Tão bom morrer de amor e continuar vivendo. Mário Quintana
Capítulo oito – Entrega
Há uma semana, Ino tivera alta. E, desde então, eu passava boa parte da tarde em sua casa ou na floricultura, ajudando-a com as flores e tentando adquirir algum conhecimento estético acerca do assunto. Sim, eu sabia quais plantas serviam como medicamento ou veneno, mas quanto a buquês e vasos decorativos, meu entendimento era bastante amador e limitado. Como tinha tempo de sobra e bastante interesse em aprender, não me queixava de ter Ino como professora – não muito. Afinal de contas, eu era uma menina com nome de flor e isso sempre alimentara minha curiosidade sobre o assunto.
Enquanto Ino tentava me ensinar como manusear corretamente o caule espinhoso – ou espinífero, como ela fez questão de acrescentar - de uma rosa, conversámos sobre o assunto favorito de garotas – depois de sapatos, é claro -: garotos.
- Ele voltou a procurar você? - Pergunto, cautelosamente.
Ino dá de ombros, suspirando um pouco, antes de responder. Repousa a flor no balcão e remexe no bolso da calça jeans, tirando seu celular e me mostrando a tela inicial. Com 15 chamadas não atendidas de Shikamaru. Nas duas últimas horas.
- Nossa – eu digo, bastante impressionada com a insistência dele. – E você não atendeu nenhuma?
- Claro que não! – Ino responde alto, como se minha pergunta fosse absurda. – Se ele quiser colocar as mãos nesse corpinho – e ela desliza as mãos pela lateral de seu corpo, como se dissesse "TUDO ISSO!" -, terá que se esforçar bem mais.
- Isso quer dizer que você já cogitou a ideia de perdoá-lo? – Pergunto, sem conseguir evitar o sorriso travesso em meus lábios.
Ino engole em seco, parecendo realmente indignada com a minha acusação. Depois recupera a pose, resmungando de modo superior e voltando sua atenção para a rosa vermelha.
- Eu nunca falei isso! – Ela responde.
Mas nós duas sabemos que foi exatamente isso que ela quis dizer.
Quando chego em casa, cheia de sacolas de compras, demoro três minutos inteiros para perceber que Sasuke-kun não está. Isso me incomoda um pouco, uma vez que não me lembro de ele ter comentado se fora designado para alguma tarefa ou missão. Finalmente relaxo, dando de ombros. Ele sabe se cuidar.
Começo a preparar o jantar ignorando a ausência dele. Algo me diz que é temporária, então faço comida o suficiente para duas pessoas. Se ele, de fato, não voltar hoje, ainda posso congelar o que sobrar e tudo ficará bem.
Largo a colher na panela. E suspiro, pensando em quem estou tentando enganar. Nada está bem e é melhor parar de mentir para mim mesma.
Desde aquele dia no hospital, quando presenciamos a briga de Ino e Shikamaru, e depois visitamos Naruto, que Sasuke-kun está estranho. Mais frio, taciturno e distante que o normal. E isso me deixa desconfortável e preocupada.
Será que ele enjoou de mim? Eu deveria começar a procurar um apartamento para alugar? Odeio admitir para mim mesma, mas eu estava adorando a experiência de viver com ele. Quase como se fossemos um casal recém-casado. Seria difícil ir embora agora, depois que me acostumara com a presença constante dele. Mas se fosse necessário, eu o faria.
Estava mesmo na hora de reaprender a viver.
Dessa vez, sozinha.
Sasuke-kun não chegou a tempo do jantar. Eu já havia desligado as luzes e estava tentando dormir há cerca de uma hora, quando o ouvi abrir a porta do quarto. Não me movi um centímetro e apertei os olhos com força, desejando, sem saber o porquê, que ele achasse que eu já estava dormindo. Ele não diz nada, então acredito que obtive êxito.
Ouço o barulho da água do chuveiro e finalmente relaxo os músculos do meu corpo, suspirando baixo. Sei que tenho uns 10 minutos para pensar sobre minha próxima ação, antes de Sasuke-kun sair do banheiro e se deitar.
