Não foi sequer preciso que ressoasse o sinal que indicava o fim das aulas para que os alunos já começassem a se agitar. E, assim que o som foi soado, muitos já se precipitavam para a porta, antes mesmo do professor dar qualquer permissão de que poderiam fazê-lo. Um homem baixinho, que deveria estar entre seus quarenta anos de idade e levemente calvo soltou um suspiro cansado, murmurando um "Podem se retirar" enquanto terminava de arrumar seu material. Se pegou perguntando o que havia acontecido com os jovens daquela geração para desrespeitarem as autoridades, e que em sua época não era assim que as coisas funcionavam.

Em uma das primeiras fileiras, Arthur ainda se encontrava arrumando seus pertences lentamente, para evitar o aglomerado de pessoas que se formava no prédio da universidade ao término das aulas da manhã. Lentamente um japonês se aproximou de Arthur, mantendo-se em pé ao seu lado, sorrindo generosamente ao ouvir o suspiro cansado que o inglês havia acabado de deixar escapar.

- Apenas mais alguns meses, Kirkland. – o homem disse de maneira suave, não podendo deixar de se divertir com aquela cena – Logo esta matéria irá acabar. É realmente cansativo decorar tantas—

- Não estou cansado da matéria, Kiku... – o japonês não pareceu surpreso com tal resposta, dando dois pequenos passos para trás ao dar espaço para que o inglês se levantasse - ...Mas sim destes alunos. Mais de cinco anos nesta faculdade e ainda agem como adolescentes.

- Sociável como sempre. – Arthur elevou uma sombrancelha, notando o bom-humor no qual seu colega se encontrava no momento, não podendo deixar de sorrir junto com o oriental.

- Então creio que somos dois.

O moreno abriu um sorriso sereno. De fato possuía dificuldades de socialização por conta de sua grande timidez e inteligência, que muitas vezes eram vistas como rudes pelas demais pessoas. Foi Arthur quem tomou a primeira iniciativa de socialização com Kiku ao perceber o interesse do outro por literatura inglesa. A partir daí havia surgido uma simpatia singela que, com algumas xícaras de chá e interesses literários em comum, se fortificou com o tempo. Apesar da proximidade de ambos, raramente se encontravam fora do perímetro universitário por conta da extensa rotina de Kiku Honda, que se alternava entre seu emprego de meio-período e severas sessões de estudo. Ainda assim, os dois homens desfrutavam da companhia um do outro, no qual se mostrou bastante agradável e proveitosa, e pretendiam manter tal relação ao término da faculdade.

- Apesar de tudo, sentirei falta daqui. – a delicada mão do japonês apertou mais os livros que carregava, enquanto olhava com carinho pela janela, em direção à grande área verde atrás do prédio onde se encontravam – Eu me sinto realizado de ter sido capaz de chegar onde estou.

Um sorriso singelo se abriu no rosto do inglês. Este já obtivera a confiança de Kiku para ouvir sobre sua família e dificuldades, e do quanto o japonês trabalhou para poder estudar nos Estados Unidos por conta própria. Sua família não podia sustentá-lo, tendo que viver de extensas horas-extras e da generosidade de seu chefe que, ao tomar conhecimento das dificuldades que Kiku enfrentava, não pôde ter uma reação diferente se não a de procurar ajudá-lo com o que estivesse ao seu alcance.

Já em frente ao prédio, Arthur depositou sua mão no ombro fino do moreno, o apertando de leve antes de soltá-lo novamente.

- Devo dizer que você tem todo o direito de se sentir assim. Creio que nós dois percorremos um grande caminho até nos encontrarmos onde estamos hoje. – De maneira desajeitada, o inglês bagunçou os próprios cabelos, olhando com uma certa irritação para o edifício que haviam acabado de sair. – Mas não consigo entender de onde vem todo este sentimentalismo, Kiku, pois eu ficarei genuinamente feliz em sair daqui.

Sem conseguir esconder um sorriso ao ouvir o comentário do inglês, Kiku apenas se curvou levemente para frente, se despedindo. Mesmo Arthur nunca tendo lhe falado os motivos de sentir tanto ódio pelo curso que fazia, Kiku era bastante perspicaz e perceptivo, já tendo uma certa ideia de qual seria tal motivo. Murmurou um "até logo" enquanto seguia para o caminho oposto ao de Arthur.

