Caítulo 8 - Farol do Amanhã

Então você acorda, sente uma dor chata próximos das costelas, olha para o lado e pensa:
-As coisas vão mudar logo.

Mais tarde, no colégio, me deparei com Lira invadindo a sala de música.

-Galera, encontro no Farol sexta!

E ela saiu feliz, vibrando.
Continuei compondo a música, pensando em como seria estar na festa com a senhorita popularidade.

"Amando tão docemente teus lábios

Enquanto todos presenciam nossa festa

Já sei que não sou o teu fardo

Compreendo que nosso amor é o que resta"

Na sexta-feira, dia do evento, passei mais cedo na casa da Mary.

Admito, sentia saudades dela. Mas não conseguia correr sentido aquela dor, incomodava demais, por isso passei a semana em repouso.
Como ela estava dormindo, joguei pedrinhas na janela. Tinha visto aquela manobra em algum filme de comédia romântica e decidi tentar.

Funcionou, ela acordou, só pra variar, com o cabelo todo desarrumado e perguntou a razão de eu não ter aparecido nos últimos dias.

-Desculpe não ter vindo antes, não achei um bom motivo pra te encontrar. - Meus olhos fixos nos dela semi-abertos, a cara meio inchada.
-Precisava de motivos? - Ela coçava os olhos, tentando acordar.
-Como você está? - Cortei.
-Bem, obrigada. Mas a questão é como você está, já que apareceu machucado no colégio. - Aquele tom intimidador, tão linda.
-Briga entre garotos, acontece. - De fato, briga entre garotos.
-Que idiota... - Ela soltou um leve bocejo.

Não sei se ela falou de mim, ou do cara.
Fomos até o banco do ponto de ônibus, como sempre. Ela começou a me falar da amizade com Lira.

-Lira é uma ótima pessoa. - Concordei.
-Sim, ela é tão popular, bonita, conhece todo mundo e... Os meninos vivem loucos por ela!

Depois de algum silêncio, ela me perguntou.

-Heiro, você também é afim da Lira?
-Que pergunta, Mary...
-Desculpa.
-Não precisa se desculpar.
-Mas, Heiro, você é afim de alguma garota?

Olhei no fundo dos olhos de Mary, senti meu coração apertado.
Era como se eu sentisse algo forte por ela, como se sentisse que ela me completasse com aquele jeito bobo e desligado... Desde o primeiro olhar.
Naquele momento esqueci completamente do mundo.
Os olhos de Mary contavam histórias lindas a mim, fazendo com que me sentisse bem.

-Não.

Ela parecia cansada.

Apoiou a cabeça em meu ombro e fechou os olhos...

Tive a sensação de que gostaria que ela fizesse aquilo em todas as vezes que a fizesse acordar cedo pra me ver, pensei em bolar planos mirabolantes pra acordá-la mais cedo também, fazendo com que ela ficasse mais cansada e... Ao terminar estes pensamentos, me pegava com um sorriso bobo no rosto, enquanto isso, admirava a imagem de Mary ali, deitada em meu ombro, vez ou outra, passando a mão pelo rosto, como se algo a incomodasse.

E o tempo se foi rápido...
Durante aquele dia de aula ela me parecia ainda mais linda do que de costume.
Já durante a noit, o Farol diante de mim, a praia, o vento, a música.

Uma banda tocando um som pesado, bastante gente, muitos me ignorando, poucos me cumprimentando pela vitória contra Squibe.
Até que ela chegou.
Estávamos próximos o penhasco, o Farol apenas brilhava por detrás de ambos, as estrelas muito visíveis nos céus, em grande quantidade;

-Heiro! - Ela correu, pulou em meus braços.
-Olá, Lira. - E a recebi com um beijo.

Lira era especial para mim, não só por todo o apoio que sempre me dera de longe, mas por ter tido a coragem de sair comigo em um local público, afinal, "todo mundo" estava no Farol, todo o Colégio... Toda a Cidade dos Lírios.

Por outro lado, duvido muito que seus pais sejam favoráveis ao nosso relacionamento, imagine só, uma filha de Chefe da Polícia com o filho de um grande Mafioso.

Estava começando a parecer um romance clichê qualquer, mas era diferente, era só a minha vida.
E durante toda a noite, fomos só eu e ela.

Como um só. Dançando, nos beijando, nos abraçando... Dando um ao outro todo o apoio de que precisávamos.
Aos poucos as pessoas aceitavam que, embora fosse um filho de mafioso, eu ainda era uma pessoa normal.
Outros passaram a ignorar ambos.
De qualquer modo, eu estava bem.

-Heiro, não se importe com eles. E aliás... Adorei o casaco.
-Está frio, não é?
-Sim.

Ela vestia uma calça jeans escura e uma camiseta branca...
E parecia bem mais interessante em meus braços do que na classe, parecia mais bela, mais viva.
Lira realmente gostava de mim, podia sentir o modo como ela me tocava, me abraçava... No modo como não ligava pras outras pessoas, desde que estivesse comigo.

Dei meu casaco a ela.

-Que cavalheiro...
-Acho que o casaco ficou melhor em você.

Enquanto as estrelas continuavam a olhar por nós, permanecíamos abraçados, ao fundo, a noite, o mar...
Uma suave brisa que fazia com que o pesado som da banda de Hardcore parecesse estar longe.
Éramos Lira e eu contra o Mundo.

Contra o nosso mundo.