A ala de criações de uma fábrica de chocolates é tão importante quanto o cérebro de um corpo. Ali, não só são planejados os primeiros pontos das fórmulas que serão utilizadas, como, também, é a ala onde nasce planejamento do que deseja criar, do que as pessoas querem comprar e de qual será a aparência da nova criação.

Charlie utilizou de tais palavras para explicar o quão importante era aquela sala, mas a forma como ele gesticulou deu um agrado a mais aos visitantes.

Willy observou o pupilo explicar, mas a mente vagou por todas as formas que teria para começar a enfiar medo nas crianças e livrar-se logo daquela visita. Inicialmente, o chocolateiro pensou em apresentar o sachê de comida instantânea, mas a ideia era tão absurdamente horripilante, que ele desistiu sem pensar muito. A fórmula dos pacotes estavam tão erradas, que na melhor das hipóteses a comida ficaria gigante extremamente rápido e jogaria o visitante, que colocasse a água, em alguma parede da fábrica.

Eh, ele não podia arriscar um processo. Mesmo que o termo de auto responsabilidade ficasse fixo na parede de entrada da fábrica, aquela fórmula era aterrorizante até mesmo para Willy, que provavelmente ficaria se culpando pelo resto da vida.

Wonka não sabia porque ainda insistia em criar alguma fórmula mágica para que os adultos carregassem uma refeição inteira e saudável em suas bolsas e carteiras. As criações sempre davam errado e o chiclete que Violet experimentou era apenas o começo dos problemas. Quando o chocolateiro abdicou do chiclete, pensou em criar algo mais simples e direto.

Em sua cabeça, um simples sachê com um pozinho leve e que bastasse um pouco de água para virar uma bela sopa, era a ideia perfeita. Mas algo não foi bem triturado e o Oompa Loompa que colocou a água fora nocauteado por um pedaço de tomate gigante. Depois, quando a sopa ficou bem triturada – a mistura foi triturada durante um mês para chegar no ponto confiável – e colocar água não se tornou uma catapulta mortífera, Willy pediu para que um Oompa Loompa experimentasse.

O chocolateiro odiava tomates e acreditava que aquela sopa estaria perfeita para o consumo, mas, obviamente, as coisas saíram erradas e o Oompa Loompa estava há três meses internado por culpa de uma intoxicação alimentar que lhe roubou vinte e um quilos de gordura nos dois primeiros dias.

Teve um último teste, mas houve uma falha de trituração e por algum motivo, que nunca descobririam, um pedaço de tomate resolveu inchar dentro do Oompa Loompa que o experimentou. A pequena criatura ficou um bom tempo digerindo o legume.

Tudo bem, a sopa estava fora de cogitação.

– Alguém gosta de refrigerante? - Willy perguntou logo que Charlie parou sua tese sobre a importância daquela sala. Era o caminho mais fácil, não?

Charlie não sentiu calafrios quando escutou Willy revelar-lhe o que estava para aprontar. Pelo contrário, saber que o chocolateiro faria algo tão simples quanto optar pelo mais óbvio, lhe deu um pouco de calma.

Todas as crianças ergueram os bracinhos pequenos, gritando que gostavam de refrigerante e já embutindo a questão de quando iriam tomá-lo. Wonka bateu as mãos e sorriu:

– Ótimo! Venham comigo.

Os pelos de Charlie se arrepiaram no momento em que passou pela porta trancada da sala onde ficava os refrigerantes capazes de fazer alguém voar. Era um dos pontos mais frios da fábrica e, normalmente, quando Willy não começava a agir como sadismo; Willy deixava um casaco pendurado na porta do lugar. Entretanto o tutor parecia ter solicitado a retirada de todos os casacos que poderiam proteger os visitantes do frio. Os visitantes e os donos.

– É uma sala bem fria, senhor Wonka. - Comentou algum adulto.

