Capítulo 8: Tristezas
Notas iniciais do capítuloComo prometido...
Quando não estiver especificada, letra normal fica sendo para os pensamentos do Hyoga e em itálico são os pensamentos do Shun.
POV Shun
São quatro horas da tarde de uma quinta-feira, estou sentado na mesa da cozinha do Hyoga, digitando sem parar meu manuscrito, estou fora de controle, minhas ideias vem em minha mente e na mesma hora as escrevo antes que eu esqueça.
Os últimos dias têm sido bastante produtivos pra mim, escrevo quase o tempo todo, já tenho umas duzentas páginas do meu livro prontas.
Miguel está na sala assistindo mais uma reprise de Doraemon enquanto brinca com seus legos. Eu sei por que não paro de ouvir musiquinhas e brinquedos sendo remexidos e atirados pra todo lado.
Hyoga tem trabalhado até tarde a semana inteira, então só o vejo pela manhã bem cedo e por volta das onze da noite, isso porque ele está em clinica cobrindo os plantões de outro médico que teve problemas familiares e teve que se afastar.
Miguel se cansa de ficar na sala e vem pra cozinha atrás de mim ou de algum lanche.
─Quê tá fazenu Shu? – diz apoiando a cabecinha na minha perna na tentativa de ganhar atenção, e está quase conseguindo, basta fazer aquela carinha.
Ele está aprendendo japonês cada vez mais rápido por passar bem mais tempo comigo.
─Tô trabalhando Miguel.
─Tá não, tá só sentadu cutucanu essa tv aí. – diz se emburrando apontando pro meu laptop.
─É assim que eu trabalho menino.
─Pára Shu, vem bincar comigo. – diz puxando meu braço.
─Depois.
─Agora.
─Agora não Miguel.
─Vô dizê po meu papa.
─Diz. Tô nem aí.
─Vamu po paque?
─Depois nós vamos, tá muito cedo.
─Mas eu quero agoraaa.
─Já falei Miguel, ponto final.
Minutos depois no parque...
Surpreendo-me com o poder de persuasão que esse garoto tem.
O parque tem trepa-trepas e balanços. Miguel adora os balanços.
─Mais alto. – grita ele, não para pedir, mas sim pra fazer uma constatação, e ri deliciosamente quando faço cocegas em suas pernas na hora de empurrar.
Os cabelos finos e louros, idênticos aos de Hyoga, caem sobre os olhos toda vez que ele balança para frente.
Minhas idas diárias ao parque com Miguel se transformaram em algo maior pra mim, um palco onde faço o papel de mim mesmo em outra vida.
Ficamos cercados de crianças acompanhadas de suas mães, algumas com babás, e elas devem pensar que sou um pai dedicado tirando um tempo do trabalho pra brincar com o filho. E isso as faz se apaixonarem momentaneamente por mim. Ou talvez eu esteja desempregado, o que faz de mim uma figura um tanto patética. Mas talvez eu seja meu próprio patrão, e sou mesmo, um escritor, acertando em cheio, ou um musico, e, portanto posso passar mais tempo com meu filho, embora Miguel não se pareça em nada comigo. Não tenho aliança, por isso devo ser divorciado, ou mesmo viúvo, situações que elevam o meu quociente de atratividade, e isso me faz navegar ainda mais em ideias pro meu livro.
Quando Miguel afinal concorda em ser tirado do balanço, me abraça com carinho e eu corro minha mão livre pela pele macia de seus bracinhos rechonchudos. O aroma do xampu e da loção para bebes penetra minhas narinas e, quando ele descansa a cabeça no meu ombro, é simplesmente perfeito, como se tivessem sido desenhados pra se encaixarem um no outro.
Ao segura-lo desse modo, sinto-me um individuo leal e confiável, mais útil do que em qualquer outro momento da minha vida.
─Eu tenho muitos sonhos – canta Miguel em meus ouvidos uma musica do Doraemon, a voz fina, doce e deliciosamente fora do tom. ─, que quero realizar, belos sonhos e desejos, eu quero alcançar.
─No bolso mágico tudo vira realidade. Pelo céu livremente eu gostaria de voar – canto em resposta. É nossa brincadeira particular. Hyoga tem razão, aquelas músicas são viciantes.
─O gato cósmico pode te ajudar. Olá, como vai miguinhos! – continua ele abrindo os bracinhos.
─Sim, sim, sim, todos nós queremos, Gato Cósmico... Sim, sim, sim, todos nós queremos, Gato Cósmico. – cantamos juntos.
Miguel solta uma gargalhada mais afinada que sua cantoria.
─Shu engaçado.
Shun engraçado. Shun está louco pelo pai dele, que, ainda que não estivesse envolvido demais na trágica confusão em que se transformou a sua vida para perceber esse sentimento, está totalmente fora do alcance de Shun. E que ainda por cima é seu melhor amigo, o que traz consigo um enorme conjunto de preocupações, sem mencionar o pequeno detalhe que Shun ainda pensa em seu antigo e imbecil namorado, que mesmo depois de tudo que fez deveria ter sido mandado para o inferno diversas vezes, mas ainda assim povoa seus pensamentos como um fantasma, e, portanto Shun está fora do páreo. Eu me meti num triangulo amoroso que embora pareça mais um quadrado, já que a presença de Lilia, mesmo morta, não pode ser ignorada, está me enlouquecendo. E só pra apimentar a situação, para acrescentar mais graça ainda à comedia da sua vida, Shun, por mais que tente não pensar assim, está realmente se convencendo que se apaixonou por Hyoga, o que acabaria trazendo mais um gigantesco abacaxi para todo esse processo.
─Shun engaçado. - repete Miguel, rindo muito e segurando o meu queixo com seus dedinhos.
Seguro a mão dele e pressiono a palma contra meu rosto.
─Isso mesmo Miguel. – concordo. ─Shun é uma piada.
...
─O que você tem? – Hyoga me pergunta enquanto eu olho pra um ponto qualquer na mesa.
─Nada. – respondo e ele me olha desconfiado enquanto coloca mais uma garfada na boca da comida italiana que ele comprou no caminho pra casa. Estou jantando tarde agora, só pra fazer companhia pra ele. ─Por quê?
─Tá com cara de quem comeu comida estragada.
─Hum. – tô pegando essa mania de 'hm' dele.
─Você está muito esquisito nos últimos dias. – ele comenta, enquanto eu só mexo meu macarrão com os palitos. ─Está tendo problemas pra escrever?
─Não, não é isso. – digo comendo, não quero discutir meus devaneios amorosos com ele, ainda mais porque é culpa dele eu estar assim.
─Quer conversar sobre isso?
─Você já teve a vaga sensação de ter sido transportado para um universo paralelo, onde sua vida virou à esquerda e não à direita por causa de alguma escolha aparentemente insignificante, mas cosmicamente crucial, que você fez a respeito de uma garota, um beijo, um encontro, um emprego, ou alguma coisa escrita em algum lugar que acabou mudando tudo? Uma vida que não deveria ser como é. Que algum movimento seu no passado a fez mudar todo o rumo só pra dar errado? – começo a me abrir com ele.
Ele lançou um olhar significativo pra mim.
─O tempo todo. - disse baixando o olhar.
─Desculpe. – provavelmente ele pensa exatamente assim com relação a sua própria vida, que cabeça a sua heim Shun, queixar-se a um cego os martírios de se ter uma conjuntivite. Ele deve estar mais angustiado do que eu, mas não fala nada.
─Tudo bem... O que tem te afligido tanto é uma crise existencial? Pensei que tudo estivesse indo bem pra você.
─Eu, não sei, eu só... Acho que me falta algo.
─Uma companhia?
─É, acho que é isso... até o Ikki está se arranjando também, acho que vou acabar sozinho. Imagina a sensação de acordar toda manhã sem ninguém ao seu lado, e você se olha no espelho e o que vê é uma pele caindo, olhos com bolsas enormes e escuras, e você olha pra trás e tudo que você pode contemplar nos vários anos que viveu é um monte de nada que você construiu, nada tão significante que possa te acompanhar até essa velhice iminente.
─Nossa, o buraco é mais fundo do que imaginei. – ele comenta surpreso.
─Desculpe, acho que só estou um pouco dramático demais hoje.
Ele me olhou e sorriu, não entendi por que.
─Shun, você é jovem, bem sucedido, bonito, e adorável. Qualquer pessoa te amaria, tenho certeza que você não vai envelhecer sozinho. – ora vejam só, ele é que está passando por maus bocados e sou eu que preciso de incentivo, me sinto um idiota.
─Estou com vinte e sete anos Hyoga, nada até hoje deu certo em minha vida amorosa, e sinto que nada melhora, nada vai pra frente, que estou preso na estagnação desses sentimentos que quero tanto dar a alguém que não existe ou que está fora do meu alcance.
─A vida é cheia de surpresas Shun, umas boas outras nem tanto, encaremos tudo como presentes, alguns que gostamos outros não, essa visão otimista e motivadora sobre a vida é essencial para o crescimento pessoal. Sua vida amorosa é só uma parte de um todo. Além do mais nada é definitivo, quando alguém encontra seu caminho precisa ter coragem suficiente para dar passos errados. Sei que todas as suas decepções amorosas não são por acaso, você ainda está experimentando as muitas sensações que existem. As decepções, as derrotas, o desânimo são ferramentas que Deus utiliza para mostrar a estrada.
─Acredita mesmo nisso?
─É claro. 'Não desfalecemos; mas ainda que o nosso homem exterior esteja consumindo, o interior, contudo, se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória excelente; não atentando nós nas coisas que se vêem, mas sim nas que não se vêem; porque as que se vêem são passageiras, enquanto as que não se vêem são eternas'. – ele disse.
─Hum?
─II Coríntios 4:16-18.
─Uma passagem bíblica? – digo confuso.
─É.
─Por um acaso você não está querendo me converter, está?
─Amém então. – ele disse rindo. ─Brincadeira, brincadeira. – se desculpou porque eu mandei meu olhar assassino pra ele.
─Estou falando sério Hyoga.
