As conversas desenrolaram-se ao longo da noite sempre com uma certa tensão entre mim e o Tsukasa, no entanto nenhum de nós se sentia desencorajado a continuar, de tal forma que eu tive a audácia de convidar a esposa dele para almoçar no dia seguinte, sabendo que a última coisa que ele queria era que eu ficasse dois minutos sequer com ela.

- O que vos parece almoçarmos amanhã, aqui?- perguntei-lhes.

- Excelente, agora que começámos não podemos parar nunca mais.- afirmou animadamente o Soujiroh.

- Sem dúvida e com a tua colaboração Tsukasa podemos voltar aos velhos tempos. – apoiou o Mimasaka Akira.

Quando respondeu parecia furioso:

- Mas será que vocês não compreendem uma coisa…NUNCA PODEREMOS VOLTAR AOS VELHOS TEMPOS. FORAM DITAS E FEITAS DEMASIADAS COISAS, PARA UM DIA PODERMOS VOLTAR ATRÁS. – as caras dos outros revelavam que ninguém compreendia o que ele queria dizer com aquilo, no entanto eu sabia. Eu compreendia perfeitamente o que ele queria dizer e concordava plenamente, no entanto não seria eu que iria incendiá-lo ainda mais, de forma que fiquei calado e esperei que a Tsukushi o pudesse acalmar.

- Tsukasa até podes ter razão no que dizes mas o que é de relevar no passado é a amizade que nos une. E isso meu caro está presente e é inabalável mesmo com toda a força das circunstâncias. – ficámos todos espantados, até eu que os motivos dele, fiquei surpreso com a veracidade e simplicidade das palavras dela. Acontecesse o que acontecesse a nossa amizade tinha de durar, porque era a única coisa relevante que surgia no passado, contudo estava disposto a destruir a minha amizade com o Tsukasa, em nome da minha própria sanidade mental, eu precisava desesperadamente dela para poder continuar a viver.

- A Tsukushi está coberta de razão Tsukasa, não importa o que aconteceu, se tu casas-te, se tu tens novas responsabilidades, se todos nós crescemos, se o Rui esteve fora…nada disso importa o que é relevante é que continuamos amigos e unidos como sempre, desde que me lembro e existo lembro-me de ser vosso amigo e espero morrer com a ideia que foram meus amigos até ao meu último suspiro.- apoiou o Akira, que pelos motivos que tinha dado mostrava toda a sua ignorância perante os verdadeiros motivos por detrás do ataque de fúria do Tsukasa.

- F4 para sempre é o que todos desejamos.- concluiu o Soujiroh.

- F4 e Tsukushi para sempre. - emendei eu, mesmo sabendo que só iria deixar o Tsukasa ainda mais furioso.

- Exactamente, perdoa-me Tsukushi.

- Sem problema, sei que no fundo continuam os mesmos egocêntricos de sempre. - defendeu-se ela, sorrindo com as sombrancelhas levemente levantadas e um olhar infantil de desdém.

- Pois, pois e tu, no fundo, continuas a mesma atrevida de sempre.- atirou o Soujiroh, piscando-lhe um olho.

- Como vês Tsukasa pela discussão deles continua tudo na mesma, continuamos todos iguais ao que éramos.- disse o Akira tentando mostrar ao Domyouji que a sua reacção era exagerada e irreflectida.

- OK, pensem como quiserem.- disse ele sem mais delongas.- Tsukushi é tarde podemos ir embora? - perguntou-lhe virando-se para ela.

- Claro, tens toda a razão já é tarde e amanhã temos de acordar cedo.- respondeu ela, de uma forma que a mim me pareceu um pouco mais como uma desculpa para se irem embora do que propriamente uma justificação.

Ele pediu os casacos de ambos e eu preparei-me mentalmente para os relembrar do almoço quando o Akira me rouba o protagonismo:

- Não se esqueçam amanhã vocês os dois, que almoçamos aqui à uma e meia, combinado?- avisou-os, sorrindo para eles que já se encontravam em pé.

- Depois logo se vê.- resmungou o Tsukasa.

- Fala por ti Tsukasa, eu venho e espero sinceramente que tu também.- replicou ela olhando para ele de uma forma cortante.

Ele resmungou um pouco para ele mesmo enquanto vestia o casaco e depois lá disse:

- Está bem, está bem, eu vou ver se venho.- concordou por fim. Ela ficou radiante e enfiou o seu braço no dele e encostou a cabeça no ombro dele, com um sorriso leve e feliz nos lábios. Ele com a mão, do braço oposto, procurou a mão dela e agarrou-a, protegendo-a no meio da sua. Não fossem os ciúmes e teria desejado fotografá-los, para eternizar aquele momento, que intitularia por: "Casal jovem e apaixonado, Japão sé".