O dia estava, de fato, muito bonito. Há dias o céu só se encontrava carregado, algo um tanto raro para aquela época do ano. Arthur se pegou perguntando que tipo de ligação Alfred possuía com os céus, pois o americano simplesmente se recusava a tocar seu violão em baixo da chuva. Após muita conversa com o gerente da loja de discos, conseguiram a permissão para tocarem em baixo da lona que cobria a entrada do local, mas ainda assim Alfred se mantinha teimosamente preso no quarto da pensão, tocando de maneira melancólica enquanto olhava para a parede.

Com a perspectiva de finalmente tocarem naquela noite, um sorriso não pôde ser impedido de se abrir no rosto do inglês enquanto subia calmamente as escadas da pensão. Não precisou sequer abrir a primeira porta à direita para poder ouvir os sons acanhados de violão que insistiam em sair pelas finas paredes. Abriu a porta lentamente, passando despercebido pelo americano que, sem seus óculos, econtrava-se em frente à janela de olhos fechados, tocando alguns acordes de maneira hesitante.

A comparação daquele momento feita por Arthur, por mais ridícula que fosse, não poderia deixar de ser verdadeira. Em sua mente, a imagem de um pequeno pássaro tentando voar estava selada enquanto ouvia aquela melodia. Podia sentir a música harmoniosa, talvez um tanto quanto desajeitava entre manter-se calma ou rápida, mas ainda assim agradável. E de repente, como se o pequeno pássaro batesse suas asas de maneira errônea e desvencilasse de seu caminho por alguns segundos, um acorde que simplesmente não combinava com a harmonia da música era tocado e era audível o suspiro de frustração que emanavam dos lábios de Alfred.

- Toque mais lentamente – a voz de Arthur soava séria, enquanto seus olhos se encontravam igualmente fechados. O americano se exaltou ao ouvir repentinamente a voz do outro, preparando-se para se levantar e comprimentá-lo, mas a voz grave e segura de Arthur ressoou no quarto com urgência – Toque, Alfred. Mas de maneira mais lenta.

Hesitante por alguns segundos, o americano segurou novamente seu violão, permitindo-se viajar com sua própria melodia novamente. Seguindo o pedido de Arthur, tocou os mesmo acordes que estava tocando anteriormente, mas desta vez mantendo o ritmo lento. Por ter mais tempo entre uma nota e outra, os erros se tornaram menos frequentes, apesar de ainda ressoarem uma vez ou outra por ainda não saber muito bem o que estava fazendo.

E foi então que Arthur começou a murmurar uma canção. Não havia letra ou consistência em seu ritmo, mas as notas soavam harmoniosas ao serem acompanhadas pelo violão de Alfred. O americano sorriu, satisfeito com a forma que sua música estava adquirindo, e conseguiu se manter consistente em seus acordes, apenas repentindo-os várias vezes até que Arthur se mantesse igualmente consistente em seus murmuros. Quando ambos já estavam acostumados com a base da canção, foi como se tivesse sido selada de maneira silenciosa a concordância de ambos em continuar a música dalí. Arthur arriscava algumas mudanças de tom em seus murmuros, enquanto Alfred mantinha-se no ritmo original da música. Foi apenas quando o inglês trocou os murmuros por "la"s que Alfred arriscou-se juntamente com este, criando o que mais tarde se tornaria o ponto alto daquela melodia.

Ficaram arriscando notas e acordes, letras e tons pelo que talvez fossem horas. Mantinham-se em tal sincronia que, para qualquer pessoa que resolvesse entrar por aquela porta, acharia que estavam se comunicando de alguma maneira, por mais que nenhuma palavra sequer houvesse sido pronunciada. Foi quando Arthur abriu seus olhos, abrindo sua maleta com tal rapidez que o resto de seu material encontrava-se espalhado pelo chão. Pegou uma página aleatória de seu caderno e uma caneta, rabiscando os acordes tocados por Alfred, o compasso da música, assim com um protótipo de letra, onde setas que seguiam por todo o papel indicavam pequenas anotações sobre cada acorde, com pequenos comentários sobre que tipo de palavras usar, assim como temas diferenciados para o que mais tarde se tornaria a letra da música. E com um grande suspiro, Arthur indicou que havia terminado, e Alfred igualmente cessou seu violão. Passaram alguns segundos apenas se fitando, com grandes sorrisos esboçados por ambos. Ninguém ousou quebrar aquele silêncio que havia se instalado no quarto. Mesmo que suas mentes estivessem cheias de comentários que gostariam de fazer, cheios de expectativas quanto ao que acabaram de compor, o primeiro passo não foi tomado por nenhum dos dois.