─Tá, desculpa. Sabe Shun, muitos acreditam que a bíblia é nada mais que a expressão e produto da fraqueza humana, uma coleção de lendas honradas, mas ainda assim primitivas, que são bastante infantis. Mas eu não vejo dessa forma, a completa falta de humor da bíblia é uma das maiores surpresas da história, mas acontece que a vida não é pra ser uma piada, ela nos força a fazer escolhas e sofrer suas consequências e isso não é pra ser engraçado, mesmo sendo consequências boas ou ruins, mas você a esta vivendo. Pode parecer uma forma desesperada da minha parte, mas por incrível que pareça a você, minha devoção me ajudou muito a superar as muitas coisas que passei. Não digo que estou cem por cento, estou até longe disso, mas sim que eu não poderia seguir sem minha fé, que eu não poderia sequer levantar toda manhã se eu não a tivesse, eu tenho esperança que tudo ainda vai melhorar. – ele deu uma pausa suspirando. ─O que quero dizer não é que você tem que acreditar no mesmo que eu, mas sim que de certa forma eu encontrei um conforto, demorei até um tempo pra isso. Então eu acredito que você também pode, independente do que seja, mas que traga alivio e o faça acredita que tudo ainda pode melhorar, e vai, basta acreditar. – ele completou e pegou minha mão sorrindo.
Fiquei muito constrangido com aquele gesto.
─Você é inacreditável sabia? – digo sorrindo.
─Por quê?
─Nada não. – digo recolhendo minha mão.
─Você vai ficar bem Shun. Mas pense dessa maneira: você já tem uma garantia que não vai acabar sozinho.
─Qual?
─Você tem a mim e ao Miguel.
─Hã?
─Você já é da família Shun. Afinal um amigo ama em todos os momentos, é um irmão na adversidade.
Irmão. É isso que sou pra ele. Ouvir tudo aquilo, embora devesse, não me ajudou, porque é ele que provoca tudo isso em mim, é ele que não posso ter, e ele dizer que eu devo continuar acreditando sendo que as chances de tudo dar certo tender a zero só fazem minhas angustias aumentarem.
Por isso ele não deveria me dizer essas coisas, se ele soubesse o que essas palavras causam em mim não esbanjaria aquele sorriso que me atrai tanto e que eu tenho que usar todo meu bom senso e autocontrole pra não agarra-lo ali e agora.
Cheguei ao ponto de ficar angustiado quando ele fica comigo por tempo demais, em momentos que eu posso observa-lo mais atentamente, como agora. Em como ele umedece os lábios, o modo como tira uma mexa de cabelo de cima dos olhos, no quanto ele fica sexy com aqueles óculos, o jeito que massageia o pescoço quando está cansado, do mesmo modo que está fazendo agora, e fico tentado a fazer isso por ele.
Então não é surpresa que eu me sinta aliviado quando ele vai embora. Só que depois eu fico angustiado de novo por ele não estar por perto. Eu o quero, mas ao mesmo tempo reprimo esse desejo. Ele não me pertence, e isso está me deixando louco.
Quando ele fala daquela forma até parece que está me dando esperanças, mas eu sei que só é coisa da minha cabeça.
─Mesmo assim Hyoga. – digo contendo meu ímpeto de cair em prantos por ouvir isso dele, dessa forma fica bem claro que devo perder qualquer ínfima esperança que eu tenha. ─Você é meu amigo e eu fico grato por isso, você e o Miguel são importantes pra mim e isso nunca vai mudar, mas eu quero é um companheiro pra todas as horas, você me entende.
─Sei disso, e não estou dizendo que eu e o Miguel vamos assumir exatamente esse papel na sua vida, mas sim que sempre estaremos aqui pra você, como amigos. E tudo tem solução. Não é como se todos os dias você estivesse tentando tocar piano com luvas de boxe. Você ainda tem escolhas a fazer, ainda tem muito que viver, vai conhecer outras pessoas, vai se apaixonar, e mesmo que não queira, ainda vai sofrer. Você é perfeitamente capaz e apto a viver uma vida longa e prospera. Isso pelo que você está passando é só uma fase. Sei que você vai resolver isso, como sempre faz. Não sei se isso ajuda em alguma coisa, mas se precisar de mim, estarei sempre aqui ao seu lado pra lhe dar apoio. – disse sorrindo.
Acho que ele não sabe que tem um sorriso tão sedutor, senão ele não sorriria tanto, não pra mim.
─Na verdade isso ajuda bastante. Obrigado Hyoga. –minto.
─Por nada. – diz levantando o copo de suco em minha direção em um brinde. ─A você. – diz sorrindo.
─A nós. – digo imitando o gesto.
...
Dormi como um bebê devido a grande satisfação de todo aquele papo do Hyoga sobre estar sempre ao meu lado, e eu gostaria mesmo que fosse em outro sentido.
Desde que isso começou não sei mais como descrever minha vida.
Conviver com eles, partilhar esses momentos únicos tem sido maravilhosamente reconfortante, era algo que dava sentido a minha vida, saber que eu fazia parte disso, que eu fazia parte da vida deles.
Ultimamente tenho sentido que encontrei o meu lugar, e não somente faço parte como também sou um membro essencial. Sinto até que Miguel é meu também, ridículo eu sei, mas é assim que eu me sinto.
Já me sinto triste por saber que essa semana já está acabando, e meu lugar será tomado por uma completa estranha, e mesmo que demore o Miguel vai acabar gostando dela também, e aos poucos ele vai me esquecer. Que o Hyoga também vai se adequar a essa nova garota, fico com medo que ela seja bonita, vai que com o tempo eles se apaixonem e ela faça o Hyoga esquecer por completo a tragédia pela qual passou, coisa que eu não vou conseguir já que ele não quer se abrir comigo.
Assim minhas visitas vão se resumir a torturantes intervalos de semanas, porque senão ficaria muito estranho que eu ainda continuasse convivendo com eles sem nenhum motivo, não tenho nenhuma desculpa. Eu não verei mais o Hyoga com frequência, não brincarei com o Miguel, não farei mais parte da vida deles.
Essa semana está acabando assim como um sonho que eu tive o vislumbre de degustar mesmo que por um breve período.
Eu quero tanto ficar.
...
─Shun. – ouço a voz do Hyoga de longe.
Imagino que ele esteja ao meu lado, tentando me acordar enquanto acaricia meus cabelos, e eu abro os olhos e vejo aquele lindo azul dos diamantes que são os olhos dele.
O vejo sorrindo e posso observar aquela boca linda me dizer um bom dia sussurrado com amor. Eu o abraço e me aconchego em seu peito, sentindo o cheiro dele, o corpo forte. Enquanto isso ele acaricia minhas costas e desce a mão por minha cintura e susurra em meu ouvido juras de amor pra depois passar a me despir enquanto beija meu pescoço.
Sinto que já começo a ficar excitado com aquele toque e passo a acaricia-lo também.
Quando já estou pronto ele me penetra com um grande cuidado, os primeiros movimentos são doloridos, mas depois que me acostumo ele passa a ser mais intenso e nos movimentamos juntos em uma dança erotica, cada vez mais fundo, mais prazeroso e isso acaba nos levando ao extase. Ele me olha, sorri e me beija intensamente pra depois dizer que me ama, e eu digo o mesmo.
─Shun. – o ouço repetir.
─Hum? – estou sonolento.
Assim que abro os olhos, desperto pra vaga e triste realidade. Isso me traz uma tristeza tão grande.
─Acorda Amamiya. – ele diz impaciente. Todas as manhãs é assim, ele acorda, se arruma, dá o café do Miguel e só me acorda por ultimo, mas eu não sou acostumado a acordar cedo de jeito nenhum, então sempre me irrito quando ele vem me encher o saco pra levantar.
E vale ressaltar que eu levo mesmo um bom tempo pra acordar, e quando acordo de vez ele já está prestes a derrubar a porta de impaciencia. Não é bem assim que acontece nos meus sonhos.
Continuo ouvindo as batidas na porta, quando me olho noto que estou no extremo da excitação, com os lençois bagunçados enquanto ele continua batendo na porta.
Droga, droga, droga. Ele não pode me ver assim. Porque raios ele sempre acorda tão cedo?
─Que foi? – digo irritado querendo que ele pare logo com aquelas batidas.
─Ah, até que enfim. – ele diz parando de bater. ─Não acredito que você ainda está deitado Amamiya. – ele reclama, acho que ele pensa que todo mundo tem a obrigação de acordar cheio de energia que nem ele.
─E se eu estiver. – digo irritado e com meu baixo ventre já dolorido pela excitação, droga.
─Você está bem? – ele está preocupado? Por quê?
─Ahh, er, eu, eu estou bem sim. Por quê?
─Tem certeza? Eu ouvi um gemido. – droga.
─É que eu cai da cama. – mas que merda de desculpa é essa Shun?
─Sério? Se machucou?
─Não, não. É que eu tropecei na calça do pijama.
─Precisa de ajuda? - ele disse já rodando a maçaneta.
Ahh, droga, droga, não posso deixar ele me ver nessa situação.
─Não! Eu, eu tô pelado. – digo mais uma idiotice. Inferno que esse meu cerebro não me ajuda.
─Como tropeçou no pijama se está nu? – ele pergunta. Shun seu idiota. Raios, porque ele tem que ser tão observador?
─É que tava no chão perto da cama Hyoga.
─Hum. Você é bagunceiro heim. – ele comenta.
─Ah, vai cuidar da sua vida Yukida. – digo irritado, não se espantem, não sou realmente tão adoravel assim pela manhã.
─Vish, tá com a macaca hoje heim. – ele comenta fazendo pouco caso da minha irritação. ─Tem certeza que não quer ajuda?
─Tenho sim Hyoga. Sai logo daqui. – digo impaciente.
─Tá bom... Credo. - disse e eu pude ouvir os passos dele se distanciando.
Suspiro aliviado.
Isso não pode ser bom.
...
Já são 19:30 h. Hyoga chegou cedo hoje, almoçou e deitou no sofá com pernas no braço do móvel, e está dormindo faz quase uma hora. Acho que ele não pretendia ficar assim, estávamos conversando e ele acabou cochilando ali mesmo de qualquer jeito, ele sempre aproveita qualquer lugar e qualquer oportunidade pra dormir. Não sei de onde vem tanto sono.
Miguel brincava com seu boneco na mesa de centro e fazia uns barulhinhos de voo. Sorri olhando pra ele.
Eu estava no meio de um capitulo quando a campainha tocou, olhei pro Hyoga e ele nem se mexeu, realmente estava dormindo pesado.
Fui atender, era o Millo.
─Shun?
─Oi Millo. –fiquei confuso. ─Porque o porteiro não te anunciou?
