Título Original: A Feast in Azkaban
Autora: Nyx Fixx
Shipper: Remus/Sirius
Gênero: Geral/Drama
VIII.
Naquela manhã acinzentada e úmida havia três dementadores na cela de Sirius. Eles pertenciam ao terceiro turno de uma maratona de intrusão psicológica, agulhadas e fantasmagórica picadas com suas cobiçosas perguntas. As criaturas ficaram ali, atormentando-o, durante toda a noite e Sirius muito cansado para continuar se opondo aos seus desejos ávidos, optou por se retirar daquela dança forçada. Na cela agora havia apenas Padfoot, encolhido contra uma das paredes, seus olhos pálidos fechados e o focinho escondido próximo ao rabo. Ele estava quase adormecendo, descansando confortavelmente em um dos cantos mais distantes das criaturas úmidas que flutuavam próximas a janela, mas suas orelhas ainda se erguiam de leve por causa de alguns pequenos sons, e ocasionalmente suas patas se contraiam.
Sirius não sabia por que ele ainda era capaz de usar este resquício de magia; a mais complexa que ele já aprendera. Ele já estava preso ali há seis anos agora, era o precioso bichinho de estimação dos dementadores, e por causa disso quase não se lembrava até mesmo dos mais simples feitiços.
Ele se lembrava, vagamente, do primeiro feitiço que lhe haviam ensinado a fazer com uma varinha, uma lição de mágica comum e elementar para qualquer criança – fazer fogo.
Seu pai o havia ensinado, e fora tão fácil, ele fora capaz de se agarrar tão rapidamente àquele foco mental e as peculiares alterações mentais praticadas pela própria força de vontade, que parecera que ele houvera nascido já sabendo como fazer aquilo. Para ele tudo parecera muito mais com brincar do que realmente alguma espécie de afazer. Seu pai ficara muito satisfeito com a natural aptidão do pequeno filho, mas também ficara um pouco contrariado com o quão pouco esforço isso lhe custara. Então ele obrigou Sirius a repetir o feito perfeitamente diversas vezes para só depois admitir que o filho aprendera apropriadamente. Esta repetição sem sentido tirara de Sirius toda a diversão e gosto de novidade que a magia a princípio parecera possuir, mas muito tempo depois, ele tornara-se capaz de conjurar uma chama em qualquer tempo, sobre qualquer condição: completamente bêbado, ou mortalmente doente, ou de cabeça para baixo, ou sentado em um bote no meio de um lago em meio a um temporal.
Agora, entretanto, ele imaginava que poderia estar dentro de um poço de petróleo trouxa no meio de uma densa floresta, e ainda assim precisaria de um fósforo para ter fogo.
Mas contrariando tudo isso, ele parecia ainda ser capaz de encontrar a trilha de magia que o levava até Padfoot, talvez a razão para isso estivesse no fato de esta ser uma mágica mais carregada de paixão e instintos, algo que reinava sobre a lógica e a vontade própria.
No passado, há muito tempo atrás, quando ele estivera cuidando de Remus durante uma péssima transformação, e ficara conversando com ele suavemente para desviar seus pensamentos da dor, Remus lhe perguntara, em seu jeito tímido e quieto, como era se tornar Padfoot. Como Moony soara triste quando lhe questionara isso; Sirius na época estivera completamente desatento em como essa perguntara soara desejosa. Moony sabia que nunca em sua vida poderia experimentar tal jornada. Sua própria transformação era forçada por uma maldição, o Lobo rude e abruptamente impunha sobre ele sua própria natureza doentia. Assim, como é que ele poderia explicar animagia para Remus, que era alguém que constantemente lutava a beira de um precipício para manter íntegra a concha de humanidade que possuía, sendo que ser tornar um animago era como tentar abrir mão disso?
Se tornar Padfoot era como revirar a própria identidade, trazendo o que estava dentro de si para fora; mas Remus ao contrário dele fazia isso literalmente, fisicamente, todos os meses. Sirius no passado, ficara envergonhado em dizer o quão fácil era para ele se tornar um animago em comparação ao que Remus passava, mas ainda assim ele descrevera fielmente o processo.
Agora, em Azkaban, Sirius tinha que lutar sua própria guerra interna. Rastejando, constantemente, para longe das garras dos avarentos dementadores que a todo instante assaltavam sua própria identidade. Ele descobrira que seus pensamentos e emoções estavam começando a ser desesperançosamente roubados, e que ele estava começando a se esquecer de quem ele era, restando-lhe apenas Padfoot, que era o máximo que ele conseguia se aproximar de estar vivo.
Padfoot estava descansando agora, tomando facilmente o repouso que Sirius precisava desesperadamente, mas que não conseguia enquanto era o objeto da enamorada atenção de seus guardiões. Eles o idolatravam e o cobiçavam, e Sirius tinha que admitir para si mesmo que ele seria a menina dos olhos dos dementadores se estes possuíssem olhos ou qualquer valiosa delicadeza além da própria miséria. Sua monstruosa afeição não podia ser colocada de lado, e de tempos em tempos Sirius mal conseguia pensar nisso sem se sentir tentado a começar a gritar.