- Alfred, Yao pediu que eu avisasse para você que não haverá jantar no quarto dele por uns dias pois... – A voz de Francis morreu ao perceber o silêncio que se encontrava o quarto, e com o choque que se transpassou na expressão de ambos – Oh, perdon! Não percebi que havia interrompido algo. Continuem, por favor.

E a porta se fechou de maneira lenta, enquanto os loiros mantiam-se completamente parados, apenas tentando processar tudo o que havia acontecido.

Arthur foi o primeiro a rir audivelmente, sendo seguido não muito depois por Alfred. O rosto pálido do inglês rapidamente se tornou vermelho, e após muitas tentativas fracassadas, ainda tentavam cessar suas risadas.

- Este maldito sapo! – ainda era possível ouvir pequenos risos que insistiam em escapar pelos lábios do inglês ao pronunciar tais palavras – Algum dia eu o mato. Ele simplesmente estragou todo nosso esforço em nos mantermos emocionados pela música que acabamos de criar!

- Sim, eu sei! Isso foi realmente inesperado! – a risada de Alfred era a mais histérica, apesar de que apenas o rosto de Arthur se encontrava extremamente vermelho. O americano secou algumas lágrimas que insistiram em transpassar seu rosto, depositando seus óculos sobre seu rosto novamente e olhando em volta, ainda sem conseguir esconder seu sorriso – Aliás, que horas são? Eu perdi minha noção de tempo desde que começei a tocar hoje de manhã!

- Quando cheguei era por volta de meio-dia e meia... bloody hell! – Arthur exclamou legitivamente surpreso ao olhar seu relógio, que apontava quatro da tarde e alguns minutos, no qual com o choque do momento sequer se deu ao trabalho de olhar – Estamos há quase cinco horas compondo esta música!

- Mas cara, valeu totalmente a pena. – Alfred abriu um grande sorriso, lançando um olhar carinhoso para seu violão, guardando-o encostado no armário – Bom trabalho, Emily!

- Emily?! – Arthur pareceu confuso por alguns segundos, como se pudesse jurar que o elogio estava sendo dirigido à si – Por acaso este é o nome do seu violão?

- Oras, a não ser que seu nome também seja Emily e eu não saiba, é sim. – as sombrancelhas de Arthur se encontravam franzidas, realmente incomodado com a ideia de chamar-se Emily, enquanto observava Alfred dar um pequeno beijo em seu violão – Ela é minha companheira de guerra! Já passamos por muitas coisas juntos. Oh, talvez você esteja com ciúmes? Posso lhe dar um beijo também se for o caso, mas seria muito estranho cara.

- Nem em um milhão de anos, seu pirralho!

Com um olhar e sorriso travesso, o americano engatinhou em direção ao inglês, que lentamente ia para trás com medo do que estava prestes à lhe acontecer. E como se um combate houvesse se iniciado, Alfred pulou em cima de Arthur, fazêndo-lhe cócegas por todo o corpo. O rosto já escalarte de Arthur se encontrava incrivelmente idêntico à um tomate, enquanto ria audivelmente e pedia piedade ao americano. Este, em resposta, apenas mantinha sua boca em uma imitação perfeita de um peixe, fazendo barulhos de beijo enquanto ignorava os pedidos do inglês.

Foi quando um grande tapa o antingiu e Alfred caiu no chão, massageando sua bochecha enquanto olhava irritado para Arthur.

- Isso doeu! – os óculos do americano deslocaram lentamente para o lado, enquanto sua bochecha se encontrava incrivelmente vermelha pelo tapa – O que diabos foi isso?!

- I-Isso foi culpa sua! Eu pedi para que parasse. – ainda soltava alguns risos alternados com sua respiração descompassada, enquanto ajeitava suas roupas que haviam sido completamente bagunçadas – Mas de qualquer forma, desculpe-me. Vamos, vou lhe levar para almoçar para compensar por isso.

- Ver você rindo que nem uma hiena já foi recompensa o bastante para mim. – desta vez um soco proposital foi depositado no ombro de Alfred, mas ele apenas riu – Ah, vamos! Nunca tinha visto você rir daquela forma antes.

Como se não tivesse sequer ouvido tal comentário, Arthur virou seu rosto corado para a direção oposta do americano. Ele mesmo não conseguia se recordar de ter rido de tal forma desde que conhecera Alfred. De fato não se lembrava de ter o feito em muitos anos, e tal pensamento se tornou levemente deprimente. Afinal, ele não era tão ranzinza assim! Ou será que era?