─Já sou de casa. – ele diz piscando. ─E você, o que faz aqui?
─Fazendo companhia pro Hyoga.
─Ah, e cadê ele? - disse já entrando.
─Dormindo. - eu disse fechando a porta e vendo o Millo se aproximando cautelosamente do Hyoga no sofá.
─Tio Millo. – Miguel disse sorridente.
─E ae garotão. – Millo disse fazendo um cafuné nele no caminho.
Chegou perto do Hyoga que estava com o braço em cima do rosto que impossibilitava de ver a expressão serena dele.
Millo chegou bem perto do rosto do Hyoga com um sorriso travesso fiquei curioso pra ver o que ele ia fazer.
─HYOGAAA! - gritou bem alto que até eu me assustei.
Hyoga levou um susto e sobressaltou que até caiu do sofá.
Millo ria escandalosamente olhando pro Hyoga no chão e a mão no peito regularizando a respiração.
─MILLO, SEU ESCORPIÃO SAFADO! VOU TE MATAR SEU IMBECIL. - disse gritando extremamente irritado, mas isso não foi suficiente pra fazer Millo parar de rir.
─Calma, calma cubo de gelo. – diz sem a mínima preocupação com a raiva do Hyoga.
─Hunf. Não repita nada do que eu disse viu Miguel. – Hyoga disse olhando pro filho que continuava brincando e olhou pra ele e acenou.
─Tio Millo é um becil. - disse rindo batendo o boneco na mesa.
─Qual é Miguel? – Millo disse ainda rindo.
─Eu falei pra não repetir. – Hyoga disse.
─Que ideia é essa Millo? - eu disse tentando entender aquela brincadeira de mal gosto.
─Era pra ele acordar ora. – se justifica.
─Sabia que existem métodos melhores pra fazer isso Millo? - Hyoga disse irritado já se levantando e sentando-se no sofá de novo.
─Você dorme pesado que eu sei.
─Hunf. E o que faz aqui idiota?
─Mas que recepção heim. - disse indignado. ─É assim que você recebe um amigo? Vim te levar pra sairmos.
─Sair? - eu disse.
─Sim, Camus está em missão em Tóquio e Atena me liberou pra vir com ele, mas acho que ele não me queria por perto.
─E porque você acha isso? – Hyoga disse irônico.
─Ah, sei lá, ele falou: vai visitar o Hyoga e me deixa trabalhar. – Millo disse, acho que ele não entendeu a ironia na frase do Hyoga.
─Daí eu resolvi seguir o conselho dele e vim aqui pra te levar pra curtir um pouco Hyoga, essa vida de trabalho/casa, trabalho/casa não faz bem pra você.
─Nossa, que sorte a minha. Vou ter uma conversa bem séria com o Camus. E você perdeu seu tempo Millo, eu quero ficar em casa dormindo. - Hyoga disse voltando a deitar.
─Ahh. Nem vem, levanta daí projeto de cavaleiro, eu vou te tirar dessa fossa. Anda, quem sabe você se entrosa com alguma garota Hyoga. – Millo disse e aquilo me deu um frio na barriga, na possibilidade de o Hyoga encontrar mesmo alguma garota.
─Não quero sair Millo, mas que droga, meu sono estava tão bom aqui. - disse colocando os braços em cima do rosto.
─Levanta logo garoto mimado. - Millo disse irritado tentando tirar os braços dele do rosto. ─Não vim de tão longe pra ficar em Tóquio à toa. Anda, levanta.
─Pretende levar ele onde Millo? - eu disse aborrecido também.
─Pra sair, sair... Tem uma boate muito boa em Kabukichō num bairro de Shinjuku.
─O distrito da luz vermelha*. – digo já me irritando com aquela historia.
─Nem sei o que é isso. – Hyoga diz confuso.
─Isso mesmo Shun. É um lugar conhecido como a cidade Sleepless(sem dormir), sei que você vai gostar Hyoga.
─Quer mesmo levar o Hyoga pra um lugar assim, Millo?
─Por quê? – Hyoga pergunta olhando pra mim.
─Kabukichō é mais conhecida como a 'Tóquio Proibida', ou como o Millo falou, a cidade Sleepless. É o centro da vida noturna menos comportada de Tóquio, com boates, shows eróticos, casas de massagem, bares, esse tipo de coisa. É como se fosse uma Amsterdã da vida. Não acho que seja o lugar mais apropriado pra arranjar uma mulher decente pro Hyoga, Millo. – digo cruzando os braços em desgosto.
─Ah, qual é Shun, até você. E como você sabe de tudo isso heim?
─Simples, já fui lá.
─Hum, é mesmo é? – Millo diz com um sorriso safado.
Até o Hyoga olha pra mim com uma sobrancelha arqueada, como pra dizer que eu não sou o Shun comportado que ele conhece.
─Fui lá uma vez com o Hayato. – digo com tristeza quando me lembro dele.
─Ah, o babaca ciumento. – Millo comenta, não me incomodo com o insulto, o Hayato é um babaca mesmo.
─Quem é esse? – Hyoga pergunta.
─É meu ex. – digo o olhando brevemente.
─Esqueça ele. E então Hyoga, você vem né? – Millo logo muda de assunto e fico aliviado em não ter que entrar em detalhes sobre isso com o Hyoga.
─Pretende me levar pra um lugar assim Millo? Deve ter perdido o bom senso de vez, Camus sabe dessas suas aventuras? - Hyoga disse com tom censurado.
─Não, mas é por uma boa causa, afinal você tem que voltar a sair né Hyoga.
─Não.
─Ah, mas porque você não quer ir?
─Pelo mesmo motivo que eu não masco papel alumínio e não beijo urso. Pra quê tanta insistência?
─Ora 'pra quê'... Vai ficar solteiro pra sempre? Imagino que já tem um tempão que você não vai pra cama com ninguém né. – é sério que o Hyoga está a esse ponto? Já faz mais de um ano que ele não... nossaa!
─Cala boca Millo. - Hyoga disse extremamente vermelho e isso já prova que é verdade mesmo o que o Millo disse.
─Isso é um problema sabia? Não pode reprimir esse lado necessitado, todos sabemos que já passou do tempo de você ter uma boa trepa...
─Quieto! - Hyoga vociferou.
─Por quê?
Hyoga apontou pro Miguel que ouvia tudo atentamente.
─Leva o quê pa cama papa? - disse inocentemente.
─Nada não filho, vai brincar no seu quarto vai.
─Mas papa. - disse manhoso.
─Quarto Miguel. - disse suspirando e massageando os olhos.
Miguel obedeceu, levantou abraçando seu boneco e foi pro quarto fazendo um biquinho.
─Esqueceu que eu tenho um filho Millo? Não posso ficar de passeio e deixar ele aqui sozinho. – Hyoga disse assim que o Miguel saiu.
─E pra quê que serve a babá ora.
─Ele não tem babá ainda e você sabe.
─Ah, é só por hoje, o Shun pode cuidar dele por hoje, né Shun?
─Não vou sair e deixar o Shun preso aqui, pro trabalho até que vai, mas aí sair pra noitada já é abusar demais né.
─Está tudo bem Hyoga. – digo. ─Fico com o Miguel, Millo tem razão, você tem que sair um pouco. – assim que acabo de falar me martirizo rapidamente por isso, mas eu sei que minha oposição pra deixa-lo ir não é por tempo perdido, mas sim por mero ciúme.
─Viu, o Shun topou.
─Nem pensar Shun. Não vou fazer isso com você. – na minha cabeça eu gostaria que ele se referisse a esse 'não vou fazer isso com você' com outro sentido.
─Não tem nada demais Hyoga, eu tenho que continuar meu manuscrito, por isso não fiz planos, eu já ia ficar aqui mesmo. – digo tentando convence-lo, mas uma parte de mim vai totalmente contra.
─Mas Shun...
─Para de oposição Hyoga, é só por hoje. Você pode encarar isso como um passeio turístico, o que acha? Você não precisa fazer nada que não queira lá.
─Não preciso é? Então tá, eu não quero ir. Está decido. – Hyoga diz objetivo e autoritário o máximo possível, mas acho que isso não é o suficiente em se tratando do Millo.
─Ora, algum dia você vai ter que sair com uma garota. – Millo disse, viram, não falei.
─Mas esse dia não é hoje.
─Vamos lá, hoje é sexta à noite. Não estou dizendo pra você pegar a primeira garota que você ver, nem que vá pra cama logo de cara, se bem que seria até lucro...
─Millo!
─Tá, tá, só tô falando que você tem que sair um pouco, beber, curtir... é sério Hyoga, já tá em tempo não acha?
─Se eu estivesse interessado em conhecer alguém eu já teria feito isso Millo.
─Você é tímido. Provavelmente não tomaria a iniciativa de nada, você é do tipo que passaria o tempo todo mostrando as fotos do Miguel na sua carteira pra garota que estiver com você, e nada de beijo e amasso. Isso é broxante cara.
─Não vou, até porque estou velho demais pra ficar farreando por aí.
─Agora me ofendeu, eu tenho 34 anos Hyoga, seis anos a mais que você.
─Ah, foi mal.
─Olha, se você quer viver deitado em um sofá pra sempre eu não vou me opor, mas você tem obrigação de encontrar uma mãe pro Miguel, você querendo ou não.
─E você acha que vou mesmo encontrar uma moça descente em uma boate erótica Millo? Perdeu a cabeça mesmo.
─Já é um começo, sair pra se divertir é o primeiro passo. Olha, eu seu que Lilia era tudo pra você, eu adorava aquela garota também, mas já passou Hyoga, tem que seguir em frente.
Hyoga se enfezou de vez quando Millo falou de Lilia e continuou fingindo que não era com ele, como uma criança emburrada, às vezes me surpreendo que com algumas atitudes infantis dele, mas devo confessar que aquela atitude me agradava, talvez eu seja muito controverso mesmo, mas não quero que ele saia, não quero que conheça ninguém, é muito egoísmo da minha parte, eu sei, mas não posso deixar de me sentir assim.
─Ohh, saco. Me ajuda aqui Shun. – Millo diz se irritando também.
─Eu não, isso é problema seu Millo.
─Tirando o corpo fora é? Hunf.
Dou e ombros.
Hyoga olha pra Millo suspirando.
─Olha Millo, sei o que está tentando fazer, e está tudo bem, eu reconheço seu esforço, você é um bom amigo e está preocupado comigo. Mas não tem nada que você possa dizer agora pra me convencer a sair hoje.