– É sim. - Willy respondeu. - Sabem por que? Porque o gás fica calminho, caminho. Se eu aquecer esta sala, tudo voará por aqui e por ali. - O chocolateiro sorria enquanto explicava e gesticulava como se fosse o maestro de uma orquestra. - Agora, apenas um de vocês poderá experimentar a Delícia Voadora Wonka.

– Mas precisamos explicar algo antes, não é? - Charlie interrompeu o tutor.

Willy não perdeu o sorriso, mas mudou de sorriso. Algo simples e que passaria despercebido, mas Charlie sabia ler o corpo de Willy e não se intimou com a ira expelida pelo tutor. Iria impedi-lo de fazer alguma bobagem, teria que impedi-lo.

– Claro. Você vai subir e subir. - Os olhos de Willy adquiriram um tom tenebroso. Também havia malicia, como se sentisse prazer pela coisa horrível que anunciaria em seguida. - E se não souber arrotar, só terá duas escapatórias: a janela, que provavelmente está trancada; e o ventilador, que, com certeza, irá te triturar.

– Podemos amarrar uma corda, se quiserem mais segurança - Charlie acrescentou com a tensão escorrendo pelas calças.

– E qual seria a graça? - Willy questionou como se fosse uma criança corajosa. Uma das mãos na cintura e a confiança na voz. - Você só vai descer se arrotar. Perdemos um Oompa Loompa com isto. Pobrezinho...

Ϣ.Ϣ.

Alice Grumplent era uma garotinha extremamente habilidosa com o voo. Willy quase decidiu dar a ela uma quantidade da bebida que dificilmente seria comercializada. Mas, ainda fora só um quase e quando a garota começou a arrotar alucinadamente, o chocolateiro sentiu-se embriagado pela raiva.

O refrigerante era sua maior aposta. Acreditou, realmente, que o medo de ser triturado impedira os visitantes de beber o treco e que os deixariam incomodados demais para prosseguir. Contudo, a senhorita Grumplent estava com os dois pezinhos no chão e era aplaudida pelos visitantes e por Charlie, que fingia uma tranquilidade mágica.

Ele não sabia o que fazer. As criações mais perigosas estavam trancadas em uma sala, tirando o refrigerante e a sopa de tomates, que daria uma dupla perfeita para as funerárias de plantão.

Willy sentiu o corpo tremer. O estômago trancafiou-se em um embrulho desconhecido e as pernas fraquejaram. Ele até mesmo acreditou que estava mais pálido do que o normal, com o pânico que sentiu repentinamente. As narinas se dilataram e a madeira da bengala chiou sob o apertar forte e descomunal do dono.

– O senhor está bem, senhor Wonka? - Katrina questionou ao olhar para o criador daquele mundo mágico.

Ela queria questionar sobre as possibilidades de criação naquela fábrica, mas só conseguiu questionar se o dono e criador dela estava bem. O mais velho parecia irritado e abatido, mas o ponto crucial de sua preocupação fora a forma como Willy Wonka encarava a porta trancada da ala de refrigerantes.

Willy não respondeu. Não se mexeu e parecia não respirar.

– Senhor Charlie – Ela puxou o fraque do herdeiro. - O que houve?

Charlie seguiu o dedo da criança e mordeu o lábio inferior. Definitivamente, Willy Wonka estava com problemas. O herdeiro retornou o olhar para a conhecida de Violet e acariciou a bochecha da pequena.

– Lembre-se uma coisa: quando se ama algo, nada ruim acontece sem que você sinta.

Charlie fez um som estranho com a boca e prontamente a porta se abriu. Um Oompa Loompa surgiu acenando e sorrindo, e Willy encarou o pupilo. Tinha acabado de sair do torpor criado ao sentir que o intruso encontrou a saída do jardim, que quase se esquecera do grupo de visitantes.