As marcas do amor, sempre foram especialmente dolorosas, nas vezes que as senti achei que estava a ser marcado a ferro e a fogo e que quando terminasse, aquela dor aguda e insuportável, eu iria acabar gravado com cicatrizes desfigurantes, por todo o meu corpo. No entanto, tal nunca aconteceu e por muito que eu fintasse o meu corpo nu, em frente ao espelho, nunca encontrei uma cicatriz que tivesse origem no amor. Este facto foi um mistério até ao dia em que vi um coração humano, aquele músculo disforme, sangrento e tosco, era tão marcado e irregular, que o homem que em vida o tinha a bombar sangue no seu corpo, deveria ter amado muito, porque ali, no seu coração, estavam gravadas as marcas do amor.

O que iriam ver no meu coração? Conseguiriam identificar onde começavam as marcas da Makino e onde terminavam as marcas da Shizuka? E se ninguém as encontrasse e se o meu coração estivesse perfeito, liso e imaculad, porque para ter marcas era necessário ser amado? Tinha tantas perguntas e eu estava tão longe que nem me despedi deles e quando voltei à realidade, com os gritos do Soujiroh a chamar-me, já eles os dois não estavam lá.

- Onde raio é que tu estavas com a cabeça?- inquiriu o Soujiroh.

- O quê?- perguntei, ainda com o espanto de quem acabou de aterrar vindo de outro mundo.

- Sim, onde é que tu estavas agora que nem nos respondias? Que raio, andas sempre com a cabeça em algum lugar que não a Terra.

- Calma Soujiroh, parece que é a primeira vez, o Rui sempre foi assim. Porquê essa reacção tão drástica?

- Deve estar cansado e com sono, por isso está aborrecido.

- Deixem-se lá de gracinhas... Vamos todos sair todos?

- Não, eu não posso amanhã tenho umas coisas para fazer e não vai dar.- respondeu o Akira levantando-se da sua poltrona e fazendo um gesto para o empregado lhe trazer o casaco.

- Eu também não, estou muito cansado. Afinal saí hoje do hospital.- desculpei-me, levantando-me e pedindo o meu casaco.

- Ok, OK já percebi que vocês hoje não estão para aí virados. Mas tudo bem, aproveito e amanhã de manhã vou ver como estão os preparativos para a cerimónia de chá das festividades natalícias.

- Óptimo, estou ansioso. Este ano vamos estar todos juntos.- disse o Akira.- Não se esquecem amanhã do almoço. - lembrou ele enquanto descíamos as escadas juntos.

- Jamais.- disse eu, era impossível esquecer-me dum almoço com os meus amigos e muito mais improvável esquecer um almoço com os meus amigos e com ela, desejava encontrá-la, novamente, o mais rápido possível. A noite tinha sido tão agradável que só podia antever um dia ainda melhor.

Deitei-me na cama, com os olhos fixos na janela e reflecti sobre tudo o que tinha presenciado naquele jantar e que haveria de ficar guardado comigo, durante muitos anos, quer pelo seu significado como pela sua importância na minha vida, este tinha sido o jantar que marcava um novo começo na minha vida. Nessa noite adormeci facilmente, não sei se motivado pelo meu estado convalescente ou se pelo meu estado de espírito estar mais leve e animado.

O dia amanheceu cheio de sol e quando acordei já o sol ia alto no céu, eram onze e meia da manhã. Tinha tempo suficiente para tomar banho vestir-me e chegar a horas.

Conduzi o meu Buggatti pela cidade e cheguei mais uma vez aos jardins da minha antiga escola. Alcancei o lounge, onde reinava um mesa elegantemente decorada e preprarada para ser servida uma refeição. Sentei-me, puxei um livro e deixei-me envolver pela sua trama.

Primeiro ouvi rir, levantei-me, caminhei até à balustrada e depois identifiquei a sua fonte: era a Tsukushi e o Akira, os dois riam alegremente. Quando me viram a observá-los, ela sorriu radiante e ele agitou a mão também sorrindo.

- Rui, já por aqui.- exclamou o Akira enquanto subia as escadas.

- Porquê tanto espanto, não foi o combinado?

- É a tua pontualidade que me espanta.

- A pontualidade europeia deve de o ter mudado profundamente.- comentou ela, ainda sorrindo para mim.