...
Uma hora mais tarde na boate.
POV Hyoga
─Não acredito que você me convenceu a isso. - digo tomando uma dose de uísque.
Estamos no bar de uma boate que não é tão ruim quanto a que Millo planejava, mas não deixa de ser erótica, tem garotas seminuas andando pra tudo que é lado se insinuando pra clientes pervertidos que colocam alguns ienes em suas lingeries pra que elas dancem em cima deles, enquanto uma musica alta toca.
─Vai dizer que não tá gostando? Pelo menos não é tão vulgar quanto a boate que eu planejava te levar. – Millo diz tomando um uísque também.
─É, não tem nada vulgar aqui, a não ser pelo fato de estarmos rodeados de strippers.
─Eu não gosto muito, mas faço esse esforço por você, viu como sou um excelente amigo?
─Totalmente. - digo irônico. ─É mesmo um ato totalmente familiar aquela garota seminua provocando uma ereção naquele cara barrigudo ali.
─Quer que eu pague uma dança pra você? – Millo diz com entusiasmo, acho que ele acredita mesmo que está me ajudando.
─Deus me livre, eu sai de casa, e isso já foi um grande passo, não obrigue a tolerar peitos rodando na minha frente que eu vou acabar congelando você e todo mundo aqui.
─Você que sabe. – ele diz dando de ombros, acho que isso aqui deve estar entediante pra ele também, afinal são seios protuberantes que ele vê balançado pra todo lado e não ereções de caras musculosos, e só de imaginar já sinto calafrios.
Por alguma razão me sinto plenamente normal por não ter o mesmo gosto que o dele.
─Que tal ir pra mais perto daquelas dançarinas na gaiola. – ele sugere.
─Está interessado nas garotas? – digo incrédulo.
─Não. Eu quero é entrar naquela gaiola também. – ele diz com um sorriso safado, será que ele é mesmo fiel ao Camus?
─E pra quê você quer fazer isso?
─Pra ensaiar um novo numero e mostrar pro Camus entre quatro paredes. – ele comenta rindo. É, ele é fiel sim, embora a intenção seja vaga e obviamente estupida.
─Então você quer ensaiar mostrando tudo pra todo mundo e depois encenar o numero pronto só pro Camus? Que ideia idiota.
─Ah, pelo amor de Zeus Hyoga, tô só brincando. Relaxa e tenta se divertir um pouco rapaz. E tira esses óculos, tá parecendo um nerd.
─Não enxergo direito sem eles ora.
─E cadê suas lentes?
─Perdi meu ultimo par.
─E ainda não mandou fazer outras?
─Não.
─Aff, você não se emenda mesmo heim Yukida, só a Lilia mesmo pra te colocar nos eixos.
─É, vai. Chuta cachorro manco.
─Ah, sem drama. Hoje é diversão.
─Não sei quem tá se divertindo aqui.
─Só os que não querem. – ele diz se irritando, o que ele não sabe é que a minha irritação é bem maior e já começou bem mais cedo então ele não pode rebatê-la.
Continuamos ali, mesmo com minha indiferença a tudo, quietos e bebendo em paz, e apesar das insistentes propostas de Millo pra que eu levasse alguma daquelas garotas pra área vip, permaneci neutro.
─Ao menos deixe as garotas se aproximarem Hyoga, dê uma alegria a elas, normalmente elas só dançam pra caras desempregados e tarados.
─E eu vou mesmo fazer uma grande diferença na vida delas hoje né Millo. -digo sarcástico.
─Não é todo dia que se recebe um russo, loiro, forte, viril e...
Mandei meu olhar mais indiferente pra que ele parasse com aquilo.
─Foi mal. - ele disse com uma vergonha encenada, conheço muito bem aquele escorpiano safado.
─Sua perversão nunca cessa né Millo. - digo rindo livremente, apesar das palavras idiotas, da insistência frequente e fora de hora, mesmo assim me sinto grato com aquele escorpiano, é um bom amigo, nunca vou me esquecer do quanto ele e o Camus me confortaram quando estive mal.
Ele me olhou surpreso, e depois mudou pra uma expressão terna.
─Você está se recuperando. - ele comenta sorrindo.
─Hm?
─Sim, faz muito tempo que eu não vejo um sorriso tão sincero em você. – ele diz sorrindo, e novamente me vejo diante do Millo que tanto gosto, e não o pervertido que assumiu o controle boa parte dessa noite.
─Ah. - digo sem jeito.
─Quem é o grande bem feitor disso? É o Shun?
─Shun? – digo surpreso, do que ele está falando?
─É, qual é essa de vocês dois juntos assim?
─Ah é isso. - digo sorrindo quando me lembro dele, nem sei por quê. ─Ele tem me ajudado muito, cuidou a semana inteira do Miguel.
─Huumm.
─Que "hum" é esse aí?
─Nada. Por isso ele estava apreensivo quando te chamei pra sair, pensei que ele ia te pedir pra ficar.
─Por que diz isso?
─Ele gosta de você.
─Claro que gosta, ele é meu amigo.
─Você sabe o que eu quis dizer.
Fico em silencio. Shun está interessado em mim? Nããoo, pela conversa que tivemos ontem ficou bem claro que ele me considera só um amigo.
─Não acho, você sabe como o Shun é, ele gosta de ajudar todo mundo.
─Se você quer se enganar. – ele diz dando de ombros levando o copo à boca. Olho bem pra ele e percebo que Millo já está passando da conta, ele bebe o uísque como se fosse agua.
─Hm. – procuro ignorar aquela insinuação. ─E qual é a desse tal de Hayato que o Shun sempre fica triste quando fala dele? – digo mudando de assunto e com curiosidade, fiquei preocupado, afinal eu reparei bem na expressão que o Shun fez quando falou dele.
─Isso é complicado. – ele diz voltado sua atenção de novo pra mim.
─Por quê?
─Por que o cara é um babaca.
─E...
─E o Shun ainda gosta dele.
─Gosta?
─É, dá pra acreditar?
─Só você acha isso?
─Todo mundo acha isso, isso deu um rolo danado, uma confusão.
─Como ele conseguiu essa proeza de ser odiado por todos vocês?
─Bom, pra começar, qual a primeira regra que nós cavaleiros devemos seguir?
─Não revelar nossa existência. – digo de imediato.
─Exceto... – ele diz esperando minha resposta.
─Pra pessoas de confiança. – completo a frase como um soldado seguindo as ordens do oficial superior.
─Pois é, você me disse que levou um bom tempo pra contar pra Lilia né?
─É verdade.
─Bom, pra começar o Shun namorava esse Hayato fazia uns sete meses, dava pra ver que ele gostava do cara, mas o sujeito era muito ciumento e controlador, principalmente por conta das nossas reuniões que o Shun participava com frequência, ele não tolerava que o Shun ficasse rodeado de todos nós. Shun sempre dizia a ele que todos nós éramos só amigos, quase irmãos, afinal ele não podia revelar ainda que tínhamos laços muito fortes devido a época das batalhas. – ele deu uma pausa pra beber mais um gole de sua bebida. ─Eles só tinham alguns meses de namoro mesmo, não tinha nem como o Shun confiar tanto assim nele, mas o Hayato não engoliu essa, disse que não era motivo pro Shun ser tão ligado a nós, então ele proibiu o Shun de participar das reuniões.
─E ninguém fez nada? – pergunto surpreso, como assim deixaram o Shun se afastar de todos?
─É claro que o Ikki foi o primeiro a surtar. Mas isso não separou os dois. Passaram umas duas semanas que o Shun não aparecia nas reuniões. Afrodite me disse que o Shun queria contar pro Hayato sobre nós, disse que ele era de confiança. Então houve um encontro que o Shun levou o Hayato pra contar tudo a ele, só que no final do encontro. Durante toda a noite o cara ficou desconfiado, ficou de olho o tempo todo quando o Shun chegava perto de nós. E você conhece o Shun, ele é um doce, é amoroso com todo mundo. Nisso o Hayato já pensou besteira e surtou, começou a ofender todos nós, disse que o Shun era um qualquer que ficava com o primeiro que aparecia, e que todos nós éramos um bando de pervertidos e vivíamos na orgia. O cara humilhou o Shun.
─Que babaca. – digo já com uma raiva crescendo dentro de mim de tanta indignação por saber pelo que o Shun passou.
─Conta uma novidade. Todos nós ficamos revoltados, não é uma boa ideia ofender um salão cheio de caras com poderes fora do comum.
─É uma péssima ideia. – confirmo.
─Bom, daí não deu outra, o Ikki foi o primeiro a partir pra cima, e olha que ele nem usou o cosmo, mas você já sabe o quanto a mão do Ikki é pesada.
─E como, perdi a conta de quantas vezes entrei no braço com ele.
─Imagina pra um cara comum como o Hayato, como não sente né? O Shun se opôs e tentou amenizar as coisas, ficou entre o irmão e o namorado pra impedir a continuação do confronto, até porque dava pra ver que ele mesmo já tava com vontade de quebrar a cara do namorado, e você já viu Shun zangado? Eu não quero ver nunca mais. – Millo comenta com receio.
─Já. – digo lembrando de uma vez que brigamos por uma besteira, Shun devia controlar melhor suas emoções, ele fica fora de si quando está furioso, embora isso seja bastante raro de acontecer.
─Pois é, mas o Hayato mesmo com uns dentes a menos e já no auge da idiotice achou de ofender exclusivamente o Ikki e o Shaka, foi a gota d'água, o Shaka partiu pra cima também, conseguimos controlar os dois, mas quando o Ikki se afastou o idiota do Hayato tentou acertar ele, só de reflexo o Ikki jogou uma rajada de fogo na direção dele, o Shun conseguiu desviar o golpe com um contra ataque de ar, só que ele se descuidou e o fogo foi em direção a uma cortina enorme do salão de festa da Saori que acabou pegando fogo, você devia ter visto, foi um espetáculo. Camus conseguiu conter o fogo com gelo, mas o circo já estava armado, então já dá pra imaginar a reação do Hayato, ficou apavorado, disse que éramos monstros, ou mutantes, essas coisas.
─Caramba.
─O cara correu de nós como diabo da cruz.
─Imagino.
─Depois dos ânimos contidos levamos uma bronca histórica da Saori, e aturamos um longo e maçante discurso de como devemos manter o controle e agir naturalmente diante dos humanos comuns.
