Um Estudo em Fanfictions

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aSherlock [BBC Series] one-shot collection

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Capítulo 8 || Lullaby of Birdland

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[Notas iniciais do capítulo]

1. Me curvo, me ajoelho, e imploro perdão, a qualquer alma que passe aqui por acaso, pela demora! Lamento muito, mas estava atolada em trabalhos! Faculdade, Escola de música, trabalho, e mais horas de estágio! Nem acredito que este semestre acabou, e que agora talvez eu possa viver! Já acabou, Jéssica? (ou talvez seja melhor perguntar) Já acabou, semestre?

2. Muito obrigada, infinitamente obrigada, ajoelhada, com os braços abertos e lágrimas de gratidão, aos reviews! Obrigada, Pandora42, e James Martin Cumberbatch do Nyah!, Fatmagul, Nana, Inês de Castro, Yasodhara e Deise do FF. net. Sem vocês, esta paródia maluca de contar Sherlock quase no ritmo temporal de Dr. Who já teria ido pro espaço há séculos! Novamente, perturbarei as digníssimas, elegantes e divosas senhoritas desta "fan-mídia" até que façam contas e deixem de aparecer apenas como "guests", porque senão jamais conseguirei responder seus comentários! :'(

3. Alguma alma bondosa se lembra do que estava lá nas notas iniciais do capítulo 6? Lá estava escrito algo como: "Esta coisa pirada que você está lendo é uma série de one-shots independentes, portanto, não existe nenhum tipo de lógica ou continuação entre um capítulo e outro, a não ser que isto venha anunciado previamente nas notas iniciais."

Bem, a hora de usar esta prerrogativa chegou! Este capítulo é, de fato, uma continuação do anterior. Ou talvez nem tanto, mas tive que dividir porque o resultado seria muito longo e cansativo, e porque minha tentativa de alternar pontos de vista falhou miseravelmente, já que o olhar implacável, felino e devorador do Sherlock acabou me seduzindo. [~sangramento nasal]

3. Esta nota está no capítulo anterior, mas um pouquinho de pesquisa a mais sempre faz bem para polir o cérebro, não é? ;-) Lullaby of Birdland é uma música composta por George Shearing e George David Weiss, sob pseudônimo, em 1952, e cantada por diversos artistas dedicados ao jazz e à música popular, em diversos países. A versão de Sarah Vaughan, diva do jazz, é uma das mais tradicionais e antigas, mas vou repetir aqui o áudio da trilha sonora do anime Sakamichi no Apollon, cantado pela dubladora Aoi Teshima. /gDzi8N3BYMw[ youtu .be / gDzi8N3BYMw ] É óbvio que não tem nada a ver com uma voz masculina, ou com uma versão mais tradicional e antiga da música, mas ela tem uma voz maravilhosa, e eu sugeriria, de coração, que você ouvisse enquanto lê para mergulhar, lenta e calmamente, no climão.

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- Não é nada de mais, John, só uma música para matar a saudade - Molly quase implorava, com a voz doce quase sumindo, à medida que adivinhava a desistência do relutante baterista. - Estamos com saudade de você, nosso amigo. Com saudade de curtir boa música com você... E com saudade da sua voz.

John franziu a testa e, com todo o domínio que sua mente podia exercer sobre o corpo cansado, impediu-se de fazer bico, ou de se encolher, ou de fugir. Compreendia o pedido singelo da pequenina, e também tinha saudades da aura digna de um lar, que seus ouvidos e sua alma captavam com alguns momentos na companhia da banda improvisada no Speedy's. Seu coração dolorido gritava-lhe que aceitasse. Sua mente exausta exigia que, como de costume, procurasse qualquer lugar parecido com uma toca, ou talvez com uma cova, para se esconder, e nunca mais sair. Não que o soldado fosse tímido, longe disso. Ele simplesmente gostava de viver com o máximo possível de discrição, e não tinha o hábito de se expor.

Mas era-lhe impossível recusar um pedido humilde e gentil, feito por sua quase irmã, sua pequena e graciosa amiga, uma jovem que lhe havia dado algumas das lembranças mais preciosas que ele carregava. Alguém que, com a mesma carência que ele sentia, havia feito um pedido carregado com o perfume esperançoso de encanto e sonhos femininos, alguém que tentava aquecê-lo com uma adorável aura de conforto e aceitação, que fazia John lembrar de outras mulheres que foram protagonistas no drama de sua vida: sua avó, e sua irmã, Harry.

