Os alunos do Kennedy High já estavam se preparando para a primeira aula do dia. Mark checava o horário em frente a seu armário. Pegou dois livros, um de literatura e outro de partituras e andou pelo corredor até onde seus colegas estavam conversando.
- Cara, perdeu. – Rony foi o primeiro a falar ao ver Mark se aproximando.
- Perdi o que? – O moreno alto perguntou sem entender.
- Ontem, na casa do Nick! – Rony continuava empolgado. – Ele tem uma TV gigante na sala, é demais jogar Guitar Hero lá! – mas Mark apenas revirou os olhos e jogou os cabelos pra trás.
- Por que não foi, cara? Te falei pra ir. – James disse menos empolgado que o colega, mas ainda bem humorado.
- Eu disse que não iria. – Mark respondeu colocando a mão livre dos livros no bolso.
- Eu disse pra ligar pro seu pai...
- Cara, eu não quis. – Mark disse interrompendo o amigo e depois se dando conta de que estava sendo arrogante de novo. – Olha, eu estou andando na linha com meu coroa pra poder me livrar desse castigo logo... Depois a gente pode sair de boa... – concluiu mais polido.
- Certo, mas que estava mega divertido, isso estava! – Rony insistia. Mark chegou a pensar que ele não tinha ido pra casa do Nick, mas sim pra um clube de strippers.
- Vamos pra aula. – Mark disse ao ver o professor vindo pelo corredor.
Ele preparava-se para entrar na sala, mas assim que Rony se afastou, James puxou o amigo pra um canto um pouco afastado da porta da sala. Mark o acompanhou sem entender. Olhou para o amigo como se esperasse por uma explicação.
- Seu aniversário é amanhã. – James disse quase rindo.
- Me chamou no canto quando professor já está na sala pra me dizer uma coisa que eu sei há dezesseis anos? – Mark não conteve a ironia. – Ou já seria dezessete?
- Não, cala a boca e escuta. – James riu encabulado por se dar conta que havia dito o óbvio. – Vamos fazer uma festa.
- Ok, vamos. – Mark estava achando aquela conversa completamente normal.
- Mas não na sua casa.
- E onde você quer fazer?
- Na casa do Nick.
- SEM. CHANCE. – Mark retrucou categórico.
- Cara, a casa dele é o máximo, é enorme e tenho certeza que ele toparia.
- Velho, eu nem gosto do cara! Não faz sentido! – Mark mal acreditava no que ouvia.
- Mano, você definitivamente deveria dar uma chance! – James agora falava de uma maneira um pouco mais severa. – O cara não fez nada de errado, muito menos pra você.
- Que deu em você? Por que está defendendo aquele playboy?
- Mark, sério. Você tá sendo injusto pra caralho. – James dizia agora mais calmo e o moreno alto à sua frente apenas bufou e passou as mãos pelos cabelos. Era o que ele fazia quando estava encurralado. – Ele foi legal com você ontem...
- O que? – Mark franziu o cenho sem entender.
- Steve perguntou se seu pai era gay. – James falou mais baixo e viu Mark levantar o queixo enfurecido. – E Nick negou... – James fez uma pausa. – Disse que você tinha problemas o suficiente e que a escola toda não precisava saber desse detalhe...
Mark baixou os olhos e encostou-se na parede ao seu lado. Ele não sabia bem o que dizer e justo agora que ele precisava desesperadamente se afastar do loiro, ele parecia fazer de tudo pra se aproximar ainda mais.
- Só estou dizendo... – James continuou diante do silêncio do outro. – Você deveria reconsiderar... Apenas diga que... vai pensar a respeito.
- James...
- O cara mentiu pro melhor amigo dele no time. – James frisou ao ver Mark titubear.
- Ok. – O moreno alto o interrompeu. Conhecia James e sabia que ele não desistiria. – Vou... dar uma trégua.
James bateu no ombro de Mark e, apesar de não ser algo grande já era alguma coisa, especialmente se tratando de Mark, que era teimoso e temperamental.
- Vamos pra aula. – James disse mais satisfeito e os dois andaram poucos passos para a sala de aula.
x.x.x.x
Jensen perdeu a conta de quantos pacientes atendeu naquele hospital desde que chegou lá. Dormiu bem, mas dormiu pouco. Ainda estava cansado e era quase hora do almoço.
Ele foi pro seu consultório e sentou-se em uma das poltronas que seriam para seus pacientes. Pela terceira vez desde que chegou ao hospital, puxou do bolso o cartão de Jared imaginando qual seria a melhor hora para ligar.
Na verdade ele estava um pouco sem graça.
Pegou seu celular e finalmente teve coragem de discar o número do celular do músico. Dois ou três toques e Jared atendeu.
- Alô?
- Ei, Jared... é o Jensen. – Ele sorria e nem tinha se dado conta. Parecia um adolescente.