─Puts.
─Foi essa aí a nossa expressão mesmo. – Millo comenta sorrindo. ─Sorte que o Seiya conseguiu conte-la senão ficaríamos a noite toda ouvindo aquela assembleia.
─E o Hayato?
─No dia seguinte o Shun foi atrás dele pra explicar tudo. Mas quando ele foi ao apartamento do namorado acabou o flagrando recebendo consolo de outro cara, e que consolo – Millo diz balançando a cabeça. ─, tempos depois o Shun descobriu que ele o traia há meses.
─Que imbecil.
─Daí já sabe, o Shun só não quebrou todos os ossos dele porque o Afrodite estava junto e não deixou. Saori teve que assumir as rédeas da situação, e por se tratar de um caso extremo ela interviu e apagou a memoria do Hayato, pelo menos a parte que ele não devia ter visto.
─Nossa, que historia. Porque eu não fiquei sabendo disso?
─Cada qual com sua tragédia Hyoga. Nessa época você ainda estava melhorando daquela depressão, e nós não queríamos te preocupar, sabemos que o Shun sempre foi um grande amigo seu, então já sabe né, uma preocupação a mais pra você não era aceitável.
─Isso não é justificado, devia ter me dito, queria ter dado meu apoio ao Shun.
─Você não tem que exigir nada Hyoga, você evitou que o Shun soubesse de tudo que você estava passando, nos fez guardar sigilo completo. Ele não sabe quase nada sobre a Lilia, aposto que você nem contou o que houve com ela né?
Ele tinha razão, tirei o Shun totalmente da minha vida, ele não merecia aquilo, mesmo que eu tenha feito isso pra protegê-lo.
─É, mais ou menos.
─Viu.
─Poxa, o Shun deve ter ficado arrasado.
─E ficou mesmo, ele nos pediu desculpas milhares de vezes, quase que ele entra em depressão de novo, lembra como foi difícil tira-lo da fossa depois daquela batalha contra Hades, ele teve até que fazer terapia.
─É, eu lembro muito bem disso.
─É claro. Você ficou com ele o tempo todo. Pensando bem, vocês já viviam de cumplicidade desde aquela época.
─Não inventa.
─É sim, agora que eu lembro. Hyoga e Shun, dupla dinâmica. Rsrsrs.
─Hilário você, Millo. Mas eu não entendo o Shun, ele ainda gosta desse babaca do Hayato?
─Não sei direito, nunca conversei muito com o Shun, mas o Afrodite disse que ele ainda fala desse babaca às vezes. Acho que ele estava desesperado. E confundiu uma mera simpatia por uma paixão.
─Por quê?
─Ah, você sabe, o Seiya casou com a Saori, o Shiryu com a Shunrei, e acho que ele já imaginava que você também estivesse comprometido. Até mesmo o Ikki está fixando com o Shaka. Todo mundo estava se arranjando, então eu acho que ele ficou com medo de ficar sozinho. Então a essa altura acho que até um babaca como o Hayato poderia ser considerado uma boa opção, até porque o Shun não ficaria com um idiota desses em uma situação normal.
─Hm. Isso é triste. – digo mais pra mim mesmo, isso explica todo aquele papo do Shun ontem, e sinto uma mistura de indignação, tristeza, lamento e ternura por meu amigo que prezo tanto. Como é possível que ele se sinta tão sozinho? Logo ele que do jeito que é faria qualquer pessoa correr e implorar pelo amor dele.
Gostaria tanto de ajuda-lo, mas não sei como fazer isso, já demostrei tudo que eu podia pra fazê-lo se sentir melhor ontem. Sei que isso não vai se resolver com um mero aceno de cabeça e um tapinha nas costas. Então o que eu posso fazer por ele?
─Você gosta dele Hyoga? – Millo diz me tirando de meus pensamentos.
─O quê?
─Gosta não é?
─Ele é só um amigo, o considero um irmão. – me justifico.
─Sei. – diz balançando a cabeça, o conheço muito bem pra saber o que aquela mente suja está pensando.
─Aonde quer chegar Millo? – digo já com a intenção de confronta-lo a tirar logo aquela ideia estupida da cabeça.
─A lugar nenhum, só estou comentando.
─Ei sei muito bem o que você quer dizer Millo. E fique logo sabendo que não há e nunca haverá nenhuma relação desse tipo entre mim e o Shun. – digo já aumentando o tom. ─Eu tinha uma esposa, uma esposa que ainda amo de todo coração, e não vou resolver meus problemas com a falta que ela me faz saindo com um homem, por mais que o Shun seja um grande amigo, e mesmo que eu seja extremamente grato por tudo que ele fez por mim, ainda assim eu não o vejo de outra forma, eu amo a Lilia, amo muito ela, e só vou poder amar de novo alguém igual a ela, literalmente, você me entendeu Millo? – digo exaltado que até a bar girl ficou surpresa olhando pra nós.
Eu despejei aquelas palavras de uma só vez como se eu quisesse convencer a mim mesmo. Falar de tudo aquilo me fez lembrar rapidamente de Lilia, sinto tanta falta dela, a quero tanto de volta. O álcool está me deixando emotivo de novo, tenho que parar.
─Calma aí Hyoga. Eu entendi. – Millo diz se colocando na defensiva.
Suspiro baixando a cabeça envergonhado por ter perdido a calma. Estou tão instável ultimamente, sinto que vou explodir a qualquer momento.
Eu disse tudo àquilo ao Shun ontem pra que ele se sentisse melhor, como se aquelas palavras me confortassem tanto quanto eu quero, mas não é bem assim, elas me dão alivio, mas não são a solução, uma prova disso é minha falta de paciência agora. Eu não era assim.
─Desculpe.
─Tudo bem. –ele diz compreensivo. ─Fico feliz que você já esteja falando dela, mesmo que você tenha colocado isso em meio ao assunto do Shun, que ao que parece mexeu com você.
─É, eu sei... Sinto falta dela. – digo suspirando.
─Sei que sim.
─Mas eu me sinto ridículo, porque quando penso em Shun e mesmo depois de saber por tudo que ele passou, ainda sinto inveja dele, porque mesmo que ele ainda não tenha encontrado alguém pra dividir uma vida, ele ainda tem escolhas a fazer, mas eu já passei dessa fase, eu encontrei o amor e ele foi arrancado de mim, e não é como se o Shun não tivesse sofrido tanto, mas sim que ele ainda vai encontrar alguém que o mereça de verdade, ainda vai ter a chance de experimentar tudo isso, ainda vai ser feliz... E eu não sei se serei feliz de novo. Não sei se devo.
─Não diga isso Hyoga, você merece ser feliz.
─Eu queria estar no lugar dele. – digo me referindo ao Shun. ─Gostaria de ainda ter a chance de fazer alguma coisa, porque eu não fiz nada pela Lilia? Porque eu não me esforcei mais? – digo contendo ao máximo o nó que se forma em minha garganta.
─Você fez sim, eu vi. Olha Hyoga, esquece esse assunto por enquanto, você já completou sua cota de sentimentos por hoje. Fico feliz que você já esteja falando dela, antigamente você sequer citava a Lilia. Mas por enquanto esquece, porque estou vendo que isso já está acabando com você. – ele diz tocando meu ombro com uma expressão preocupada.
Olho pra ele e suspiro.
─Mais um drinque, por favor. – digo me direcionando a bar girl que ainda nos observava de longe.
─Tem certeza? – Millo pergunta.
─Absoluta. – a garota se aproxima e enche meu copo com um sorriso.
─Pega leve. – ele adverte.
─Fale de você mesmo, quantos já tomou até agora?
─Não o suficiente. – ele diz, mas posso ver que ele já está zonzo.
─Desculpe, não era bem uma noite assim que você planejava certo?
─Na verdade eu só vim pra beber mesmo. – ele diz rindo.
─Hum?
─A missão do Camus é na França, vim pra cá porque queria saber como você estava, ver como está seguindo, digamos que é uma verificação de rotina. Camus concordou.
─Então porque me trouxe aqui?
─Ora, não podíamos conversar livremente na presença do Miguel, e eu sei que você precisava se soltar mais, ainda mais porque o Shun estava lá também. O toque da boate era mais pra descontrair mesmo, sei que você odeia isso, mas achei que já estava na hora de você voltar a ver uma pornografiazinha gratuita. – ele disse rindo. ─Além do mais eu queria beber, e você estaria comigo pra me conter e não me deixar fazer besteira, por isso escolhi uma boate assim e não uma LGBT. – disse piscando pra mim.
─Você é imbecil, sabia?
─Sou um amigo preocupado, é isso que eu sou. Agora eu vou ao banheiro pra despertar um pouco, porque esse papo todo me deixou zonzo. – ele diz levando consigo uma garrafa inteira que ele pegou da bar girl.
Suspiro vendo Millo se distanciar, não sei como ainda consigo adorar esse cara, ele realmente é a outra metade de Camus.
Olho em volta e vejo que várias garotas ainda olham pra mim se insinuando a se aproximarem.
É, as coisas continuam seguindo, ainda estou aqui.
─Dia difícil? – a bar girl pergunta se aproximando mais depois que viu que o Millo saiu.
─Todos eles. – digo sorrindo por educação.
─Acontece. Mas pense pelo lado bom. -diz sorrindo enchendo meu copo de novo que já está pela metade.
─Qual?
─Amanhã é um novo dia. E você pode tentar de novo. – diz piscando pra mim enquanto se distancia pra atender outro cliente.
É, eu posso tentar de novo. Isso realmente foi motivador. Posso ver pelo lado bom da coisa afinal o que de pior poderia acontecer por hoje?
Direciono minha atenção pros banheiros e já vejo Millo saindo, o sigo com o olhar e ao invés de voltar pra perto de mim ele vai indo na direção daquelas gaiolas. Droga.
...
POV Shun.
Já são oito e meia. Não acredito que deixei ele ir. Estou andando de um lado pro outro, preocupado com o que pode acontecer nessa noite do Hyoga. Mas isso tudo é culpa minha por ter concordado e ainda ter a idiotice de me disponibilizar a cuidar do Miguel, sei que apenas uma palavra minha contra seria suficiente pra fazê-lo ficar.
Estou brincando de esconde-esconde com o Miguel pra fazer ele se cansar mais rápido e ao menos dormir uma vez comigo. Sei que provavelmente o Hyoga vai chegar tarde, e isso está me corroendo de raiva e indignação pela minha própria burrice.