- Não foi só a mim que as tendências europeias influenciaram. – respondi-lhe enquanto reparava no bom gosto dela: envergava uns jeans simples, uma camisola em lã com um cinto na cintura e uma boina francesa, completava tudo com um sobretudo preto e uma grande mala prateada…estava casual e encantadora. Era de facto impressionanate o camaleão que ela poderia ser ou era.

Ela riu-se e perguntou-me:

- Desculpa estavas a falar para mim?

- Humm… não sei, mas não acho que o Akira esteja assim tão deslumbrante que mereça comentários.

- Oh! Muito obrigadinho, Rui.

- Vamos Akira temos de ser sinceros entre ti e a Tsukushi quem é que está mais encantador?

- Sinceramente… isso nem é uma comparação válida.- interpelou ela, que já tinha atirado o casaco e a mala para o sofá e estava agora de perna cruzada à minha frente.

- Também acho. Não seria justo para a pobre da Tsukushi.

- Akira! - gritou ela fingindo ultraje. - Como ousas diminuir a minha presença magnânima e hipnotizante?- ela hiperbolizava, no entanto para mim nada poderia ser mais fiel à sua descrição.

- Pronto meninos, não vamos brigar. Peço desculpa Akira por não ter comentado o teu bom gosto. Estás muito bonito.

- Ahahahaha...- riram os dois.

- Estou morta de fome.- exclamou ela.- Será que o Soujiroh ainda demora?

- O Tsukasa não vem?- perguntei-lhe.

- Não, ele não deu a certeza, mas duvido que venha.- respondeu-me de uma forma tão despreocupada que me fez sorrir, animado pela despreocupação dela e pela ausência dele.

- Se ele vier é apenas por tua causa Rui.- afirmou o Akira, enquanto me fintava calmamente. Fiquei assustado com as palavras dele, será que ele sabia de alguma coisa? Teria o meu desejo sido desvendado por ele?

- Porquê?

- Bem porque se durante estes anos ele não veio nem por mim, nem pelo Soujiroh ou pela Tsukushi se ele hoje vier é apenas por ti. És tu o único elemente novo na equação.- ri, de uma certa forma, aliviado e olhei para ela que pareceu-me subitamente ausente.

- Mas digam-me do que se estavam a rir quando chegaram?- inquiri, apenas para chamar a sua atenção.

- Eu estava a contar à Tsukushi como é o Natal lá em casa. Que todos os anos é o mesmo inferno com as gémeas.

- Eu lembro-me. Não acredito que elas com esta idade continuem a abrir os presentes antes da data.

- Acredita. E para piorar a situação a minha mãe compra cada vez mais e mais presentes para ter a certeza de que pelo menos um é aberto única e exclusivamente na noite de Natal. Enfim é uma situação de loucos.

- Eu já disse ao Akira que não deve de encarar a situação assim, é natural as mulheres terem curiosidade eu mesma tenho um certo problema em resistir a caixas fechadas, embrulhos ou tudo o que possa envolver um mistério.

- Vocês mulheres têm demasiados problemas.- atirou o Akira.

- Claro, o problema é sempre do sexo feminino. Não te iria matar veres o quão bizarro tu e os teus amigos são Akira.

- O que queres dizer com isso?

- Por favor, o vosso medo por compromissos, mulheres reais e relações afectivas está longe de ser normal.- enumerou ela com os dedos da mão.

Eu permaneci calado, a observá-la defender o sexo feminino com unhas e dentes.

- Talvez isso não acontecesse se vocês fossem menos complicadas e problemáticas.

- Bem vejamos de quem é verdadeiramente o problema se teu ou das mulheres. Existem milhares de casais casados, milhares de namorados, etc. no entanto tu continuas assim. Ou seja, existem milhares de homens que ignoram os problemas exagerados das mulheres ou então as mulheres não tem problemas exagerados como afirmas e tu é que tens algo de nocivo.

- É por isso que eu gosto sempre de almoçar com ela.- confidenciou-me o Akira, que estava sentado ao meu lado.- Tem sempre o bom gosto de me fazer estas coisas antes das refeições, para evitar que eu tenha uma indigestão.

Eu e ela rimos e foi ela quem deu outro rumo à conversa:

- Quando é que vai ser a cerimónia de chá de Natal do Soujiroh?

- Dia dezasseis, as horas é que eu não sei. – respondeu o Akira. - Quando ele chegar perguntamos-lhe.