Algo mudou e isso é fato. Não há motivo para questionar essa mudança, mas sim o que pode tê-la ocasionado. Repasso, mentalmente, a última semana, procurando por qualquer erro, qualquer indício que pudesse explicar as atitudes atuais de Sasuke-kun. Não encontro nada.
É quando me recordo de uma conversa que tive com Ino, há uns dois dias. Estávamos falando sobre garotos - naturalmente - e ela me perguntara o quanto minha relação com Sasuke-kun havia evoluído. Fui pega de surpresa e demorei um bom tempo para entender o significado das palavras de Ino. Quando isso aconteceu, corei furiosamente.
Ela estava perguntando sobre sexo, como era de se imaginar. Lembro que Ino ficou um pouco chocada quando eu revelara que tal coisa nunca acontecera, depois de quase dois meses "juntos". Mas ela logo revirou os olhos, murmurando "Tão romântica! Como se eu pudesse esperar por outra resposta...".
Fico encabulada de dizer, mas este mérito não é meu – ou, pelo menos, não somente meu. A verdade é que, embora nos beijássemos até ficarmos com os lábios doloridos e os pulmões completamente sem ar, Sasuke-kun nunca tentou ir além. Nunca. E não vou fingir que eu o teria parado, caso ele o tivesse feito. Céus! Eu amo esse homem! Jamais o teria rejeitado! Nem em um milhão de anos!
O que me leva a seguinte conclusão: há algo de errado em mim. Deve... Tem de haver. Quem sabe eu não sou atraente o suficiente. Ou talvez... ele simplesmente não me deseje.
Sim, ele insinuara que o motivo para não me levar para cama era justamente o fato de se importar comigo. Mas e se ele tivesse mentido? Ou, menos dramático, e se essa fosse apenas uma meia verdade? Ele se importa comigo, mas essa seria uma razão forte o suficiente? A verdade é que eu não sei.
E não estou disposta a esperar para descobrir.
No dia seguinte, após mandar uma mensagem de emergência para Ino, encontrávamos no quarto dela, olhando seriamente uma para outra. Como se estivéssemos decidindo sobre a vida ou morte de alguém.
- Deixe-me ver se eu entendi – Ela começa, e percebo que está se esforçando muito para manter a seriedade. – Você quer seduzir Uchiha Sasuke?
Ino não aguenta mais. Explode em gargalhadas. Viro a cara, sentindo-me humilhada o suficiente por um dia.
Minha melhor amiga de uma figa precisa de cinco minutos inteiros para se recuperar. Mas quando acho que ela finalmente vai abrir a boca para dizer algo útil, Ino começa a rir novamente. Não suporto mais e jogo um bichinho de pelúcia bem na cara dela.
- Eu odeio você!
Ino, agora com a cara vermelha – e fico satisfeita de dizer que não só por ter rido de mim, mas por ter levado meu golpe -, revira os olhos e pede desculpas.
- É que isso não faz o seu tipo – Ela tenta justificar, gesticulando com a mão. – Eu sempre pensei que fosse mais seu estilo preparar um quarto com flores e velas...
Bom, isso é verdade, penso. Mas não é como se estivesse nesse tipo de relacionamento com Sasuke-kun. Não somos namorados ou qualquer coisa do tipo. Sim, nosso envolvimento vai além de algo somente físico, mas também não posso afirmar que exista, de alguma forma, um romance e sentimentos recíprocos.
Pela maneira como ele me toca e me beija, sinto que se preocupa e se importa comigo. Mas eu nunca tive a pretensão de confundir isso com amor. Porque simplesmente não o é.
O suspiro de Ino me desperta dos devaneios.
- Bom, posso lhe dar umas dicas – Ela diz, dando de ombros. – Mas se você realmente quer um conselho, escute.
A expressão dela suaviza, seu rosto adquirindo um semblante doce e gentil. Algo bem raro para uma menina como Ino.
- Não faça isso apenas para agradá-lo – Ino aconselha, sorrindo. – Lembre-se dos seus sentimentos e das suas próprias necessidades. Pense, e decida se é realmente isso que você quer.