- Doutor? Como vai? – Pelo tom da voz do moreno, Jensen percebeu que ele ficou feliz e surpreso por ter ligado.
- Está ocupado? Eu sei que é um pouco deselegante ligar na hora do almoço, mas estou no hospital e foi o único horário que eu tive uma folga...
- Imagine! – Jared respondeu simpático. – Não tem absolutamente nenhum problema. Mark só vem à tarde então eu não tenho horário pra almoçar direito, ainda não terminei o que estou preparando...
- Ah que ótimo, pelo menos não estou tirando a sua paz na hora de comer...
- De maneira nenhuma.
Jensen ficou em silêncio por alguns segundos, apenas ouvindo Jared rir e até alguns sons de talheres e panelas. Bem ao fundo, ele pode perceber que tinha algum som ligado tocando uma música conhecida. Jensen poderia não estar ouvindo direito, mas Hey Jude era iconfundível.
- Jensen? – Jared estranhou o silêncio. Parecia que Ackles fazia muito aquilo, talvez 'esquecia' que estava no telefone.
- Sim, estou aqui, desculpe! – Jensen passou uma das mãos pelo rosto como se tentasse voltar pra realidade.
- Você está bem? – Jared tinha um leve tom de preocupação.
- Estou, claro. Só me distraí um pouco com... – Ele parou quando se deu conta que diria 'com você rindo'. – Sono sabe...
- Claro! – Jared disse mais aliviado.
- Então, ahn... Tudo certo pra amanhã?
- Claro. – Jared respondeu animado. – É aniversário do Mark, então almoçaremos juntos e depois... posso sair com você. – Padalecki achou que aquilo saiu com mais malícia do que ele gostaria, mas sentiu que se acrescentasse algo mais, só ia piorar.
- Ah é? – Jensen respondeu surpreso. – Olha se quiser ficar com ele, eu vou entender e...
- Não! – Jared respondeu rápido demais, mas agora já era igualmente tarde demais. – Quer dizer, Mark vai sair com os amigos, acho que vão fazer uma festa, eles fazem todo ano... Sabe como são adolescentes né...
- É, realmente... – Jensen teve que concordar, também tinha um em casa.
- Provavelmente Nick vá também...
- Engraçado que eles estão sempre juntos, mas não parecem que se gostam muito...
- Ah doutor... Você não deve ter esquecido como é ser adolescente, não é? A gente não sabe muito bem do que gosta... – E nisso Jared era perito.
- Tem razão... – Jensen suspirou. Jared era tão... simples de lidar. – Passo aí às oito horas, pode ser?
- Combinado. – Jared comemorou internamente sem saber por que.
Eles se despediram rapidamente e Jensen logo foi chamado para atender um paciente. Jared, em sua casa, notou que havia acabado de queimar a comida e, na realidade, achou graça.
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Mark tentou esbarrar ao acaso com Nick a manhã toda. Nem sob tortura ele iria espontaneamente falar com ele. Mas parecia que o garoto estava tentando evitá-lo mesmo. Bom, não foi exatamente isso que Mark pediu que ele fizesse?
Durante a todas as aulas de manhã, Nick pareceu realmente prestar atenção. Todas as vezes que Mark olhava pra ele, ele não olhava de volta. Aquilo estava começando a deixá-lo... triste? Mas foi ele quem pediu pra que o garoto se afastasse então, a princípio, Nicholas só estava fazendo o que lhe fora pedido.
Quando todos saíram na direção do refeitório para o almoço, Mark aproveitou para ir até a biblioteca pegar outro livro de músicas que estava estudando. Era o único lugar em que ele achava as coisas que precisava pra estudar o que gostava.
Distraiu-se por alguns segundos e uma menina morena aproximou-se dele com o uniforme de líder de torcida.
- Oi. – Ela disse sorrindo de um jeito convidativo.
Mark não respondeu. Suspirou, revirou os olhos e concentrou-se de volta na busca de seu livro. Talvez ela fosse embora.
- Não pode me ignorar pra sempre.
- Ah é? – Ele respondeu indiferente. – Fique olhando então.
Ele deu alguns passos pra mais longe dela, andando ao redor das grandes estantes de livros, mas ela o seguiu.
- Mark, eu só queria...
- Claire, sai da minha frente. – falou da maneira mais educada que conseguia.
- Mas eu...
- Por que ficou com Nick? – Ele perguntou, mas na verdade nem queria saber a resposta. – E ainda por cima um dia antes que eu? Cara, sério... Sai da minha frente...
- Você brigou por minha causa! – Ela insistiu, segurando no braço dele.
Ele abaixou-se até ficar com o rosto na altura do dela. Chegou bem perto e a encarou nos olhos de um jeito quase felino. Passou a língua pelos lábios e mordeu o lábio inferior como se a provocasse. Ela já estava sorrindo, esperando apenas a iniciativa dele.
