas ao conviver com os Winchester's, sua mente foi reavivada; aos poucos Castiel readquiriu os sentimentos de antes. E se sentia impotente e fraco por isso.
Um misto de sensações o invadia, enquanto Uriel o queimava com a barra de ferro quase escaldante. O protetor tão dedicado queria Sam e Dean por perto, mas também queria vê-los bem. Castiel gostaria de poder ficar e de compartilhar com os que considerava sua verdadeira família uma vida inteira de aprendizagem e de diversão; no entanto, a alarmante notícia de que Gimmi era peça chave no desenrolar dos planos o abalara demais. Agora a culpa por condenar a existência de seu receptáculo o preenchia e servia para aumentar tamanha confusão.
Mas, por obra do destino, o socorro veio depressa. Os Winchester's apareceram à porta do cômodo. Observaram, de maneira rápida, os dois anjos que se deleitavam com a expressão desesperada do amigo. Azrael, que agora os acompanhava, iniciou uma luta contra os dois seres angelicais, enquanto os irmãos auxiliavam Cass a ficar de pé.
– Acha que consegue caminhar? – perguntou o loiro.
– Acho que sim.
– Então venha – o braço de Dean passou pelas costas do anjo, a fim de lhe dar o apoio necessário para andar.
(...).
Não demorou muito para que Azrael começasse a acompanhá-los na longa caminhada que teriam. Mas o anjo decidiu, então, voar ao cômodo onde Samael se encontrava, e levou consigo os Winchester's e o irmão ferido. Assim que lá chegaram, deitaram o ser celeste no sofá. Viraram-se e vislumbraram o rebelde, que os esperava com um olhar atento.
– Rafael conseguiu fugir – comentou, após bufar de raiva. – Eu ia matar aquele cretino! Preciso ir...
– Peraí – gritou Dean. – Você nos deve explicações.
– Meu irmão tem razão – disse Sam. – Eu prendi você...
– Olhem garotos, não me importo de lhes contar tudinho mais tarde. Mas acho que devemos prestar socorro ao anjinho ali – Samael apontou para Cass, que estava inconsciente.
Os Winchester's o carregaram até o Impala – Lúcifer indicou a Dean onde escondera o carro. Isso, de certa forma, deixava o loiro um pouco confiante no rebelde, não que o quisesse como companhia durante aquela viagem de retorno à casa de Bobby. Com a inteligência e a habilidade mental que o caracterizava, Samael sentiu que não seria bem-vindo no veículo e resolveu ir de outra maneira: voando, o que permitiu a Azrael acompanhá-lo no vôo.
– Ei, Dean – balbuciou Castiel. O Winchester mais velho começaria a dirigir o Impala, mas passou o volante para o irmão. Pulou para o banco de trás, mas não sentou. Achou um modo de permanecer agachado próximo ao seu protetor, para que não o tirasse de onde estava.
– Vai ficar tudo bem, confie em mim.
– Eu confio. Só lamento, me desculpe por isso... – o caçador não entendia por que, mas o anjo chorava muito. Ele não sabia definir, era como se captasse toda a dor que os olhos de Cass emanavam. – Eu sinto muito por não ser o que vocês gostariam...
– Ei, pare com isso, por favor. Você é nosso amigo e nós vamos cuidar desses machucados, está bem?
O ser celeste não proferiu uma palavra sequer. Apenas apertou a mão do protegido e tornou a semicerrar os olhos.
– Disseram algo a ele por lá – disse Dean, após sentar no banco ao lado de Sam.
– Como sabe disso?
– A expressão dele é de desespero... De que o torturaram psicologicamente... Disso eu entendo, Sammy.
– Está bem cara, saquei onde você quer chegar. Vamos ir até o Bobby. Lá falaremos com maior calma.
– Então dirija mais rápido – o mais novo atendeu ao pedido do irmão. O negro Chevy Impala 1967 cruzava as ruas em uma velocidade espantosa naquele início de manhã no Kansas.