E se ele algum dia começasse a fazer isso, ele acreditava que havia uma boa chance de que ele nunca mais fosse capaz de parar.
Sirius…fale com a gente. Sirius.
Sirius?
A simplicidade de Padfoot e as distantes nuances de seus profundos pensamentos eram confusas para os dementadores. Eles conseguiam sentir a enorme familiaridade do grande cachorro preto com seu prisioneiro favorito, e até mesmo que as mais pequenas memórias eram iguais. Mas Padfoot nunca era atingido tão agressivamente pelas criaturas como seu alter ego era. A sensibilidade canina de Padfoot podiam ser chocantemente brutais, mas nunca machucavam, e não havia nela nenhuma malícia ou fraqueza ou arrependimento.
Sirius? Você consegue nos ouvir? Porque não nos responde?
Sirius?
Sirius?
A aflição e a proximidade do desapontamento no chamado dos dementadores teriam dado a Sirius uma amarga satisfação, se ele as tivesse escutado. Mas Padfoot se interessava muito pouco nessas malditas coisas que flutuavam dentro da cela, apodrecendo o cheiro e provocando uma indesejável algazarra. Ele estava satisfeito em ter encontrado um lugar dentro da cela para descansar, longe o suficiente do ar frio e úmido que entrava pela janela, e ele planejava comer os resquícios de comida largadas dentro de uma vasilha perto das grades, isso quando os dementadores se cansassem de chamar e implorar e finalmente fossem embora. Padfoot estava levemente tentado a expulsá-los de seu território rosnando e latindo, e certamente ele os mataria se pudesse. As várias facetas da identidade de Sirius ainda existiam na consciência de Padfoot, e isso era mais do que suficiente para ele identificar as criaturas como inimigos mortais. Mas Sirius havia deixado também para trás algumas específicas inibições, e Padfoot sabia que ele estava estritamente proibido de latir ou atacar.
E ele realmente não desejava morder aquelas coisas instáveis e fungantes. Elas não cheiravam bem.
Padfoot e Sirius sempre haviam convivido em uma espécie de estranho e mútuo equilíbrio. Quando o cachorro ascendia, alguns pensamentos do homem ainda persistiam, guiando seu temperamento e ocasionalmente iluminando sua simples inteligência canina. E quando o homem ascendia, algumas coisas que o cachorro enxergava como verdadeiras cores emolduravam o que ele via.
Padfoot algumas vezes ficava impaciente com as bizarras impressões, com os cansativos e complicados conceitos e restrições que Sirius deixava para trás em sua cabeça. Um bom cachorro era um animal maravilhoso, leal, amoroso, protetor, bastante engraçado, frequentemente charmoso e um ótimo amigo. E Padfoot, como ele mesmo sabia, era um ótimo cachorro. Mas um cão é também um predador, e havia sido designado, através de vários milhares de anos de evolução, a caçar e matar uma presa com mortal eficiência. Até mesmo a mais adorável e doce natureza de um cachorro possuía uma faceta assassina.
Sirius? Sirius? Sirius?
Sirius ..?
Sirius não estava mais presente para ouvir os chamados e as súplicas intermináveis deles. E Padfoot não podia se importa menos com o quê eles tinham a dizer. Umas das memórias de Sirius de repente inundou Padfoot e ele foi sugado para um transe suave, e ele pensou, com uma satisfação grogue, em como participara ativamente de grande parte das coisas que Sirius se lembrava.
Notas da Tradutora: Sim, faz um tempinho que atualizo, mesmo tendo prometido ser rápida. Peço desculpas por isso. Final de semestre e sempre essa baderna e acaba não tenho tempo nem para respirar.
Bem quero agradecer imensamente as reviews e espero que tenham aproveitado igualmente este capítulo. Ele é bastante curtinho e serve mais como uma transição, mas logo logo postarei a continuação que será uma nova memória de Sirius, contando sobre como foi que ele acabou indo parar na casa de James após fugir de casa.
De todas as formas, quer dizer um obrigada enorme a:
Moony-sensei: Quem bom que gostou da forma como a história foi cosntruída. Foi exatamente isso que me atraiu nela, principalmente por ser bem redigida e pela autora não ter nos polpada em momento algum de riquezas de detalhes. E sim, só mesmo o Sirius para conquistar um bando de dementadores taradões... bem a cara dele né? Haiuhaiuha Obrigada pela review e desculpa pela demora.
Lis Martin: Sim, super tarados, mas também, quem não quer um Sirius Black? E uhh, vc me deu vontade de ver A Fantástica Fábrica de Chocolate. Ahiauhiaa Oommmpaaa Looompasss! xD