No entanto, a primeira estava morta; e qualquer esperança de recuperar a relação com a segunda estava por álcool abaixo.

E, sinceramente, o vazio amargo, deixado por aquelas duas ausências femininas, figurava entre os menores problemas do azarado Watson. Pelo menos naquele momento, em que o o ataque ávido de cinco pares de olhos curiosos desviava, da assustada Molly para o cantor empenhado em esconder o talento.

A derrota, naquela microscópica batalha de vontades, contrariou toda a experiência do ex-militar. Todos os seus amigos, e até mesmo o jovem - e indesejavelmente belo - pianista desconhecido que Greg trouxe, concordaram com o pedido de Molly, e praticamente exigiram ao loiro que cantasse. Os sons que se seguiram à discussão das vozes, ao invés do desconforto, da curiosidade antipática e invasora que assombrava a consciência do músico, foram os instrumentos dos amigos, que preencheram a simplória lanchonete com uma aura deliciosa, quase mágica, que John havia perdido, há muito tempo, a esperança de viver para ouvi-los novamente.

Que bom que a vida gostava tanto de pregar peças nele.

Embora John não tenha percebido, de início, o presente sonoro que lhe estava preparado... Fechou os olhos, na tentativa de se concentrar. Não era um luxo que ele podia desfrutar com frequência: o estado grave dos pacientes na mesa de cirurgia, e o caos no campo de batalha, sempre exigiam seus olhos muito abertos e atentos.

Contudo, a única coisa que ele queria naquele momento era um lugar para fugir. Embora não soubesse de quem, ou do que. Dos olhares curiosos dos companheiros, do rapaz que o devorava com os olhos, sem nem ao menos piscar. Da própria e estranha necessidade de barulho, qualquer barulho, de uma música a um bombardeio, para calar as vozes dos mortos em sua cabeça. Os mortos da guerra, que convidavam o soldado a juntar-se a eles.

Os mortos, cujas vozes mórbidas e cavernosas, se calaram imediatamente após uma sequência de notas suaves, como se a pequena Telecaster amarela, nas mãos de Molly, deixasse de ser uma guitarra idosa à beira da desmontagem espontânea, e se transformasse na harpa celestial de um anjo, cada nota inesperadamente doce e afinada, uma oferta generosa de luzes diminutas e protetoras, oferecendo um caminho suave que John seguiu sem pressa e nem embaraço, com as mãos e com a voz.

Lullaby of birdland

That's what I

Always hear, when you sigh

Never in my wordland

could there ways to reveal

in a phrase, how I feel

A Canção de Ninar do Paraíso dos Pássaros...

Eu sempre a ouço,

Quando você suspira

Minha mente nunca acharia as palavras

Ou as melhores maneiras de revelar

Em uma frase, como eu me sinto

Cada vez mais lenta e intensamente envolvido na aura tranquila, adorável, da música, John deliciou-se em cantar, amparado em completa paz e aconchego. Os olhos fechados intensificavam a sensação de um cobertor macio embalando seu sono, ou do suspiro de um perfume agradável e curativo, levando embora todas as suas desesperanças e pesadelos.

No entanto, além do conforto que ele desfrutava como um músico emocionado, o retraído cantor continuava a ser um soldado desperto, lúcido. Mesmo que seu corpo compacto e forte não estivesse mais maltratado por tensão, e adrenalina de morte, Watson se sentia elétrico, deliciosamente alerta, hipersensível, a cada nova sutil camada de som que se amalgamava ao fluir da saborosa harmonia. Saudade e deleite flutuavam em seu coração, junto com as notas. John se deixou levar, sem prestar atenção na maneira em que sua voz de tenor suave expandia aquela onda de lágrimas doces nos outros músicos, como uma pedra atirada num lago.

And there's a weepy ol' willow

He really knows how to cry

That's how I cry on my pillow

If you should tell me

farewell and goodbye

E há um velho salgueiro,

Ele realmente sabe como chorar

É assim que eu choro no meu travesseiro

Se você deve dizer-me

"Até outro dia", e "adeus"

Um lago que se agitava com o contato de várias ondas, outras pessoas, outras almas. Molly, meiga como sempre, que lhe oferecera, como sons baixos e delicados, que em nada lembravam o estereótipo do timbre de uma guitarra, sussurros de sonhos, que caíam em seus ouvidos como gotas de chuva, oníricas, reconfortantes, quase irreais.