- Não foi exatamente por você. – Ele sussurrou e soltou-se bruscamente das mãos dela.
Achou o livro que queria e simplesmente a deixou ali em meio àquelas estantes, perdida em pensamentos, confundindo a garota ainda mais.
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Nick ria com alguma coisa que Steve, Carl, James, Ron e mais alguns colegas do time conversavam no refeitório no pequeno intervalo que sobrava após o almoço. Tá certo que ele procurou Mark com os olhos pra ver se o garoto não tinha se isolado deles ao ver que todos estavam com Nick.
Mas não, nada. E não era exatamente difícil achar um cara de 1.80m no meio de um bando de adolescentes.
O que ele encontrou na verdade, foi uma menina morena com uniforme de líder de torcida ao lado dele e vários olhares de seus colegas.
- Podemos conversar? – Ela disse doce.
- Claro. – Ele respondeu de má vontade. O fez por educação já que seus amigos estavam olhando.
Ele levantou da mesa e deu alguns passos com ela pra ficarem um pouco afastados dos outros.
Na entrada do refeitório, um Mark Padalecki de repente havia perdido a fome. Ele largou a badeja com seu almoço num lugar que sequer prestou atenção e andou – ou melhor, marchou! – até onde Nick conversava com Claire. Seu olhar dizia claramente que ele tinha um objetivo e não tinha parado pra pensar muito bem no que estava fazendo.
Aquele garoto sabia ser imponente naturalmente quando queria. Ele tinha o cenho franzido e posicionou-se ao lado de Nick que apenas suspirou achando que era mais uma confusão que se aproximava.
- Podemos conversar? – Mark disse para Nick, que ficou totalmente surpreso.
- Claro, em um minuto. – Nick respondeu extremamente inseguro.
- Não. Agora. – Mark insistiu e olhou Claire em seguida. Não disse nada, era como se ela já soubesse o que fazer.
A garota bufou e saiu de perto dos dois. Nick olhou para Mark desconfiado, pronto pra se explicar. Achou que Mark talvez gostasse da garota e novamente não gostou de vê-la falando com ele.
- Cara, ela veio...
- Eu sei. – Mark interrompeu o outro. – Ela tentou comigo também.
- Como sabe que a rejeitei? – Nick perguntou curioso.
- Porque é óbvio. – Mark respondeu olhando nos olhos do loiro.
- Óbvio como? – Nick sustentou o olhar.
- Porque ela não é seu tipo.
- E qual é meu tipo? – Era praticamente um desafio.
Padalecki segurou a língua. Engoliu a seco e, de repente, era como se Nick soubesse de tudo, era como se ele realmente esperasse por aquela resposta. Ele percebeu e agora Padalecki tinha certeza absoluta.
- Olha, cara.. – Mark quebrou o breve silêncio. – O que aconteceu no vestiário... – Ele sentia-se perturbado só de pensar naquilo e, pelo olhar de Nick, ele podia jurar que o garoto estava gostando de relembrar também. – Foi um imprevisto... Eu estava olhando outra coisa...
- Olhando outra coisa? – Nick repetiu com ênfase, incrédulo. – Não havia nada mais lá além de eu e você.
- Não comece. – Mark disse, chegando mais perto do outro e falando num sussurro. – Não aqui. – Ele olhou ao redor, mas ninguém além de seus amigos estava olhando de longe pra eles.
- Não estou fazendo nada. – Nick respondeu no mesmo tom. – Foi você quem entrou no assunto.
- Eu só vim... – Mark respirou fundo e, por um segundo tinha esquecido o que queria falar com ele. – James me contou o que você disse na sua casa... Ou melhor, o que não disse.
- Tudo bem cara. Ninguém tem que falar nada, não é da conta deles. – Nick respondeu seguro procurando os olhos do outro que pareciam fugir freneticamente dele.
- Valeu. – Era realmente difícil fazer aquilo.
- Você ainda não me respondeu. – Nick retomou o assunto.
- O que?
- Qual é meu tipo.
Mark ficou em silêncio por alguns segundos tentando armazenar aquela pergunta. Era quase inacreditável aquela provocação.
- Eu sou seu tipo? – Nick falou de um jeito que, se não tivessem tantas pessoas ao redor, provavelmente Mark ficaria tão excitado quanto no vestiário.
- Eu vou te matar. – Mark disse dando um empurrão de leve nos ombros de Nick e, antes que uma briga se iniciasse, James e Steve apareceram ao lado dos dois.
Nick não retrucou, na realidade já tinha a resposta que queria. A fúria de Mark era clara demais pra saber do que aquilo se tratava. James arrastava Mark para fora do refeitório enquanto Steve pedia explicações ao amigo.
