CAPÍTULO 8

{Decidida}

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Por Severo.

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Ela segurava minha mão, mesmo fraca ela se mantinha ali, ao lado da cama. Eu olhava para o seu rosto pálido e me perguntava se ela não sofreria nada com o veneno que havia penetrado em seu sistema. Queria tanto poder perguntar isso a ela, mas a voz havia me abandonado.

Por vezes ela tentava me fazer falar, e por mais que eu abrisse a boca, não saia som. Ela sorria e curvando-se sobre mim, beijava minha testa. Eu sentia dor, mas nada se comparava a felicidade de tê-la segura ao meu lado.

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-Por que você fez isso, Severo? –ela perguntou muito lentamente- Você quase morreu, e...

-Você está bem, não está? Era isso que ele queria.

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Alvo Dumbledore estava parado ao lado da porta, olhando-me com a expressão séria e cansada.

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-Professor. –ela sibilou tentando parecer educada- Sim. Aparentemente era isso que ele desejava.

-E você? O que você deseja em relação a ele?

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Velho sacana, esse Dumbledore. Aproveitando-se da minha impossibilidade de ação para encurralar Monique nas suas teias de palavras. Dumbledore será azarado na primeira oportunidade que eu tiver.

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-Desejar? Em relação a Severo? Eu não desejo nada. Tudo o que eu quero dele eu tenho, no momento em que eu quiser, da maneira que eu quiser.

-Mas você sabe que isso é errado, não sabe? Sabe que foi numa situação assim que você veio parar aqui.

-Não. Não foi numa situação assim, professor. A pessoa com quem eu lidei não é nada comparada a Severus Snape. –disse ela inflando meu ego sensível de Sonserino.

-Monique, veja bem o que vai fazer. –ele disse- Veja bem se é isso o que você deseja, marcar-se novamente por algo tão ruim...

-O senhor está insinuando que Severo é algo ruim?

-Não falo de Severo. Falo do preconceito e das injustiças que podem ocorrer a vocês dois. E você agiu muito mal, mocinha. Fugindo da escola, embrenhando-se na floresta? O que achou que fossemos fazer? Torturá-la?

-Pior que isso. Achei que fosse ser expulsa novamente. E isso é algo que eu não quero sequer ter que lembrar.

-Eu entendo que seja difícil para você, mas as suas escolhas ferem os costumes e principalmente as regras sob as quais Hogwarts é gerida.

-Se é assim... –ela falou lentamente, desafiando Dumbledore- Eu me retiro de Hogwarts.

-Como disse, Monique?

-O senhor me ouviu com perfeição, diretor. Eu tenho conhecimentos em Magia o suficiente para passar nas NIEM's de Durmstrang em Junho. Além do mais, eu sou maior de idade segundo essas leis que eu ando ferindo por ai... –ela desdenhou.

-Vai abandonar os estudos e as possibilidades de carreira?

-Minha carreira está assegurada, senhor. Eu tenho algumas posses para pagar o curso de auror no Ministério assim que eu obter os NIEM's. Há um hotel trouxa em Londres do qual eu em agrado muito e será lá que eu me hospedarei enquanto não consigo um apartamento.

-Você não pode decidir sua vida assim... –eu estava encantado com a falta de palavras de Dumbledore- E sua família, Monique?

-Minha família? Que família? –a voz dela soou ressentida- Eu não voltarei para aquela casa de comensais. Eu não faço parte daquilo, nunca farei.

-Monique...?

-Está tudo bem, senhor. Assim que Severo estiver melhor eu vou desocupar o meu leito na Sonserina e só peço que eu possa aparatar para Londres em paz. É isso que eu quero.

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E em silencio, o diretor saiu e eu daria meu dedo mindinho para ver a cara dele, estupefato, sem reação, sem palavras diante do meu doce furacão que rugia em sotaque francês mal disfarçado.

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Por Monique

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Olhei para Severo, que estava com a face lívida de assombro. Tentei ignorar aquele formigamento estranho no meu estomago e sentei-me ao lado dele, na cama. A mão vacilante pousou sobre o meu colo e segurou a minha.

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-Como pode ser tão forte assim? –ele sussurrou fracamente- Como pode desafiar Alvo Dumbledore com tanta desenvoltura?

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Eu apenas sorri para ele, aliviada por ouvir sua voz macia e aveludada, que eu tanto amava. Curvei-me sobre seu peito e beijei-lhe levemente os lábios. Ele estremeceu enquanto fechava a mão em torno do meu rosto.

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-Eu preciso que você me diga que está bem, Severo...

-Eu estou melhorando, Monique, não se preocupe comigo. Papoula é muito eficiente.