─Cadê o Mick? – digo quase cantarolando e em voz alta pra ouvir os risinhos dele em seu misterioso esconderijo.
Procuro distrair minha mente enquanto brinco com ele, já que minha mente sempre me leva de encontro aquele russo, que eu tenho uma vontade enorme de esganar por não saber ler meus pensamentos e ter se recusado a ir mesmo depois do que eu disse pra convencê-lo do contrario.
Nada ainda, esse menino é bom nisso, estamos na terceira rodada, ele me acha sempre muito rápido, mas eu tenho uma dificuldade danada de acha-lo. Já vasculhei a sala, o quarto dele e o banheiro. Tranquei os outros cômodos então só falta o quarto do Hyoga.
Entro sorrateiramente.
Procuro em baixo da cama, no banheiro do Hyoga, e fico parado feito bobo pensando onde deixei de olhar. É quando ouço risinhos no guarda-roupa do Hyoga. Huumm, bom esconderijo.
─Cadê o Miguelzinho? – pergunto de novo já chegando perto da porta do armário.
─Acheiii. – digo quando abro as portas de uma só vez e ele solta uma grande gargalhada saindo de dentro do armário e vem de encontro a mim e me abraça.
─Achoo Shu. – diz rindo sem parar. ─Agora é sua vez. – ele diz enquanto estou com ele no meu colo e ele envolve minha cintura com suas pernas pequeninas.
─Dessa vez você caprichou heim Miguel. – digo me referindo ao trabalho que tive pra acha-lo. ─Bom esconderijo. – digo quando vou fechar o armário.
Dou uma olhada antes, tem ternos caprichosamente bem passados e alinhados em seus cabides. Pego um que está na frente e que ele usou hoje, ainda não tive a oportunidade de olhar de perto.
Faço uma analise cirúrgica na vestimenta, é azul marinho, bem cortado, feito sob medida, e de uma excelente marca, não me lembro do Hyoga se importar tanto com suas roupas, pensando bem ele nem ligava pra essas coisas. Provavelmente foi Lilia que mandou fazer.
─É do meu papa. - Miguel diz pegando uma manga do paletó e trazendo pro seu rostinho, vejo-o fechar os olhos enquanto mantem o tecido em seu rosto.
─Cheiro do meu papa. -ele diz aproximando o terno de mim também.
─É, o cheiro dele. - digo sorrindo e abraço-o junto com o terno inteiro. Um cheiro tão bom.
Sinto minhas lagrimas quentes descendo de meus olhos, e uma tristeza tomando conta de mim de novo. Queria que fosse ele, queria que estivesse aqui, quero abraça-lo. Senti-lo.
─Que foi Shu? - Miguel pergunta preocupado. Que doce de garotinho.
─Não é nada Miguel.
─No chora Shu. - ele diz fazendo um beicinho também.
─Não estou chorando Miguel. -digo enxugando as lágrimas, não sei quem eu quero enganar.
Estou apaixonado, dessa vez estou mesmo apaixonado. E tinha mesmo que ser por alguém impossível. Sou um idiota azarado.
─Tá si. - Miguel diz e suas lágrimas começam a descer também.
Oh céus, o que foi agora?
─Eu tô bem Miguel. - digo e ele encolhe a cabeça entre o meu pescoço fungando pelo choro. ─Pronto, pronto. Está tudo bem, tudo bem. – digo tentando acalma-lo.
─Não quero ver o Shu tiste.
─Eu que não quero ver você triste Miguel.
─Gosto de você Shu. – ele diz com a voz manhosa, tomara que não esqueça disso quando essa nova babá entrar na vida dele.
─Gosto de você também garotinho. - digo afagando aqueles cabelos loirinhos.
─Nunca me deixa tá? - ele diz mais pra advertir mesmo quando levanta a cabeça e enxuga os olhos.
─Tá bom, tá bom.
─Jura juradinho, jura de coração - ele diz segurando meu rosto entre suas mãozinhas. – estou sendo colocado contra a parede por um garoto com menos de três anos.
─Juro. Juro de coração. – acabo jurando e me amarrando ainda mais nesse processo que já estou até vendo, vai acabar comigo.
Ele sorriu.
─Sua vez. - ele diz querendo voltar a brincar.
─Ah não Miguel, você sempre me acha. - digo colocando ele no chão. ─Você não quer assistir televisão?
─Mickey? – sugere.
─Pode ser. Agora me deixa arrumar isso aqui que você bagunçou. - digo arrumando as coisas abaixo dos ternos onde se encontra os sapatos do Hyoga, que o Miguel bagunçou tudo quando entrou lá.
Enquanto eu arrumava o Miguel abriu uma gaveta e começou a tirar tudo de dentro, meias gravatas, sorte minha que não tinha cuecas ali.
─Oh Miguel, mais ajuda quem não atrapalha viu. -digo tirando ele de perto da gaveta, ele só riu.
Começo a arrumar tudo lá também.
Quando coloco umas meias dentro vejo bem no fundo da gaveta um porta Dvds todo colorido de azul, rosa e vermelho, verifico a frente e só vejo escrito Hyo&Li . É algum vídeo do Hyoga com a Lilia? Oh por Zeus, eles gravaram um vídeo pornô deles mesmos, mas que pervertidos. Hyoga seu safado.
Abro e vejo que são vários, pego um e nele tem escrito "primeiros passos", titulo curioso, noutro "jantar de noivado", ahh isso já desbanca toda minha teoria perversa, admito que eu estava até curioso. Em outro tem escrito "casamento". Hum, interessante. Acho que vou ver alguns antes que o Hyoga chegue, principalmente porque eu estava xeretando onde não devia.
─Vamos assistir a uns vídeos no lugar do Mickey, Miguel. - eu disse, é quando o percebo inquieto do meu lado. ─Que foi?
─Tô apertado. - ele diz se espremendo todo.
─Ahh, agora? É o quê, liquido ou sólido?
─O que é isso?
─O que você quer fazer?
─Totô.
─Tá, vamos. Primeiro você faz totô e depois vamos ver uns vídeos. - digo e o pego no colo pra ajuda-lo no banheiro, ele ainda estava aprendendo a usar o vaso sanitário, e pra ele aquilo parecia ser um buraco negro ou um mostro branco, por isso ele tinha medo de ir sozinho porque o tal mostro podia engolir ele.
Noite longa. Muito longa.
...
POV Hyoga
Consegui convencer o Millo que a não subir naquela gaiola, com o argumento que se ele entrasse lá eu não o deixaria sair pra beber.
Ele já estava bêbado, é isso que eu ganho, me ajuda e muito em minha recuperação passar uma sexta à noite tentando segurar meu amigo com neurônios queimados.
─Ahh Hyoga, tava tão bom lá. - ele diz ainda grogue enquanto o levo se apoiando em mim pelos ombros de volta pro bar.
─Seria possível por alguma força do universo que aqui venda café? - eu digo olhando pra bar girl.
─Felizmente não. - responde ela rindo, mas também, eu e minhas perguntas idiotas.
─Então vamos pra casa Millo.
─A noite mal começou Hyoga, e você nem pegou nenhuma dessas gostosas ainda.
─Seus devaneios estão piorando Millo.
─Ah, qual é. Leva alguma delas pra conversar. – diz piscando sugestivamente pra mim.
─Acredito que o trabalho delas não seja pra conversar com os clientes Millo.
─Melhor pra você, afinal sua necessidade não é falar né.
─Já chega, vamos pagar a conta e ir embora.
─Eu já falei, a noite mal começou.
...
POV Shun
Despois dele se aliviar eu levei Miguel pra sala e coloquei o Dvd, o que tinha escrito 'casamento'.
Assim que dei o play ouvia-se a voz do Millo.
─Testando, testando. - dizia mais rindo do que falando, depois virou a câmera pra ele. ─Oi, eu sou o Millo, e você já sabe, porque se você está vendo isso logicamente você me conhece.
─Ah para de se justificar pra câmera Millo. - disse Camus aborrecido.
Millo virou a câmera pro Camus.
─Ah Camus, me deixa aproveitar meu dia de câmera man. - ele disse e o Camus só deu de ombros, estavam arrumados com ternos e tudo mais.
─Esse aí é o meu chato, frio e irritante companheiro Camus... Bom, como podem ver, estamos organizando uma festa de casamento. - disse e mostrou em volta, estavam do lado de fora de uma casa modesta, com pessoas indo de um lado pro outro, com arranjos de flores, alguns preparando o bufê ou arrumando mesas. Era mesmo toda uma decoração de casamento.
─Esse é o casamento do meu querido amigo Hyoga, e eu e o Camus somos os padrinhos. – Millo disse indo com pra dentro da casa. Lá também estava uma grande agitação. ─Estamos nos preparando ainda, mas daqui a pouco vamos todos pra igreja pra cerimonia de casamento. Ah, esqueci-me de falar, essa aqui é a casa da noiva, então vamos ver como andam os noivos.
Ele subiu as escadas e mostrou o corredor. Camus ia à frente.
─A noiva está se arrumando ali naquele quarto, dá pra ver por causa do fuzuê que aquelas garotas fazem. Aff, mulheres. – disse focando em si mesmo balançando a cabeça, depois mostrou o quarto de onde garotas saiam e entravam o tempo todo, com entusiasmo e risinhos frequentes. ─Infelizmente não posso gravar a Lilia ainda, mas não se preocupem, mais tarde vocês a verão. Por enquanto vamos ver o Hyoga.
─Vai ficar aí Millo? – Camus disse da porta de outro quarto.
─Já vou, já vou. – disse e adentrou o quarto onde o Hyoga se arrumava.
Ele estava de calça preta, uma faixa acetinada na cintura e uma camisa branca, estava com o paletó preto com a lapela acetinada apoiado em um braço, enquanto Camus arrumava a gravata borboleta nele. Seu cabelo já estava curto e bem cortado penteado pra trás. Estava lindo.
─Meu papa. – disse Miguel todo animado ao meu lado.
─E aí Hyoga. – Milo disse. ─É o grande dia.
─Oi Millo. – disse sorridente, mas mantendo-se quieto pra não dificultar o trabalho de Camus.
─Como se sente? – Millo perguntou.
─Nervoso. – disse todo bobo. ─Já está gravando mesmo?