Deu um suspiro audível, tentando evitar pensar em tal assunto, já abrindo a porta do quarto. Memórias calorosas dos últimos meses lhe vieram à mente, mas logo foram substituídos pelas descobertas de poucos dias atrás. Corou fortemente e engoliu em seco, tentando evitar pensar em tal assunto. Mas olhou para trás, observando enquanto Alfred rapidamente trocava de blusa e apenas uma frase ressoava em sua cabeça.

"Você o ama"

Ainda podia ouvir o tom de voz paciente na voz de Francis ao pronunciar tais palavras, o que inesperadamente o deixava irado. Ele estando certo ou não, Arthur não poderia de forma alguma deixar tal sentimento tomar forma, e muito menos que Alfred percebesse que havia algo a mais nos sorrisos esboçados por Arthur quando estavam juntos.

- Não irei fazer a mesma proposta duas vezes. – Arthur já descia as escadas da pensão.

- Já estou indo!

Alfred fez um biquinho irritado, enquanto pegava rapidamente seu casaco e saía porta afora juntamente com o inglês.

- Arthur! Por quanto tempo mais você vai ficar com raiva de mim?

Os dois andavam de volta para a pensão em uma cena bastante peculiar. Arthur se encontrava na dianteira, a muitos passos longe do americano, e seu semblante era incrivelmente irritadiço, enquanto Alfred corria apressado para alcançá-lo, mas o inglês sempre acelerava seus passos, tornando tal tarefa quase impossível.

Quem passasse por eles na rua riam de tal cena, alguns até olhavam com reprovação por acharem que se tratava de alguma briga de casal. Mas a situação era, de fato, quase isso.

- Vamos Artie! Não fique irritado! – À menção do apelido de Arthur, sua irritação pareceu piorar – Eu não tenho culpa se você se ofereceu para pagar o almoço!

- Até onde eu me lembre, eu me ofereci para pagar um almoço, e não alimentos o bastante para um urso ser capaz de hibernar! – Arthur se virou e encarou Alfred, com seu rosto totalmente vermelho pela raiva – Pelo amor da rainha Alfred, você pediu três hamburguers, duas batatas fritas grandes, um refrigerante grande e um milkshake! Sem contar nesta bendita sacola com mais dois hambuguers que você carrega.

- Mas eu te disse que estes são só pro jantar! – Arthur ignorou tal comentário, apenas continuando a andar. – Vamos Artie!

Já se encontravam em frente à pensão, e subiram as escadas ainda em tal situação. Arthur entrou no quarto e fechou a porta, deixando Alfred para trás.

- Ah, qual é! Agora você já está exagerando. Vamos Arthur, eu pago o jantar para você se este é o caso-

Antes que Alfred pudesse terminar sua sentença, a porta se abriu. O seu violão foi jogado em sua direção, no qual o americano o pegou com todo o cuidado que possuía. Logo depois a imagem de Arthur pôde ser vista saindo do quarto, logo atrás do violão.

- Vamos sair para tocar um pouco mais cedo hoje, e não quero ouvir reclamações.

Mesmo com o inglês dizendo aquilo e sabendo que lhe devia ao menos um favor pelo que havia acabado de fazer, um suspiro cansado pôde ser ouvido através dos lábios americanos, mas Arthur apenas o ignorou, depositando a boina listrada de Alfred em sua própria cabeça. O americano soltou um pequeno assobio, no qual não passou despercebido por Arthur.

- Esta boina. – Alfred parecia responder a expressão confusa que estava estampada no rosto de Arthur – Ela fica muito melhor em você do que em mim. Aceite como um presente. – Alfred lançou uma piscadela para Arthur, logo depois sorrindo – Ah, mas precisamos dela para recolher o dinheiro ainda!

Com seu olhar preso nos olhos de Alfred, o inglês não pôde evitar de corar fortemente com o comentário. Ainda não estava acostumado com seus sentimentos, os quais havia tomado conhecimento há apenas poucas noites atrás, e o elogio do americano simplesmente não ajudava em sua situação. Seu rosto se encontrava corado pela vergonha e felicidade do que foi dito pelo outro, mas também pela raiva de estar com um sentimento no qual, racionalmente, não gostaria de sentir. Alfred acabou por corar também, simplesmente não entendendo o por que de tal reação por parte do inglês, deixando um clima tenso e silencioso entre os dois.