- Estão a pensar fazer alguma coisa neste Natal? Viajar?- perguntei-lhes, pouco animado com a ideia do meu próprio Natal.

- Eu e o Tsukasa vamos para Nova Iorque ter com a irmã dele e os pais dele.- senti-me gelar, nunca tinha imaginado o Natal deles, ele provavelmente devia ficar deliciado com a expressão dela quando a via resplandescer de alegria com o presente dele. A surpresa da cena foi tanta que só tive reacção para abanar ligeiramente a cabeça e emitir um som de acentimento.

- Prometi às gémeas que as levava, este ano, à Disneyland Paris .- hoje não era definitivamente o meu dia, agora Paris, dentro de momentos estaríamos a falar sobre o casamento da Shizuka e do meu insucesso sentimental.

- Quantas vezes é que elas já lá foram este ano?- inquiriu a Tsukushi levantando-se e começando a caminhar para a janela.

- Não faço ideia, umas três no minimo. Somos o país com os melhores parques de diversões, no entanto elas têm de atravessar meio mundo para ficarem satisfeitas.

- Vá não sejas tão duro com elas, vocês meninos ricos são assim temperamentais e coquetes.

- Digam-lhe que sim, senão ninguém almoça hoje.- disse o Soujiroh que tinha acabado de chegar e nos surpreendeu a todos com a sua imperceptível chegada.

- Oh ! Perfeito ainda bem que chegaste!- disse ela, pulando rapidamente do sofá e dirigindo-se para a mesa.- Estou morta de fome.

- Se não fosses tu estaríamos a levar com uma lição de moral sobre como é mau ser rico.- fofocou o Akira com o Soujiroh.

- Hey… nunca disse que era mau ser rico, apenas digo que grande parte das pessoas se deixa corromper pelo dinheiro e pela vida luxuosa, desprezando outros valores.- defendeu-se ela, já sentada na mesa, com o menu nas mãos.- Agora se quiserem discutir mais sobre o assunto terão de esperar até eu saciar a fome, estou quase a desmaiar.

- Credo, parece que estás sempre esfomeada. Não comeste nada ao pequeno almoço?- inquiriu o Akira que já estava sentado na cadeira que tinha ocupado na noite anterior.

- A não ser que ela tenha tido tanta actividade matinal que tenha ficado sem reservas nutricionais.- brincou o Soujiroh. Ora realmente, só me faltava a imagem da vida sexual dos Domyouji para completar o meu dia, quem me dera não ter compreendido a metáfora do Soujiroh, para não ter de o imaginar junto a ela, a tocar-lhe na pele e a sentir-lhe a respiração nas costas, quando ela se agarrava a ele durante o sono. Como poderia ele ter tudo aquilo e no entanto desprezá-lo de uma maneira tão terrível?

- Estás cada vez mais descarado, Soujiroh.- repreendi-o, baixando a cabeça e colocando o guardanapo no colo.

- Rui, não te devias dar ao trabalho de responder. Ele gosta de saber como é a vida de um casal e não sabe como perguntar.- afirmou a Tsukushi, que olhava ternamente para o Soujiroh, fazendo o Akira rir a bandeiras despregadas. Eu não me ri, apenas sorri…a imagem dela deitada com o Domyouji ainda me pairava na cabeça.

- Muito interessante a conversa, mas tenho de a interromper.- começou o Akira.- Como estão os preparativos para a cerimónia de chá?

- Acho que vai estar tudo pronto a tempo. Agrada-me bastante a sala.

- A que horas vai ser.- perguntou-lhe a Tsukushi.

- Em princípio às quinze horas. Vais arranjar maneira de arrastar o Tsukasa contigo?

- Achas isso possível?

- Tu tens os teus meios.- interpelou o Akira. - Ou de outra forma ele nunca se teria casado.

- Ahahaha. - riu-se ela.- Falas como se eu tivesse feito pressão para ele se casar comigo.

- Não nada disso, apenas me referi que senão fosses tu não existiria mais ninguém.

- Isso é uma suposição deveras exagerada.- respondeu-lhe ela. Era isto que mais me perturbava saber que ela era única, que senão fosse ela, ele muito provavelmente não seria o que é hoje, que continuaria a ser um ser humano frio, cruel e egoísta. O facto de eu saber que ele precisava dela e que também eu precisava dela era desconcertante. Não fosse o meu coração dizer-me que ele não a merecia porque a desprezava e talvez não tivesse aguentado a dualidade e dificuldade do nosso triângulo amoroso.