─Já, vou mostrar pra todo mundo no santuario. – Millo disse e o Hyoga riu.
─Temos que nos apressar pra chegar à igreja, só a noiva pode se atrasar, mas você tem que chegar na hora Hyoga. – Camus disse depois que terminou de ajeitar a gravata do Hyoga e o ajudou a colocar o paletó.
─Como estou? – ele perguntou olhando pra Camus.
─Como um perfeito cavalheiro. – Camus disse sorrindo ternamente pro Hyoga. ─Parabéns.
─Obrigado Camus. – disse e deram um abraço.
─Oh sentimentalismo, nem deixam pra mim também né. – Millo disse indignado e foi abraçar o Hyoga também.
─Parabéns garoto... E onde vai ser o casamento mesmo? – Millo perguntou.
─Na Igreja dos Doze Apóstolos. – Hyoga disse.
─Imagina onde Irina queria que fosse o casamento. – Camus disse rindo, nunca o tinha visto tão relaxado falando animado.
─Onde? – Millo perguntou.
─Na catedral de São Basílio. – Hyoga disse rindo também.
─Aquela igreja pomposa da Praça Vermelha? Vish, ela quer ser chique é? – Millo disse rindo.
─Era isso mesmo que ela queria pra Lilia, um casamento pomposo, por sorte eu e Lilia conseguimos convencê-la do contrario. – Hyoga disse.
─Por falar em Lilia, o que você me diz sobre ela Hyoga?
─Como assim?
─Ora, ninguém do santuario a conhece ainda, só eu e Camus, fale um pouco dela.
─Bom, o que posso dizer é que ela é um doce, amorosa, humilde, gentil, forte e uma grande garota. Ou seja, eu a amo. – disse sorrindo como quem fala da pessoa mais perfeita do mundo.
─Então ela é perfeita? – Millo disse.
─Isso mesmo.
─Ora vamos, isso não pode ser possível, ela deve ter defeitos sim.
─Vai mostrar esse vídeo pra ela? – Hyoga perguntou desconfiado.
─Não se preocupe que quando eu editar vou deixar só a parte dos elogios. – Millo disse rindo.
─Tá, então vou falar. Ela tem um gênio forte, tipo o Ikki. – Hyoga disse rindo.
─Vish, não percebi isso, então você tá ferrado heim Hyoga. – Millo disse rindo.
─Não fala mal da minha cunhada viu Millo. – Camus disse.
─Uii cunhadinha é?
─É, e sua também. – Camus disse.
─Mas foi o Hyoga que disse.
─Isso é só um detalhe, eu a amo do jeito que ela é. – Hyoga disse sorrindo e mostrando sinal positivo pra câmera.
─Aii babão, todo noivo é assim mesmo? – Millo disse.
─Chega de conversa que o Adam já está lá embaixo nos esperando. – Hyoga disse olhando pela janela.
─Então vamos.
O vídeo deu uma pausa e depois já apareceu na festa de casamento. E o Millo já aparecia reclamando.
─Pessoal, infelizmente não pude gravar lá na igreja. – disse aborrecido.
─É uma igreja Millo, achou mesmo que ia ficar com essa câmera indo pra tudo que é lado lá? – Camus disse o censurando.
Estavam sentados em uma das mesas do lugar.
─Então porque tinha um cara lá tirando fotos?
─Porque o pai da Lilia que contratou, e só podia um.
─Aff. Frescura... Bom, estamos esperando o Hyoga e a Lilia chegar pra começar a festa, os outros convidados estão todos aqui. Aqueles ali são os pais da Lilia. O senhor Andrey e a senhora Irina. – disse direcionando a câmera pro casal.
O sogro do Hyoga tinha estatura mediana e exibia uma modesta barriga já um pouco acentuada, com cabelos pretos e pouco grisalhos e mesmo por estar sorrindo dava pra ver que normalmente ele é carrancudo. Ao lado dele tinha uma senhora com os cabelos loiros presos em um coque, bonita e bem vestida, de sorriso fácil, parecia ser muito simpática.
─Os convidados são parentes da Lilia e amigos de faculdade dos dois. – Millo disse. ─Ah, eles chegaram.
Deu outra pausa e voltou com o Millo focando no Hyoga e na Lilia partindo o bolo de casamento, ambos sorridentes. Lilia estava com um vestido longo e branco com vários detalhes que mais pareciam cristais de gelo perto da calda. Seus cabelos estavam semipresos por uma tiara delicada, mas que deixava algumas mechas caindo despojadas por seu rosto corado, e com os grandes cachos loiros descendo por suas costas nuas, estava com uma maquiagem que mesmo leve a deixava mais linda ainda. Cara, até eu me casaria com ela.
Deu mais uma pausa e o Millo já estava focando no Hyoga sentado em uma mesa com a Lilia em seu colo. Sorriam o tempo todo, dava pra ver o quanto estavam felizes.
Mas tenho que dizer que definitivamente o Millo é um péssimo câmera man.
─Quero ver um beijo dos noivos. - Millo disse.
Hyoga fez uma cara mal encarada.
─Ah, vamos lá Hyoga, só um beijinho. - Millo disse rindo.
─Deixa eles em paz Millo. - ouvi a voz do Camus e Millo virou a camera pra ele, estava bebendo champanhe.
─Quero que esse video seja memoravel meu amor, então isso é mais que necessario.
─Você já filmou demais Millo. - ouvi a voz do Hyoga e Millo virou a camera de novo pra ele.
─Jura que esse video vai ficar incrivel Millo? - disse Lilia sorridente, ela tinha uma voz leve doce, gostei de ouvir a voz dela.
─Juro de pés juntos, agora convence esse seu marido aí a demostrar mais afeto, vamos lá é o casamento de vocês.
─Me beija logo Oga. - Lilia disse se agarrando no Hyoga.
Ele sorriu pra ela.
─Sabe que eu não nego nada pra você. - disse e a puxou pra um beijo que Millo até focou.
─Uuhhh, agora sim. Isso aí é um beijo de lingua Hyoga? A festa nem acabou ainda e você já quer partir pra lua de mel? - Millo disse rindo.
Lilia e Hyoga se separaram rindo do comentário.
─Seu pescoço só está salvo hoje porque eu estou feliz Millo. - Hyoga disse sorrindo abertamente.
─Jura?
─É claro, me casei com a garota mais linda e incrivel do mundo, tem sorte maior que essa? - disse beijando Lilia de novo.
─E eu me casei com o homem mais lindo e incrivel do mundo também.- Lilia disse sorrindo também. ─Te amo Hyoga. – ela diz acariciando o rosto dele.
─Também te amo Lilia. – ele diz e eles voltam a se beijar.
─Ahh, que melaçao.
─Você também é meloso o tempo todo Millo. - Camus disse rindo.
─Sou não... E então Hyoga, esse é o dia mais importante da sua vida, tem alguma coisa a dizer pros seus amigos que não puderam vir?
─Vai mesmo mandar esse video pra eles?
─Quem sabe.
─Hum.
─Ahh não faz essa cara... Agora diz alguma coisa pra eles, uma mensagem.
─Diz alguma coisa amor. - disse Lilia.
─Tá, tá... Er, bom... Primeiro me desculpem por não ter ido ao seu casamento Shiryu, e no seu também Seiya. E... Eu estou feliz, espero que todos estejam também... E... é só.
─Ahh, você pode fazer melhor que isso. - Millo resmungou.
─Tá fraco heim Hyoga. - Lilia disse.
─Até eu faço melhor que isso Hyoga. – ouve-se Camus falar.
─Tá, tá... Seiya, eu estou feliz por você e pela Saori, espero sinceramente que continuem sempre alegres e animados como sempre foram, eu nunca disse isso, mas eu sempre adimirei sua espontaneidade, animação, e até mesmo seu lado infantil, é cativante, nunca perca isso... Shiryu meu amigo, sempre sensato, maduro, responsavel, admiro muito você, espero que construa uma grande familia com a Shunrei e desejo toda a felicidade do mundo a vocês, desejo que essas crianças que estam a caminho sejam abençoadas com muita saude, já até considero eles como meus sobrinhos. Felicidades, amigo... Shun como vai indo o andamento dos livros? Eu não esqueci viu, tenho certeza que está se saindo bem, você é incrivel Shun, sempre o mais sensivel e gentil de todos nós, mas sempre foi forte e determinado, admiro muito sua sensibilidade e amabilidade, espero que encontre o amor assim como eu tive a sorte de encontrar, tenho certeza que minha esposa aqui ficaria muito feliz de te conhecer. - disse abraçando Lilia pela cintura.
─Com certeza, Hyoga fala muito de você Shun, e só de ouvir falar, já gosto muito de você também, espero conhecê-lo um dia. - Lilia disse sorridente acenando pra camera.
Aquilo me deu uma sensação estranha, era como se ela estivesse falando comigo agora mesmo, e só de ver aquilo já gostei dela também.
─E bom... Ah, Ikki, sua galinha de fogo, como vai indo? Embora não sejamos como unha e carne ainda assim eu gosto muito de você rapaz e te considero um grande amigo, sempre com esse seu jeitão de dono do pedaço, mas mesmo assim você é um otimo irmão e companheiro, sempre esteve perto quando mais precisavamos, e isso, meu amigo, eu respeito muito, desejo de todo coração que você seja feliz... E é isso... Posso estar um pouco distante, mas quero que saibam que eu não me esqueci de vocês um minuto sequer, vocês são e sempre serão como irmãos pra mim e esse é um laço que nem o tempo nem a distancia podem quebrar, lamento muito que não estejam aqui nesse momento tão feliz da minha vida, mas vale ressaltar que isso é tudo culpa da Lilia viu.
─Ei. – Lilia disse indignada. ─Eu só não calculei direito a data pra enviar os convites ora. Foi mal aí gente. – disse fazendo uma cara de arrependida pra camera.
─Bom, eu sinto muita falta de vocês... Rezo muito pela felicidade de todos e espero vê-los em breve. Abraço amigos. – Hyoga finalizou e acenou pra camera.
─Nooossa. Isso vai pro guinnes, Alexei Hyoga fez o discurso do século e quebrou seu proprio recorde de mais de dez palavras ditas em menos de um dia. Parabéns Hyoga, o que tem a dizer sobre isso? - disse Millo rindo.
─Apenas que não vai me ouvir falando isso de novo. - Hyoga disse rindo.