-E você não se preocupe comigo. –enfatizei a ultima palavra- Eu sei o que estou fazendo, querido. Não tenho amor por esta escola e já deixei Beauxbatons uma vez, ou seja, isso aqui perto do que aquilo foi, não é nada.

-E eu? –ele perguntou tristemente- Como ficamos?

-Eu acabei de me desmembrar da Escola, ou seja, não sou mais sua aluna, Severo.

-Monique... Nós precisamos muito conversar. –e agora ele parecia preocupado demais.

-Ouça... Relaxe, descanse, eu ficarei aqui com você até que esteja bem o suficiente pra voltar pros seus aposentos. Depois eu vou partir, mas eu me corresponderei com você todos os dias, se for de sua vontade...

-Monique, eu tenho uma casa em Londres e existe também a... –ele hesitou pensativo- A sede da Ordem da Fênix.

-Severo, eu preciso ficar sozinha por um tempo. Eu quase achei que você estivesse me convidando a ficar hospedada na sua casa. –e ri.

-Mas eu estava. Eu gostaria muito, mas eu entendo que você considere isso um passo muito grande a ser dado...

-Eu realmente gosto daquele hotel do qual falei. –eu disse aninhando-me no seu peito largo e macio- Então a Ordem da Fênix está ativa de novo?

-Sim.

-Bom, eu tenho informações e nomes para vocês, principalmente a respeito de partidários franceses. Inclusive, meus pais.

-Façamos o seguinte, Monique... Você fica na minha casa pelo menos até eu estar bem o suficiente para ir até lá. Nós conversaremos sobre tudo isso e... você decide o que é melhor.

-Severo, o que as pessoas vão dizer?

-Não achei que você se importasse com isso. –ele soltou uma risadinha muito baixa- e eu só quero que você fique segura. Estamos em tempos muito atribulados e você ficar sozinha num hotel é algo que vai me tirar o sono, Monique.

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Eu me senti a coisa mais frágil e delicada do mundo quando ele falou aquilo.

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-Eu já falhei em protegê-la uma vez, e não farei isso de novo. Por favor, aceite. Você terá um elfo doméstico e poderá sair sempre que quiser. A casa não é linda ou luxuosa, mas é confortável, fica perto do Tamisa e tem uma biblioteca que tenho certeza que você vai gostar.

-Está bem, querido, eu aceito.

-Mesmo?

-Sim. –eu disse, e segura no seu abraço, eu me entreguei ao torpor que partia do meu ventre até a ponta dos dedos. Não sei se desmaiei ou adormeci, mas sei que não me lembro de mais nada.

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Quando abri os olhos eu estava deitada numa das camas da enfermaria. Meu corpo inteiro parecia que estava amassado e enfiado numa garrafa. Eu mal podia me mover, mas virei o rosto o suficiente para enxergar Severo sentado numa poltrona ao lado da cama, lendo um livro, concentrado o suficiente para não notar que eu estava desperta. A capa do livro dizia "Venenos Potentes e Antídotos Não Tão Potentes Assim".

Sorri um pouco, mesmo com meu rosto semi paralisado. Estávamos em posições invertidas da que estávamos na ultima vez que o vi.

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-Severo? –minha voz morreu na primeira silaba, deixando que as outras soassem como um sussurro engasgado.

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Rapidamente ele largou o livro e aproximou-se. Algo em seu rosto denunciava um pavor que eu não podia compreender. Certamente meu corpo retomaria os movimentos quando o veneno fosse eliminado e a leve dor que eu sentia, passaria.

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-Não se mova. –ele disse aflito puxando as cobertas sobre mim e sentindo a temperatura da minha testa.- Dói alguma coisa?

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Meneei um "não" coma a cabeça, mas não parece tê-lo convencido.

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-Não quero enganar você. –ele disse bastante sério- Estamos preocupados. Dumbledore, Minerva, Papoula e eu. Acho que você sabe, mas veneno de Acromântula é mortal e não tem antídoto. Conseguimos estabilizá-lo com algumas poções e feitiços, mas você ainda está meio paralisada... e eu não sei... –ele parecia desalentado e tomado por um desespero contido, talvez para não me alarmar. –Mas não se preocupe. Há de haver alguma coisa em algum lugar, não se preocupe. –e afagou os meus cabelos, afastando-os do meu rosto.

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E se ele estava dizendo eu acreditaria em cada palavra, mesmo com a expressão dele me enviando ondas de medo e seus tremores me fazendo ter idéias nada agradáveis de como seria minha vida, ou se eu teria uma. Fechei os olhos e tentei afastar esses pensamentos da minha mente, já que era tudo o que eu poderia fazer por mim. Relaxar, confiar nele e esperar, sem dúvidas a segunda era a coisa mais fácil para mim naquele momento.