Depois de passarem pela porta, James soltou o braço de Mark e o moreno alto encostou-se na parede fria. Fechou os olhos e tentava controlar a raiva.
- Que porra tem de errado com você? – James perguntou furioso.
- Não foi minha...
- Mas é claro que foi sua culpa! – James interrompeu Mark em sua tentativa frustrada de se explicar. – Você empurrou Nick.
- Mas foi porque... – Mark engoliu a seco. E ele ia dizer o que mesmo? Que Nick insinuou que ele era o tipo de Mark?
- Ele o que? – James cruzou os braços, esperando.
- Ok, minha culpa. – Mark preferiu assumir mesmo a culpa. Iria se incomodar menos.
- Cara, vocês vão parar com isso, pode escrever. – James disse firme e deixou Mark sozinho, voltou pro refeitório abrindo a porta com um soco.
Foi a vez de Mark dar um soco na parede atrás de si. O que estava acontecendo com ele? Odiava não ter o controle das coisas, muito menos de perder o controle sobre si mesmo. Não adiantava mais lutar contra, na realidade ele só estava piorando as coisas e afastando seus amigos. E o pior é que ele não tinha nem com quem falar a respeito, pois não conseguia confiar nas pessoas.
Ele não voltou pro refeitório. Teria treino depois do almoço e aproveitou pra ir até o vestiário se arrumar. Preferia fazer isso sozinho sempre, poderia depois simplesmente correr, fazer algum exercício, sempre ajudava a passar o estresse.
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- Claro que não tem problema, mas eu duvido que ele tope. – Nick dizia a James enquanto saíam do refeitório e andavam até os vestiários.
- Ah ele vai topar sim, pode ter certeza. – James dizia convicto. – Mas tudo se quiser falar com seu pai antes, sei que tem todo lance do castigo envolvido...
- Bom, vou estar em casa de qualquer forma... – Nick riu da ironia e seus colegas o acompanharam.
- Valeu cara. – James bateu no ombro do colega que passou a andar mais na frente dele. – Ei, Steve...
- Que foi? – O colega de time se aproximou de James ou ouvir seu nome.
- Eu tenho uma ideia e vou precisar da sua ajuda. – James disse sorrindo e Steve assentiu com a cabeça.
Todos eles haviam chegado ao vestiário pra se trocarem e viram Mark correndo em torno do campo. Nick deixou sua mochila em cima do banco central do vestiário enquanto abria seu armário como seus colegas faziam.
De longe, ele viu James falar alguma coisa com Mark, um pouco enfezado, e então viu o moreno alto entrar no vestiário e vindo em sua direção. Ele sempre ficava confuso quando isso acontecia, não sabia bem se vinha coisa boa ou mais um início de discussão.
- Ei. – Mark disse, olhou de um jeito não muito simpático para os vários alunos que passaram a prestar atenção. Eles pareceram entender que era para deixá-los conversar em paz e se afastaram.
Nick não respondeu. Apenas levantou-se do banco e esperou que Mark falasse. Ele sabia que tinha passado um pouco do limite no refeitório.
- Só queria... dizer que tudo bem a festa na sua casa. – Parecia que Mark estava ligado no automático e tinha ensaiado mentalmente antes de falar. – Por mim tudo bem, vai ser legal. – Ele não olhou nos olhos do loiro.
Nick olhou de volta para os alunos que começavam a sair, prontos. Ele estava sem camisa ainda, apenas com as calças do uniforme de treino e as chuteiras. Mark apenas suspirou esperando pra ver se Nick diria alguma coisa.
- Certo. – O loiro começou se aproximado um pouco mais de Mark, olhando nas marcas negras feitas com tinta no rosto de Mark, abaixo dos olhos, que os jogadores faziam como tradição.
- Ok. – Mark estranhou aquele olhar e aquela aproximação e quase se encolheu. – Te vejo em campo. – Ele disse, mas não se moveu.
- É, vá em frente. – Nick disse com um sorriso debochado. Ele aproximou o rosto do ouvido de Mark e disse sussurrando. – Antes que fique de pau duro de novo.
Mark sentiu o sangue tirar racha dentro de suas veias e ele corou de leve. Raiva. Vontade de pegar aquele loiro, jogar contra aqueles armários e... É, ele devia parar mesmo antes que seu corpo o trapaceasse. Ele se aproximou do ouvido de Nick e disse no mesmo tom.
- Ajusta bem esse equipamento... Porque eu vou te matar no jogo. – Mark dizia com os dentes cerrados.
Ele não deu chance de Nick responder, apenas virou as costas e andou pra saída do vestiário enquanto Nick ria. Ele acabou de descobrir que era extremamente divertido "brincar" com a sanidade mental de Padalecki. Antes de chegar a campo, Mark ainda ajustou o equipamento dando um soco em seu próprio peito.