- Por favor, Spaghetti Carbonara, salada primavera com molho vinagrette e água mineral.- ouvia pedir, outra vez tinha perdido o resto da conversa divagando nos meus pensamentos.

Os pedidos seguiram-se e eu ainda não tinha decidido quando ouvimos alguém subir as escadas apressadamente.

- Bom dia!- exclamou o intruso.

- Tsukasa!- exclamou ela claramente radiante por o ver e levantando-se rapidamente para ir ao seu encontro. Não é que eu não soubesse que ela o adorava, mas sempre que estava sozinho com ela, sem a presença do Domyouji podia mais facilmente fingir que tal não era verdade.

- Eu não acredito que tu estás aqui a esta hora.- comentou o Soujiroh, tão chocado como o Akira, que se virou para mim e disse:

- Como vês ele veio por ti.- no entanto não fui o único a ouvir aquilo.

- Sim, eu vim por ele.- confirmou o Tsukasa agora abraçado à Tsukushi.- Por ele e não só.- acrescentou agora olhando para ela e beijando-lhe a testa. E ficando-lhe a sussurar qualquer coisa que eu não consegui perceber. Devo ter ficado azul de ciúmes, não fossem todos os olhos estarem cravados neles os dois e eu, muito provavelmente teria sido descoberto.

- Nem vou comentar para não estragar o nosso almoço.- atirou o Soujiroh, claramente insatisfeito com as declarações do Tsukasa.

- Sim, também acho melhor.- concordou o Akira.- Senta-te Tsukasa que ainda estamos a fazer os pedidos.

- Isso são modos de me receberem.- reclamou o Tsukasa enquanto se sentava.- Deixo o meu trabalho para vir almoçar com vocês e tratam-me dessa maneira.

- Tsukasa não faças dramas, por favor.- repreendeu-o a Tsukushi.- Não temos de estar agradecidos pela tua presença.

- Ah ah ah.- riu-se o Soujiroh claramente satisfeito com a intervenção dela.

- Vês o péssimo exemplo que dás aos playboys dos teus amigos?- perguntou-lhe ela.

- Ãh?- indagou ele, claramente não compreendendo onde é que ela queria chegar e fazendo-me intervir por ela.

- A Tsukushi acha que estes dois têm curiosidades sobre casamentos e como vocês são os únicos casados aqui…

- Mas então têm um óptimo exemplo. Duvido que encontrassem um casamento como o nosso: feliz e para sempre.- afirmou, fintando-me atentamente.

- Não podes falar da eternidade, estás longe dela.- contra-argumentei.

- Posso estar longe mas conheço o suficiente do meu casamento para saber que a eternidade é nossa.

- Ah! Estás apenas a supor e além disso o que é hoje pode não ser amanhã.

- Rui, tu não sabes do que falas, algo tão grandioso como o nosso amor não muda. Mas tu não podes saber isso, pois não?

- Talvez perceba melhor do que tu julgas.

- Desculpem, mas estou cheia de fome será que vocês os dois podiam encomendar para começarmos a comer?- implorou ela, que parecia não estar ciente do que se passava ali ou de outra forma a intervenção dela não teria sido tão indiferente.

Fizemos os pedidos e começaram as conversas paralelas. Reparei que o Tsukasa levou os dedos dele ao lábio da Tsukushi e o afagou levemente enquanto lhe dizia qualquer coisa que mais uma vez ficava entre eles, tal como a resposta que ela lhe deu.

- Então Rui? Vais ou não hoje connosco à inauguração do restaurante?- inquiriu-me o Akira.

- Ãh!? Desculpa… acho que não, tenho outras coisas para fazer hoje.- respondi-lhe apressadamente, desviando a minha atenção do casal à minha frente para ele.

- Nem sabes o que vais perder, vai ser uma festa daquelas.- tentou aliciar-me o Soujiroh.

- Acredito que sim, mas hoje não vai dar.

- Melhor ainda, assim não tens tanta competição Soujiroh.- interviu o Akira, dando uma ligeira pancadinho no ombro do outro.

- Como se eu tivesse problemas com isso.

- Por favor, estamos a comer podem parar de ostentar a vossa virilidade de uma forma tão explícita.- queixou-se ela fazendo-me rir com a sua expressão, era mesmo típico dela não ter meias medidas.

- Como queira, minha senhora.- proferiu Soujiroh gesticulando no ar uma vénia com a mão.

- Tsukasa dia 16, às três da tarde, vamos todos à cerimonia de chá de Natal do Soujiroh, vens connosco?- perguntou-lhe o Akira enquanto enfiava o seu garfo na salada de rúcula com alface.