Mas, após saírem da pensão, tudo parecia ter voltado ao normal, inclusive Arthur já não parecia mais com raiva pelo acontecido do almoço. Puderam então caminhar em paz, rindo como sempre e soltando pequenos insultos entre os dois, nos quais eram revidados com pequenos socos ou até mesmo grandes doses de sarcasmo. Estavam, em outras palavras, agindo normalmente.

Caminharam até a loja de discos, onde ambos se posicionaram em seus lugares habituais. Alfred afinava seu violão, apoiado sobre a pequena bancada de cimento que havia ao lado da loja, enquanto Arthur depositava a boina no local habitual, repassando mentalmente os covers dos quais estavam acostumados a fazer. Uma pequena dúvida transpassou pela mente de Arthur, e este ficou ao lado de Alfred para poder murmurar tal pergunta, sem serem ouvidos por ninguém.

- A música de hoje. – o americano mexeu sua cabeça em concordância – Quer tocá-la agora? Posso improvisar uma letra.

Alfred pareceu ponderar por alguns segundos, mas logo depois abriu um grande sorriso.

- Não. Vamos guardá-la como nosso trunfo secreto! Sabe, igual quando um herói é quase derrotado, mas libera aquele poder especial e inesperado derrotando...

- Eu já entendi o que você quis dizer Alfred.

- ...enfim. Vamos guardá-la para um show especial. Assim vamos conquistar o coração de todos e as gravadoras irão implorar pelo nosso talento!

Arthur nada disse, apenas riu com a visão infantil de Alfred sobre como funcionava o mundo, mas não pôde deixar de, no fundo, desejar que aquilo realmente acontecesse. Pensamentos confusos sobre seu próprio futuro e lembranças ruins de sua infância transpassaram sua mente, apesar de que tentasse a todo custo não pensar em tais coisas no momento.

A expressão deprimida de Arthur não passou despercebida por Alfred, que apenas franziu seu cenho enquanto o observava. Sabia que até há pouco tempo o inglês estava feliz. Se perguntava o que havia passado na mente do outro para ter tal expressão tão de repente, mas quando esticou seu braço para puxá-lo para si, um grupo de adolescentes se aproximou, soltando pequenos gritos ao verem os dois.

A dupla de músicos se surpreendeu ao mesmo tempo, enquanto lançavam olhares confusos um para o outro se perguntando o que diabos estava acontecendo. Alfred deu de ombros, tocando as cordas de leve para ter certeza de que o violão está afinado.

- Eu disse que ele era lindo!

- Cala a boca, não vê que o outro consegue te ouvir?!

- Ahh, que vergonha!

Novos risinhos ressoaram pela rua, e Arthur franziu o cenho observando as garotas. Quando Alfred levantou seu rosto para observar se Arthur estava pronto para começarem e avistou as garotas o fitando, abriu um grande sorriso, querendo ser cordial à sua platéia.

Arthur soltou um suspiro audível. As meninas pareceram surtar ainda mais, algumas se encontravam vermelhas de vergonha enquanto outras riam audivelmente, criando uma leve irritação no inglês. Mas sentiu a mão de Alfred em seu ombro e, quando olhou para trás, viu um sorriso ainda maior do que o anterior ser projetado no rosto de Alfred. As palavras "podemos começar?" soaram como um sussurro em sua cabeça, pois a atenção do inglês estava voltada para outra coisa no momento. Sentiu uma imensa vergonha o invadir porque de fato sabia o que aquele grupo de cinco garotas estavam sentindo. Os cabelos loiros-escuros de Alfred, que desciam gentilmente por sua testa, assim com seu grande sorriso que era simplesmente de tirar o fôlego, e as orbes azuis... Aqueles lindos olhos nos quais já havia sonhado tantas vezes fitando seu corpo, encarando os olhos verdes com luxúria...

Sentiu seu corpo se aquecer, assim como seu rosto. Quando voltou à si, Alfred estava com uma expressão confusa, e seus lábios formavam um biquinho bastante infantil. Abriu e fechou sua boca algumas vezes, sem conseguir pronunciar uma palavra sequer.

- Artie, você está bem? Está com febre? – Alfred estendeu sua mão em direção à testa do inglês, no qual respondeu afastando-a imediatamente

- N-Não, eu estou bem. – Podia sentir o americano o encarando, e tratou de virar o rosto para evitar corar ainda mais. Respirou fundo, fechando os olhos para se concentrar melhor – Vamos começar.