– Me traga um copo com água, sim? - Willy pediu brutalmente, impedindo que Charlie pedisse para a criaturinha continuar ou finalizar aquela visita. Estavam em duas pessoas. Willy conseguiu, há muitos anos, sobrevier a uma visita daquelas e era óbvio que aquela outra iria até o fim. - Charlie, se me der licença, vou tomar a dianteira e nos encontramos na próxima sala.

Sem esperar respostas, Willy Wonka passou pela porta e saiu acompanhado do Oompa Loompa. Sem esperar que Charlie questionasse o que, infernos, estava acontecendo e o que deveria fazer!

O herdeiro fechou o punho esquerdo. Com força e encarando a porta que se fechou tranquilamente. Charlie B. Wonka sentiu a raiva inundá-lo com prazer, a pele reclamando a força empregada pelas unhas que se cravavam na palma coberta pelos dedos. Alguns dedos estralaram, junto com a mandíbula trincada.

– Senhor. - Alguém arriscou. Uma voz feminina e suave, tímida e gaguejante. - Não seria melhor encerrarmos por aqui?

Ninguém contestou. Não havia uma criança chiando pela ideia de deixar a fábrica mais cedo. Charlie virou o rosto para os visitantes e fora presenteado pelo receio de manterem-se naquela briga ou confusão que Willy Wonka não conseguia esconder.

– Por favor, me deem um minuto e já retornarei. - Charlie deu uma leve curvada com o corpo e saiu pela porta, ignorando o perigo que era deixar aquelas pessoas sem supervisão e com o refrigerante.

Mas Willy estava tão perto e agindo tão estranhamente, que se não agisse logo, perderia o chocolateiro e as chances de descobrir o que estava acontecendo. Willy sabia que tinha algo de errado com a fábrica, pois somente ela era capaz de baixar a pressão sanguínea do chocolateiro e o deixar tão debilitado como naquele momento. Charlie quase conseguia ver Willy tremendo e não era pelo frio daquela sala.

Ϣ.Ϣ.

–Willy Wonka!

O chocolateiro parou de caminhar. A voz de Charlie expeliu do corpo magro e reverberou pelas paredes do corredor como o estrondo de um trovão.

Willy Wonka girou no próprio eixo e abaixou um pouco o rosto, fixando os olhos sobre o olhar do pupilo. O mais velho era paciente com Charlie e não se recordava de ter tido verdadeiros problemas com a criaturinha que tanto ama, mas um grito, um estrondo como aquele, era algo irritante e ousado.

Estavam no mundo de Willy. No universo em que ele era rei. Ninguém o chamava daquela forma, muito menos quando ele estava correndo para resolver o grave problema da fábrica.

– Willy... - Charlie titubeou. A voz mais fraca e quase gaguejante. Uma das mãos presa no bolso da calça enquanto a outra continuava fechada num punho perfeito para socar alguém.

– Charlie. - Devolveu Willy com a rara seriedade do Willy adulto.

– O que está acontecendo?

– Ah, sim. - Willy endireitou o corpo e encarou os visitantes acuados. - Uma discussão em frente aos convidados?

Charlie olhou para trás, voltou a encarar Willy e logo girou o corpo para o caminho que tinha percorrido. Não tinha pedido que ficassem na sala de refrigerante voadores e perigosos? O pupilo quase se estapeou quando percebeu que os visitantes eram mais inteligentes e espertos do que ele.

Claro, quem ficaria naquela sala? No frio e sob a tentação do refrigerante?

– Você está estragando o dia deles. - Charlie anunciou ao tutor. O cansaço da última hora saindo pela voz.

"E eu com isto?" Charlie sentiu que podia ler os pensamentos do tutor. "Eles já tiveram sorte o bastante de termos dado outra oportunidade para conhecerem meu mundo!" Pupilo e tutor sabiam se ler. Charlie sabia o que Wonka queria que ele escutasse, mas que as regras sociais o impediam de falar.

– E o meu. - Concluiu o herdeiro.

Willy virou as costas. Charlie havia perdido.

Willy Wonka não iria lhe contar e nem mesmo lhe tranquilizar.