- Não sei, tenho de ver a minha agenda.

- É Natal, vê se arranjas tempo.

- As coisas não são assim tão fáceis, Akira.

- É uma verdade mas existem coisas pelas quais vale a pena fazer um esforço.- argumentei eu.

- Tens toda a razão, Rui.- concordou o Tsukasa sorrindo maliciosamente.- E eu tenho todos os bons motivos para fazer esse esforço.- acrescentou mas sem o sorriso anterior, claramente queria atingir-me com as suas palavras.

- Hummmm….- ouvimo-la murmurar, a expressão dela era tão deliciosa quanto o sabor que ela devia estar a experimentar na altura.

- Comer contigo, Tsukushi, dá-me ainda mais prazer.- confessei-lhe, deixando os olhos do Tsukasa a arderem contra mim e ela a engasgar-se levemente.

- Tens toda a razão, ela quando come faz com que pareça que está a ter a melhor refeição do mundo.- apoiou-me o Akira.

- Isso é porque de facto estou a ter a melhor refeição do mundo.- disse depois de ter engolido e bebido um pouco de água.

- Tu com os teus exageros.- comentou o Tsukasa, sorrindo pelo canto da boca.

- Não estou a exagerar é verdade, vocês não compreendem porque não sabem apreciar o que têm. Todas as refeições que comemos são únicas e consequentemente as melhores do mundo.

- O que faz uma coisa única ser necessariamente a melhor coisa do mundo.- perguntei-lhe fixando-lhe os olhos atentos e doces dela.

- Tu mesmo disseste, é o facto de ser única. Se é única não existe em lugar no mundo coisa que se lhe compare, não existindo comparação ou semelhança tornasse assim numa das melhores coisas do mundo.

Ela tinha-me respondido e eu não sabia o que lhe havia de dizer, fiquei a ponderar no que ela me tinha dito. Se algo é único não existe forma de comparar com nada, não é possível dizer que A é melhor do que B e obter no fim a melhor coisa, porque A e B não são comparáveis. Ela tinha razão no entanto as melhores coisas do mundo estão quase sempre associadas a coisas boas. Quem me garantia que, aquela coisa única, a melhor coisa do mundo era realmente boa? O que não falta no mundo são coisas únicas que não são boas, são apenas únicas.

- Não vais comer?- perguntou-me ela.

- Claro, estava apenas a pensar no que me disseste.

- Foi assim tão mau que te tirou o apetite?- ouvia-los por debaixo da nossa conversa, no entanto só ouvia a voz dela e sentia-me completamente absorvido na conversa, como sempre ela prendia a minha atenção de uma forma única e exclusiva.

- Mau? Estás a ser modesta, sabes muito bem que não foi mau, foi apenas controverso.

- E porque é que achas que é tão controverso? Afinal é apenas uma opinião pessoal.

- Tens razão reformulei mal a minha opinião. Tu és uma pessoa controversa. – ela soltou uma gargalhada sonora e deixou-me deliciado a vê-la inclinar ligeiramente a cabeça para trás, ostentando o seu delicado e delicioso pescoço. O Tsukasa entrou instantaneamente em acção, colocando um fim à nossa conversa particular.

- O que é assim tão engraçado ?- perguntou-nos, ela ignorou-o e eu provoquei-o.

- Uma piada privada Tsukasa, apenas isso.

- Piadas privadas com mulheres casadas, devias medir as tuas palavras Rui.- recomendou-me ele.

- Credo Tsukasa. – disse o Soujiroh, com um ar exageradamente reprovador. - Com tanto conservadorismo, vais acabar na pré-historia moral.

- Oh! Não o ofendas, a cabecinha dele não dá para mais.- gozou-o a Tsukushi, enquanto agarrava a mão dele que estava pousada em cima da mesa e a afagava gentilmente.

- Muito obrigado Tsukushi, és de facto a esposa que qualquer homem deseja.- disse ele ironicamente, sem perceber que aquilo não era uma ironia porque era pura e simplesmente uma verdade.

- Amén.- brincou o Soujiroh.

- Soujiroh ela pode abusar, sou casado com ela agora tu.. tu devias ter um bocadinho mais de cuidado.

- Ciúmes Tsukasa?- perguntou-lhe o Akira.

- Motivos não lhe faltam para ter ciúmes.- disse eu, pousando calmamente o copo de água, que tinha levado aos lábios.

-O que queres dizer com isso Rui?- perguntou-me ele com os olhos a faíscar, segurando com demasiada força a faca que tinha presa na mão.