Ainda sem acreditar nas palavras do inglês, Alfred o encarou por alguns segundos para ter certeza de que seu vocalista não estava doente. Arthur desviava seu olhar, fazendo um esforço imenso para retirar aquela coloração de seu rosto, que parecia dominá-lo sempre que estava perto do americano. Por fim Alfred desistiu, dando um grande suspiro e olhando em volta, percebendo que uma considerável multidão havia se formado em volta dos dois, aguardando pacientimente o início do show.

- Bom, se você diz... então um, dois, três...!

Os dedos de Alfred deslizavam habilidosamente pelas cordas do violão, enquanto seu pé batia no chão juntamente com o compasso da música. Arthur, além de cantar, era responsável também por manter o público entretido e animado com as apresentações, então se pôs à bater palmas enquanto os que assistiam trataram de acompanhar.

Quando todos já batiam palmas ao ritmo acelerado da música, Arthur se pôs à cantar. A música era um cover de rock, diferente dos que estavam acostumados à fazer. Mas o inglês demonstrou a versatilidade de sua voz, cantando perfeitamente no tom grave da canção.

Moedas eram jogadas em direção à boina listrada, enquanto Arthur retribuía com uma leve piscadela em agradecimento aos tão gentis espectadores. Balançava seus braços, ia de um lado para o outro e certas vezes fechava a mão como se segurasse um microfone, parecendo realmente o vocalista de uma banda de rock. As músicas foram seguindo, uma atrás da outra, uma mais agitada que a outra, até que a noite começou a cair. Haviam dado uma pequena pausa de dez minutos para respirar e tomar um pouco de água. Arthur mal havia voltado com duas garrafinhas geladas, jogando uma para Alfred enquanto tentava recuperar um pouco do seu fôlego, quando sentiu uma mão em seu ombro.

Ao se virar, abriu um sorriso maior ainda, o que acabou assustando seu amigo, que era tão acostumado às expressões ranzinzas que Arthur demonstrava na faculdade.

- Kiku! O que faz aqui?! – Deu um grande gole em sua água, respirando fundo logo depois – Já está voltando para casa?

- Sim, meu turno se encerrou faz poucos minutos. – um gentil sorriso se projetou no rosto do oriental, retirando um pequeno papel de seu bolso – Eu recebi uma pequena proposta e creio que possa agradar à vocês dois. – Lançou um olhar acanhando em direção ao americano, logo depois sorrindo para Arthur como se pedisse um favor – Poderia chamá-lo?

- Ah, é claro. Alfred! – o americano, que estava distraído conversando com uma das garotas que assistiam a seu show, olhou surpreso em direção à Arthur, caminhando em sua direção – Este é Kiku Honda, meu amigo da faculdade. – o oriental se curvou lentamente para frente e Alfred repetiu o gesto apenas com sua cabeça, sem entender muito bem qual a razão de tamanha formalidade – Ele trabalha aqui na loja de discos no turno da tarde. Parece que tem uma proposta para nós, é isso?

- Isso mesmo, Kirkland. – Alfred engoliu um riso que insistia em aflorar ao ver o tamanho respeito no qual Kiku tratava Arthur, recebendo em resposta uma cotovelada do inglês – Nós recebemos bastantes panfletos na loja sobre boates, bares musicais, dentre outros estabelecimentos. Combina bastante com o conteúdo da loja e pode representar novas oportunidades para músicos. De qualquer maneira... – Kiku entregou um pequeno panfleto para Arthur, que o lia com curiosidade – Um conhecido meu irá abrir um restaurante aqui por perto. Não é algo muito formal, servem comida italiana e alguns petiscos, mas seu alvo é o público jovem, e estavam procurando alguém que quisesse tocar por lá. – neste momento, Alfred já havia tomado o folheto da mão do inglês, que o olhava com reprovação – Eu deveria deixar os panfletos na loja, mas resolvi perguntar se não estariam interessados? Caso contrário, devo pregar o panfleto na loja agora mesmo. Mas garanto que vocês são o tipo de pessoa que eles procuram.

O japonês abriu um sorriso gentil mas teve pouco tempo com tal expressão. Logo seus ombros foram tomados pelos braços americanos, que balançavam o oriental de um lado para o outro, rindo histericamente. Kiku limitou-se à corar e gaguejar que aquele tipo de contato era impróprio, mas sua voz calma e gentil foi abafada pelos gritos animados de Alfred.

