"Camus! Onde esteve? E Hyoga, cadê?" Milo ergueu-se de um salto, estivera adormecido na poltrona.
O ruivo resistiu à vontade de jogar-se na cama, pois sabia que, se o fizesse, pegaria no sono e não conseguiria levantar.
"Hyoga está seguro com Afrodite." Diante do olhar inquiridor do grego, apressou-se em completar: "É alguém que quis nos ajudar, Milo. Nos ofereceu hospedagem e consertou meu carro."
"Seu carro?" Rosnou o ruivo, com um ciúme imprevisto na voz. "Achei que tivesse uma moto. Onde arranjou dinheiro para ter uma moto e um carro?"
Camus recostou-se em uma parede do quarto, suspirando. Será que Milo não podia parar de bancar o interrogador?
"Ganhei de um amigo de infância, Eddie Thompson, fez o primário comigo. Vamos, Milo, por favor, eu quero dormir."
O loiro jamais imaginaria que aquele gemido de reclamação típico de Camus ainda faria efeito nele. Parecia uma criança que queria bancar a adulta, mas, invariavelmente, acabava fazendo manha. Diferente da manha de Milo, manha de criança mimada.
Pegou suas poucas tralhas e as de Hyoga e seguiu o outro homem para fora do quarto.
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"Seu tio já deve estar chegando, Hyoga. Por que não come essa sopa que eu fiz para você enquanto isso? Deve estar exausto." Afrodite colocou um prato fumegante cheio de sopa na frente de Hyoga com um sorriso doce.
O menino sorriu de volta, juntou as mãos rapidamente, fez uma breve prece e pegou a colher.
"Estava rezando?" Perguntou Afrodite em um tom divertido, mexendo nos cabelos loiros da criança.
Hyoga fez que sim com a cabeça, com as bochechas infladas por conta da quantidade de sopa que enfiara em sua boca.
Engoliu.
"Sou grego. Gregos são muito ligados a Deus e ao Nosso Senhor Jesus Cristo, sempre rezamos antes de comer." Afrodite riu.
"Desculpe, rapaz. É que os gregos que eu conheci não eram exatamente modelos de religiosidade."
A campainha soou.
"São eles!" Gritou Hyoga, erguendo-se.
Afrodite segurou seu ombro e empurrou-o para sentar-se novamente.
"Termine de tomar sua sopa, Hyoga. Eu atendo."
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O barulho dos saltos de Afrodite era audível do outro lado da porta, onde Milo bufava por não gostar daquela vizinhança e por estarem perdendo tempo.
Camus apenas ignorou seu mau-humor e sorriu de volta para a pisciana, que acabara de abrir a porta.
"Camus! Que bom que voltou logo, o rapazinho já estava ficando impaciente." Mal terminou a frase, um tropel de passos percorreu o corredor e Hyoga apareceu na porta ao lado do dono da casa.
"Milo! Que bom que você chegou! Vamos embora?" Seus olhos azuis brilhavam com o sorriso naquele rosto infantil.
Milo apenas pode sorrir e abraçar parcialmente Hyoga enquanto entravam na casa.
"Não agora, Hyoga. Precisamos de um pouco de descanso." O menino torceu a cara ao escutar aquilo.
"Hyoga, você terminou de comer para estar fora da mesa?" O homem grego virou-se surpreso para a figura de vestido que cruzava os braços para o menino e falava com ele naquele tom repressor.
"Já." Resmungou, olhando esperançoso para Milo.
Mas, antes que seu padrinho pudesse protestar, Afrodite se manifestou.
"Ótimo! Porque eu tenho uns livros aqui que acho que você vai gostar!" A sueca aproximou-se dele, pegando-o pela mão delicadamente.
Mesmo que estivesse bancando demais a amiguinha do menino, coisa que Milo normalmente não gostaria, Hyoga parecia tão à vontade com ela que era incapaz de zangar-se por Afrodite estar agindo como se fosse sua parente.
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"Quem é essa figura?" Rosnou Milo, entrando no quarto de hóspedes após Camus.
"Feche a porta." A voz veio do banheiro e, só então, Milo reparou na trilha de roupas de Camus que se espalhava pelo chão.
Ainda resmungando, começou a recolher as peças. Parou subitamente, percebeu que estava agindo como se ainda morassem juntos.
"Camus, eu não gosto dessa mulher." O teto do quarto parecia mais interessante de se observar do que a porta do banheiro, deixada aberta pelo ruivo.