- Não existe nada pior do que falarem de nós como se nós não estivessemos presentes.- queixou-se a Tsukushi, que depois se levantou posou o guardanapo na mesa e acrescentou.- Tsukasa eu posso não ser uma mulher de sonhos, mas vocês concerteza que não são uns príncipes encantados. – depois sorriu maliciosamente para nós e disse que ia ao toilette.

- Ainda bem que não levo as coisas realmente a peito senão teria ficado realmente magoado, Tsukushi.- gritou-lhe o Soujiroh, quando ela já descia as escadas.

- Esta miúda ainda vai ser a minha morte.- brincou o Soujiroh, dirigindo-se ao Tsukasa.

- A minha também…a minha também – respondeu-lhe ele olhando pensativamente para mim. Mentalmente eu repeti as palavras dele: ela também seria a minha morte.

- Com tanta morte vou ter de acabar por formar com o Hanazawa Rui o F2.

- Não tenhas assim tanta certeza.- contrariou-o o Tsukasa.

- O quê? – perguntou-lhe o Akira que claramente não tenha percebido a razão daquele comentário. O Tsukasa sabia que também eu haveria de morrer pela Tsukushi logo eu não estaria vivo para formar com ele o F2, mas o Akira não sabia disso e por isso estava tão espantado com a interrogação do outro.

- Ah! Senão percebeste não vou ser eu que te vou explicar tenho mais do que fazer.- exclamou o Tsukasa irritado.

- Ok! Não se fala mais do assunto. Por vezes a ignorância é uma benção.- retorquiu o Akira, que me surpreendeu quando escondeu o seu olhar de sábio por detrás de uma chávena de café.

- Sábias palavras, Akira.- congratulei-o eu, pensando o quão melhor seria se na minha vida não tivesse tido conhecimento de algumas coisas. Como teria sido bom se eu nunca tivesse descoberto que a Shizuka me tinha traído, quando saí pela primeira vez de Paris; como teria sido agradável não saber que o Domyouji era loucamente apaixonado pela Tsukushi… isso iria, sem dúvida, poupar-me muitas dores de cabeça.

- Como podem defender filosofias baratas? Se estivessem a viver no paraíso dos tolos, iriam lamentar serem os últimos a não saberem. Por muito má que seja a verdade é sempre melhor do que a ignorância, que nos cega. Vejam o que me aconteceu, nunca quis averiguar se a Sara era realmente apaixonada pelo meu irmão, por medo da resposta e vejam o terrível mal entendido que aconteceu.- explicou o Soujiroh, cujo coração naquele momento se abria e nos alertava para um erro fatal, um erro que o tinha incapacitado para a vida. As palavras dele obrigaram-me a pensar, no reverso da moeda, ou seja na ignorância e nas suas consequências: quando ignorei a dimensão do meu amor pela Tsukushi e deixei o tempo passar e deixá-la envolver-se, cada vez mais, com o Tsukasa ou quando não soube que a Shizuka me enganava e apenas prolonguei a nossa união, por si só já morta.

Ao regressar do toilette, a Tsukushi encontrou a mesa em profundo silêncio de meditação.

- O que aconteceu?- interrogou-nos, enquanto se voltava a sentar.

- Nada.- respondeu-lhe o Tsukasa que agora se debruçava sobre ela e lhe beijava o pescoço, fazendo com que a minha pele se arrepiasse e os meus olhos sentissem um súbito fascínio pela sobremesa que tinham à sua frente.

- De todos nós Tsukasa, tu serás sempre o mais afortunado.- comentou o Akira.

- Ainda bem que o reconheces.

- Ao menos sabes porquê?

- Motivos não faltam, basto ser eu para ser mais afortunado.- respondeu insolentemente, como tantas outras vezes o tinha feito.

- Não é dificil de imaginar. Tu és o mais afortunado de todos nós porque a tens a ela.- respondi-lhe eu, apontado para a Tsukushi, que me fintou com uma expressão de surpresa no delicado rosto.

- Exactamente.- confirmou o Akira.

- Não é apenas ele que é afortunado eu também sou. Afinal ele e eu estávamos destinados um ao outro.- proclamou ela, interpelando o Tsukasa e impedindo-o de responder.

- Começo a ficar enjoado com tantas declarações de amor.- gozou o Soujiroh, deixando-me a pensar que a declaração tinha um ponto de verdade, pelo menos para mim. Enjoava-me a forma como ela declarava o seu amor por ele, enjoava-me a forma como ele a tocava, a forma como ela olhava para ele , no fundo enjoava-me tudo o que envolvesse o amor deles.