Meus ouvidos pulsam e eu entendo o peso e a significância de suas palavras.
- Porque uma vez que está feito, você não pode voltar atrás.
Eu estava sentada na mesma posição havia muito tempo, e o indicativo disto era que já havia escurecido lá fora. O quarto estava um breu, mas eu não tinha a intenção de me mover um centímetro sequer. Não havia motivo para ligar a luz, afinal.
As palavras de Ino ainda ressoavam em minha mente, o peso delas tão significativo quanto quando as proferira – horas atrás. Mas eu refletira o suficiente e havia me decidido.
Meus sentimentos pelo Sasuke-kun jamais mudariam. Nada seria capaz de fazê-lo. Isso é um fato imutável, portanto, não há motivo para perder tempo tentando contestá-lo. E se eu tenho de ser sincera comigo mesma, confesso que consigo lidar, verdade que não sem muito esforço, com a possibilidade de Sasuke-kun jamais me amar ou se apaixonar por mim.
Se o que eu sinto por ele não mudará e se estou conformada com a hipótese de nunca ter meus sentimentos retribuídos, não vejo motivo plausível para não me entregar, de corpo e alma, para o homem que amo – e que sempre amarei. Sem falar que há outro fator me influenciado também.
Meu coração dói e lateja só de pensar nisso, mas tenho de reconhecer e denominar o medo que estou sentindo. Sinto que Sasuke-kun está se distanciando mais e mais de mim. E algo me leva a acreditar que não há nada que eu possa fazer para impedir. O que não me impede de tentar.
Ou de ter meu prêmio de consolação: a lembrança de uma noite com ele.
Eu nunca poderia pôr em prática as dicas que Ino me forneceu. A verdade é que somos mulheres diferentes. Ela, confiante, decidida e prática. Em comparação, sou insegura e indecisa, e com certeza mais tímida. Tive de fazer as coisas do meu próprio jeito.
Vesti uma camisola curta e a lingerie menos infantil que possuo. Depois disso, apenas dobrei os joelhos e me sentei na cama. Esperando. Criando mais coragem. Refletindo. Esperando que tudo desse certo.
Quando Sasuke-kun finalmente entra no quarto, preciso secar as mãos suadas no lençol. E viro o rosto, trêmulo, para fitá-lo com meus olhos. Espero.
De alguma maneira, o encontro de nossos olhos explica tudo surpreendentemente bem. De uma forma que minhas palavras hesitantes jamais teria feito. Eficaz e simplesmente, o silêncio de nosso olhar diz tudo.
Ele se aproxima, ajoelhando-se de frente para mim. Nós ficamos nos observando e estudando por bastante tempo, sem dizer nada. Pela primeira vez, o silencio é confortável e não ensurdecedor.
Como se tivéssemos ensaiado inúmeras vezes, nossos rostos se aproximam ao mesmo tempo. Mas demoramos a fechar os olhos, mesmo quando os lábios se encontraram. Não queremos perder um detalhe sequer deste momento.
E é quando eu finalmente entendo: Sasuke-kun poderia ter se apaixonado perdidamente por mim. Nós poderíamos ter sido imensamente felizes.
Se, ao menos, o mundo ninja fosse mais justo e menos cruel...
Meus sentimentos poderiam ter sido retribuídos.
Notas da autora: Demorei um pouquinho mais que o habitual para atualizar, né? Peço desculpas! Mas juro que tem uma explicação. Eu estou fazendo aula de legislação à tarde, e isso tem me estressado e cansado o suficiente para tirar minha disposição para escrever. (e para viver também, diga-se de passagem u.u MUITO CHATA ESSA AULA, VALEI-ME).
Vamos fazer um acordo provisório? Prometo que vou me esforçar ao máximo para atualizar toda sexta-feira! ;) Contando a partir da semana que vem, certo?
Então, gente! Muito obrigada pelos comentários! *-* De verdade!
Espero que gostem desse capítulo! Hihihi Sendo ou não o caso, comentem. Elogiando ou criticando mesmo hahaha
Beijocas! x*
