Capítulo Cinco - Lar, Doce Lar (A Tout Le Monde)
Harry se acomodou na cadeira de plástico branco do bar. Olhou para o movimento de uma das ruas principais de Paris. Algo com cheiro de queijo podre passou por perto de Harry e este trancou a respiração por alguns segundos.
-Então... Presumo que vocês também não tenham nenhuma novidade sobre o nosso bruxo terrorista? –perguntou Neville, que tomava uma marca conhecida de cerveja francesa.
Rony fez não com a cabeça e Harry arqueou a cabeça pra baixo. Se sentia confortável por estar no meio de um monte de trouxas ao invés de bruxos. Perto dos trouxas ele sabia que não tinha a mesma imagem exemplo e defensora que tinha perto dos bruxos.
Piscou os olhos rapidamente por uns vinte segundos. Um pingo de suor escorreu da sua bochecha e caiu na sua calça. Sabia que aquele suor não provinha dos surpreendente vinte cinco graus acompanhados do sol escaldante que fazia em Paris, mas sim das quarenta e oito horas sem injetar heroína.
-Há a probabilidade de nosso vilão já ter se aposentado – disse Neville entre um gole e outro de cerveja – ou de ter morrido acidentalmente.
-E nós vamos ficar aqui em Paris esperando por um ataque dele? –perguntou Rony, parecendo levemente irritado. Ao contrário de Harry ele tinha coisas para cuidar e ele não podia ficar naquela cidade maravilhosa por vários meses.
Diga que sim, diga que sim, diga que sim, diga que sim, diga que...
-Não. –respondeu Neville sorrindo. –É hora de voltar pra casa companheiros. Lar, doce lar.
Harry sorriu cinicamente ainda olhando pra baixo. Ele faria de tudo pra não ter que voltar pra casa. Pra ver aquele imundo apartamento desmoronando, pra ver aquela injeção preparada no banheiro... Não, ele não queria. Ele tinha outra opção: Voltar para a Toca, simplesmente o local onde sua mulher morrera...
-Combinamos de nos encontrar as nove horas nessa rua de novo então? –perguntou Neville. –Nossa turnê pela França acaba aqui.
Rony sorriu, parecendo aliviado.
Rony caminhou até um beco, ainda parecendo tremer de excitação, provavelmente para desaparatar. Neville caminhou para o lado contrário de Rony.
-Hey Harry! –chamou Neville.
Harry que já estava quase dobrando a esquina voltou para perto de Neville.
-Eu estou indo para a Torre Eiffel dar uma última olhada. Quer ir junto? –perguntou Neville.
Harry não disse nada, apenas olhou para o horizonte onde mais ao Leste podia ver a Torre.
-Sabe, dar uma relaxada... –completou Neville.
-Não, obrigado. –respondeu Harry com um sorriso falso no rosto.
Neville meneou a cabeça, parecendo um pouco desconcertado, e então partiu caminhando pro seu destino. Harry ainda ficou um tempo encarando a multidão que caminhava pelas ruas de Paris. Lá no céu, o Sol ficou em segundo plano enquanto três trovões chicoteavam as nuvens.
Virou-se e começou a caminhar.
A chuva ainda caía, lavando todos os seus pecados. A franja preta comprida escorria molhada por sobre seus olhos. Com a mão tremendo afastou a franja dos olhos.
A rua estava deserta, principalmente pelo fato de Paris estar quase completamente tomada por água.
Harry respirou fundo, enquanto sentia o corpo inteiro tremer. Ele sabia que os efeitos da abstinência estavam ficando cada vez piores e que não podia fazer nada para impedir. O maior problema é que se sentia infeliz. Se sentia infeliz por ter de voltar para Londres, por ter de cuidar de coisas na sua vida ainda. Queria simplesmente desistir de tudo. Era algo há mais do que morrer.
-Hey cara!
Uma voz grossa ressoou na esquina que acabara de dobrar. Vinha de um beco cruzado pelo meio dos apartamentos altos e luminosos. Harry chutou uma latinha de refrigerante jogada no chão quando se virou para procurar o dono da voz.
O dono da voz era um homem encapuzado, quase acocado no beco. Era branco como um véu e tinha uma barba escura e encaracolada que descia até o meio do peito. Carregava uma mochila preta.
-Hey cara!
-O que você quer? –perguntou Harry tremendo. Havia suor no seu lábio superior.
-Há quanto tempo você está sem?
Harry franziu o cenho. Ele não podia ser tão óbvio.
-Eu não quero nada se é isso que você vai me oferecer.
O traficante barbudo riu, enquanto se levantava e ajeitava a mochila nas costas.
-Você sabe os efeitos? –perguntou o homem rindo sozinho. –Sabe, as dores de cabeça?
Harry desviou o olhar do traficante e seguiu reto pela rua.
-Hey volta aqui! –gritou o homem feio irritado. –Volta aqui seu filho da p***! Eu tenho o que você precisa!
Virou novamente a esquina, tremendo e chorando. Maldito seja. Desmoronou no chão deixando todo o peso do lado da varinha que quase se partiu.
Tremia e sentia choques por dentro. A rua estava deserta, não havia ninguém para lhe acudir. Droga, ele não podia desmaiar. Estava quase se convencendo que não iria morrer. Iria simplesmente sentir aquela dor pelo resto da vida.
Se levantou com dificuldade, as pernas bambas. Voltou para o beco onde o traficante estava escondido.
-O que você tem aí? –perguntou.