- Ciúmes é um pecado mortal.- criticou o Tsukasa.

- Se o Soujiroh morresse por cada pecado mortal que ele comete estaria na sua enésima reencarnação.- exclamou ela, fazendo-nos rir.

- Oh! Os pecados são o sal da vida.- filosofou ele como resposta.

- Nem todos.- corrigiu o Tsukasa. - Adoraria poder ficar mais com vocês, mas não posso, ao contrário de vocês eu tenho responsabilidades e desde que cheguei o meu telemóvel ainda não parou de tocar.

- Nesta altura o teu escritório deve estar a arder. Não o edíficio todo deve estar a arder… é melhor mesmo ires a correr, não existem bombeiros neste país. – ironizou ela, que claramente não tinha gostado do comentário dele e deixando-me a pensar no que ela não teria gostado dele: se o facto dele se ir embora ou se pelo facto dele ter dito que nós não fazíamos nada ou talvez ainda pelo simples facto dele se estar a gabar.

- Se tivesses realmente consciência da minha responsabilidade não brincarias com isso.

- Não sei como não poderia estar a par disso, afinal durmo contigo todas as noites, quando dormes.

- Ora aí está.. não tens consciência disso porque és demasiado burra para perceberes.

- Sim, eu sou burra e tu és demasiado estúpido por não conseguires ter tempo para nada.

Enquanto discutiam, os olhos dela faiscavam e os dele brilhavam de excitação, deixando revelar que para ambos aqueles confrontos particulares eram os seus jogos privados preferidos, entre eles os confrontos eram profundas manifestações de entendimento e amor.

Por esta altura já o Akira e o Soujiroh conversavam sobre outra coisa, claramente tão habituados aos duelos deles que já nem se davam ao trabalho de prestar atenção.

- Vens ou não?- perguntou o Tsukasa à Tsukushi.- Estou aqui a perder tempo contigo: "Time is Money".

- Que não seja por isso, cherrie.- disse ela enquanto abria a grande mala prateada, para retirar uma carteira e depois atirar algumas notas para cima do Domyouji.- Aqui tens, money.

- Aha aha aha aha ah. – riam os outros dois, eu estava demasiado absorvido na complexidade da cena para deixar as emoções fluírem, isso ou os ciúmes tinham congelado o meu sentido de humor.

- Ora aí tens o que querias. Já deste o teu show, agora vem. Eu deixo-te na universidade.

- Show? Aqui quem se está a comportar como uma diva és tu.

Ele levantou-se fez sinal para lhe trazerem o casaco dele e disse:

- Anda, pega no teu casaco.

- Tsukasa eu não soutua emmpregada, para me dares ordens.

- Antes fosses, eras bem mais disciplinada.

- Estás errado, se fosse apenas tinha pavor de ti.

- Tsukasa ela é mais teimosa que tu, pede-lhe desculpas e acaba logo com isso senão nunca mais saís daqui.- aconselho-o o Soujiroh.

- Está calado.- ordenou sem tirar os olhos da esposa, que tinha ido resgatar o casaco de cima do sofá.

- OK. Vamos embora ou ainda fazes algo mais estúpido que tu próprio. – disse-lhe.- Desculpem meus queridos. Se precisarem de alguma coisa telefonem-me.- acrescentou, pegando na mala e fazendo o sinal de um telefone com o polegar e o dedo mindinho. Ao sentir que ela se ia embora fiquei em pânico e subitamente levantei-me e disse:

- Tsukushi eu preciso de ir à universidade para ir tratar de uma papelada não queres vir comigo? Assim tu não perdes tempo, Tsukasa. – acrescentei com um ar inofensivo e desinteressado.

Ela fintou-me, pensou durante uns minutos e depois recusou o meu convite, deixando-me a mim insatisfeito e satisfazendo plenamente o seu marido, que logo a agarrou pelo cotovelo e se despediu:

- Adeus a todos. Foi um prazer.

- Até para o ano Tsukasa.- despediu-se Soujiroh.

- Quem me dera.- respondeu-lhe o outro.

- Bom trabalho. - despediu-se sensatamente o Akira.

Eu apenas lhes acenei com a cabeça enquanto os via a descer as escadas juntos (continuavam a falar num tom bastante mais rápido do que seria normal). Ela tinha recusado a minha boleia e tinha, mais uma vez, preferido a companhia dele, a história da minha vida.