─É, só daqui há alguns milhoes de anos você faça isso de novo... E você Lilia? Tem alguma coisa a dizer aos seus irmãos distantes que você ainda não conhece?
─Eu?
─Sim, você é a esposa do Hyoga, então já faz parte de familia.
─Bom, er... Oi gente, eu sou a Lilia, bom, disso vocês já sabem né... Hyoga fala muito de todos vocês então eu sinto que já os conheço... Já gosto de todos, espero conhecê-los pessoalmente em breve, estou feliz em fazer parte do grupo de vocês, sei o que são e os admiro muito, vocês todos são incriveis e mesmo que as pessoas não os conheçam elas lhes devem muito, vocês nos salvaram muitas vezes e eu gostaria muito de agradecer e reconhecer vocês como os herois anonimos que vocês são. Assim como o Hyoga eu desejo toda felicidade do mundo a vocês. Beijos pra todos. - disse mandando beijinhos pra camera.
─Pronto, esse video vai ser memoravel. - disse Millo. ─Então é isso meus amigos do santuario. Vou filmar mais alguns tapes e encerramos por hoje. – Millo disse virando a camera pra si de novo. ─Tchau, tchau.
Olhei pro Miguel e ele já estava cochilando do meu lado, o deitei direito nas almofadas e continuei assistindo os tapes. A dança dos noivos, o brinde ao casal, o lançamento do buquê de noiva. Entre outras coisas da festa.
Fiquei pensando se eu teria aquele tipo de festa algum dia, se eu me casaria, se terei filhos, e quanto mais eu pensava mais triste eu ficava, com a possibilidade de eu nunca vivenciar aquilo... Acabei adormecendo ali.
...
POV Hyoga
Quando finalmente consegui tirar Millo daquela boate liguei pra Camus e o chamei pra vir buscar o namorado. Ele já tinha terminado sua missão na França.
Camus como sempre deu uma bela bronca em Millo e o levou pra mansão da Saori pra passarem a noite lá e aproveirarem pra ficar pra reunião de amanhã.
Já era quase meia noite. Fui pra casa já cansado do trabalho que o Millo me deu e da vergonha que ele me fez passar.
Assim que entrei vi o Miguel e o Shun cochilando no sofá. Estavam assistindo alguma coisa, a Tv estava só chiando.
Me surprendi por o Miguel ter dormido sem me esperar, o Shun conseguiu a confiança dele a esse ponto?
Com muito cuidado peguei ele e o levei pro quarto pra coloca-lo pra dormir.
Voltei pra sala já pra acordar o Shun, quando olho bem pra ele o vejo abraçado com um objeto bastante familiar.
Como ele achou isso? Era o porta Dvds do nossos videos caseiros.
Era isso que estavam assistindo? Pego o controle e comprovo que é o mesmo DVD que eu acho que é.
Nosso casamento. Há muito tempo eu não o assisto, é doloroso demais ver aquilo, mas mesmo assim vou passando algumas cenas e revivendo tudo que perdi.
Acordo sonolento, quando desperto percebo o Hyoga sentado perto de mim no sofá e levo um susto.
Droga, droga, quando foi que ele chegou? Permaneço imovel, ele está distraido vendo o video, deve estar se perguntando como eu encontrei aqueles Dvds.
Vejo-o passando cenas, sério, seus olhos vagam pelas imagens, perdido em pensamentos e tristezas.
Ele dá um leve sorriso em uma cena, é que Lilia diz que o ama, e ele repete e repete, repete várias vezes. Vejo seus olhos marejarem, oh céus, a primeira vez que o vejo realmente vulneravel e demostrando fraqueza quando o assunto é ela.
─Também te amo. – ouço-o dizer susurradamente.
Ele coloca as mãos no rosto e eu o ouço suspirar pesadamente.
Porque você se foi Li? Porque me deixou? Estou pessimo, porque você fez isso comigo?
Repito aquela cena diversas vezes, eu queria comprovar e ouvir de novo ela dizendo que me ama. Até que a morte nos separe é um martirio só de imaginar, e realmente nos separou.
Eu ainda te amo tanto Li.
Ele fica um tempo com a cabeça baixa e as mãos no rosto. Meu impeto é de abraça-lo fortemente, mas será mesmo que devo?
─Sei que está acordado. – ele fala e eu levo um susto.
Hyoga tira as mãos do rosto, mas não me olha, continua voltado pra imagem de Lilia na tela da Tv.
─Olha Hyoga, me desculpa, eu encontrei por acidente e fiquei curioso, então...
─Ela tinha cancer, sabe. – ele diz de repente e rapidamente sinto que não devo interrompê-lo. Mas realmente fiquei surpreso, então foi disso que ela morreu, ele a viu definhar, a viu morrer lentamente, por isso ele sofre tanto, isso deve ser terrivel.
─Eu sinto muito. – digo me levantando e chegando perto dele.
Sei que o Shun já acordou e me observa. Aquela dor latente vai tomando conta de mim de novo e eu sinto de novo o nó na minha garganta. Acabo falando do que ela morreu. Tenho que sair daqui, não posso continuar olhando pra ela, não posso me permitir chorar, não devo, senão a dor vai vir à tona eu não sei se vou poder conte-la.
Shun levantou e ficou ao meu lado, me observando, a postura dele sugere que ele quer se aproximar mais, mas se eu deixar ele me abraçar aí sim eu vou cair em prantos. Não posso.
Ele levantou bruscamente do sofá e foi pro quarto. Ele estava sofrendo. Tenho que fazer alguma coisa.
Fui pro quarto e direto pro banheiro jogar uma agua no meu rosto, minha respiração está ofegante e minhas mãos tremem, só Deus sabe o esforço descomunal que estou fazendo pra conter aquilo. Apoio minhas mãos na pia e fico parado olhando meu reflexo no espelho. Não faça isso com voce mesmo de novo, não desmorone Hyoga.
Sigo-o até o quarto e o vejo saindo do banheiro e sentar na cama. Ele está ofegante e aperta as mãos nos joelhos como se estivesse fazendo um grande esforço pra se controlar. Sento perto dele na cama e toco seu ombro. Porque ele não solta logo aquilo e alivia aquela tensão?
─Sabe Shun, às vezes, fico desapontado comigo mesmo, porque percebo que estou frustrando as expectativas de algumas pessoas que acham que eu já devia estar mais conformado. – ele começa a falar de novo.─Eu tento aparentar que tudo está indo bem, que já me sinto melhor, mas nada está melhor.
─Você está passando por uma fase que talvez não saiba lidar Hyoga, mas não se sinta obrigado a cumprir um prazo, como se houvesse uma data para se sentir melhor, porque não há. Algumas pessoas se recuperam com facilidade, mas outras não, e está tudo bem, você tem o tempo que precisar, pode soltar isso.
─Não posso. Você não tem ideia da minha situação quando me permiti sofrer. É uma sensação de que seu pesar nunca vai ter fim e seu desespero o está deixando esgotado. Antes eu me sentia culpado, achando que seguir em frente significava trair Lilia ou me esquecer dela. A verdade é que nunca vou esquecer. Em alguns momentos, as lembranças vêm à tona, como agora, e isso é extremamente desgastante. Às vezes, sinto um cansaço enorme, uma sensação de ter ultrapassado meus limites. Todos os dias são assim. Isso tá acabando comigo.
─Eu sei Hyoga, só que por mais desafiador que seja, aprender a lidar com a dor sempre ajuda a seguir em frente, e você não está seguindo, você acha que está, mas não esta. Conter isso não ajuda. Solte que aos poucos você vai ver que os sintomas aflitivos diminuem, porque algumas vezes recordar com carinho de momentos que evocam ao mesmo tempo sentimentos tristes e alegres é bom. Tenha paciência, porque tudo passa.
─Tem ideia do quanto isso é difícil?
─Não, mas eu sei que as recordações da pessoa querida podem até ser exatamente o que você precisa para seguir em frente. Você jamais supera totalmente a morte de um ente querido, mas também não precisa deixar que a dor o domine.
─É exatamente isso que estou tentando conter.
─Mas não está fazendo como se deve. Chore e expresse seu pesar quando sentir necessidade, não tem problema algum nisso, mas não se esqueça de que a vida continua e você deve vivê-la da melhor maneira possível.
Eu disse e ele ficou quieto olhando pra suas mãos por um tempo. Por Zeus, ele não chora de jeito nenhum.
─Porque você faz tanto por mim Shun? – disse depois de um tempo.
─Você me disse que um amigo ama em todos os momentos, que é um irmão na adversidade, e é isso que quero ser, um amigo, um irmão pra você. Quero ver você feliz Hyoga. – digo e sinto meu coração queimar de angustia por confirmar pra mim mesmo e pra ele o que eu quero ser em sua vida, eximindo cada vez mais o que tanto quero dele, mesmo contra os apelos do meu coração.
Vou até ele e o abraço mesmo sob a recusa corporal que ele impõe a minha aproximação.
Ele não retribuiu ao meu abraço de imediato, ficou quieto e só depois de um tempo ele timidamente vai retribuindo ao meu contato.
─Sinto muito pelo que aconteceu entre você e o Hayato. - ele diz, fico surpreso e em duvida em como ele conseguiu aquela informação.
─Sinto muito pela Lilia. – digo susurradamente enquanto nos entregamos aquele momento onde nossos sofrimentos se encontram e nosso contato nos consola em uma igualdade quase cosmicamente trazida pelo destino.
*Um distrito da luz vermelha é uma parte de área urbana onde há uma concentração de prostituiçãoe as empresas orientadas para o sexo, como sex shops, clubes de stripers, teatros adultos, etc. O termo origina-se as luzes vermelhas que foram usadas como sinais de bordéis. Existem áreas em muitas grandes cidades ao redor do mundo, que adquiriram uma reputação internacional como os distritos da luz vermelha. Alguns distritos da luz vermelha adquiriram um interesse turístico além de turismo sexual, e pode ser percebido como locais de interesse artístico, histórico ou cultural, mesmo que eles ainda servem ao comércio do sexo.
Notas finais do capítuloO que acharam? Olha, esse capitulo me deu um trabalhinho.
Espero que tenham gostado.
Infelizmente o próximo capitulo vai demorar, mas vocês sabem, as aulas nas federais estão começando mais cedo, por isso não terei mais tanto tempo.
Continuem acompanhando, que vai que eu tenha um surto de inspiração e publique mais um capitulo em breve.
Até lá. Bjs.