Um som baixo, másculo e envolvente, uma sombra sutil, quase refrescante, de confiança e proteção. A discreta sugestão do sonho de uma casa de família feliz, segura, cheia de música, com um futuro adorável pela frente. O sonho solitário de Greg, e um vislumbre da expressão adorável da personalidade bondosa e passional que fazia dele seu melhor amigo.

Um ritmo persistente, sinuoso, certeiro, bem equilibrado. Era fácil adivinhar que Mike também havia fechado os olhos, para apreciar melhor o fluir quase mágico da música, da mesma forma que o professor de Medicina fechava os olhos, com irônico e deliciado bom humor, para o coração enfermo se equilibrava sobre a linha fina que mantinha sua vida. Qualquer uma daquelas notas, tocadas ou ouvidas, poderia ser a última. E em cada uma delas ele daria tudo de si, cada parte de seu corpo, cada tentativa de qualquer gesto que ele poderia tentar, para fazer mais confortável e agradável, ao menos por pouquíssimo tempo, as vidas dos seus amigos, que nunca o julgavam, e melhor ainda, faziam suas últimas músicas valerem a pena.

Compreensão e conforto entravam pelos ouvidos de John, e enchiam seu corpo. Ondas de sons, águas medicinais, mornas e calmas, que curavam as tensões, dores, nódoas e cicatrizes, no corpo, na mente, na alma. John abriu os olhos para apreciar esta mesma sensação nas faces e movimentos dos amigos. No entanto, não foi o movimento que captou sua atenção, mas um ponto fixo. Ou melhor, dois.

Dois olhos de cor indefinível e foco mais intenso que a mira de um sniper. Os malditamente lindos olhos do desconhecido. Que, com o rosto meio oculto sob as sombras da tampa do piano, e da luz fraca do café, devorava o médico, com a mente fixa, o rosto concentrado e o olhar predador de um leão que prevê o momento perfeito para se atirar sobre uma presa apetitosa.

Um rosto misterioso, uma máscara inesperadamente linda e feroz, que o dissecava com a sugestão maligna de intenções que o soldado não queria descobrir. Num ato que contrariava sua usual e irrefletida coragem, o pequeno baterista sentiu o corpo tomar conta do controle da mente sobre os sentidos, especialmente nos músculos tensos e nos olhos espontaneamente fechados com toda a força.

Tudo que ele havia feito para o desconhecido fora elogiar a maneira estranhamente culta e espontânea com que o rapaz tocava piano, como um músico antigo ou um virtuouse. O que aquele homem estranho queria, e por que não parava de encará-lo, daquela forma tão obscena, nem mesmo para piscar?

John não estava mais no inferno terrestre, na guerra inútil, no deserto que se desfazia em pó, cinzas, sangue e desespero, onde ele e os outros soldados buscavam conforto uns nos outros porque precisavam, de fato, de várias maneiras, confiar as próprias vidas uns aos outros.

Mas aquele olhar obcecado, do qual ele não conseguia escapar nem com os olhos fortemente fechados, o qual não combinava em nada com as notas deliciosamente leves, que seguiam perfeitamente cada nuance de sua voz, parecia, através de toda a estranheza, arrogância e mistério, capaz de admirá-lo, confortá-lo, de alguma maneira misteriosa e totalmente sensual. Mais do que isso, o olhar do jovem desconhecido o seduziu porque parecia, simplesmente, adorá-lo.

E aquela perversão, oculta numa adoração sutil, era perfeitamente capaz de enlouquecer o soldado solitário de desejo.

Quando a música finalmente acabou, as ondas de som e tranquilidade, onde Watson havia se deixado levar em refúgio, se transformaram, no burburinho de vozes, risos, e cheiros de comida e bebida, um caleidoscópio de variações infinitas de cores, intensidades e pesos de vapores, que formavam uma densa redoma de sensações, onde o calor ficava cada vez mais sufocante. Luzes intensas, entre o azul, o verde e o prateado, cortavam a névoa delicada de fumaça e chuva. Alcançavam, mediam, admiravam cada respiração de John e lhe davam ainda mais vontade de fugir, mesmo que ele não soubesse muito bem do que.

Um bom soldado jamais deve fugir da luta. No entanto, se ele ficasse mais um minuto que fosse, sob os vapores intoxicantes daquele encanto sensual, iria sufocar.

O único que percebeu a saída foi Greg, que, porém, aceitou facilmente a mentira do amigo, quando disse que sairia do café, por alguns minutos, para fumar.