- Mas é claro que aceitamos! Esta é uma oportunidade de ouro! – Finalmente havia se desvencilado do oriental, que soltava um suspiro agradecido – Eu não sei quem é este seu amigo, mas gostei dele. Quando poderemos tocar? Quando é a inauguração? Cara, isso vai ser demais!

- Espere. – A voz de Arthur era tensa e séria. Sua expressão era triste enquanto olhava para o americano, que lhe retribuiu uma expressão confusa. Até mesmo Kiku parecia surpreso com tal reação por parte do inglês, mas limitou-se à apenas observá-lo continuar a falar – Eu... não acho que este seja o momento certo.

- Ah, vamos Arthur! É uma oportunidade enorme esta, e você não vai se perdoar depois caso a desperdice! – abriu um grande sorriso novamente, pegando seu celular – Vamos ligar para este cara italiano e resolver tudo...

- Alfred, me ouça. – A tela do celular foi tampada pela mão cor de leite do inglês, enquanto Alfred parecia cada vez mais confuso com aquela reação –Nós somos uma dupla. Vamos discutir isso com mais calma, sim? Muito obrigado pela proposta Kiku, lhe digo a resposta amanhã.

O japonês se curvou, logo depois indo embora. Alfred observou enquanto a silhueta de Kiku sumia no horizonte, ainda bastante confuso. Limitou-se então a fitar seu vocalista, aguardando por alguma explicação. Era possível ver a expectativa e felicidade sobre o que estava para acontecer nos olhos de Alfred, e ver tal expressão machucou Arthur profundamente. Sem saber por onde começar sua explicação, Arthur coçava sua nuca, mordia seu lábio inferior e demonstrava outros sinais claros de nervosismo, por fim suspirando e tentando disfarçar um sorriso.

- Eu acho que ainda não devemos estreiar assim, profissionalmente. Eu... não sinto que estamos prontos.

- O que você quer dizer, Artie? – era possível perceber o sorriso se esvairindo do rosto americano – Nós esperamos tanto por isso, não foi? É nossa chance! Eu não quero tocar na rua para sempre, eu quero crescer e...

- O que tem de errado em tocar aqui? Temos fãs, um clima agradável e uma boa amizade com o dono da loja. – era visível na expressão de Arthur que ele sabia que aquilo não era o bastante para o americano, mas ainda assim tentou forçar um sorriso –Eu não vejo o por que de...

- Eu quero me tornar um músico profissional, Arthur. Quero viver da minha própria música. E recusar esta chance para mim... é algo que simplesmente não posso fazer! – Alfred puxava sua franja para cima, enquanto andava de um lado para o outro – É meu sonho, Arthur. Meu sonho está prestes à se tornar realidade.

O inglês simplesmente não sabia o que dizer. Se manteve imóvel, de punhos fechados, enquanto olhava para o chão. Sabia muito bem que estava sendo egoísta em privar Alfred desta chance, ainda mais por motivos dos quais pretendia esconder do outro, então não podia se sentir nada melhor do que um idiota. Sabia muito bem qual era o sonho de Alfred, o ouvira falar tão apaixonadamente sobre ter tal oportunidade tantas vezes que seria impossível não saber. Mas também possuía seus motivos. Se não amasse o americano, já teria abandonado aquela cena faz muito tempo. Tinha seus motivos, mas queria realizar os sonhos dele também.

- ...e eu preciso de você, Arthur. – o inglês levantou seu olhar, encarando as orbes azuis que o observavam com carinho – Se cheguei até aqui foi tudo graças à você. Já conversamos muito sobre este tipo de coisa e, mesmo que você não queira me dizer o por que, irei entender caso não queira mesmo se apresentar. Mas eu não irei sem você. Somos uma dupla, não somos? – um sorriso gentil se abriu no rosto do americano, enquanto sua mão deslizava carinhosamente por seu violão – Mas pense bem, Arthur. Isso é algo muito importante para mim. Mas se realmente sente que não estamos prontos, então que seja. Mas acredite em mim quando digo que este é meu sonho, então estou disposto a fazer de tudo para alcançá-lo. Irei praticar mil vezes mais se você acha que ainda não estamos prontos, irei me tornar o melhor músico para ser digno de acompanhar seu vocal incrível!