"O quê? Não consigo te ouvir por causa da água." Ele saiu finalmente do banho, enxugando os cabelos e completamente nu.
Milo corou furiosamente e enfiou a cara nos travesseiros da cama. Só então reparou que naquele quarto havia apenas uma cama de casal e Hyoga ficaria em outro quarto, um quarto que Afrodite reservava para seus sobrinhos.
"Pare de frescura, Milo." A cama afundou um pouco, Camus havia se sentado. Ou deitado. "Não aja como se você nunca tivesse me visto assim milhões de vezes." Dessa última frase foi sussurrada no pé da orelha do grego, que empurrou Camus sem virar-se para olhar e levantou da cama.
"Você é um devasso incorrigível, Albert Camus!" A risada dele, mesmo baixa, ecoou pelo quarto.
"E você é um santo, não é, Milo Portokalos?"
"Não sou um santo! Mas, pelo menos, eu não sou infantil a ponto de ficar insistindo em não aceitar que acabou! Acabou, Camus! Acabou há sete anos atrás!" Ele virou-se, encarando os olhos castanhos do outro com raiva.
"Você decidiu isso sozinho sem me consultar! Eu já te disse que não tinha nada com Cristal e..."
"Não! Eu peguei vocês se amassando e foi porque ele tinha batido com a boca e você decidiu dar um beijinho para sarar! Mas não foi por isso que terminamos, Camus, você sabe que não foi!"
"Eu sei que não foi! Foi porque você me culpa até hoje pela morte da Athina!" O francês bateu com o punho na parede, irritado.
"Não meta Athina no meio disso! Nós terminamos porque você nunca quis tomar um rumo na vida, Camus! Nunca arranjou um emprego decente, nunca deixou de viver sua adolescência! E eu fiz a faculdade comunitária, eu trabalho como publicitário e vou abrir minha agência! Eu posso não ser rico, posso nunca sair do Bronx, Camus, mas eu saí do útero!"
"Isso são mentiras, Milo! Mentiras que você decidiu contar para você mesmo desde que percebeu que sua mamãe e seu papai não iam aceitar que o filho deles era gay! Gay, Milo! Essa palavra ofende você?! Nós nunca mais fizemos sexo desde que a Athina morreu atropelada, você nunca mais me disse uma palavra de carinho, nem quando eu apareci no enterro dela, mesmo sabendo que sua família me odiava! Você é só um filhinho da mamãe, Milo! Um filhinho da mamãe mimado que eu tive o azar de amar!"
As lágrimas escaparam loucamente pelo rosto de Milo e ele lembrou porque Camus nunca chorava. Lembrou do funeral dos pais dele e do abandono do outro. Escorregou pela parede, sentindo-se miserável.
"Milo, não chora, por favor. Não chora, Milo. Se você chorar eu não consigo ficar com raiva de você. Eu não vou conseguir se você continuar assim..." Camus caiu na cama, escondendo o rosto das mãos.
"Milo, Camus, vocês estão bem?" Através da fina madeira da porta, a voz de Afrodite.
"O que foi, Dite?" A voz do ruivo saiu estrangulada, mas foi melhor do que o rosnado emitido por Milo.
"Ah, eu só queria avisar que Hyoga pegou no sono, não é nada demais não. Espero não estar incomodando."
"De maneira nenhuma, Afrodite. Aliás, eu já agradeci por ter abrigado a gente?"
Ela riu.
"Não precisa agradecer, ter Hyoga aqui é ótimo para mim. Quando tiverem fome, ainda tem sopa na geladeira."
Milo arremedou as palavras dela, baixinho, caricaturando terrivelmente seu rosto. Recebeu um olhar de repreensão de Camus, que se vestia.
"Você precisa aprender a viver condizendo com o que sai pregando por aí. Se acabou, Milo, pare de agir por ciúmes de mim."
"Eu não tenho ciúmes de você!" Virou o rosto na direção da janela, sem se fixar em ponto nenhum. Não conseguia mentir tão descaradamente olhando nos olhos de Camus. "Só não gosto dela, só isso."
Nota da autora:
É meus queridos, penúltimo capítulo de "The Jungle Book".
AA, eu ia esperar pela sua betagem, ia mesmo, mas estou tão ansiosa em prosseguir isso aqui que postei sem betagem nenhuma mesmo.
Opiniões?
Lune, ainda estou esperando pela review quilométrica que você me prometeu para o capítulo anterior :D
Beijocas,
Nii