O auxílio da bengala nunca foi tão confortável para John. Era bom ter um apoio sólido e frio para se distanciar armadilha, formada na aura de calor sensual, em volta de um felino stalker, aparentemente psicótico e... lindo.

Que o aguardava, serenamente apoiado contra a parede, nos fundos do Speedy's.

Aquele rapaz vestia roupas que lhe ficavam absolutamente largas e desengonçadas, era jovem, tinha menos de trinta anos, e parecia extremamente magro, praticamente doente. Era a própria imagem da inspiração de piedade, ou da definição viva, ambulante, da palavra inofensivo. Mesmo assim, a aparição repentina e silenciosa dele, e principalmente de seus olhos de pedras preciosas, mesclados, de azul, verde e prata, com aquela força e intensidade que destoavam de todo o resto que a aparência sugeria, congelavam o antigo combatente com a sugestão do magnetismo letal do campo de batalha: nunca subestime o adversário pela aparência...

- Obrigado pela música, John. Você canta muito bem.

Até seu nome, tão comum, imperceptível numa multidão, parecia admirável e exótico naquela voz irreal que ele ouviu tão pouco. E por que o desconhecido, com aquela voz deliciosa, tão intensa, inesperada e irresistível quanto seus olhos penetrantes, apareceu do nada para elogiá-lo? Para culminar em alguma ironia, ou numa brincadeira de mau gosto?

... Não, o desconhecido apenas o olhava com aquela atenção estranha porque realmente queria dizer o quanto ficou comovido com a voz do cantor relutante. A situação podia ser até um pouco bizarra, mas a admiração dele era sincera, e tocou o íntimo de John. Antes de se aconchegar em algum lugar deprimente, tranquilo e privado, como seu quarto de hotel, ele deveria agradecer o rapaz pelo elogio sincero.

- Eu é que agradeço, senhor...

- Não precisa me chamar de senhor. - Ele se abaixou, com um sorriso pequeno e malicioso que quase fez John mudar de ideia, até, ato contínuo, segurar a mão queimada do sol do deserto, e beijar delicadamente os calos, como se fossem mais preciosos que um relicário e mais macios que seda finíssima. - Sherlock Holmes. Enchantèe.

E o beijo silencioso daquele homem era ainda mais sedutor que sua música mística e irresistível.

Lullaby of birdland

whisper low

kiss me sweet, and we'll go

flying high in birdland,

high in the sky up above

all because we're in love

A Canção de Ninar do Paraíso dos Pássaros...

Sussurra

Nos seus beijos doces, e vamos

Voando mais alto que o domínio dos Pássaros,

Mais alto que o céu,

Simplesmente porque estamos apaixonados

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[Notas finais do capítulo]

1. Lamento muito, de novo, pela demora, e pelo tamanho absurdamente longo, cansativo e repetitivo do capítulo. Como já disse, o semestre acabou agora e estou descerebrada. Por favor, me perdoe.

2. Peço seu perdão, de novo, por não ter conseguido colocar a música inteira no corpo da fic. Mas se puder, ouça, o que não falta no You Tube são exemplos legais de jazz para relaxar e animar corpo, mente e alma. 3

3. Minha mãe precisará passar por uma cirurgia, com um processo de recuperação longo e delicado. Então, como vou ajudar meu pai a cuidar dela (e cuidar da casa, que isso aqui tá um quiproquó) e do meu trabalho (ainda não achei vagas para "autora de fanfictions" no jornal Amarelinho de empregos), é impossível prometer quaisquer datas ou velocidades na redação dos próximos capítulos. No entanto, isto NÃO significa que esta fic será abandonada.

4. Para quem está com saudade de ouvir a voz diva do Benedict Cumberbatch, já ouviram falar numa radiossérie (essa palavra existe?) da BBC (sim, além da televisão, eles tem canais de rádio) chamada "Cabin Pressure"? No 4shared tem todas as 4 temporadas (25 episódios de aproximadamente meia hora cada) para ouvir online ou baixar. Problemas com o inglês à parte, será uma diversão e tanto. E você também vai jogar o jogo infinito "Carro Amarelo", e se apaixonar pelo co-autor e comediante John Finnemore, que participa da série. Ele é um fofo. :3

5. E para quem não acredita, eu estou com saudade das suas "vozes"... ou palavras digitais. Então, pelo amor de qualquer coisa (como Star Wars, que deve estar te fazendo surtar muito agora) C-O-M-E-N-T-E! (sim, eu implorarei por seus reviews na cara dura até o último dos meus dias). Beijos! :* 3