Tais palavras atingiram Arthur profundamente. Podia sentir o ar escapando de seus pulmões enquanto fechava seus olhos, lembrando-se de como começou a praticar seu canto. Ainda podia sentir o forte cheiro de lavanda de sua casa, assim como enxergar aquela mulher de cabelos castanhos perfeitamente. As cortinas perfeitamente brancas, os móveis belos e intocáveis e uma criança privada de sua criatividade natural.

Seu pai estava no trabalho. Sua mãe, fofocando na casa da vizinha. E sozinho em casa com sua governanta, Arthur estava sentado na mesa da sala, terminando seu dever de casa. Sua expressão era séria e concentrada, chamando a atenção de Elizaveta.

"Sabe, lá na Hungria os garotos da sua idade costumam correr e se sujar na lama por aí." A mulher riu sozinha com suas próprias lembranças, sorrindo para a criança "Não tem nada de errado em fazer sua lição, mas não acha que deveria brincar um pouco?"

Arthur nada respondia, limitando-se à virar a página de seu caderno secamente, ignorando por completo a mulher que sua mãe se referia tantas vezes à "imigrante sugadora de dinheiro".

A mulher apenas sorria carinhosamente, sentando-se na outra extremidade da mesa, enquanto dobrava as roupas e as depositava em um cesto de plástico.

E então começava. Sua voz doce e delicada iniciava uma melodia de uma canção romântica na qual havia escutado no rádio. Não se preocupava muito com a letra, pois seu inglês era coberto de sotaque e muitas palavras sequer entendia, limitando-se a murmurar palavras desconexas em inglês e misturá-las com sua língua materna. Arthur levantava sua cabeça em curiosidade, não passando despercebido pela moça.

"Oras, você conhece essa música?", ela perguntava. Arthur apenas concordava com a cabeça "Então cante comigo! Eu não faço a mínima ideia de qual é a letra dela."

"Mas eu não sei cantar" o garoto respondia, enquanto seu rosto se tornava escalarte pela vergonha. A governanta abria um grande sorriso, aproximando seu rosto do inglês, como se estivesse prestes à lhe confessar um segredo.

"Sabe de uma coisa? Um cantor é alguém que sabe expressar seus sentimentos através de sua voz. A técnica vem com o tempo e prática, mas o contrário não. Apenas alguém que seja sincero sobre o que sente é capaz de se tornar um cantor de primeira. E você é um garoto simplesmente encantador, Arthur. Vamos, cante comigo!"

Um breve momento de silêncio se passou. Arthur ainda estava com seu olhar baixo, enquanto Alfred caminhava nervosamente de um lado para o outro, lançando olhares impacientes em direção ao inglês, mas respeitando sua demora para responder.

Arthur bagunçou seus cabelos, respirando fundo. Colocou as mãos em seu bolso, virando seu rosto para o lado a fim de evitar o olhar do americano.

- Está bem. Acho que é uma boa oportunidade – um pequeno sorriso se abriu em seu rosto – Afinal, não é como se estivéssemos dando um show no Times Square, não é mesmo? É só um pouco de cantoria em um bar.

Alfred logo fez questão de puxar o inglês para um abraço, o levantando do chão tamanha sua felicidade. Ria alto enquanto bagunçava o cabelo do outro, ignorando os protestos de Arthur para ser posto de volta no chão.

- Mas não pense que não chegaremos lá! – deu uma piscadela para Arthur, pegando seu violão em seu colo – E como chegaremos! Arthur, Alfred e Emily, o trio mais famoso dos Estados Unidos e em breve do mundo!

- É impressão minha ou você acabou de contar seu violão como um integrante da banda?

Alfred fez um biquinho irritado, enquanto Arthur abriu um pequeno sorriso. É, realmente não seria tão mal assim. Sentia-se aliviado ao ver a reação do americano, que parecia simplesmente exctasiado com tal oportunidade. Sorriu.

- Hoje vamos beber, e é por minha conta. Precisamos comemorar! – girou seu violão no ar, pegando seu celular novamente – Já está ficando tarde, Artie. Vamos terminar nosso show por hoje e logo depois ligo pros caras. Assim que for confirmado nossa estréia, a gente segue direto para um pub aqui perto e enche a cara!

A risada de Arthur neste momento foi audível, e Alfred pareceu incrivelmente aliviado ao ver seu amigo feliz. Um pequeno pensamento passou pela mente do inglês, mas resolveu ignorá-lo completamente.

Afinal, não é como se ainda fosse tão fraco para bebidas como costumava ser.